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Full text of "A Batalha de Alfarrobeira antecedentes e significado histórico"

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HUMBERTO BAQUERO MORENO 



BATALHA DE ALFARROBEIRA 



VOLUME I 

ANTECEDENTES E SIGNIFICADO HISTÓRICO 




BIBLIOTECA GERAL DA UNIVERSIDADE 
POR ORDEM DA UNIVERSIDADE 



COIMBRA — 



1979 



A BATALHA DE ALFARROBEIRA 





77KN-XDR-F8XL 




Copyrighted malsrial 



HUMBERTO BAQUERO MORENO 



BATALHA DE ALFARROBEIRA 

VOLUME I 
ANTECEDENTES E SIGNIFICADO HISTÓRICO 




POR ORDEM DA UNIVERSIDADE 
COIMBRA — 1 979 



Rampnaso em ofltot da «Mo criginal, 
de Lourenço Maiqoee, 1973 



A MINHA MVLHER 
E A MEU FILHO 



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INTRODUÇÃO 



Apenas umas breves ptUawas introdutórias sobre esta obra, que conhece agora 
a sua segunda edição em dois volumes. Praticamente esgotada ou de difícil aqui- 
sição a primeira, que surdiu inicialmente em 1973 como separata da Revista dc 
Ciências do Homem da Universidade de Lourenço Marques, as muitas solicitações 
para a sua obtenção que chegaram até mim. oriundas de Portugal e do estrangeiro. 
Justificam plenamente o seu reaparecimento. 

A sua elaboração resultou dum longo e árduo trabalho de pesquisa iniciado 
em 1962, que me obrigou a percorrer milhares de documentos existentes nos fundos 
arquivísticos de países da Europa Ocidental. Senti quando me abalancei neste 
empreendimento, a acentuada carência resultante da escassez ou mesmo inexis- 
tência de estudos sérios e aprofundados sobre a regência do Infante D. Pedro. 
Assim, centrando o meu imeresse em iomo de A^atrobeira. ponto de desenlace 
dum grave conflito que se tmdia no termo duma fractura que Mde a nossa socie- 
dade poUtíea ao longo do século XV, pude, airanés dum meOwr conhecimento dos 
homens interveniente no processo, esclarecer algumas dúvidas. Outras contudo 
continuam em aberto. Mais ainda, Fcê-me possível advertir que mais do que 
uma querela entre dois irmãos, que representam dois projectos políticos nacionais, 
tal como o problema se punha em termos de kbtortt^pvfia tradicional» estamos 
perante a existência de correntes politica-^ociais que se degkuBam à volta dum 
conceito de estado forte e centralizado ou duma ideia de estado débil, sujeito às 
mais diversas pressões. Acima dum possível antagonismo entre os htfanles 
D. Pedro e D. Henrique, que no fundo não passa dum falso problema, deparamos 
com forças sociais emergentes dum passado próximo, que polarizam conceitos 
poUticos antagónicos, 

A crise que se manifesta com maior virulência no período da regência, resulta 
basicamente dum contencioso aberto com o processo de transformação da socie- 
dade portuguesa, que se desenha com maior ou menor clareza desde o termo do 

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século XIV. No fuiuh c lodo um conjunto dc grupos sociais, representantes duma 
mova» nobreza, que procura ocupar o seu espaço próprio c definir o seu projecto 
politico. O neo-senhorialismo. que alguns pretendem instaurar na centúria de 
quatrocentos, não se compadece com um regime politico que se pretende absoluto 
e poderoso. O choque teria de ser inevitável, na medida em que o regente perso- 
nifica este último objectivo. Afastado da cena politica, ficava aberto o caminho 
para o enfraquedmento do poder rwiL A perseguição feita aos partídárioí do 
antigo regente, reverso da medalha em rdaçõo à atitude por este assumida contra 
os que adiaram a causa da rainha D, Leonor, significa a derrota em AJ^arrobdra 
dene pn^o de potttiea centralizadora. 

Não nos alongaremos em mais considerações, A leitura dos dois volumes 
permite ao estudioso destas questões extrair as conclusões devidas na defisúção 
das linhas politkas e sociais deste conturbado período. Pela nrinha parte pude 
avançar com alguns resultados. 

Um trabalho deste volume só é possível com o auxOh de muitas pessoas. Do 
seu conjunto referirá, pelos muitos contactos havidos, a orientação bibliagjré^iiM 
e metodológica que recebi sempre, com o maior disponibilidade e abertura, por 
parte dos meus amigos Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão e Professor 
Doutor Luís Mendonça de Albuquerque. Ao meu colega e amigo Prof. Doutor 
João Morais Barbosa fiquei devendo o cuidadosa revisão do texto manuscrito e 
ao meu colaborador c amigo Dr. Inácio Guerreiro a feitura criteriosa dos quadros 
e dos Índices. Graças ao interesse c amizade do Professor Doutor Luís Mendonça 
de .Albuquerque, actual Vice- Reitor e Director da Biblioteca da Universidade de 
Coimbra, encontrei o necessário acolhimento que permitiu a reedição facsiinilada 
desta minha obra. que consiifuiu dissertação dc doutoramento apresentada e diS' 
cuiuia, em Janeiro de 1974, na reitoria da Universidade de Lisboa. 

Porto, 3 de Novembro de 1979, 

Humberto Baquero Moreno 



VJII 



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CAPITULO 1 



Da morte de D. Duarte às cortes de Lisiioa de 1439 



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El-Rei D. Duarte faleceu na madrugada de 9 para 10 de Setembro de 1438 (') 
Encontrava-se na vila de Tomar, instalado no convento da Ordem de Cristo, 
atacado de «grande febre». As causas da morte do soberano deram origon a 
grandes especulações, sendo voz corrente, entre o povo e algumas pessoas gradas 
do reino, que se dera ao desgosto por causa do insucesso na ida a Tftnger. 
Parece, no entanta ter sido vitimado pela peste bubónica. ou de qualquer outro 
tipo. que grassava no nosso pafeO* 



(') Gomes Fanncs dc Azurara. Cltronica tio Conde D. Duarte de Menezes, in CoUecção 
dc Livros Inéditos de História Portusueza, tomo III, Lisboa, 1793, cap. XXV, pp. 82-83. 
Cf. Ruy de Pina, Ckronica do Senhor Rey D. Dmrte, in €Mlecçm de Uvros inéditos de 
História Portugueza, tomo I, Lisboa, 1790, cap. XLIII, p. 186; Idem, Cfuronlca do Senhor Rey 
D. Affonso V, cap. I, n. 203; Duart; Nunes de Leão. Crónica e vida delrcy D. Duarte, tomo II, 
Lisboa. 1780, cap. XIX, p. 76; Gaspar Dias de Landim, O Infante D. Pedro, livro I, 
Lisboa, 1892, cap. II, p. 16. 

Rui de Pina e Duarte Nunes de Leio afirmam que a morte do rei ocorreu em 9 de 
Setembro de 1438, numa quinta-feira. Trata-se de um lapso porque o faledmento de 
D. Duarte dcu-se numa quarta-fcira. (Idem, Ibidem) Gaspar Dias de Landim atenta contra a 
cronologia dos factos, como aliás sucede em quase toda a sua obra, quando escreve : 
■Falleceu El-Rei D. Duarte na viUa de Thomar em o mes de Atosto de quatrocentos e trinta 
e oito». (I<lcm, Ibidem). 

(•) Gomes Fannes de Azurara, oh. cii.. cap XXV, pp 82-83; Cf. Ruy de Pina. Chrnnica 
do Senhor Rey D. Duarte, cap. XLlll, pp. 186-187; Duarte Nunes de l^o, ob. cit., cap. XIX. 
p. 76. 

Merece ser ponderada a narrativa do Padre Francisco de Santa Maria, quando oiúna 
que a maioria das pestes que assolaram Portutal eiam oriundas do Norte de Africa. Escreve 

este autor : «Por muitas vescs ferio este cruel açoute o nosso Reyno, principalmente depões 
que se começarão as conquistas dc Africa, onde a peste he annual, & como propriedade da 
terra. He digno de observarse, que antes da tomada de Ceuta, St depois da peida del>Rey 
D. Sebastiio, rara vez houve péste em Portugal, A quasi sempre a houve no tempò ínter- 

— 3 



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A rainha, mal teve então conhecimento de que o marido estava gravemente 
doente, mandou chamar os cunhados. Tiveram todos notícia do sucedido, com 
excepção do Infante D. João. atacado de febre em Alcácer do Sal a quem foi 
ocultada a doença. Ainda «que cada huum com toda diligencia apressasse sua 
vynda pera ho ver», apenas o Infante D. Pedro, oriundo de Coimbra, pôde encon- 
trar o soberano com algumas résteas de vida. Enquanto o cadáver era trasladado 
para o mosteiro da Batalha, permaneceu o irmão mais velho do folecído em 
Tomar, com o propósito de «ordenar o alevantamento do Príncipe Dom Affonso 
em Rey» O* 

No próprio dia do falecimento do monarca, «o Yfánte [D. Pedro] com todolos 
Fidalgos, e nobre gente da Corte foram aos Paços d*ElRey, que eram dentro no 
Convento, vestidos por entam os corpos dos panos mais ricos, mas as almas e 
caras de clara tristeza». Organi/avam-se os preparativos para o levantamento do 
jovem rei, cerimc nia que teve lugar no dia seguinte, numa quinta-feira. ou seja 



roedio, no qual continuamente hião. & vinhão armadas, A soldados deste Reyno para 

Africa, & de Africa para este Reyno : erâo muitas as praças, que lá dominávamos, não só 
na costa do mar, mas no interior do sertão, era grande o comercio, & trato, que os nossos 
tinhio cõ os mouros avindos & tributários, além das entradas, que fazíamos pelas povoações 
dos inimigos, A desla dHnimica^ iSo continua, A frequente, nascia pegarse aos nossos o 
contagio da terra. & dellcs se derivava ao Reyno, de tal maneira, que era neile a pésie 
quase pcrcnne, & succcssjva». iO ci<> (ihvrtt) na tt ira. Lisboa. 1697, p. 274). 

Sobre as epidemias que grassaram nu nosso pais durante u século XV, vejam-se os 
estudos de A. da Cunha Vieira de Meirelics, Memorias de Bphtemohgia Portugueza, 
Coimbra, 1866. pp. 37-43 c 218-234; Henrique de Gama Barros, líiMória da Adminisiraçdo 
Pública em Porliii^al nos Sicnios \H a \V. 2.^ ed., dirigida pelo P:.>:". Torquato de Sousa 
Soares, tomo V, Lisboa, s/d., pp. 17U-I84; Maximiano de Lemos, Hinória da Medicina em 
Puriu^al. Doutrinas e Instituições, vol. I, Lisboa, 1899, pp. 138*151; A. de Sousa Silva 
Costa Lobo, História da Sociedade em Portugal no Século XV, Lisboa, 1904, pp. 21*22; 
Silva Carvalho. História da medicina Portuguesa. Lisboa, 1929. p. 11: Maria Emília Cordeiro 
Ferreira, Epidemias, in Dicionário de llistória de Porín\;al. dirigido por Joel Serrão, tomo I, 
Lisboa, s/d., pp. 62-64; Humberto Carlos Baquero Moreno, A epidemia de 1453-54, separata 
da Revista de CUneUis do Homem da Universidade de Lourenço Marques, voL L série A, 
1968. 

(') Riiy de Pina, ot>. cii.. cap. XI.IV, pp. 188-189. 
Duarte Nunes de Leão diverge do anterior cronista, ao escrever : «Ao tempo que 
fakceo, se acharão os Infantes, e o Conde de Barcellos presentes, tirando o Infonte D. Ptedro, 
a que nio disserio de sua doença, por estar doente em Coimbra». {Ob. cit., cap. XIX, p, 77). 
Trata-sc duma evidente deturpação dos factos! A comprovar a presença do Duque de Coimbra 
junto do irmão, à hora da morte, temos a crónica anónima do século XV. que nos diz : 
tquando ele [D. DuartcJ morreo estaua hy o Ifíante dom Pedro que era muy amado dos 
pouoos». (B.N.P., Fond Ponugais. n.* 9, foL 210). 

4 — 



Co(., y :od material 



no dia 11. cnire «o Convento c os Paços do Castelli) da diia V>llav ('). Coube a 
iniciativa ao Duque de Coimbra, que, «com grande lealdade e virtude, tomouo 
ele com suas miaos e assentouo na cadeyra e aleuantouo por rrey» C)- A seguir 
a este acto simbólico, «o Yfonte com os giolhos em terra tomou as maaons ao 
Pryncepe. e em lhas beijando disse = muyto alto e muito excelente Senhor, assy 
como vos eu oje ponho nesta Seeda, em que Vós per graça de Deos legitimamente 
recebees o Real Cetro e Senhorio destes vossos Reynos, assy espero com sua 
ajuda e mynha grande lealdade de volos ajudar a manter e defender com todas 
roynhas forças, e poder, e saber, quando me vossa mercê mandar, ou eu sentir 
que compre a voso Estado e Servyço ^ E com estas palavras acabando se ale- 
vantou. E logo D<Hn Duarte de Meneses. Alferes Mor. Fylho do Conde Dom Pedro 
dc Meneses, prymeiro capitam de Cepta, com a Bandeira Real levantada, e os 
Reis d'Armas e Arautos com elle começaram ally sua gryta. c despois com cila 
foram pelia Vylla. repetyndo-a trcs vezes, segundo custunic com toda aquella 
cinmonia e solenydade. que a tal Aulo Real perienciat 0). 



(*) Ruy de Pina. Chronka do Senhor Rey D. Afonto V, cap. II, p. 205. Cf. Gomes 

Fannes Jc Azurara, oh. cii., cap. XXV. p. 83; Duarte Nunes de LeSo. Crónica e vida delrey 
D. Affunso V. tomo II. Lisboa. 1780. cap. I. p. 83. 

A cronologia apresentada por Rui de Pinu deverá .ser corrigida, conforme já atrás 
assinalámoc A prodamaçSo do soberano efcctuou-se numa quinta-feira, a II de Setembro, 
e não a 10 de Setembro, como afirma o cronista. Tinha o rei. nessa altura, seis anos de 
idade, pois nasceu cm \^ dc laneiro dc 1432. (B.N.I... Fundo Gcrtd, 3390, p. 134; Cf. Car- 
deal Saraiva, Obras CumpUtas, tomo IV, Lisboa, 1875. p. 75). 

(*) B.N.P., Fonâ Portugau, n.« 9, foi. 210. 

A propósito do levantamento de D. Afonso V, escreve Gomes Eanes de Zurara, no 
seu estilo panegirista, que : «O Infante Dom Pedro seu tio era alli, que era hum dos 

Príncipes do mundo que mais sabia das cerimonias que a tacs casos pertencião » iOh. cit.. 
cap. XXV, p. 83). Esta afirmação c corroborada por Rui de Pina ao escrever em linguagem 
menos laudatória que o Duque de Coimbra «era Prinoepe naquellas cousas muy ynsynado>. 
(Oò. cit» cap. II, p. 207). 

Acerca das diligencias efectuadas peio Infante D. Pedro sobre a unção e coroaçSo 
dos nossos nnuiarcas, vcjam-sc os seguintes estudos : Prof. Marcello Caetano. As Cortes 
tiv 1385, separata da Kcvisíti Portunttesa de Hisiórui, tomo V, vol. II, Coimbra, 1951, pp. 37 
e segs.; Prof. Paulo Mcria, Sokre a actamação dos nossos reis. in Revista Portuguesa de 
líiuórla, tomo X, Coimbw, 1962, pp. 411-417; P."" Anu'>nio Brásio. O ProhUnui da Sagra- 
çào dos monarcas Portugueses, in Anais da Acadioiia Por{iií;utsa de História. II série, 
vol. 12, Lisboa, 1462, pp. 23-49 c Dr. Martini dc Albuquerque, U poder politico no renas- 
cimento português, ed. I.&C5.F.U., Lisboa, 1968, pp. 95 e segs. 

C) Ruy de Pina, ob. cit., cap. II, pp. 20S-206; Cf. Duarte Nunes de Leão, ab. cit., 
cap. I, pp. 83-84; Gaspar Dias de Landim, oh. cit.. livro I. cap. I. pp. 13-14. 

Interessa assinalar que, tanto o Infante D. Pedro, corno o Infantj D. Henrique, tinham 
&ido nuincados em vida do Rei D. Duarte, por carta régia dc II de Novembro de 1433, 

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A atitude assumida pelo Infante D. Pedro deve ter trazido o maior alivio ao 
íntimo de D. Leonor, a qual se lentía muito preocupada com a evolução dos 
acontecimentos O- Mais trafiquilizada acerca da recta íntençflo do cunhado — 
de quem anteriormente receara um golpe de estado—, mandou-o chamar para se 
proceder à abertura do testamento do Rei t>. Duarte. Entre alguns fidalgos, 
encontrava-se presente o Bispo de Lisboa. D. Pedro de Noronha O. a quem a 
rainha era muito afeiçoada. Feita a leitura do testamento, na presença de notários 
públicos, deu-se logo a conhecer que a derradeira vontade do fmado exprimia 
que a rainha, sua mulher «sem ajuda doutra pessoa ficar yn solydo Testamenteira 
de sua alma, e Titor e Curador de seus Fylhos. e Regedor do Reyno, e Erdeira 
de todo bo movei», entre outras disposições ('). 



curadores do Príncipe herdeiro D. Afonso. Eram igualntente designados para receberem, 
tm nome dele, as homenagens do rateow (A.N.T.T.. Gaveta XIII, maço 7. n." 3. Publicado 
pot D. António Caetano de Sousa, Provas da HIstórki Genealógica da Casa Real Portugitesa, 

(orno I, livro III, Coimbra. 1947. doe. 15, pp. lOO-IOf; Monumenta Hvuricnh!, \oI. IV, 
Coimbra. 1962. doc. 89. pp. 282-284. Sumariada em As Gavetas da Torre do Tombo, Lisboa, 
1963, p. 43). 

(') O aniafolUsmo existente entre os Infante D. Pedro e D. Leonw parece dever^e 
fundamentalmente a velhas querelas familiaies que ensombraram as rclai,v>es entre os Tras- 
tamaras e os Urgeis. (Veja-se sobre este assunto, entre outros, os estudos dc Ramon Mcnen Jez 
Pidai. El Comprumiso de Cuspe, aulodelemiinación de un pueblo (1410-1412), introdução 
à História de Espaíia dirigida pelo mesmo, tomo XV, Madrid. 1964, e de Andrés Jimenez 
Soler, Don Jaime de Aragón último Conde de Urget, Barcelona, 1901). O cronista Oomes 
Eanncs de 2Uirara. contemporâneo destes acontecimentos, afirma que «se ajuntava odco, 
que dÍ7Íão que a Rainha tmha ao Infante f>om Pedro, assi por azo da devisão que iá fora 
antre El Rey Dom Fernando Daragâo, e o Conde Dorgel padre da molher do dito Infante 
Dom Pedro, o qual díziSo que era herdeiro do Regno per direita sucessão, e de si por 
outras cousas que se passarom em vida DelRey Duarte aniie aquella Rainha, e o Infante». 
(Ob. cit.. cap. XXV, p. 84) DjsconhccenuM a natureza destes conflitos, ocorriflos entre 
os dois cunhados em vida daquele monarca. 

(') Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(*) Ruy de Pina, oh. eit.. cap. Ill, pp. 207-208; Cf. Duarte Nunes de Lefto, ob, cit„ 
cap. I, p. 84; Gaspar Dias de Landim, ob. dt» livro I, cap. III. pp. 22-23. 

O receio de um golpe dc estado, por parte do Infante D. Pedro, aparece denunciado 
por este último autor, quando escreve : «Tanto que a Rainha D. i.conur viu levantado por 
Rei o Príncipe D. Affonso seu fUho. e foi. livre de seus receios, vendo que o Infsnte 
D. Pedro de quem w temia fôra o que mostrara disso mais gosto, e assistira as solcmnidades 
dc seu levantamento com tanta sollicitudc. se conheceu nVIla perder muita parte do odio 
que dc antes se lhe conhecia » U)h. cii.. livro I, cap. ili, p. 22). Esic cronista, diz-nos 
ainda que esteve presente à abertura do testamento, o Conde de Barcelos. (Idem, ibidem, 
pp. 22-23). 

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A medida que ia sendo conhecido o conteúdo do testamento, observavam-se 
as mais dlspaies reacções. Lo^ de imediato, deparamos com o ccmsélho de 
alguns servidores de D. Leonor, que lhe manifestaram viva apreensio pelo facto 
do regimento lhe ter sido consignado pelo seu falecido marido. Eram do parecer 
de que D. Duarte «nam podia leixar este cargo de reger : cá este poder demleger 
Regedor do Reino era soomente ao Reino, e aos tres Estados dele resservado». 
Opíinavain. ainda, que já era pesado encargo «terdes cuidado da cryaçam de 
vosso Fylhos. e do descargo d'alma d*ElRey vosso marydo». quanto mais ter de 
preocupar-se com os graves problemas da governação do reino. Como solução, 
apontavam a de a regência ficar confiada a quem as cortes designassem para o 
seu exercício, recaindo todas as atenções sobre os filhos de D. João I. aos quais 
por cerio não agradaria «serem regidos por molhcr. especialmente nom natural 
nem herdeira», como eles eram ('■'). A comprovar tal conselho, dispomos do teste- 
munho de Gomes Eanes de Zurara, ao falar das «grandes devisões no Regno 
por causa do regimento, c isto porque ElRey finado leixara o encargo de todo 
aa Rainha sua molher. o que pareceo quasi a lodos contrairo aa boa razão, 
ss. que hum tal regno. e em que aaqueile tempo taes tres Principes havíão. 
quomo eram os Infantes Dom Pedro, e Dom Henrrique. e Dom JoAo. houvessem de 
ser r^dos per molher. dado que virtuosa fosse» ("). 

D. Leonor mostrou-se disposta a seguir o conselho que lhe deram, mas não 
faltaram outras vozes a opor-se a esta deliberação. No pensamento de muitos. 



(**) Ruy de Pina, ob. eit» cap. III. pp. 208-209; Cf. Duarte Nunes de LeSo, oh. cit., 
cap. I. pp. 84-85. 

A doulrina medievul a respeito da investidura dos monarcas encontra-se tratada pelo 
Infante D. Pedro no seu Troiictuilo iln Virtuosa Benffitiirvti. em que este autor afirma : 
«Semelhauelmentc u subiecçom sc puiie cm ires desuayrudos modos. H u pnmeyra perteeçe 
aos filhos e aos outros parentes em graao desçendente... O ij graao de soWeoçom teem 
aquelles que moram em senhorio de alguQ prtnçipe, uiuendo em a sua moral gouemança. 
E a aquestcs somos obrigados, por aazo do exalçnmenlo que sobre elles auemos. o quall 
alguQs ia rrec^eberom per expressa comissom deuynal. . E alguas uezes naçe este geerul 
cuydado 4 os prinçipes tomam per eleyçoôes em Q as comunydades os rreçebem por suas 
cabeças, outorgandolbe çerto poderyo sobre sy meesmos. E outras uezes uem por enmças 
ou conquistas, em os quaaees. assy como he cobrado o poderyo, assy he logo rreçebido o 
cuydado pera manteer a terra em rra/oada dcreytura. A qual! non sse pode manteer se 
os prinyepes nom trabalharem puUo proucyto dos 4 a eile ficam sobiectos*. {O Livro da 
Virtuosa Bemfeitoria, 3.* ed.. Porto, 1947. livro II, cap. XVIII. p. 118). Sobre tal assunto, 
vejam-se os trabalhos do Prof. Paulo Merêa, As teorias políticas medievais no •Tnitado 
(lo Viriui'sa Bemfeitoria*. in Rcvisia <le História, ano VIU., n." 29, Lisboa. 1919, pp. 5-21, 
c lio Prol Marcello Caetano, Lições de História do Direito Português, Coimbra, 1962, 
pp. 218 c seguintes. 

(") Oomes Eannes de Zurara, ob. cit., cap. XXV, pp. 83-84. 

— 7 



Copyrk, 



o afastamenio desta senhora apenas viria a contribuir para alimentar as ambições 
do Infante D. Pedro (^ ). Entretanto, chegou a Tomar o Infante D. Henrique, 
a qucni cabia um importante papel nas decisões que viessem a tomar-se. Cônscia 
a rainha das dificuldadcii que se aproximavam, chamou os cunhados prescnles e 
pediu>lhes conselho. Ficou assente entre eles que se convocariam cortes para 
Torres Novas* e com tal intenção se remeteram cartas para todo o país. Também 
cacordou ho Yfante Dom Anrryque com os do Conselho, que fossem assynadas 
pello Yfante Dom Pedro; mas elle com mostrança de muyta onestidade se 
escusou : e a Raynha assynou aquelas, e todallas outras atée as Cortes». Ainda 
se decidiu a celebração dos funerais de D. Duarte, a realizar no Mosteiro da 
Batalha, onde já se encontravam os restos mortais do defunto O. 

C(miprova-se a presença de D. Leonor em Tomar, através das cartas por 
ela oulorgadas nessa vila em 24 de Setembro ('*) c 6 dc Outubro de 1438(''). 
Alguns dias mais. no entanto, deve ter permanecido a rainha nessa localidade, 
em companhia de seus cunhados, porque as cerimónias fúnebres dc D. Duarte 
apenas se realizaram nos últimos dias de Outubro ("'). Algumas determinações 
loram tomadas durante este lapso de tempo, como a iniciali\a assumida pelo 
Infante D. Pedro para que o Infante D. Fernando, filho scgundogenito de 
D. Duarte, fosse nomeado príncipe herdeiro enquanto o rei não atmgisse a maio- 
ridade e tivesse um filho, o que muito deve ter contribuído para desanuviar o 
ambiente e revelar a recta intenção que presidia aos seus actos ('"). A rainha, em 
testemunho de gratidão, enviou uma mensagem ao cunhado, através do Doutor Rui 
Fernandes ("), em que dava a conhecer a vontade expressa pelo falecido marido 
no sentido de que a filha mais velha do Infante D. Pedro viesse a consorcíar-se 
com D. Afonso V ('*). A expressão de contentamento manifestada pelo Duque de 



('-) Kuy Je Pina, ob. cit» cap. Ill, p. 209; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cif.. 

cup. I. p. 85. 

(") Ruy de Pina, ob. cit» cap. IV. pp. 210-21 1: Cf. Duarte Nunes de Leio, ob, cU» 
cap. I, p. 86. 

('♦) A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 18, foi. 71. No protocolo final deste 
documento lê-se : tcom acordo e consentimento da Rainha mjnha mailre e Senhor como 
nos^ tctoor que he, porquanto o dicto Rey meu Senhor e padre lhe iijnliu dado o dicto 
carreto em sua vida pella guisa que dicto hei. 

(•-) A.N.T.T., Uvro 2 de Ugitimações. foi 208. 

t'^') Ruy de Pina, ob. cit.. cap. IX, pp. 216-217; Cf. Duarte Nunes de Le&o, ob. cit., 

cup. 1, p. 86. 

('•) Ruy de Pina, cil., cap. V, pp. 211-212; Cf. Duarte Nunes de LeSo, ob. cit.. 
cftp. I, p. S6. 

(") Vejam-se dados biográficos a seu respeito em- apêndice. 

Ruy de Pina, ob. cit., cap. VI, p. 213; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. ciu 
cap. 11, p. 87. 

8 — 



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Coimbra na resposta dada a D. Leonor, por intermâlio do seu emissário foi 
contrariada peto Conde de Barcelos, o qual. através do Arcebispo de Lisboa, pro» 
curava que o enlace se fizesse entre sua neta D. Isabel, filha do Infante D. Jo.io. 
e o iovem soberano. Conhecedor o Infante D. Pedro do que se estava a passar, 
obteve maneira de que a rainha «lhe desse huma certydam e segurança assynada 
por ella» sobre o acordo estabelecido (■'). 

Aptís o funeral de D. Duarte na Batalha, dingiram-sc os presentes para 
Torres Novas, cujas cortes se teriam iniciado nos primeiros dias de Novembro 
de 1438. O primeiro documcnio que nt>s testemunha a presença do scuuiio real 
nessa vila tem precisamente a daia do dia I desse mes ( o que nos leva a 
presumir que as Cortes começaram a funcionar pouco depois. Conforme nos diz 
Rui de Pina. foi necessário aguardar, antes da sua abertura, «que alguns Alcaydes 
e outras pessoas acabassem de vir, pera fazer as menagens e dar a obediência a 
ElRey». No curto espaço de tempo que precede o início dos trabalhos, observa-se 
uma certa agitação entre os principais mentores da nobreza. O marechal do reino 
Vascò Fernandes Coutinho O. aliado ao Arcebispo de Lisboa D. Pedro de 
Noronha O, ao irmio do mesma D. Sancho de Noronha (^'). e à principal nobreza 
do pab, trama uma conspiração contra o Duque de Coimbra. Reunidos em segredo 
numa igreja, ouvem uma exposição do futuro Conde de Marialva (^). em que este 
fidalgo exprime o desejo de que seja cumprido o testamento do rei. «assy por ser 
razam. como por a Raynha ser molher estrangeira, da qual por se mostrarem em 



("i Ruy de Pina. ob. r/f.. cap. VII, p. 214: Cf. Duarte Nunett de t.eSo. ob. cit., 
cap. II, p. H7. 

{•') Kuy de Pinu. oh. cil.. cap. VIU, pp. 215-216; CT. Duarte Nunes de L.eão, ob. cit., 
cap. II. pp. 87-88. 

O receio manifestado pelo Infante D. Pedro veio a confírmar-se mais tarde, imediata- 
menie apds as cortes de Torres Novas, quando o Conde de Barcelos lhe requereu o alvará 

em nome da rainha, sob prc-icMo ile que a concreti/avito do ni;itrim»>nio exigia o acordo 
dus principais do reino. Coninsiado o Duque de Coimbra, pela quebra do compromisso, 
rompeu o alvará e cfltregou*o ao seu írmlo bastardo. (Ruy de Pina, ttb. cit., cap. XVI. 
pp. 226>227: Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. cit., cap. II. pp 93-94, que diverge do primeiro 
cronista ao afirmar que quem se prestou a cst.i l;irefa foi o Conde de Ourém. Gaspar Dias 
de landim, nb. cit.. livro I. cap. XI, pp. 52-34. atribui, no entanto, a iniciativa â rainha. 
■A qual mandou chamar o Conde de Barcelos para O mesmo tratar de reaver o alvará. 
Qtter*nos parecer, contudo, que a versão de Rui de Pina se apresenta maíx consentânea com 
a realidade dos factos). 

A N.TT . C luincriariíi de D. Afonso V. livro 18, foi. 5. 

» ) Vejam-se elemento*» biográficos a seu respeito, em apêndice. 
Idem. 

(») Idem. 

(*) Vasco Fernandes Coutinho. 

I 

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favor de seu servyço. c tcnçam sempre receberiam honrra. lavor, merece, e acre- 
centamento, e por ysso devyam trabalhar, que nam vyesse em maneira alguma 
ao Yfante Dom Pedro, de cujos rigores, e mostranvas suas falsas, que fazia ao 
Povo, de justo, e saã conciencia nem podiam receber, se nem o conirayro; 
e que ysto lhes seria facyl de fazer; porque por parte do Yfante Dom Pedro, quando 
muito podesse ster, seria Povo. e gente metida, que sem cabeceiras nom teryam 
forças, nem daryam ajuda, e que por a sua delles eram os que estavam presentes 
com outros muytos. que logo seryam com elles; e mays cria do Yfante Dom Anr- 
rique. e sabia do Conde de Barcellos, que seryam em sua ajuda» pedindo-lhe em 
conclusam. que o ouvessem todos assy por bem. e o affinnassem. e segurassem 
com juramento^. Apesar do acordo tácito existente entre eles, subestimavam a 
posição assumida pelo Navegador, ao mesmo tempo que ignoravam o espfrito 
àe coesão existente entre os filhos de D. João 1. Ao transmitirem o seu plano 
a D. Leonor, iam criar condições desfavoráveis a uma boa receptividade por 
parle desta senhora, tendo em vista a obtenção dum acordo ('). 

Dentro dum clima de tensão, tiveram início os trabalhos das cortes de 
Torres Novas. Houve, no entanto, um momento de certo desanuviamenio. quando 
a rainha «envyou rogar ao Yfante Dom Pedro per meo do Yfanle Dom Anrryque, 
que lhe fose falar», o que aliás se verificou. Do acordo estabelecido entre os 
cunhados, ficou assente que D. Leonor ficaria com «o cargo da cryaçam de seus 
Fylhos. e com a governança, e ministraçam de toda a fazenda» cai>endo ao 
duque de Coimbra <ho R^mento da Justyça. e o Tytulo de Defensor dos 
Rey nos por ElRey» C*). Deve ter-se celebrado o convénio no dia 1 de Novembro, 
pois. nesta mesma data. o Infante D. Vtáto expediu uma carta em que se inti- 
tulava «defensor por el[Rei] em seus RegnostO^. Sabendo, porém, os adver- 
sários que o mesmo se havia realizado, conseguiram processo, logo no dia seguinte, 
de que a rainha o desse sem qualquer efeito ("). 



(-■) Riiy dc Pina, oh. cit., cap. X. pp. 217-218; Cf. Duarte Nunes de Leio ob, cit., 
cap. 11. pp. 88-89; Guspar Dias de Landim, ob. cit., livro l. cap. VI, pp. 31-33. 

(») Ruy de Pina. ob. tít» cap. XII, p. 220; Cf. Duarte Nunes de Leto. oh. cit., 
cap. II, p. 90; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro !. cap. VIT. pp. 36-37. 

(•♦) A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V livro 18. foi. 5. 

Ruy dc Pina, ob. cit., cap. XIU, p. 221; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit., 
cap. II. pp. 90-91. 

Gaspar Dias de Landim divMfe destes dois cronistas, ao atribuir o nfo cumprimento 
do acordo & oposíçSo dos procuradores em cortes. {Ob, cii.. /ivro 1, cap. VIII, p. 39). 

Admite, contudo, que o Arcebi-^po de 1 isboa e outros grandes do reino quiseram impedir a 
sua concretizas ão. {Ob. cil.. li%ro 1. cap. Vil, p. 37). Vai, no enUnto, ao pontO dc insinuar 
que o Infante D. Pedro «posto que no exterior e em publico mostrasse que queria estar 

10 — 



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As cortes de Torres Novas foram inauguradas numa pequena pra^a fron* 
teiríça à igreja de Santiago, tendo pertencido a arenga de abertura ao Doutor Vasco 
Fernamtes de Lucena (^). Extremados os campos desde o seu início, logo se 
começaram a observar as primeiras dissidências «antre os Grandes e o Povo 
•sobre o Regimento». Se os primeiros se mostravam favoráveis ao rígido cum. 
prímento das cláusulas testamentárias de D. Duarte, «os Povos geeralmente 
com outros da parte do Yfante Dom Pedro requeryam ho Regimento pera elle 
soo sem outra ajuda, nem companhia». Manífestavam-se particularmente a favor 
desta última posição os procuradores de Lisboa Pero de Serpa V') e Tristão Vas- 



por cila. lá llic conlic-ciiim t>N qiic ci'm clle Iratavam mais parliciilnrmcnlc que sc não Java por 
satisfeito com rncnos que com lodo o governo». {Oh. cii.. livro I. cap. p ^Si Fm ioda 

esta argumentação, deparamos com várias contrudiv'ões. pelo que se depreende que. ncni o 
Duque de Coimbra, nem o Arcebispo de Msboa. nem os procuradores concelhios, eram 
favoráveis á concórdia, apenas esttindo interessados nela D. I conor c o Infante D. Henrique. 

{") Ruy dc Pina. .>h. cif., cap. XI. p. 211; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. cU^ 
cap. II, pp. 89-9U; Gaspar Dias dc Landim, oh. cil.. cap. VII, pp. 34-33. 

Sobre tah cortes, veja-se o artigo da Dr.* Maria Teresa Cuupoa Rodrigues, Cortes de 
Torres Novas íl4J8), in Dicionário de História de Pttrtuiiai, dirigido por Joel Serrio. 
vol. IV, Lisboa, s/d., pp. 177-178 c a bibliografia aduzida pela autora. 

Relativamente ao Doutor Vasco Fernandes de Fuccna. vciam-sc os dados biográficos 
cni apêndice c o recente estudo do Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, A Itiitunugiujiti portu- 
guesa, ed. Verbo, Usboa, 1972. pp. 95-99. 

C"> Pero de Serpa apareoe-nos no desempenho do cargo de vereador da cidade de 
Lisboa, durante o ano de 14.^8 (A.H.CM.I.., Livio /." do Provimcnlo da Saúde, fols 121- 
-12Iv. Documento extractado em Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Muiuciptd 
de Lisboa. Livro de Keií, vol. Ill, Lisboa, 1959, pp. 166-167). tudo parecendo indicar tratar-sc 
dum burguês abastado da capitai do reino. Como seu representante, tomou parte activa m% 
cortes de Torres Novas de 1438 (A. Moreira de Si. As actas das cortes dc N.^ft. separata 
da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, tomo XXII. 2.* série. n. 2. 1956, p. 14 c 
seguintes; Moituinenia Hciinciiut, vol. VI, Coimbra. 1964, doe. 96, p. 27U e seguintes), tor- 
nando a estar presente, no exercfcio das mesmas funções, nas cortes de Lisboa de 1439, 
(A.RC.M.L.. Livro 2." dos reis D. Duarte e D. Afonso V, foi. 2S. Documento publicado 
na Monumeiita llenriciiut. vol. VII, Coimbra, 1965, doc' 15, pp. 18-2.^ c extractado ctn 
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Muniiipal de Lishua. l.ivnt de Reis, \o\. II. 
Lisboa, 1958, pp. 280-282). Nas vésperas da celebração destas últmias cortes, fez parle da 
delegaçio enviada pela capital ao Infante D. Pedro, em que lhe foi comunicada a decisão 
que lhe conferia a regência unipessoal do reino. (Ruy dc Pina. ob. cil.. cap. XLV, p. 27L 
Cf. Gaspar Dias dc l andim. «/>. ed.. livro I. cap. XXIX. p. 128). Não tardou muito que 
fosse recompensado pela sua actuação em prol do Duque dc Coimbra. Recompensou-o ele, 
nomeando-o, por carta de 3 de Abril de 1440, requeredor e procurador da cidade de Lisboa 
c das cidades, vilas e lugares do reino. Passava a ser membro permanente do conselho 
régio. Assinale-se que, em tal documento, se aludia ao facto dc «secr natural cidadãao, por 
antiiga auoenga, da dieta çidade. pospoendo ssenpre avcrci da honrra e prol! delia a todo 
perigoo, trabalho pessoal e grande gasto de ssua tía/cnda». (A.N.l.r.. Chancelarui dc 

— II 



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qucs ("). Outros, porem, eram do parecer de «que ambos fossem exclusos de 
reger» 

Prolongaram-se os debates durante alguns dias. ate que o Infante D. Hen- 
rique, com o acordo de outros membros do conselho régio e procuradores das 
cidades e vilas do país, elaborou, em 9 de Novembro, um projecto de regimento 
que deu a conhecer aos três braços da nação reunidos em cortes (' ). Enconlrava-se 
aquele constituído por seis partes fundamentais, que diziam respeito aos seguintes 
assuntos: I — Criação do rei c de seus irmãos; 2 — Composição do conselho 
real: 3 — Fazenda: 4 — Justiça; 5 — Guerra 6; — Governo de Ceuta ("). 

A primeira parte do regimento estipulava que seria da estrita competência 
dc D. Leonor a educação e criação de D. Afonso V c de seus irmãos. Para isso 
seriam «asentadas çertas Rendas pera as despesas» da casa real. cabendo à rainha 
a nomeação do pessoal para o serviço da mesma. Devia, ainda, o Infante D. Pedro 
prestar toda a sua colaboração, sempre que necessário ("). 



D. .iliiiiSii V. livro 20. foi. 55v; Livro 10 de Estrcnuultira, fols. A primeira fonte 

encontra-se publicada na Miummvitlu Hvnricinu. vol. VII, Coimbra. I%5, doe. 61. pp. 86-89). 
Deve ter falecido antes de Alfarrobeira, pois não se faz qualquer referencia à sua presença 
nesta batalha. Fm coniraparlida, temos conhecimento de que esteve nela ao lado do Infante 
I) Pedro, seu filho João dc Serpa. (Vcja-sc sua biografia em apêndice). Houve-o aquele 
cidadão dc Catarina Pires, moça solteira de Torres Novas. (Carta de Icgitimaçiío «com clau- 
sulas espiciaacs* de 21 de Janeiro de 1441. A.N.T.T., Chunccltiria de D. Afonso V. livro 2, 
foi. MTv; Livro 2 de Lfniliinações, foi. 228; Livro J de Místicos, foi. 150v). 

("» As primeiras notícias que se colhem sobre Tristão Vnsqucs, dão-no como juiz 
do cível da cidade dc Lisboa, em 1434 (Maria leresa Campos Rodrigues, Aspectos da admi- 
ri\trinâii municipal dc Lishm no sécnlo XV, Lisboa. 1968, p. 144). Um documento de 18 
dc Março de 14.^7 revela «que ora tem cargo do recebimento do nosso thesouro» em a 
capital do reino. iMonumcnta licnricina, vol. VI, Coimbra, 1964, doe. 15. pp. 30- .12). Como 
seu represcnianic. esteve presente nas cortes de Torres Novas de 1438 (A. Moreira de Sá. 
oh cii.. p. 14 c seguintes: Moniuncnta licnricina, vol. VI, Coimbra. 1964. doe. 96, p. 270 
e scguintcsi. Nada mais nos foi possível apurar a seu respeito. 

(^') Ruy de Pina. oh. cii., cap. XIV, pp. 222-223; Cf. Duarte Nunes dc LeSo. oh. cit., 
Ciip. 11. p. 91. que designa erradamente Pedro de Serpa por Pedro de Seixas e Gaspar Dias 
dt I andim. oh. cit.. livro 1. cap. VII. pp. 35-36. 

( ' ) Ruy de Pina, oh. cit.. cap. XV, p. 224; Cf. Duarte Nunes de Leão. ob. cit., 
cap. .\. p. 93; Ci.ispar Dias dc Landim, oh. cit.. livro I, cap. IX, p. 42. 

Não SC nos afigura rigorosamente exacta a afirmação de Rui dc Pina dc que o regi- 
mcnio fi>i elaborado «passados quinze dias d"apontamentos», pois apresenta a supracitada 
data dc 9 de Novembro. (Oh. cit.. cap. XV. p. 224. Vejam-se A. Moreira de Sá, oh. cit., 
p. 13; Momnnenta licnricina. vol. VI, Coimbra, 1964, doe. 15, p. 269). 

(») A.N.T.T.. Colecção dc S. Lourenço, vol. I, foi. 1. Documento publicado por 
A. Moreira de Sá. oh. cit.. p. 8: .Moniinicnta licnricina. vol. VI. Coimbra. 1964. doe. 15. p. 265. 

í^') Idem. Ihidcm. Idem, Ibidem, pp. 8-9; Idem, Ibidem, pp. 265-266. 



12 — 



Ouanto à segunda parte, cstabelcciam-se as normas de composição c funcio- 
namento do conselho. Passava cic a ser constituído por vinte c quatro membros, 
organizados em quatro grupos de seis. que se iriam revezando ao longo do ano 
civil. Acresccntavam-se ao conNclho mais três elementos, sendo um deles repre- 
sentante da nobreza, o outro do clero e o terceiro do povo. O bispo recebia a 
mensalidade de 200 libras, auferindo o fidalgo 150 e o cidadão 100. Os conse- 
lheiros rotativos tínham direito a ISO libras mensais, caso nio recebessem já as 
suas moradias. Só deviam vir à corte, desde que fossem chamados pela rainha, com 
o acordo do Infante D. Pedro, para tratar de qualquer assunto ou para a reunião 
de cortes. Caberia, ainda, aos seis conselheiros, auxiliados pelos três represen- 
tantes dos respectivos braços da nação, dar andamento aos problemas da sua 
competència. cujas soluções deviam sempre vir assinadas pela viúva de D. Duarte 
e pelo seu cunhado O. 

Englobava a terceira parte o sector da fazenda pública. Entendia-se, nesta 
matéria, que «toda las cousas que a cia perlceçer sc desenbarguem per consselho. 
e com a autoridade da Senhora Rejnha E acordo do Yfantc dom Pedro». Cumpria 
a sua execução aos vedores da fazenda, excepto nos casos dependentes do parecer 
das cortes ("^). 

Surgc-Mds. em quarto lugar, o melindroso problema da justiça, cuja atribuição 
ficaria dcpcndeiile cio Conde de Arraiolos. Consignava-se a eslc pelouro a atri- 
buição de determinadas re[ula> para pagamento de moradias aos desembarga- 
dores, corregedor e mcirinlu> da eorlc. Eram postas, no entanto, determinadas 
restrições, em assuntos que íicavani dependentes da aulori/ação de D. Leonor e 
do Duque dc Coimbra. Incidiam as mesmas, muito parltcularmente, sobre a pena 
de morte ou amputação de membro; confiscação de terras; aplicação de penas 
pecuniárias que ultrapassassem os 5000 reais brancos; citação de fidalgo que 
tivesse ao seu serviço quinze lanças ou mais. o mesmo acontecendo em relação 
ao ouvidor das suas terras; impossibilidade de despachar qualquer feito que ultra- 
passasse as 1000 dobras; proibição de aplicar sentenças de pena capital, amputação 
de membro e degradação do reino ao fidalgo que estivesse ao serviço da coroa 
com. pelo menos, cinco lanças, ou ao vassalo que possu&se o mínimo de qui- 
nhentas libras (**). 

A quinta parte tratava dos assuntos relacionados com a guerra c com a 
defesa nacional. Pertencia essencialmente tal atribuição ao Infante D. Pedro, 
muito embora sc previsse que. cm determinadas questões, fosse necessário ouvir 



(") Idem, Ibidem, fols. 1-2. Idem Ibidem, pp. 9: Idem, Ibidem, p. 266. 

("J Idem, Ibidem, foi. 2. Idem. Ibidem; Idem. Ibidem. 

t*} idem. Ibidem. foU. 2-2 v. Idem, Ibidem, pp. 9-10; Idem, Ibidem, p. 266. 

— 13 



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o conselho c obter a aprovação da rainha. Determinuva-se que« em caso de 
«Rompimento de guerra», pertenceria ao Duque de Coimbra o comando das 
operações como capitã jeeral da guerra», pois a «senhora Rejnha nom pode 
per sy teer tal carrego» (") 

Por último, assentava-se no princípio t!e c|iic a praça de Ceuta seria gover- 
nada por um conselho, no qual as autoridades má.ximas seriam a rainha e o 
Infante D. Pedro. Prcvia-sc. contudo. c|iic a sua forma de governo poderia ser 
modificada, cm função Uc Uircciri/cs emanadas das cortes ('-). 

Insistia o autor do regimento na velha ideia das cortes de Coimbra de 138S» 
ou seja, cm que as mesmas se deviam reunir todos os anos. O número de parti- 
cipantes ficava limitado — de modo a que as cortes pudessem vir a concretizar-se 
— aos infantes, condes, arcebispas. prior do Hospital e membros do conselho 
na sua totalidade. Acrescentavam-se a estas individualidades dois bispos e dois 
cabidos, aos quais se juntavam cinco fidalgos representando as regiões de Entre- 
-Douro-e-Mínho e Trás-os-Montes : Beira; Estremadura: Alentejo e Algarve; 
e ainda oito lumiens bons, a saber: dois de Lisboa: dois de Évora: dois de 
Coimbra; e dois do Porto. As reuniões de trabalho efectuar-se-iam na capital 
do reino, pondo-sc contudo a hipótese de virem a realizar-se em Santarém, 
no caso daquela cidade estar aíeciada pela peste C). 



(*') Idem. Ibidem, foi. 2v-3. Idem, Ibidvm, p. 10; Idem, ibidem, p. 267. 
Idem, Ibidem, foL 3. Idem, Ibidem: Idem. Ibidem. 

(") Idem, Ibidem, fols. 3-3v. Idem. Ihidcni. fdcm. Ibidem. 
Remetiam- SC parn as cortes os seguintes problemas : 

■Consselho 

Item lu parte do conselho nom sopricara por iMspado, nem arcebispado, nem priorado 
do Sprítal. 

Item que nom outorguem de dar mcestrados, nem moesteiro dAlcotwça, nem de 

Santa Cruz. 

Item nem fazer duque, nem conde, nem RicomC. 
liem nom tomar do conselho. 
Item nom dar terras, nem Rendas. 

Item nom dar casamentos a que seiam oh»ri.çadas tcença*;. 
item nom firmar cu&amcntoh delRej. nem de seus Jrmâaos c Jrmâas. 
Item nora lançar pidídos. 
Item nom mudar moeda. n«n ualia dela. 
Item nom fazer decraraçô de çisnw da Jgrela w a hi ouuer. 
Item nom poer enposiçOoes nouas. 
Ffazenda 

Itmn nom fazer veedor da fazenda e contador moor, nem çontadores das comuquas. 
Item nom ennouar artigoos nas sisas e nos outros direytos Rcaaes. 
Item ho asentamento de todo o Regno. 

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Elaborudu o regimcnlo. pretendeu o Iníanle D. Henrique que dele tomasse 
conhecimento, em primeiro lugar, seu irmão D. Pedro. Estava convencido o 
Navegador, no caso de este o aceitar e assinar, de que a rainha adoptaria id&itica 
atitude. Mas tal não aconteceu, pois foi D. Leonor a primeira pessoa a conhecer 
as suas cláusulas. Mal aconselhada, opôs-se à aprovação, indo ao ponto de exigir 
a entrega total do governo do país. Também o Duque de Coimbra se mostrou 
pouco receptivo, em virtude da pequena parte que lhe cabia no mesmo, o que 
não o impediu, porém, de declarar : «Que faria o que o Yfante seu Irmão quy- 
sesse». Foi sobretudo a posição assumida pela rainha que levou o Infante D. Hen- 
rique a desinteressar-se da proposta, dando sem efeito o regimento. Aconteceu, 
no entanto, que o povo se amotinou, fazendo .saber, por intermédio de Lopo 



liem que se nom possa dar <le graça per conselho mais que ataa injl dobras. E pera 

esto que sc mostre Rarom liuitima nas cortes, quando se Jcr tal soma c de quantas ue/cs 
US der num se entendendo que sepm do conto do asenlamcnlo da Senhora Rejnha, nem 
do que lhe for ordenado pera desqiesa delRej, nem do que lhe for asentado peca as nom 
«crtas. 

item nom seja fecla mudança nas tecnças E asenttimentos da senhora Rejnha, como 

Jfantes. c quaeesquer outras pessoas segundo se fazia em tempo deIRcj que Deus aja. 

Item nom tomar nicrcatlaria. ncni tolher de uender o seu a quem lhe prouger. 

Item nom mudar de Kcjcdor da ju^tiçu. nem poer outro nouo. 

Item nom matar fidalgo que seruisse com dez lanças ele ou seu pay. nem llie cortar 
nembro, nem o degradar do Regno. 

Item nom lhe tomar suas tenras, nem Rendas, nem jurdiçOoes. 

Item que nom quebrem aos fidalgos e cierízia e poboos, seus husos e costumes e 
iurdiçôoes. 

Item que nom façam ncnhOas lex, nem ordcnaçõoes. 

item nom poer ofiçiaaes da casa do crime, nem do çiuel de Lisboa, nem Corregedor 
da corte, nem das comarquas, nem meyrinho moor, nem almotaçel moor. nem procuradores 
da corte, nem na dieta casa do çiuel. 

liem nom tirar castelos de mcnaiccns. 

Provi jmcnio da guerra e dctcnssom 

Item nom fa/er condestabre, nem marechal, nem capitam. 

liem nom dar casicKis de mcnajens. 

Item nom mouer guerras, nem fa/cr armadas Jeeraaes. 

Item nom fa/er aiuda de jente, nem darmadas. 

Item sem embargo que seja ordenado de sse estas cortes fazerem em cada hflu ano 
E estas cousas se auerem de guardar. Pera elas se algOas taaes Recreçerem em que seja 

mester de sse Irigarem as dietas cortes. E o CMIsaelho entender que he bem com autoridade 
da Senhora e acordo do Jfante dom Pedro, sejam chamados.* (Idem, ibidem, fols. 3v-5. 
Idem. Ibiílan. pp. 10-13; Idem, ibidim, pp. 268-269). 

— 15 



Gopyiiytiica inaieiial 



Afonso ("), que se encontrava na disposição de seguir a causa do Infante D. Pedro. 
Perante a perigosa situação que se aproximava, viram-se os nobres na contin- 
gência de aconselhar D. Leonor a proceder à sua aprovação Chamado o Infante 
D. Henrique, em cujo poder eslava o regimento, assinou a rainha o instrumento (*^). 
antepondo, porém, a declaração de que o fazia para «arredar escândalo». Seguiam- 
•se depcMS as assinatuias dos inftintes. condes, prelados e procuradores dos con. 
celhosO. Observa^e, no entanto, que. estando presente o Arcebispo de Lisboa. - 
se leciisou a testemunhar o acordo «por nom ficar o Regimento in solido aa 
Rayiiha»O. 0 que, aliás, se comprova plenamente pela aus£ncia do seu nome 
no texto original 

Ê de i»esumir que tenha sido no dia 10 de Novembro de 1438. correspondente 
à abertuiB dos trabalhos das cortes, que D. Leonor fez. na presença do cunhada 
o juramento de fidelidade a seu filho o rei (**"). De igual modo. o Duque de 
Coimbra ("*) e seus irmãos, os Infantes D. Henrique, D. João e D. Fernando (^) 
— este dltiiiip por intermédio do seu procurador — se associaram a este acto e 
prestaram o seu preito de homenagem e obediência a D. Afonso V. 



Rui de Pina escreve por lapso Lopo Anttfnio (Ob. cit, cap. XV. p. 225). enquanto 
Douta Nunes de Leio {Oh. eii„ cap. II. Pb 93) a Gaspar Dias de Landim [Ob. cii., livro I, 
cap. IX, p. 46). lhe chamam correctamenlc Lopo Afonso. Sobre este escrivfto da puridade 

durante a regência de D. Pedro, vejam-se dados biocrá ticos em apCndice. 

(*^) Ruy de Pina, ob. cil.. cap. XV. pp. 225-226; Cf- Duarte Nunes de l.eào, ob. cií., 
cap. II, p. 92-93, Gaspar Dias de Landim, ttb. cii., livro I, cap. IX, pp. 43-47. 

O A.N.T.T., Ct^eeção de S, Lourenço, vol. f. foi. 5-6. Publicado por A. Moreira 
de Sá, ofr. d/., pp. 13-IS; Mmumettta Heurkina, vol. VL Coimbra, l%4, doe. 96, pp. 269-270. 

{") Ruy de Pina, ob. eit« cap. XV, p. 226; Cf. Duarte Nunes de IjeSo, ob. cil.. 
cap. II, p. 93. 

Gaspar Dias de Landim afirma erradamente que o arcebispo de Ltsbua testemunhou 
o regimento. (Ob. cit.. cap. IX, p. 47). 

C*) A.N.T.T.. CoUcçào de S. Lourenço, vol. I. foi. Sv-6. Publicado por A. Moreira 
de Sá, ob. eit., pp. 13-15; hiotutmenta Henrkina, vol. VI. Coimbra, 1964, doe 96, pp. 269-270. 

(*•) B.N.L., Colecção Pombalina (Reservados), códice 443. fols. 25v-26. PuUlcafio na 
httmumenia flenricina. vol. VI. Coimbra. 1964. doe. 93. pp. 260-261. 

B.N.L.. Caixa 199 (Reservados), n.' 16; Idem, C'(í/<tY<'<' l'"nih(ilinn (Reservados), 
códice 443, fols. 26v-27. A primeira foi publicada pelo Prof. Artur .Moreira dc Sá, Alguns 
documentos referentes ao Infante D. Pedro, separata da Revista da Faculdade de Letras 
de Lisboa, tomo XXIL 2.* série, n.* I, 1956, pp. 50-51. A segunda fonte encontn-se inserida 
na Moiumenia Henrtcina, vol. VI, Coimbra. 1964, doe. 94. pp. 261-262. 

B.N.L., Colecção Pombalina (Reservados), códice 443. fols. 27-28. Publicado na 
Monumenta Henricina, vol. VI, Coimbra, 1964, doe. 95, pp. 262-263. 

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Também em 10 de Novembro, pruccdcram as cortes à distribuição dos 
turnos a que pertenciam os conselheiros do remo ("). Assim, nos primeiros quatro 
meses, aparecem os nomes do Conde de Barcelos, de D. Fernando de Castro 



(♦») A.N.T.T., Colecção de S. Lourenço, vol. I, fols. 8-8v. Publicado por A. Moreira 

de Sá, As acUa das cortes de 1438, pp. I5-16; Moimmenia Henrielm vol VI, Coirobra, 

1964, doe. 96, p. 270. 

í") Dom Fernando dc Castro era filho de Dom Pedro de Castro, senhor do Cadaval, 
c de D. Leonor Tclo de Meneses, Sua mãe era filha de D. João Telo, Conde de Ourém 
(Livro de Linhagens do Século XVl. ed. da Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1956, 
pp. 92-93). As primeiras notícias que se colhem a seu respeito indicam-no como pertencendo 
à casa de D. João I. onde reodiia a importância de 8000 litms (A.N.T.T., CofMfdo de 
5. Lourenço, vol. I. foi. 25. Documento publicado na Monumento Henricina. vol. I, Coimbra. 
1960. doe. 122, p. 282). Seguidamente, aparece-nos em companhia de seu irmão mais velho. 
D. João de Castro, na conquista de Ceuui, em 1415 (Gomes Eanncs de Zurara, Crónica da 
tomada de Ceuta. ed. da Academia das Oêndas, Lisboa, I9I5, cap. LXXXVI, p. 233). 
Regressado k Mtria, foi enviado, no ano seguinte, como embaixador de Portugal ao Concílio 
de Constança, conforme se deprcenile da carta escrita por D. João 1 ao rei de Aragão, 
Fernando 1, em 21 de Janeiro de J4I6 (Monumento Henricina, vol. II. Coimbra, 1960, 
doe. 114, pp. 237-239). Alguns anos depois, no decurso de 1423, esteve em Castela, como 
embaixador do mencionado rei. onde lhe coube a funçio de testemunhar a publicação da 
trégua existente entre o nosso País e o reino vizinho (Feman Perez de Guzman. Crónica 
de Don Juan II, ed. da Biblioteca de Autores Espafioles, tomo I.XVIII. Madrid, 1953, 
cap. 11, p. 423). Existe, de facto, uma carta de João II de Castela, outorgada em Avila a 
30 de Abril de 1^, cm que se ratifica o Tratado de Paz de 31 de Outubro de 1411. na 
qual aparece a assinatura deste fidalgo e do Dr. Fernando Afonso da Silveira, na qualidade 
de nossos representantes (A.N.T.T., Gaveta XVIII. maço II, n." 4. Documento publicado 
cm /f.v Cdvctas da Torre do Tombo, vol. IX. 1 isboa, 1971. pp. 608-636 e na Monuincnta 
Henricina. vol. 111, Coimbra, 1961, doe. 37, pp. 58-69. Sumariado por João Martins da Silva 
Marques, Deeeobrimenioã Portuttaeaes. suplemento ao vol. I, Lisboa, 1944, doe. 705, pp. 472- 
•473 e pelo Visconde de Santarém. Quadro Elementar, tomo I, Paris, 1872. p. 298). Em 1424. 
o Infante D. Henrique enviou-o à Grã-(anária. à frente duma expedição constituída por 
250U homens. Tinha em vista apoderar-se da ilha, iniciando assim o processo da conquista 
do arquipélago, cuja posse era objecto de profundas divergências entre Portugal e Castela 
(Oomes Eannes de Zurara, Crónica das feitos de Guini, ed. AgCneia Geral das Colónias, 
voL II. Lisboa. 19S9, eap. LXXIX, p, 354. Sobre o assunto, veja-se Florentino Perez Embid, 
Loj descuhrimientos en el Atlântico y la rivalidad ctLKtellano-portufiuesa hasta el Tratado 
dr TordesiUai, Sevilla, 1948, pp. 123-124). Encontra va-se em Alnteirim no dia 27 de Janeiro 

de 1432, onde testemunhou a ntificaçio do Tkatado de Psz oeMindo oom Caslda cm 
30 de Outubro do ano anterior (A.O^ Patronato Real. Legafo 49-21. Publicado com algumas 

incorrecções por Luís Suarez Fernandez, Relaciones entre Portui^a! y Castilla en ia época 
dei Infante Don Enrique. C S. I. C, Madrid. 1960. doe. 49. pp. 183-207, e na Monumentã 
Henricina, vol. IV, Coimbra, 1962, doe. 15, pp. 60-89). 

D. loio I fez-lhe doaçio de sesmaria, em 10 de Fevereiro de 1432, do paul de Trava, 
localizado no termo da vila de Santarém, o qual se encontrava abandonado havia quarenta 
anos. A concessio en efectuada em seu beneficio e de seus herdeiros, alegando o rei a 

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de D. Fernando de Meneses ( ). de D. Duarte de Meneses í "). de D. Alvaro 
Vasques de Almada O, de Rui Gomes da Silva ( *) e do Doutor Rui hernandcs ("). 



certeza de que a mesma seria aproveitada (A.N.T.T., Chancelaria de D. Duoiic. livro I. foi. 44 
Publicado por Virgínia Rau. Sesmarias medievais poriuauesas, Lisboa, 1946. pp. 160-161: 
Moniuntnm Henricina, vol. IV, Coimbra, 1962, doe. 19, pp. 95-96). Provavelmente, cm 
1433, recebia a moradia de 8000 Kbras em casa de D. Joio I (Josei^ Soares da Sylvm. 
Memorias para a História de Portugal que comprehendem o Governo dei Rey D. João o /. 
tomo IV, Lisboa, 1734, p. 215; Monumenia Henricina, vol. IV. Coimbra. 1962. doe. 64. 
p. 227). D. Duarte confirmou-lhe, em 30 de Março de 1434. a posse do paul de Trava, 
de modo a perautir^lhe que o troeaMe pelo paul de Boquilobo. conforme acordo feito com 
e Infiuife D. Henrique (A.N.T.T.. CkaneeUvUt de D. Duarte, livro I. foi. 44: Livro I! de 
Estremadura, foi. l]3-113v. Publicada a primeira fonte por VirL:íni:i Rau. ob. dl» pp. 160>16l; 
Monumenia Henricina, vol. IV. Coimbra, 1962, doe. 126. pp. 331-332), o que aprovou logo 
no dia segumlc :í.,Chancelana de D. Duarte, livro 1. íol. 44v; Livru U de Estrema- 

dum, foi. n3v-ll4. PuUicada a piimeifa fonte por Virfbiía Rau, ob. eit., pp. I6M62; 
hãonumenta BmrkUuu voi IV, Cdmbra, 1962, doe 127, pp. 333-335). 

D. Fernando de Castro participou na malograda expedição a TSnger, conforme se 
depreende do auto de capitulação dc 17 de Outubro de 1437 (B.P..M.P., F., A . Ms. 80. foi. 114; 
Monumento Henricina. vol. VI, Coimbra, 1964. doe. 64, pp. 210-212). Desconhecemos o para- 
deiro da carta que o nomeou regedor da justiça da Casa do CML em Lisboa. funç6es que 
chegou a exercer antes da designação pan o referido cargo do seu substituto Aires Oomes 
da Silva (A.N.T.T.. Clumcclario de D. Afonso V, livro 2, foi. 69v. Publicada na Moniimeniíi 
Henricina, vol. VII, Coimbra, 1965, doe. 174, p. 259. Cf. Anselmo Braamcamp Freire. 
Brasões da Saía de Sintra, 2> ed., livro II, Coimbra, 1927, p. 171). Sftb«nos também que 
foi enviado numa expedição a Ceuta, a qual tinha como finalidade proceder à entrega 
daquela praça, contra a libertação do Infante D. Fernando (Frei João Alvares, Chronica do 
Infante Santo D. Fernando, ed. Mendes dos Remédios. Coimbra. 1911, cap. XXV. p. 72. 
Cf. Ruy de Pina, ob cit., cap. LIV. pp. 292-293). A duta da sua morte mostra-se controversa, 
sendo de aceitar que tenha ocorrido antes de Agosto de 1440 (Monumenta Henrietita, vol. VII, 
Coimbra, 196S, doe 96, pp^ 150-151) e nÍO em Abril de 1441, conforme afirmam aqueles 
cronistas (Sobre este assunto vcjam-se as considerações do Padre António Domingues de 
Sousa Costa, O Infante D. Henrique na expansão portuguesa, Braga, 1960, p. 57 e do 
Padre António Joaquim Dias Dinis, in Monumenta Henricina, vol. VII, Coimbra, 1965. 
pp. 176*177 nota). D. Fernando de Castro casou com Dona Isabel de Atakle, filha de 
Martim Gonçalves de Ataíde, de quem teve os seguintes filhos : D. Alvaro de Castro, primeiro 
Conde de Monsanto; D. Henrique de Castro; D. Garcia de Castro, D. Maria dc Castro, 
que foi a primeira mulher de Alvaro de Sousa, mordomo-mor de D. Alonso V; D. Isabel 
de Castro, segunda mulher de D. Duarte de Meneses, Conde de Viana; e D. Catarina de 
Castro, tpgwnifw mulher de D. Alvaro Vaz de Almada, Conde de Abranches e, por morte 
deste, primeira mulher de D. Martinho de Ataíde, Conde de Atouguia (Livro de Lialutgens 
do Século XVI. p. 93). 

C) Vcjam-se dados biográficos a seu respeito em aptadíoe. 

(H) Idem. 

(") Idem. 

(i«) Idem. 

(») Idem. 

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No segundo grupo, que passaria a actuar no ciuadnmesirc seguinte, figuram 
D. Sancho de Noronha ( Alvaro GonvaKes dc Ataíde I "). D. Alvaro de Cas- 
tro ('*). Luís Gonçalves ( '). Nuno Martins da Silveira (*") c Doutor João do Sem (*')• 



V) Idem. 

Idem. 
(») Idem. 
(*») Idem. 
(•) Idem. 

i") O Dr. João do Sem era o filho primogénito dc Alvaro Fernandes de Almeida, 
;ilcaidc-mor dc Torres Novas, e dc ( atarin.i do Sem, filha do Dr. João do Sem, chancclcr-mor 
dc D. João I. {Livro tU' Líiihai^ciis tio Sccnh» AT/, p. 2^0; Anselmo Braamcamp Freire, 
ob, ciL, livro II. p. 392). Herdou o morgado dos Sens, alcançando, por carta régia de 15 de 
Outubro de 1423, que D. Joio I lhe conFirmasse a posse da lezíria de Maitim Tinha e de 
outros bens pertencentes ao seu progenitor (A.N.TX. ( luinccloria de D. Jodo /, livro 4, 
foi. 72v; ( f. Anselmo Braamcamp Freire, oh. cif., pp. ;<'>2-3y3). Sabc se que realir.ou os seus 
estudos em Direito Canónico e Civil nu Itália. Assim, em Janeiro de 1427, encontra va-se 
na Universidade de Bolonha e, em Dezembro de 1428, frequentava a congénere de Siena, 
onde estudava sob a oríentaçio de dois doutores (Virgínia Rau, ItÊiimitmo na euilun 
juridiai i)oitiii-í«\(i (lo século XV, seperala da Revista Portuguestt de História, tomo XII, 
Coimbra. p. IWi. 

Em 1438, tomou paiic numa embaixada enviadu a Inglaterra, a qual se encontrava 
relacionada com a situação do Infante D. Fernando, cativo dos mouros (Domingos Maurfdo 
Gomes dos Santos, D. Duarte e as respousabiluladvs de Tânger (1433-1438), Lisboa, 1960, 
PP ('i4-6fv. Mtniunwnta llenricinn vol VI. Coimbra, 1964, doe. 72. pp. 22'<-226). Antes, 
porem, coube-lhe a tarefa de se pronunciar, em 25 de Janeiro do mesmo ano, na sessão 
inaugurai das cortes de Leiría. Falou, em nome do rei, sobre os motivos porque «mandara 
os Infantes seus irmãos cercar a cidade dc Tanger», na altura em que se ia decidir sobre 
a entrega ou a conservação de Ceuta (A.N.T.T., Livro da Cartuxa dc Évora, fols. I36-I36v; 
Cf. D.imingos Maurício Gomes dos Santos, (/h. cit.. p. 12). D Duarte concedeu-lhe, em 
S de Janeiro de 1437, a terra dc Ribeira dc Soa/, no termo de Guimarães (A.N.T.T., Chan- 
celaria áe D. Afonso V. livro 19, foi. 40. Cf. Ariselmo Braamcamp Freire, oh, ciL, p. 393). 

Desconhecemos a data da sua nomeação como chanoeler-mor. Temos, pelo menos, 
conhecimento de que, cm 20 de Maio dc 1439, já desempenhava tais funções '(A.N.T.T., 
CltanccUtria dc D. Afonso V. livro I4 . foi. i8vt. Obteve, ainda, em 31 de Agosto desse 
ano. conlimiavão du terra de Ribeira de Si)az (A.N.T.I., Chancelaria de D, Afonso V, 

livro 19, foi. 40; Cf. Anselmo Braamcamp Freire, oh. cit.. p. 393), vindo a haver mercê, 

em 10 dc Junho de 1441, das rendas c alcaidaria do moulon^ido de Torres Novas (A.N.T.T., 
Chanctlaria dc D. Afonso l' \ivio 2. foi. 91; Cf Anselmo Braamcamp Freire, oh. cit., 
p, 393). Faleceu cm 12 dc Uuiubro dc 1442 (Anselmo Braamcamp Freire, oh. cit.. p. 393). 
Casou com Beatriz Gomes de Lemos (Uvro de Linhagens do Sicuto XVI, p. 291), a qual 
obteve, em 17 de Dezembro desse ano. confirmação dos privilégios que haviam sido de sen 

marido, com a condição dc continuar viúva e viver honestamente (A.N.T.T., Chancelaria de 
D. Afonso V, livro 23, íol. 46; Cf. Anselmo Braamcamp Freire, ob. cit., p. 394). O casal 

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o terceiro grupo era formado por D. Fernando de Cascais D. Fernando de 
Meneses CO, Diogo Lopes de Sousa D, Aires Gomes da Silva C ). Diogo Fernandes 
de Almeida O e Gonçalo FereinCO. Por dltimo. o quarto turno aparece-nos 
cònstitufdo por Vasco Fernandes Coutinho O. D. Alvaro Pires de Távora (*). 
Jcão Gomes da Silva O. P^ro Eanes Lobato D. Nuno Vasques de Castelo 
Bianco n e Joio Rodrigues PbreiraCO. Focam, ainda, designados, como reiMe* 



teve um. único filho, de nome António do Sem (Livro de Linhagens do Século XVI. p. 291; 
Humberto Carloi Baquero Moreno. Um atpecto «te política adtwtã dê D. Afmuo V: 
a coneesãSo de boboM de ettudo. eepafaUi da Revista de CUneku do Homem da Univcnidade 

de Lourenço Marques, vol. IIÍ. série A, 1970, pp. 13-15). 

Vejam-se dados biográficos a seu respeito na p. 101. 
(«) Vejam-se a seu respeito dados biográticob eni apêndice. 
C*) V^aoMe dados biogiáficoe a leu vespeílo a pp. 118-119. 
(*^) Vejam-ee a leu respeito dados bioiráficos em apêndice. 
(«) Idem. 
(") Idem. 
(") Idem. 

Idem. 

O João -Gomes da Silva era filho primogdnito de Gonçalo Gomes da Silva e de 
D. Leonor Gonçalves. Esta senhora era filha ilc Gonçalo Martins Ci>ulinho {Livro de l inha- 
gens do Século XVI, p. 123). Exerceu as funções de copeiro-mor e de alfercs-mur de 
D. loio I. O primeiro cargo, cuja carta de nomeaçio se desconhece. foMIie outorgado logo 
a seguir às cortes de Coimbra de 1385 (Peinio Lopes, Crótdm de D. João I, ed. Livraria 
Civilização, vol. II, Porto, 1949. cap. I, p. 4). Quanto ao segundo, cuja nomeação também 
SC desconhece, sabe-se que já o exercia, pelo menos, em 22 de Março de 1399. Admitc-se. 
no entanto, que já não o ocupava em 11 de Setembro de 141S (Anselmo Braamcamp Freire, 
oh. cit., livro II. p. 47). Tomou parte activa noa acontecimentos que precederam a crise 
pirfftica de 1383 (Fernão Lopes, ob. cit.. vol. 1. PorU>. 1945, cap. l XXILI. p. 142), o mesmo 
se verificando durante a sua eclosão (Idem. IhiJem. cap. CXXXIl. p. 260). Na realidade 
figura entre a lista de fidalgos mencionados por Fernão Lopes que ajudaram a defender 
o reino face k invasão castelhana (idem. Ibidem, cap. CLXl, p. 346X Vamos, ainda, encon- 
toi-lo nas cortes de Coimbra de 1385. em cujos trabalhos esteve presente (Idem, Ibidem. 
cap. CLXXXII, p. 392). 

D. João I fcz-lhe doação temporária do lugar de Vagos, por carta de 23 de Abril de 
1384 (A.N.T.T., Chancilanu de D. João I, livro 1, foi. 7v; Cf. Anselmo Braamcamp Freire, 
ob, cit., livro II, p. 46). No ano seguinte, em 14 <le Maio. doou-lhe o rei a átúam da 
correição dessa localidade (A.N.T.T.. Choneeiaria de D. João I. livro 1. foi. 104v; Cf. Sal- 
vador Dias .Arnaut. .) batalha ih- Trancoso. C(>imhra. 1947, p. IfiO). vindo a fazer-lhe, em 
26 de Fevereiro de 1412, outorga perpétua, de juro c herdade, do mencionado lugar (A.N.l.T., 
ClmnctlarUt de D. João /. livro 3, foi. 137v; Cf. Anselmo Braamcamp Freire, ob. tíL, livio II, 
p. 46). TeuMM, também, a assinalar que o fundador da dinastia de Avis lhe coooedeu, sm 
5 de Setembro de 1385, todos os bens móveis e de raiz existentes em Guimarães e noutras 
partes do reino que jjertenciam a seu lio Aires Gomes da Silva e a sua mulher D Urraca 
Este casal não tioha filhos varões que pudesbcm herdar os seus bens (A.N.T.T., Ciiuncclatiu 

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sentante do clero o Bispo de Évora D. Álvaro dc Abreu ( da nobre/a, João 
Alvares Pereira C% e do povo o cidadão Martim Afonso C). 



de D. João /, livro I, foi. 90v; Cf. Anselmo Braamcamp Freire, oh. cit., vol. II, p. 46). 
Na cana de confirmação a esta última doação, de 25 dc Junho de 1394, cspccificam-.se as 
terras como aendo UnhSo, Vilar de Tomo, Manhimcelos, Aties, Vila Cais, Brunhais e 
Regilde (A.N.T.T.. Chancelaria de D. João /, livro 2. foi. 97; Cf. Anselmo Braamcamp 
Freire, oh. cit.. livro II. pp. 46-47). Cumprc-nos iriíficar, ainda, cs st;!uintcs bcnefícids a 
seu favor: outorga da renda c direitos reais da comenda de ValhcIhas, para ele e seus 
herdeiros, efectuada por carta de 23 de Setembro de 1384 (A.N.T.T., Chancelaria de 
D. João t, livro 1, foi. 53v; Cf. Anselmo Braamcamp Freire, ob. eli» livro 11. p. 47): 
doação do chão do castelo dc Valença cm 8 de Abril ilc 1393 (A.N.T.T.. Livro 2 de AUm- 
-Pinint. foi. 143; Cf. Anselmo Braamcamp Freire, oh. cit.. livro II, p. 47). concessão, em 22 
de Março dc 1399, a seu favor c dos seus herdciro.s. da Almoinha do Rei, locali/iida cm 
Montemor-o-Velho (A.N.T.T.. Chancelaria de D. Jttâo I, livro % foi. 182v; Cf. Anselmo 
Braamcamp Freire, ob. cit^ livro II, p. 47); por ditimo, temos a doação, em 27 de Fevereiro 

de 1412, da terra de Meinedo, no almoxarifado de Guimarães, com a sua jurisdição civil 
c criminal, a qual havia pcrtencidu o *.ju Uo Aire-- (iomcs tia Silva (A N r.T.. Cliaticclaria 
dc D. Joào I, livro 3, foi.. 136; Ct. Anselmo Braamcamp Freire, ob. cit.. livro II, p. 47). 

JoSo Oomes da Silva, juntamente cora o Dr. Martim do Sem e FernSo Gonçalves 
Beleágua. fez parte da embaixada encarregada de negociar o Tratado dc Pa/ com Castela, 
celebrado cm AylU^n no dia 31 de Outubro cic 1411 ( A.N. I í , (;<n(7<í XVIIl. maço 11, n. ' 4 
Publicado em As Gavetas da Torre do lombo, vol. IX, l.isboa, 1971, pp. 608-634, e na 
MoHummta Henricina. vol. II, Coimbra, 1960. doe. S, pp. 7-32). Seguidamente, a esta tarefa, 
vemo^o participar na conquista de Ceuta, em que lhe pertenceu o comando de uma galé 
(Gomes Eannes de Zurara, Crónica da tomada de Ceuta, l.isboa. 1915. cap. XXXVI, p. 114). 
Anos depois dc ter tomado parle na tomada da praça marroquina, fci enviado a Castela, na 
companhia dos citados embaixadores, com o objectivo dc obter a ratificação do acordo 
atftfs mradonado. O encontro entre esta missSo diplomática e JoSo 11 deu-se em Segóvia, 
a 14 de lunho de 1419, tendo ficado estabelecido que partiria para Portugal uma cmtiaíxada 
castelhana com a resposta adequada a tal pedido (Feman Perez de Guzman, ob. elt., cáps. VIII 
e IX, p. 379). 

Já era sepluagenário quando, cm Outubro de 1439, acompanhou desde Coimbra o • 
Infiuite D. Pedro, na sua deslocação até Lisboa (Ruy de Pina, ob. eU., cap. XLV, p. 270. 
Cf. Gaspar Dias dc Landim, ob. cit., livro I, cap. XXIX, p. 125). Um dos últimos actos 
que se prendem à sua existência consiste na queixa formulada pelo concelho de Coimbra 
nas cortes dc £vora de 1442, pelo facto deste fidalgo lhe ter usurpado a jurisdição dos 
lugares de Zouparía, Lamarasa e S. Martinho (A.N.T.T., Livw 10 d* Estretnadura, foi. 24). 
Faleceu, carregado de anos, no mês de Março de 1444 ou 1445 (Ansdmo Braamcamp Fnjre, 
ob. cit., livro 11, p. 48). Foi casado com Dona Margarida Coelho, filha de Egas Coelho, 
de quem teve um único filho varão, Aires Gomes da Silva. Do matrimónio nasceram duas 
filhas : Teresa da Silva, mulher de Fernão Eanes de Lima, senhor das terras dc Valdevez 
e Coura, e Isabel Gomes, mulher de Pedro Gonçalves Malafata, vedor da fazenda de 
D. JoSo I. Jofto Gomes da Silva foi pai de trSs filhos naturais : Diogo da Silva, senhor de 
Vagos, Pedro da Silva e Lopo da Silva (Livro de Unhogens do Século XVI, p. 124; Anselmo 
Braamcamp Freire, ob. cH., livro 11, pp. 48-49). 

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Copyrighted inaterial 



A casa do conselho devia locali/ar-se nos pa^^os do rei, prociirando-se deste 
modo que a sua acção fosse permanente. Eniendia-se, no entanto, que a vontade 
conjunta de D. Leonor e do Infante D. Pedro devia sobrcptir-se às suas determi- 
nações, a não ser nos casos em que não houvesse acordo entre eles. Vcrificando-se 
a últiiti^^ hipótese, seriam aprovadas as opiniões que obtivessem maioria de votos. 
.Ainda se admitia a possibilidade de serem tomadas decisões na ausência do 
Ouque de Coimbra, desde que a mesma ultrapassasse os dois dias. Mas. se os 
problemas fossem graves, haveria toda a vantagem em escutar o seu ponto de 
vista. Com a maior minúcia, previam-se os assuntos que deveriam ser objecto da 
aprovação da rainha e do seu cunhado, os quais deviam para isso apor as suas 
assinaturas O. 



('') Veiam-se dado.s biugiáficos a seu respeito cm apêndice. 
(") Idem. 
C*) Idem. 

D. Alvaro de Abieu foi eleito Bispo de Lamego em 1419, sem contudo residir 

nessa diocese, onde se fe/, representar pelo seu procurador D. Garcia de Meneses iKoitiinato 
dc Almeida, HiMóiiu líu Imwja cm Poiiin;íil, tomn II, Coimbra, 1910, p. 569; Padre Miguel 
de Oliveira, fiiMória Eclesiástica de Poiíuiiul. Lisboa, 1958, p. 441). Ein 2S de Maio de 
1421. foi, no entanto, transferido para Silves (Conradus Eubei. Hierúrchkt caiholica medii 
cevi. voi. 1. Monasterií, 1913, p. 4S2), lugar que ocupou até II de Fevereiro de 1429, data 
cm que fi>i rmmeado Bispo de Évora (Idem. Ihiílcm. p. 236 >. No desempenho das novas 
funções, presidiu em Lisboa, a 24 de Julho desse ano, ás cerimónias dc casamento entre 
D. Isabel, filha de D. João I, e Felipe o Bom. Duque de Borgonha. Kin Outubro do ano 
seguiilte, acompanhou » princesa alé ao porto de Eclusa, deseminrcando em 6 de Dezembro 
iFortunato de Almeida, oh. cil.. p. S57). D. Álvaro de Abreu assistiu k ratificação do casa* 
mento nessa cidade, em 7 dc Janeiro de 1430. açora porem sob a presidência do Bispo dc 
Toumai, Jean dc Thoisy (Joseph Cahnette, Les CrunJs Ducs de Bour^ogne, Paris, 1949. 
p. 201; Fortunato de Almeida, oh. cil., p. 557). 

Assistiu ao falecimento de D. Joio I. tendo desempenhado um papel importante no 
auto dc levantamento dc D. Duarlc, ao pronunciar o discurso dc investidura (Ruy de Pina. 
Chroniia do Senhor Ri\ D Diuiiiv. cap. II. pp. 77-78). Tomou parte activa no funeral 
nacional consagrado ao pai do novo monarca (Idem, Ibidem, cap. V. p. 90; Cf. Duarte 
Nunes de LeSo, Crónica e vida delrey D. Duarte, cap. II, pp. 9«I0), cabendo-lhe, nas cortes 
de Leiria de 1434, a oraçio de abertura (Ruy de Pina. oh. cit.. cap. VI. p. 91). Vemo-lo 
mais tarde intcgrar-se na malograda cxpcdiv'.'io a Tânger de 1437. (Idem, Ihiihni. cap. XXI, 
p. 137 c seg.; Duarte Nunes dc Leão. oh. cil.. cap. IX, p. 37). Faleceu em 1440 (Fortunato 
de Almeida, ob. cit., p. 557). 

Vejam-se dados tMOgrificos a seu respeito em apêndice. 

P) Residia em Lisboa. 

A.N.T.T.. Colecção ilr S Lourenço, vol. I, fols. 8v-9. Publicado por A. Moreira 
de Sá, ob. cit.. p. 1(>; Monumento Henrictna, vol. VI, Coimbra, 1964, doe. 15, pp. 270-271. 

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Assentava^se no princípio de que deveriam ser assinadas por D. Leonor e 
pelo Infonte D. Pedro todas as cartas enviadas para o estrangeiro, o mesmo se 
verificando em relação a todos os tratados e memoriais levados pelos embatxa- 
dores em nome do rei. Idênticas condições se observavam nas determinações 
outorgadas em cortes, outrotanto se verificando nas doações de dinheiro ou de 
bens fundiários, ou ainda na concessão de tenças. Também deveriam ser postas 
as assinaturas dos dois cunhados nos seguintes privilégios : porte de armas, assen- 
tamentos, fazenda, justiça, guerra, regimento de Ceuta, sentenças da Relaçãa 
nomeação de vassalos, cartas de quintos c descaminhados, apresentação do prio 
rado de S. Vicente e Guimarães e perda dc bens por motivo de moeda falsa, 
aleive ou qualquer outro caso previsto pela uivada da lei 

Pcricncia exclusivamente à rainha conceder tenças, moradias, vestires e ofí- 
cios, privativos da casa real. fa7endo igualmente mercês com base no assenta- 
mento da coroa. Por exclusão dc partes, cabia-lhc dar ofícios e bens que não 
estivessem dependentes do Inlante D. Pedro, ou ainda do conselho régio e das 
cortes do reino. Quanto ao Duque de Coimbra, ficaria sob a sua autoridade a 
nomeação de coudeis e de todos os problemas que se ligassem à organização 
militar do país ("'). 

Acordaram os três estados da nação em que. .se D. Leonor falecesse antes 
de D. Afonso V atingir a maioridade, ficariam os Infantes D. Pedro e D. Henrique 
no desempenho das funções de tutores e curadores do rei. No caso. porém, de 
morrer o Duque de Coimbra, substituí-lo-ia seu irmão. Punha-se ainda a hipótese 
de falecerem os dois cunhados. Seriam então substituídos pelo Infante D. Hen- 
rique, ou por seus irmãos, alargando-se a situação ao Conde de Barcelos O* 

D. Leonor tomou a assinar as cláusulas do acordo, invocando, mais uma vez. 
que o fazia para «arredar escamdollo». no que foi seguida pelos infantes e prin- 
cipais do reino. Também os representantes dos conselhos testemunharam este 
acto, conforme se comprova pelas suas assinaturas C^). 

Dias depois, em 13 de Novembro, a rainha e o Infante D. Pedro ordenaram 
a Martim Gil. escrivão da câmara do rei e notário público na corte e em todo o 
reino, que comunicasse aos procuradores das cidades e vilas do país os capítulos, 
declarações e o acordo acima realizado. Reunidos na igreja de Santa Maria, 
em Torres Novas, deram «mujtos louuores a Deus por a dieta senhora Reynha 
E o dicto Senhor Yfante dom Pedro £ os ouiros senhores asi seerem dacordo. 



(") Idem, Ibidenu foi. 9; Idem, Ibidem, pp. 16-17; Idem. Ibidem, p. 271. 

(") Idem, ibidem, fols. lO-lOv; Idem, Ibidem, p. 18; Idem, Ibidem, pp. 271-272. 

(*) Idem, Ibidem, fols. IOv-1!; Idem. Ihuhm. p 19; Idem. Ibidem, p. 272. 

C*) Idem. ibidem, fols. ll IZv; idem. Ibidem, pp. 19-21; Idem. Ibidem, pp. 272-273. 

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E que lhes prazia mujto E eram bem contentes dello. E que eram prestes de os 
asjnar. protestando ante que asi asjnascm. lhe ser guardados seus priujiepios e 
honrras e liberdades E outros djreitos». A ratificação do acordo por esses pro- 
curadores fez-se a 16 de Novembro f'-). 

A rainha leve conhecimento da protestação dos procuradores dos concelhos, 
em 19 de Novembro. Em resposta, fez a declaração de «que ella condeçendeo 
e lhe prootie da dieta concoidaiiça dos dictos capitólios, porque lhe certeficarom 
que todos tres estados sobredictos se aconlauom em ello». Dada a conhecer a 
declaração de D. Leonor aos representantes do povo, testemunharam des» em 
28 de Novembro, a aprovaçio do seu conteúdo OÕ. 

Os últimos actos das cortes de Torres Novas prendem-se com a oonfirmaçSo 
de privilégios a algumas cidades e vilas do pafs. nelas representadas. Feia sua 
importância, assinalamos a carta outorgada à uibe de Coimbra, em 29 de No- 
vembro (**). e ao burgo do Forto. na mesma data ("). Não se encerraram as mesmas, 
.sem que, contudo, antes ficasse estabelecido que, no prazo de um ano. se cele- 
brariam novas cortes gerais, desta vez na cidade de Lisboa C*'). 

Conforme o testemunho de Rui de Pina. os trabalhos efectuados na reuniiodos 
três estados da nação, devem ter durado um mês e «alguns dias», findos os quais 
<rpor ser o ano de mantimentos muy estéril, e aquella Comarca muy cara. acordou 
a Ramha, e os Yfantes de se hirem, como foram, ^om ElRey pera Lixboa. honde 
per via do mar com yndustria. e av y.Tmento tle bòits Regedores, se buscou rezoado 
provymcnto. que deu causa serem hi os mantymentos em menos careza. que em 
alguma outra parte do Regno» ("*). Na realidade, sabemos, pelo itinerário da 
comitiva régia, que esta deixou a vila de Torres Novas em 8 de Dezembro, 
iniciando entfto a caminhada para a capital do rnno. Neste mesmo dia. chegaram 
h Golegíi. onde permaneceram até ao dia 10. Alcançam Vila Franca de Xira. 



(*^) Idem, tbiãem, fols. 13-14; Idem. Ibidtm. pp. 21-23; Idem, Ibidem, pp. 274-275. 
(•*) Idem, tbidtm, foi. 14vI6; Idem, /frjcfem. pf>. 23-25; Idem, lbiá§m, pp. 275-277. 
(•*) A.N.T.T.. Chanedaría de D. Afonão V, livro 35, foi. 45. 
C ) A.N.T.T., Chatwelaritt de D. Afonso V, livro 18, foi. 3; Uvro S de AUm-Domo, 

íols. 236V-237. 

l**) I.H.M.B.. Cúrias Reules Ori^iiudes, B-62. Carta enviada pelo Infante D. Pedro 
aos eomelheifoi de Barcelona cm 12 de Novembro de I44Q, cujo orighial nio pudemot 
localizar, mu apenas a sua traduçSo em calaUU»» ooofonne se dedata nas oostat do 

documento. 

(•*) Ruy de Pina, Chronica do Senhor Rey D. Afonso V, cap. XVII, p. 228; Cf. Duarte 
Nunes de Leão, Crónica e vida delrey D. Duarte, cap. III. p. 94; Gaspar Dias de Landim, 
ob. cit., livro I, cap. X, p. 48. 

Sobre a crise económica que afectou o País neste ano, veja-sc A H. de OUveÍTa Mar- 
ques, iHirodução à História da Agricultura em Portugat» Lisboa, 1968, p. 270. 

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aí eslanccando ate ao dia 15. pelo menos, pois fallani-nos carias eni 16. 17 e 18 
de Dezembro, com referencias ú sua posição. Em 19, \á se assinala a sua presença 
em Lisboa (^). Foi na altura em que a corte se encomrava nesta cidade que o 
Infante D. João, outrora doente em Alcácer do Sal. se juntou a ela. Tem parti- 
cular relevância atentar nas suas palavras dirigidas em público a D. Leonor, em 
que manifestava o desejo de «a servir, e amar mais, que nunca, com patlavras 
de muyta descryçam. e amor, e acatamento, em que também com razoões evydentes 
lhe tocou, que lhe parecia que se nam devya antremeter no Regimento do Reyno». 
A circunstância de tais declarações terem sido realizadas publicamente revela o 
carácter precário do acordo celebrado nas cortes de Torres Novas, ao mesmo 
tempo que indica a iipiíaçâo que reinava entre as massas populares 

Os itinerários do Infante D. Pedro revelam a sua presença em Li.sboa e 
arredores, durante grande parte do ano de 1439, que se estende precisamente alé 
ao dia lí> de Setembro { '). I.ogo desde o princípio se manifestam tensões nas 
relações existentes entre os dois cunhados, o que. aliás, se denuncia claramente 
na carta Cbcrita pt\o I)ui|uc do C oimbra em Simtarém. no di;i 12 de Novembro 
de 1440. a()s conselliciros de Barcelona. t)uando declara que iiaquest temps la 
dita Sen\<^ra se nii»sira a\i Rijzurosa on suas obras, que tots los tres braços 
estamcr',i delis dits Reenes Sentien e \ien i:in(s Inconiicn enis. çnpaxaments en 
nostre Regiment. que cone.xien e entcnjen que ^^c axi c»)ntiiiu«'>sem en dujs en 
nostre Regiment. que los dits Regnes de toi seiien A perdiçio. E Jo axi meteno 
.senti per lo modo e manera que apres de my tenya que ío.s dils Regnes heren en 
punt e eser de Rebre molt gran perdua e dapnage> (**). 



C^) Humberto Carios Baquero Moreno, Os ItiarnUws th Injmie D. Ptdnt, (1438-1448). 
separa tu da Revista de CiêncMS tio Htmiem da Universidade de Lcturcnço Marques, vol. I. 
séríe B, 1968. p. 26. 

(•*) Rii\ iIl- Pin:i. oh. cif., cap. XVII. pp. 228-22'): ( t. Duarte Nunes <\c I.câo, ttb. cil., 
cap. Ill, pp. 94 95; Gaspar Dias ilc Lundim, uh. cit., livro I, cap. X. pp. 49-51. 

Insinua este último uuior que se «começaram a fazer ujuniamenios sccrelox â tnslflncia 
do Infante D. Pedro, umas vezes em sua casa, e outras em casa do mesmo Infante D. Joio. 
c outras partes» e pas.sados alguns dias publicamente em praças c legares públicos, e com 
vti/CN altas, c inquietações murmuravam c reprehenJiam o governo da Kainha. indo sempre 
csics alvoroços em crescimento de que lemi.un maiores inquictavôcs; u que durou poi muitos 

dias sem o Infante D. Pedro os atalhar, podendo, posto que no publico, e exleríoies 
mostrava pezar4he, de que nascia que os desapaixonados discretos entendiam que tudo se 
fazia per seu gosto, e assim o entendia a Rainha, e lho faziam os seus crên. {Oh. cit.. 

pp. 50-51). 

(•*) Humberto ( arlos Baquero Moreno, uh. cil.. pp, 3-5 e 27-45. 
(*) I.H.M.B.. Cartas Rcales Onítinuks, B-62. 

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n. 4 



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Julgamos que o motivo principal ^'crador da incompatibilidade entre t). Leonor 
c o Infante D. Pedro de\er;í atribuir-se ao facto da rainha querer chamar a si. 
exclusivamente, todos os problemas do regimento. Aliás, o próprio Rui de Pina 
afirma que. .como ella era de bôa. e virtuosa tençam tomava o encarrego do 
Regimento com mais trabalho, e continuaram, do que tevcra em custume. nem 
requeria sua fraca desposyçam e deshy os requcrymenlos assy pella bõa ordem, 
que se logo deu ao ouvir delles. como por aver ja dias. que se nom despachavam, 
creciam cada ves mais. o que cada dia, a aliem de ser prenhe, lhe causava dores, 
e ynfirmydades, que contrariavam seu bom. e verdadeiro proposyto; e. sendo 
com rezam aconselhada, que temperasse seu grande trabalho, e antreposesse 
nos negócios alguns dias pera seu repouso, e descanso. Ella constrangida ja de 
suas propryas necessydades o começou de fazer, nam sem reprensoões do povo, 
com que indtvidamente logo começaram a acusar sua ynocente fraqueza, e queriam 
asolver seos muitos, 'e desordenados requerimentos, e incomportaves ympurtu- 
naçoões. Pello qual alguns se atrevyam ja avendo por servyço de Deos. e d*£lRey, 
e bem do Reyno de cometer ao Yffante secretamente, que tomasse o Regymento 
de todo; mas ellc. ou por sua dessymullaçam, ou por ser assy sua vontade, a 
todos tirava de tal esperança; antes em taaes cousas assy se fazerem, postoque 
melhor se podessem. e devessem fazer, sempre escusava as fraquezas, e yno- 
cencia da Raynha. com quanto podya» ("). 

A longa permanência da corte na capital vai ter o seu reflexo na confirmação 
de privilégios à cidade. F^ccebcm-nos a Universidade de Lisboa (' ) e a própria 
urbe ( ' ). Também os homens da portagem do primeiro centro urbano do reino 
receberam mercê para que os privilegiados não se hospedassem em suas casas e 
lhes tomassem quaisquer bens("). Idênticas confirmações dc privilégios foram 
outorgadas aos calafates da capital ( ). aos escrivães da sua ca.sa do Cível O. 



(") Ruy de Pina, ob. eit.» cap. XIX, p. 231; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. cff.. 
cap. III, p. 96; Gaspar Dias de Landim, oh. cit.. livro I, cap. XIII, pp. 58-61 

i^) Carta régia dc 23 de Janeiro de 1439. A.N.T.T., Livro 7 tif Esticinuduiii. íoU 57v- 
58. Publicado no Chanularium Universilalis Poriugalensis, vol. IV, Lisboa, 1970, doe. 1132, 
p. 216. 

(") Carta régia de 27 <le Janeiro de 1439. A.N.T.T., Livro 10 de Estremadura, foi. 177. 
(■*) Carla régia de 28 de Janeiro de 1439. A.N.T.T.. Livro // de Estremadura, 
foi. 5av-5I. 

(*^) Carla r^ia de 29 de Janeiro de 1439. AM,TXn Livro 7 d'e Eslrmmdura, foi. 62. 
Carta légia de 5 de Fevereiro de 1439. A.N.T.T., Uvro 10 de Estremadura, 
foi. 178-178V. 

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aos seus contadores e ulieiais dos conlo.s ( ' ). aos seus oficiais da moeda í"') e aos 
seus carpinteiros e peiintais ('"). Um dos liltimos actos, em conjunto, dos dois 
regentes, então em Camarate, consistiu na confirmação de privilégios aos niora> 
dores da alcáçova de Lisboa ("*). Não se restringiram estas mercês apenas à 
primeira cidade do reino, mas estenderam-se igualmente a outras parcelas do 
território. Pela sua importância, destacamos a confirmação geral de privilégios 
aos moedeiros e oficiais da moeda do Porto ('**'). observando-se também a con- 
cessão de todos os privilégios e liberdades que gozam os de Lisboa, aos alcaides, 
arraiais e calafates da capital nortenha ("^. Cumpre-nos. ainda, assinalar a con- 
firmação geral de privilégios à cidade de Coimbra 

Estando D. Leonor e o Infante D. Pedro na capital, durante o mês de Março, 
foi esta cidade afectada pela peste, de que veio a ser vítima D. Felipa, filha do 
Rei D. Duarte e daquela senhora (' '). Tinha a infanta oito anos, pois havia nascido 
em 28 de Novembro de 1430 ("' ). A turte tomou as suas previdências, ao enviar 
o jovem rei e seu irmão o Intanie D. I crnando. para a vila de Almada, partindo 
a rainha para a quinta de Monte Olivete. junto de Santo Antào('"^'). Uma carta de 



(") Carla régia de 24 dc Março de 1439. A.N.T.T.. Chancelaria «/r D. Afonstt V, 

livro I*), foi. Ilv; Lhro 7 dc l.siuintultira. foi. Wi. 

("') Ciirta regia dc lí. lic .Abril Jc 1439. .'X.N.I.I".. Chiinnliina ,/. /). .ifi»t\i> V. 
livro 19, foi. 4; Livro 7 */»• líMnimuluia, foi. 65v; Cf. Duiiuàu Peres, HiMtuia </<*.v nioahúnt.s 
de Usboa conto classe privilegiada, ed. da Academia Portuguesa de História, tomo I, Lisboa, 
1964^ doe. 20, pp. I3S-I36, em que o autor publica a carta existente no Arquivo da Casa 
da Moeda, Livro </<>v Mocilcints. foi- I7-I7v. 

("> Carta regia dc 25 dc M:iio de 14V> .A.N.f.T., Clianvdufia t/t- U. Afonso V. 
livro 18, foi. 45; Livro 10 de LMrtnuuluní. íol. 178. 

(<**) Carta ré^a de II de Setembro de 1439. A.N.T.T.. Uvnt ÍO de Esirenmlura, 
foi. 73V.74. 

('") Carta régia dc S dc Maio dc I4V> A.N.T.T.. Clmiceluria àe D. Ajonso V, 
livro 19. foi. 12; Livro i dc .\lcin-l)»iiro, foi. 238v. 

t'"-) Carta régia dc 28 de Junho Ue 1439. A.N.TX, Chancelaria de D. Afonso V, 
livro 19, foi. 60v. 

Carta régia de 25 de Janeiro de 1439. A.N.T.T.. Uvfo 10 de Estremadura, 

foi. 177v. 

Ruy dc Pina. itb. cit., cap. XX, p. 232; C f. Ituarte Nunes dc Leão. oh. ctl.. 
cap. III, p. 97; Gaspar Dias de Landim, ob. cil,. livro 1. cap. Xiil, p. 61. 
(»«•) B.N.1^, Fundo Cerai (Reservados), n." 3390. p. 134. 

Rui de Pina escreve, erradamente, ijuc a Inf.mt.i O KÍ!;m linha on/e .mos (Oh cit.. 
cap. XX. p. 232), o mesmo acontecendo a Duarlc Nunes dc Leão. ao alirmar «que cnlão 
tazia onze annob» {Ob. cii., cap. III. p. 97) c a Gaspar Dias de Landim, quamlo diz que 
tinha a «edade de doze annosa (Ob. cit.. livro I. cap. XIII, p. 61). 

("■) Ruy de Pina. <>b. ed.. cap. XX, p. 232; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit.. 
cap. III, p. 97; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro I, cap. Xlll, p. 61. 

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1*' ilc M;ir\<' t-ic 143') revela ciiic. na referida data. se deslocou a essa quinla o 
Duque de ( oiriibra. ai se encdnirando com a rainha ( '"). l ambéni ^e deiccta a 
presença coii)unia dos dois cunhados cm Almada, em 21 tio mencionado mêsC""). 
De reslo, o Inlanie D. Pedro permaneceu ininterruplaniente em Lisboa, apenas 
com uma^ esporádicas dcsiocavões aos arredores da capital ( ). A acrescentar à 
epidemia, podemos referir a escassez de víveres que a atormentava, o que levou 
os dois governantes a assinarein um dooimento. enviado aos ofidaís e reque- 
redores dos direitos régios de Lisboa, em que era concedida isenção de dfzima. 
até às primeiras cortes, sobre os legumes e quaisquer outros mantimentos impor- 
tadas ("•). 

A rainha estanceou na sua quinta de Monte Olívete, onde era visitada com 
Trequcncia pclo Infante D. Pedro, até ao m£s de Agosto ('"). Estando aí instalada, 
nasccu-lhc uma filha, a Infante D. Joana ("*). A sua vinda ao mundo deverá 
situur-sc entre Março e Maio. pois o pai da criança, o Rei D. Duarte, falecera em 
10 dc Setembro do ano anterior (" ). Entretanto, a presença do.s infantes em 
Almada dú origem a que o Duque de Coimbra .se desloque com muita fret|uência 
a essa localidade o que se observa, pelo menos, até 3 de Julho ("*). l udo indica 
que. a p tr!ir de então, o rei e o irmAo regressaram a Lisboa, pois não mais o 
Infante D. Pedro tornou a ir à vila no período em questão ("i. 



(''•) A N r.r.. l-ivro J ./, A//^/íí-.».v. foi. 86-86V. 

«'""I A.N. r. r.. Chana lana tU- D. Afonso V, livro 19. foi. lOv. 
Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cU., pp. 30»32. 

(""I A.H.C.M.l... /./V/.' 2r tl<>\ itis D. Dituiu- <• D. .\joii\o V. doe. 15. Publicado 
n;i Moitiinunía lliin ii inn. vol. \ i. Coiínbn». l')r.4. Joc. lOS. pp. 2">2-2^3, e píir^-^iitlin^Tit»-' cm 
I)i>t iinwnios (/«> Artiiàvo llistórno da Cáiiuna Municipul tic Lisboa. Livras de Ri is. vol. 11, 
IJMhKu 1958. p. 207. 

Sobre cxta críw cconiSmica. veja-ite A. H. de Oliveira MarQues. oh. ciL, p. 271. 

t"') Humtvcrto ( arlcs Baquero Mnrcno. <>h. cit.. pp. 3I-41 

t'» Riiv ik- Pin.i. ob. (//.. cap. XXI, p. 2.^2; Cf. Duarte Nunes dc Lcào, ob. cit., 
cap. III. p. Gas|Tiir Dias dc Landim, ub. cit., livro 1. cap. XIV. p. (»l. 

I'") GomcH Eanncs de Zurara. Chronha do Conde D. Duane de Menezes, cap. XXV, 
pp. 82-83. 

Gaspar Dias de I anJini afirma qiic pouco depois de a r.iinha li ivcr chceado à «iiia 
qiiini.i deu ii III/ a liilani.i D. Joana KJb. lil.. cap. XIV. p. 61). Neste caso. sc aceitarmos 
.1 vcr.itidadc das p.il.i\i.is do cronista, deverá situar-se o nascimento da princesa no mês 
de Março. 

<"'• HumlMrlo Carlos Baquero Moreno. <>/>. cit.. pp. ÍO-l*». 
i" ) .A.N.T.T. Clui'uu 'iiii,i ilc n. -lUnisa V. livro 20. foi. 67. 

Caspar Dias dc l andim diz-nos que. no mes dc Agosto. »E1-Rei com o Inlanlc 
D I cínando lomuram para Lisboo onJe n'«s8s tempo estava o Infante D. Pedro» 
iOh. cH.. \wro I. cap. XIV. p. 62). Deve tratara duma inexactidão, pois o regresso se 
observou no mes unuriur. conforme acima fica dito. 

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D. Leoiuir deixou a quinta de Monie Olivcie e passou a residir em Saca- 
vém (' '^). Supomos que tal acontecimento >c Ncriíicou em II) de Agosto de I439("'); 
a pariir daí. surgc-nos uma serie de cartas assinadas conjuntamente pelos co- 
-regentcs. Aparecem elas dadas nessa localidade e correspondem aos dias I2("*), 
15 (>,..) 18 (.10) 20 ('-'). 21 (''-•), 22t • 24 ('•••). 26(-) c 28('=') dc Agosto. E ainda 
aos dias I 3('*).4<"), 5('»). 9<™). IO(«)c 1 1 (»> de Setembro de 1439. Esta 
série de documentos tem o condão de revelar que o Infante D. Fedro se vira 
obrigado a deslocar-se, com a maior assiduidade, até junto da rainha, de arado 
a poder dar despacho a muitos assuntos pendentes. 

A situação acima descrita era de mcride a provocar o maior icssentimailo 
no íntimo do Duque de Coimbra. Confidenciava ele com os seus coosdheiros. 
entre os quais se destaca o seu fíel ami^o Alvaro Vaz de Almada «Que por 
quanto nesta parte do R^mento. qac aceitara segundo era pequena, e a Raynha 
SC avya soltamente em todo. c desamava a elle, e todas suas cousas, elle recdiia 
grande abatymento: sua vontade era, por muyias razões que apontoa kizar 
aquelie pequeno caigo que lhe fora dado. e yise pera suas terras : e que poiân 
queria saber, que lhes parecia». Perante as roais desencontradas opiniões, chegou^ 
k conclusão de que era vantajoso escutar o parecer do Infante D. Joio O*). 



(•") Ruy dc Pina. ob. dl., cap. XXl. pL 233; Cf. Gaipar Dias de Laodiíii. «A. cít, 
livro I, cap. XIV, p. 62. 

A.N.T.T , Chtmct hriii de D. Afonso V. livro 19. foi. 8Iv. 
("-) A N T I.. Cluiindaria <U- P. A(unu> V. livro 19. foi. 81- 
("") A.N.I.I.. Cliuiuilaria dc D. A/onso V. livro 19, foi. 99v. 
[}») A.N.T.T.. Chaneelaria de D. Alonso V, livro 20. fd. 33v. 
<'-') A.N.T.T.. Chancelaria de D, Afonso V, livro 19, foi. 89v. 
(' -) A.N.r.l., Chamthtria tlv D Afonst* V. Vwio I'). foi. 88v. 
(' J A.N.T.I., Chancelaria de D. Afonso V. livro 19, foi. 78. 
(t'**) A.N.T.T.. CAuMvMi de D. Alonso V, livro 19, foL 9«. 
(O ) A.N.T.T., Chancelaria de D. Alonso V, livro 19, foi. 107. 
('^) A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonu> V. livro 20, foi. 26v. 
('-•) A.N.I. I.. Chancelaria de D. Afonut V, livro 38, foi. 3. 
('>) A.N.I .r.. Chancelaria de D. A/ohso V, livro 19, foi. 40. 

A.N.T.T., Uefo 6 de Odiana. fofe. I73v-I74. 
(>») A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V. livro 19. foi. 9«v. 
(•«) A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V. livro 20. foi. 28. 
(>«) A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V. livro 19, foi. 102. 

A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 20. foi. 30. 
("*) Vejam-se a ara icqKito dados liiopffíooB cm aptadice. 

(■^) Ruy de Pina. oh. cit., cap. XXI. p. 233; Cf. Duarte Nunes de Leio. oh, dL, 
cap. IV, pp. 88-89; Gaspar Dias de Laodíaa. oè. cii, Ihrro I, ppw C2-64. 

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Promovida a vinda do Infante D. Joào. que sc encontrava eni Alcochete, 
verificou-se a reunião entre os dois irmãos na ermida de Santa Maria do Paraíso, 
em Santos o Novo. Solicitado o seu conselho, nmsirou claramente o seu pensa- 
mento, ao niaiiilcstar que. 'coni quanto a Raynha hé muv virtuosa, e muy 
discreta, e amyga de Deos, nunca vv moor vergonha, e abatymento nosso, que 
sermos regidos per ella; pois he molhcr. e mays estrangeira». A posição radical 
assamida pelo Infonte D. João obrigou, contudo, o Infante D. Pedro a adoptar 
uma atitude prudente. Fez ver ao irmão o pengo duma divisão, que poria em 
causa a estabilidade política do reino. Insistia, no entanto, o Infonte D. João 
na solidariedade e apoio que o Infante D. Henrique, o Conde de Barcelos e 
seus filhos prestariam ao Duque de Coimbra, caso o mesmo quisesse tomar conta 
do poder. Concluía, porém. «Que seu parecer era. que por entam nom devya 
acerca dysto fazer altercaçam. nem mudança alguma, por quanto atée ás Cortes 
avya aynda bom espaço de tempo, no qual poderia ser. que a Raynha mesma 
cansaria neste cargo, e nom se sentería desposta pera elle. e serya contente 
d'algum tal meo, perque oessasem ódios, e escândalos antre elles. e o Reyno 
seria regido em outro bom assessego. como desejava» 

A agitação reinante em Lisboa perturbou de tal modo o ânimo de O. Leonor, 
que cada vez ia sentindo maior ódio contra o Infante D. Pedro. Este. em carta 
escrita aos conselheiros de Barcelona, com tlata de 12 de Novembro de 1440. 
chegou ao ponto de revelar que 'Uxi matcix mon slat E persona de vcnir cni 
gran perill » ('"'). A sanha da rainha teve como consequência expulsar de sua casa 
algumas don/elas. sobre as quais pairava a suspeita de aíci(,oadas ao Duque de 
Coimbra, lai atitude provocou uma forte reacção no seio da população lis- 
boeta (''"), mas mais se agravou a situação na capital, ao haver conhecimento 
de que D. Leonor fizera mercê a Nuno Martins da Silveira ("^. sem consenti- 
mento do Infante D. Pedro, das penas dos varejos que os mercadores dessa urbe 
eram obrigados a satisfazer cada sete anos. Foi tal a reacção, que se convocou 
uma reunião extraordinária na câmara da cidade. Estando presentes o contador 
Bartol<Mneu Gomes e o escrivão da sisa dos panos Alvaro Afonso, criado do 



("«) Riiy de Pina. oh. t/7., cap. XXII, pp. 234-236; Cf. Duarte Nunes de I.câo, ob. Cif., 
cap. IV, pp. 98-99; Gaspar í)i:is de 1 andim. nh. cil.. livro 1, cap. XV, pp. 65-69. 

('^•} I.H.M.B., Cartas RcaUs Ori^utaU'!>. B-62. 

Ruy de Fina. oh. cit., cap. XXIII. pp. 236-237; Cf. Duarte Nunes de Leio, oh. eit» 
cap. IV, p. 99; Gaspar Dias de l andim, ob. cil.. livro I, cap. XV[, pp. 70 71 

Eram estas senhoras filhas de Pedro Gonçalves Malafaia. que fora vedor d.i fa/cnda 
e de Isabel Gomes da Silva, irmã do dedicado amigo do Infante D. Pedro, Aires Gomes da 
Silva. A ouu-a dama era uma filha de João Vaz de Almada e. porUmto. sobrinha de Alvaro 
Vaz de Almada, grande amigo do Duque de Coimbra (Idem, Ihidem). 

O") Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 



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beneficiário, que representavam a rainha e se encontravam na posse da referida 
carta de privilegio, viram-se sèriamenle ameavados. O primeiro foi dcfencsirado. 
salvando-se de morte certa por ter caído sobre um telhado; quanto ao segundo, 
só a muito custo é que pôde ser defendido por uns amigos. Este tremendo 
desacato, em que se encontrava envolvida grande parte da população lisboeta, 
mais fez recear esta ^nte. do castigo, a qual desejava ardentemente que o n^' 
mento fosse entregue ao duque de Coimbra (**). 

O clima de insurreição que lavrava na capital deu azo a que o regedor da 
justiça' na Casa do Cfvel. Pedro Eanes Lobato ('"). solicitasse a D. Leonor 
«trygoso remedyo». na impossibilidade de enfrentar as dificuldades. Recorreu a 
rainha aos serviços do Conde de Arraiolos ('""). a quem pertencia pelo regimento 
aprovado nas cortes de Torres Novas, o cargo da justiça. A toda a pressa, chegou 
a Lisboa, com o propósito de tranquilizar os seus habitantes, mas dqparou com 
a existência de dois bandos que se degladiavam entre si. Bastou, pordm, que o 
oficial da iusti<;a Luís Gonçalves ("-) tivesse dito que por a yda do Conde aa 
Cydadc. cedo veryam per justiça as gigas da r\ beira chcas de pécs. e maãos de 
muytos. como de pescado- que os seus habitantes se alvoroçassem. Enquanto os 
himiens aía/endados se ausentavam da capital, com o propósito de defender as 
sua^ \idas e preservar os seus bens. os homens do povo e dos mesteres mostravam- 
-sc de momento a monicnio mais apitados Um sermão infeliz de Frei Vasco 
Alagoa. no mosteiro de S. Domingos, ainda contribuiu mais para agravar o pro- 
blema. Pesadas ameaças recaíram sobre este pregador, que teve de se pôr a bom 
recato ("»). 



(■•0) Ruy de Pina, ob. cit» cap. XXIV, pp. 237-239; Cf. Duarte Nunes de LxAo. ob. cit., 
cap. IV, pp. 99-101 : Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro I, cap. XVI, pp. 70-73. 
('*■) Vejam-se a seu icspeíto dudos biográficos em apêndice. 

('"") Supomos que a sua vinda à capital se verificou por volta de 15 dc Agosto. 
Uma carta com esta data, outorgada pelo Infante D. Pedro em Lisboa, conferia autorização 
ao Conde de Arraiolos para mandar reparar os muros, torres e barreiras das suas vilas 
(A.N.T.T., Chancelaria de D, Afonso V, livro 19. foi. 76). 

('•-) Luís Gonçalves, criado dc Pedro Eanes Lobato, fora nomeado, a pedido deste, 
cm 12 dc Abril de 1439. escrivão do descmhargd dc petições c agravos, na vaga resultante do 
falecimento dc Tomé Pires (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 18, foi. 33vj. 
A carta de perdSo que lhe fcn outorgada pelo regente, em 13 de landio de 1440, revela 
que, após o inddcnte, leve de se ausentar de Lisboa, sendo-lhe confiscados os bens « 
entregues a João dc Ataíde, cavaleiro da casa do Infante D. Pedro, e a seus homens. 
Ao ser indultado, podia regressar à capital e reaver as suas casas (A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, livro 20, foi. I8v. Publicado na Monumenta Henridna, vol. VII, Coimbra, 
1965, doe. 31, pp. 43-45). 

Riiy dc Pina oh. cit., cap. XXV, pp. 239-241; Cf. Duarte Nunes de Leão. ob. cit., 
cap. IV, pp. 101-103; Gaspar Dias de Landim, ob. cit» livro 1. cap. XVII, pp. 73-78. 

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A ameaça duma guerra civil era dc tal monta, que o Infante D. Pedro teve 
de vir cm pessoa a Lisboa, oriundo dc Camaralc. Insiplou-sc no convento do 
Carmo, onde príx-edcu a uma reunião da gente grada da cidade c d«>s oficiais 
da câmara. Na prática que leve com os habitantes da capital, censurou-os pelas 
revoltas havida.s «com que ía/ian» doesta aa Raynha. c a clle>. Ouviram-no 
com acatamento, muito embora, logo a scsuir. um procurador dos mesteres lhe 
fizesse ver que a causa do desasiossego se devia à diainstância de o regimento 
do reino «icr repartydo per muitos». Propunha esse mesteiral «que pera bem 
ser. Ott avia de fycar soomenle aa Raynlia, ou a dle». ao que retorquia o Duque 
de Goimlm que deviam aguaidar oom pacwncia as decisões a adoptar nas pró- 
ximas cortes 0^). 

Entretanto, os partidos iam-se estremando em querelas e conluios. D. Leonor, 
ao tomar oonhecimenio da revolução uiliana que sobressaltava a capitaU sentiu>se 
ameaçada Notificou a todos os fidalgos do rdno que viessem armados e acompa- 
hados de suas gentes, quando se reunissem as cortes. Mas não o fez por escrito; 
deu-o antes a conhecer secrelanMnte. através de escudeiros de sua confiança, que 
exibiam «suas cartas de creença». Apesar de todo o sigilo posto na operação, 
teve dela conhecimento o Infante D. Pedro, que manifestou a sua estranheza e 
descontentamento ao Conde dc Arraiolos. Incumlnu^ este fidalgo de o fazer 
sentir à rainha, sugerindo-lhe que desse oontra-ordem ao determinado. Apesar 
das promessas de D. I.conor. tal não sucedeu. Em pouco tempo, era do domínio 
público que a vinda dos fidalgos armados obedecia ao propósito de castigar os 
principais resptinsáveis pelo movimento sedicioso de Lisboa. ( ionte da gravidade 
do caso. veio a toda a pressa junto de D. Leonor o regedor da |usin;a Pedro Lanes 
Lobato (" ). que tinha a maior aícição por aquela senhora. Por sua indicavào. 
escreveu a rainha uma carta à câinara da capital, «cerleíicando-lhe o contrairo 
do que tynham concebido; e encomendado-lhes sua pa/. e asscsseeo com grande 
ynstancya>. Retorquiam os homens bons da cidade que a culpa do acontecido 
recaía tm muitos dos criados de D. Leonor, que por isso mereciam castigo. 
Realizado o inquérito, para dar satisfação ao seu pedido, nada se provou contra 
eles, susceptfvd de condenação O. 



(u*) Ruy de Pina. oh. dr.. aqi. XXVI. pp. 242-243: Cf. Duarte Nunes de Leio. ob. eit» 
cap. IV, pp. I03-I04: Gaspar Dias de Landim, oh. cif., livro I, cap XVIII, pp. 79-81. 
('•') Vcj.im-sc a seu respeito dados biográficos cm apêndice. 

('••) Ruy de Fina, oh. cil.. cap. XXVH, pp. 243-245; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit., 
cap. V. pp. 104-105. 

Gaspar Dias de Landim atribui a iniciativa da carta escrita pela rainha à cánwn de 
Usboa. ao conde de Anaiolos. {Ob. cil„ cap. XVIU, pp. 81-82). 

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Consciente o Infante D. Joào da gra\idadc do problema, solicitou ao Infante 
D. Pedro, que se entrevistasse com ele em Alcochete, onde se encontrava ret do 
no leito. Ignoramos o momento exacto do encontro, pois os itinerários do Infan e* 
D. Pedro não nos revelam tal deslocação. É provável, contudo, que o mesmo 
se tenha dado em 23 de Agosto, data em que nâo encontramos nenhuma carta 
por ele outorgada ("O* No decurso da conversa, insistiu o Infante D. João. junto 
do irmão mais velho, para que este se nomeasse a si próprio «Regedor do Reino 
yn solido». Garantia-lhe para isso o seu apoio, o do Conde de Ourém, «que aquy 
está comigo», e o da população de Lisboa. Não quis. contudo, o Infante D. Pedro 
proceder assim, apesar de «quam pouco contente» era «da Raynha e de seus 
máos conselheyros, e da dureza de sua condyçam». antes pelo contrário aguardou 
que os três estados da- nação, reunidos em cortes, tomassem uma decisão. Dava. 
no entanto, a entender ao irmão que se encontrava na disposição de fazer ver 
às cidades e vilas do país que estivessem «prestes pera qualquer movymento o 
novydade que se seguir» ('"). 

Efectivamente, assim aconteceu. Estando o Infante D. Pedro em Camarate. 
nas ilias 5, 6 c 7 de Setembro ( ''). escreveu a todos o^ lugares do reino, avisando-os 
dc tjuc >c preparassem para qualquer cmcrpcncia futura. Diz-nos Rui de Pina 
que a -carta pera l.ixboa foy dada na Camara da F-'e>tura a XV. dias sendo 
ja o Yfantc partido»! ). Daqui sc deprende que deve ter sido afixada na porta 
principal da Sc, na última quin/cna de Setembro, pois o Diuiuc dc Coimbra ainda 
esteve na capital, a I5('') e I6(' -) desse mês. Outras cartas com o mesmo teor 
circularam pelo País. sendo de destacar a mensagem enviada pela vereação do 
Porto, que manifestava a convicto de «que o Yfante Doti Pedro soo. sem 
outra ajuda nem companhia fosse Regedor». O conhecimento do conteúdo da 
circular galvanizou a nação em tomo do Duque de Coimbra. Bastou, para isso. 
fazer a alusão de que se preparava uma invasão do nosso território em «favor e . 
ajuda» de D. Leonor (***). 



('") Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit., p. 42. 

('") Ruy dc Pina. ob. clt.. cap. XXVIII. pp. 245-246; Cf. Du.irte Nunes de Lcâo, 
ob, cit.. cup. V. p. 105; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro I, cap. XIX, pp. 83*85. 

('") Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit.. p. 44. 

Ruy de Pina. ob. cit» cap. XXIX, p. 247; Cf. Gaspar Dias de Landim, ob cit. 
livro I, cap. XIX. pp. 85-86. 

A.N.T.T., Chanrchirio dc D. Afonso V, livro 19, foi. 90. 

('=») A.N.T.T.. aiaiicelana de D. Afonso V. livro 18. foi. 15. 

(■^) Ruy de Pina, ob. cit» cap. XXIX. pp. 247*248; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. cit., 
cap. V, pp. I05>I06; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro I, cap. XIX, pp. 85^7. 

O clima reinante então no país é-nos dado a conhecer pela not;» dum escriba alcoba- 
cense, quando escreve : «durando este primeiro ano de Regimento, pareçc que de como 

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FL S 



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Preparado habilmente o golpe psicológico, que lhe abria as portas do poder, 
dispôs-se o Infante D. Pedro a partir para as suas terras do ducado de Coimbra, 
onde tinha o propósito de organi/ar o seu exercito e jogar a sua cartada. Escla- 
rece-nos o escriba alcobacense. conteniporâiiet> de lais sucessos, que a rainha 
«o dcspre/aua mujto c nom lhe daua a onrra que mcreçia. E ante a daua ao 
arçebispo de Lixboa e seus Jrmâaos. Per seruiço de Deus e do dicto Senhor Rej 
e do Regno. espediosse delia em Secauem. termo de Lixboa. E ueosse a correjer 
a sua terra» (*^). Esta despedida deve ter-se verificado, na realidade, em 16 de 
Setembro O, data em que nos aparece a última carta assinada pelos dois regentes, 
em Cámarate. Sabemos que D. Leonor se encontrava em Sacavém, no mesmo 
dia e que o Infante D. Pedro, após se despedir do rei. pronunciou junto dela 
algumas palavras de desacato, ao manifestar cQue atéely a Raynha o tevera como 
ella queria, e que d*hy em dyante o tomaria como o achase». o que equivalia 
a um corte de relaçõerC^. 

A caminho do ducado de Coimbra, passou o Infante D. Pedro pelo mosteiro 
de Alcobaça, tendo conferenciado com o seu abade. D. Frei Estevão de Aguiar ( "). 
a quem pediu auxílio militar. Pronttfic(Hi-se ele. de acordo com a solicitação, a 
organizar uma hoste constituída por quinhentos «homeens de cauallo £ de 



ella Regia nom prazia ao poboo, em tanto que e^lc puuoo se moueu todo em iiúu ajunta- 
mento aa quererem desfozer e fazer Rejedor e curador, 4etor. defenssor o dicto ifante. 

E os dictos prellados jfantes. condes, fidalgos, nom erom em esto, ante o contr.-idezíam 
mujto». (A.N T.T . MnMrito dc Alinhaça. livro 14, fols. 36lv-362v. Piihiic.ulo pela Pro- 
fessora Virj!Ínia Ran. O Ininnii- D. Fedro e a re\!Í-ncia </<» n ino em 1439, separata Ua Revista 
lia Faculdade de Leiras de Lisboa. Ill série, n. 8, 19(.4. pp. 149-150). 

(1») A.N.T.T., Mostemi d* Akobaça, livro 14. foi. 36lv-362v. Publicado por Virgiiiia 
Rau, ob, eit., ppu 149-lSO. 

(«») A.N.T.T., Chancrtaria de O. Afonso V. livro 20, foi. 98v. 

Parecc-nos menos exacta a afirmação do erudito investigador Padre António Domingues 
de Sousa Costa, de que «todos os textos régios sc passiini si»b o mandado do rei per auio- 
ridade da rrajnha. sua madre, como sua lilor i- curador que he e com acordo do ifante 
dom Pedro, deffensor por ette dos díetos rremos e ssenhorio, como provam documentos 
de 25. 28, 29 e 30 de Novembro dc I4«s c a série grande de outros da chancdaria de 
D. Afonso V. de Janeiro a De/embro dc 14V}. {Oli. cif., p. 55), piMs o último documento 
conhecido, assinado pelos co-rciicntes, tem a data acima rcícrida de 16 de Setembro dc 1439. 

(''l A N. T.T.. Ciuinctltina de D. .Afonso V, livro 19. foi. 42v. 

(i ') Ruy de Pma. ob. cil.. cap. XXX. pp. 248-249. Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit^ 
cap. V. p. 106; Cf. Gaspar Dias de Landim, ob. eit., livro I, cap. XX. pp. 88-89. 

O Abade de Alcobaça D. Estevão de Aguiar foi nomeado pelo Infante D. Pedro, 
cm 9 de Janeiro dc 1440, membro do conselho Jo rei. tendo em atenção o «afcivom c amor 
que auees a EIR^ meu Senlior* (A.N.T.T., Alcobaça (S. Bernardo), maço 3, n. 103). 

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pee», a qual estaria em ordcni quando aquele co\ername tornasse à capital ('-"'). 
Ignoramos o dia exaclo em que se leria dado o encontro, muito embora possamos 
conjecturar que se verificou por volta de 20 de Setembro. De certeza, apenas 
sabemos que o Infante D. Pedro estava em Coimbra em 9 de Outubro, onde 
outorga uma carta em que continua a intitular-se «deffensor por ell [Rei] de sseus 
Regnos E Senhorio» 

D. Leonor pennaneceu em Sacavém até ao dia 25 de Setembro O"). Neste 
lapso de tempo, observado após a partida do Duque de Coimbra, vão dar-se 
algumas alterações na capital. Diz-nos o escriba alcobacense que, enquanto esta 
senhora esteve nessa localidade, «a çídade de Lixboa aluoraçauasse ja contra ella 
e contra todos os sseus; em tanto que hQu dia deRibarom as casas ao arçebispo 
e se o acharom mataromno» ('*-'). Temerosa a rainha com o sucedido, que deve 
ter-se verificado por volta daquela data, «foisse com seu filho pera a sua bílla 
dAlanquer E começou de Repa irar castello e nmro.s E açalmarsse e uelarsse 
E rroldarsse» n A sua chegada a Alenquer vai dar*se em 27 de Setembro n 
aparecendo cartas por ela outorgadas em tal vila, no dia 30 do mesmo mêsC*") 



Era assim recompcnsadn pelos serviços que prestara á causa triunfante. São inúmeros os 
privilégios que lhe toram concediílos. Cumpre-nds destacar a sentença de 12 de Junho de 
1443, cm que lhe foi consignada a di/:inia da sarJuiha Uc S. Martinho de Alcobaça, que, até 
à data, en recebida pelos juftts da rainha em Torres Vedras (A.NXTm CdecçÕo Especial, 
1.* parte, caixa 35, n.** 38). Um alvará do Infante D. Pedro, outorgado em 28 de Setembro 
desse mesmo ano, determinava que deveriam ficar na posw do mosteiro os bens que dele 
trazia o falecido Infante D. Fernando (.A.N.T.T., Colecção Especial, I.* parte, caixa 34. 
n.** 37). Na qualidade de abade do mosteiro de S. Bento de Xabregas, junto de Lisboa, 
recebeu, em 10 de Dezembro do citado ano. carta de guarda e encomenda da coroa, na 
qual ficavam abrangidos todos os monges, apanieuados e lavradores das quintas a clc 
pertencentes (A.N.T.T., Livro 10 de Eurcinadinú. iol. l!2v-II3). Já havia falecido cm 23 
de Março de 1446, quando o regente aprovou a eleição do novo Abade de Alcobaça. 
Frei Conçalo Ferreira (A.N.T.T., Livm It de Estremadura, foL 16). 

A.N.T.T., Mosteiro de Alcobaça, livro 14, foi. 361v362v. Publicado por VirgCnia 
Rau, ob. cit.. pp. 149-150. 

('") A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afottso V. livro 25, foi. 89v. 

("^') A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 38. foi. 4. 

(i«) A.N.T.T.. Mosteiro de Alcobaça, livro 14, foi. 36Iv-362v. Publicado por Virgfnia 
Rau, ob. cit., pp. 149*150. 

Sobre o Arcebispo de Lisboa D. Pedro de Noronha, vejam-se dados biográficos em 

apêndice. 

('") Idem, Ibidem. Idem, Ibidem; Cf. Ruy de Pina, ob. cit.. cap. XLII, p. 266; Duarte 
Nunes de Lefio, ob. cit., cap. VI, p. 114. 

('") A.N.T.T , Chancelaria de D. Afonso V. livro 38, foi. Iv. 
("^) A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 38. foi. 6. 

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c em 3r), 4(''). 6('^'). 8 ("^ \0V''). \20'% \9 T) c 29 de Outubro("»). e 
ainda em 2 f^M. 7('^^). I6d 18('"). 20 n 23 ('*) e 26 de Novembro(«). 

Por último, concede cartas em 2 ('»-). 3 (" ), 7 ( "') e 8 de Dezembro ('^). Nào temos 
conhecimento de que tornasse a dar outra carta depois da do dia 8. o que, alíás, 
se compreende perfeitamente, por ter sido desapossada da regência do reino. 

Imediatamente apos a partida de D. Leonor de Sacavém, observam-se aconte- 
cimentos em Lisboa indicadores duma mudança de situação. Numa reunião dos 
cidadãos de Lisboa coube a Vicente Egas ("*). «Cidadaão velho, entendido e de 



O") A.N.T.T., Chmeehria de D. Afonso V. livro 38, foi. 7v. 

A.N.T.T., Chanceiaria de D. Afonso V, livro 20. foi. 124v. 
("•) A.N.T.T., Chancclarui D. Afonso V. livro 38. foi. Iv. 
C*) A.N.T.T., Chanceiíina de D. Afonso V. livro 38, foi. 1. 
("») A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 38. foi. 3v. 
(»") A.N.T.Tn Chmeelaría de D. Afonso V, livro 38, foi. 4. 

A.N.T.T., Chaneelaria de D. Afonso V, livro 38. fd. 4. 
('") A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 38. foi. 2v. 
("*) A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 38. foi. 3. 

A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 38, foi. 3. 
(W) A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 20. foi. 49. 
('") A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, UvTO 18. fol. I5v. 
A NT.l., Chancelaria de D. Afonso V, livro 20. foi. 49. 
A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V. livro 20. foi. 48. 
(*•) A.N.T.Tn Chancelaria de D. Afonso V, livro 38. foi. 5. 
O") A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 20, foi. 49. 
A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 20. foi. 49v. 
A.N.T.T.. Chancflurici de D. Afonso V, livro 20. foi. 49v. 
0«) A.N.T.T., Chancelaria de D, Afonso V, livro 23, foi. 34v. 

A.N.T.T., Chaneelaria de D. Afonso V, livro 20. foi. 48. 
V) Vieeúl» Egas, ddadSo de Lisboa, desempenhava as funções de juiz da si«i desta 
cidade, conforme se comprova através dum documento de 22 de Setembro de 1425 (A.H.C. 
M.L., Livro 3." dcl-rci D. João /, doe. 34. Extractado cm Dt>cnmentos do Arquivo Histórico 
da Câmara Municipal de Lisboa, Livros de Heis, vol. 11, doe. 34. p. 129). Sabe-se, ainda, 
que participou nos prepaiativos da malograda expedição a Tânger, efectuada em 1437. 
Gonçalo Eanes, almoxarife da Guarda, eatregou^lhe iquatro contos e çento e çinquoenla 
mjl lihrav'. os quais sc destinavam ao financiamento da empresa (Pedro de .Azevedo, 
Documentos das ChanciUirias Reais anteriores a I5JI relativos a Marrocos, lomo I, Lisboa, 
1915, doe. XVU, pp. 39-43; Monumenia Henricina. vol. VI, Coimbra. 1964. doe. 99. 
pp. 281-284). 

Riú de Pina oooaidera que Vicente Egas, na qualidade de procurador da cidade de 
Lisboa, SC teria pronunciado, coniuntamcnic com Pero de Serpa, no sentido do regimento 
do reino ser entregue exclusivamente ao Infante D. Pedro (Ob. cit., cap. XIV, pp. 222-2231. 
Deve tratar-se de um lapso do cronlita, visto que os procuiadoies de Lisboa ns» cortes de 
Torres Novas de 1438 eram o referido Fero de Serpa e Tristfto Vasques (A. Moreira de Si, 
ob. etín pp. 20, 22 e 24; Monumento Henrkina, vol. VI, Coimbra, 1964, doe 96, pp. 270, 

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grave reprcscniavani*, advertir os seus concidadrios dos .imales c perigos, que por 
as mudanças presentes sc lhe aparelhavani>^. pelo que sugeria fosse eleito seu 
alferes D. Alvaro Vaz de Almada ("^), a quem já eram devidos relevantes serviços. 
Aceite a sugestão, logo dois cidadãos o foram buscar» visto que se encontrava 
ausente da capital; acompanhado até à cflmara de Lisboa, af o investiram no 
cargo para o qual fora escolhido O. O movimento iniciado pelos homens afazen» 
dados foi secundado pelos mesteirais e gente miúda, que procederam a um ajun* 
tamento em S. Domingos. Ao encontrarem-se reunidos deliberaram «Oue o Yfonte 
dcrni Pedro fosse seu Regedor e defensor soomente. e que assy prometiam de o 
requerer nas Cortes; e que o contrairo nom consentiriam ou morreriam sobrMsto, 
se o caso assy requeresse» 

Consciente do que estava a passar-se, apressou-se Pedro Eanes Lobato ("*) 
a dar conhecimento a D. Leonor dos sucessos ocorridos. Pára tanto teve de se 
deslocar a Alenquer, numa viagem que deverá situar>se entre os últimos dias de 
Setembro e os primeiros de Outubro. Reunido o conselho que assistia à viúva 
de D. Duarte, ficou deliberado que a mesma senhora escreveria aos cidadãos de 



273 e 275). Incorrem no mesmo «rro Duarte Nunes de Leão {Ob. cilu cap. II. p. 91) e 
Gaspijf Dias dc I andim, que vai ao ponto de afirmar que Vicente Fgas «sc atreveu» a fa/ci 
uma prática à própria rainha, em que lhe sohcitavu que se não dispusesse a arcar com a 
responsabilidade do regimento do reino, precisamente logo a !>eguir à abertura do testamento 
de D. Duane {Ob. eit. livro I, caps. Ill, IV e V, pp. 24-29). 

Vicente Fgas foi procurador, pela cidade dc Lisboa, nas cortes af realizadas em 1446 
(A.N.T.T.. Cluiimlarni ilf D. Afonso V. livro 5. foi. 68v). A posição por ele assumida 
durante os conflitos entre as facções do Infante D. Pedro e da Rainha D. Leonor deve 
ter diudo a atitude de D. Afonso V, ao exdin-lo da amnistia promulgada em 2 de Jandru 
dc 1449 (A.N.T.T., Uvro 2 de Místicos, fols. 202-202v; Uvro I de Bxtnu, fols. 107-I07v. 
A primeira fonte foi publicada por Humberto Carlos Baquero Moreno, O Infante D. Hen 
rique e Alfarrobeira, in Arquivos do Centro Cultural Poríuimcs, vol. L Paris. 1969, p. 60. 
htonumenta Henricina, vol. X, Coimbra, 1969, doe. 1, pp. 1-2). Não sabemos, contudo, se 
teria dh^do a cumprir o degredo de Ceuta, que lhe foi cominado pelo soberano, sendo 
de supor que nio chegou a participar em Alfanobeira, devido à sua avançada idade. Uma 
carta outorgada pelo rei em 15 de Maio de 1450 refere que Vicente Fgas já tinha sido 
perdoado do degredo que lhe fora imposto, cncontrando-se a residir no seu domicílio em 
Lisboa (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 34, foi. 91. Publicado por Pedro de 
Aaevedo, ob àt» tomo I, doe 339. p. 386; Monumento Henrícina, vol. X, Coimbra. 1969, 
doe. 164. pp. 225-226). 

(117) Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

('*) Ruy dc Pina. oh. cit.. cap. XXXI, pp. 249-250; Cf. Duarte Nunes de Leão, 
ab. ciL, cap. V. pp. 106-107; Gaspar Dias de Landim, ob, cit., livro I, cap. XX. pp. 89-91. 

(>*) Ruy de Pina, ob. cit., cap. XXXII, p. 250: Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. eit., 
cap. V, p. 107; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro I, cap. XX, p. 91. 
Vejam-ae a aeu respeito dados biográficos em apêndice. 

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Lisboa (" ). Na carta enviada aos naturais da capital c outras localidades do pais, 
exprimia D. Leonor o seu desgosto peias falsidades propaladas à volta da sua 
intenção de introduzir «gentes estrangeiras nestes Reinos» e de castigar com 
crue/a o>> responsáveis. Ouanio do regimento, solicitava-lhes que. nas próximas 
corte.s, a realÍ7arem-se em breve. v<quissessem aprovar o que FJRey Dom Duarte 
seu marido leixára. ou ao menos o que nas Cortes de Torres Novas fora acor- 
dado>v Foi lao má a recepção por parte do povo lisboeta à missiva da rainha, 
que. ao ser esta afixada nas portas da Sé por Gomes Borges ( escrivão da 
chancelaria régia, correu o mesmo grave pcngo de morte O. 

O ambiente revolucionário existente em Lisboa foi de molde a suscitar 
algumas dúvidas e receios quanto ao desfecho da crise. Uma das determinações 
tomadas consistiu em enviar D. Alvaro Vaz de Almada ao Infante D. JoSo» 
e «pedír-lhe por mercee, que pera ser sua cabeceira quisesse estar na cidade». 
Acedendo ao pedido formulado, deu o referido infante mais alento a todos aqueles 
que pretendiam ver o Infante D. Pedro no governo único do reino (***). 

O apoio concedido pelo Infante D. João à causa revolucionária deu maior 
força aos seus dirigentes para promoverem uma reunião na cflmara de Lisboa 
Pertenceu a iniciativa a Lopo Fernandes, tanoeiro, «homem velho afazendado. 
e de que o Povo fazia grande cabeceira» e ao Doutor Diogo Afonso Man- 
ganchaC*^'). Estando presente a maior parte dos habitantes da capital, ouviu-se 



(»■) Ruy dc Pi«a. ob. cit.. cap. XXXII, p. 251; Cf. Duarte Nunes de LeSo, ob. eit.. 
cap. V, p. 107; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro I, cap. XX, pp. 91-92. 

("*) Vejam-se a seu respeito dados biográficos cm apêndice. 

("") Ruy de Pina. ob. cil.. cap. XXXV, pp. 253-254; Cf. Gaspar Dias dc Undim, 
ob. eiU livro I, cap. XXI. pp. 96^7. 

('•*) Ruy de Pina. ob. cít., cap. XXXIV. p. 2S3; Cf. Gaspar Dias de Landim, ob, cit» 
Mvro I. cap. XXI. p. ')5 

('••') A primeira referencia que pudemos colher a respeito deste jurisconsulto mostrar 
•nos que, cm II de Março de 1427. eru escolar cm Leis e juiz dos feitos de D. João I 
(A.N.T.T., Chancelaria de D. João I, livro 4, fols. lOOv-IOI. Pubikado em Chariularíum 
Univcrsitatis Portunalensis. vol. III, Lisboa, 1969, doe. 875, p. 340. Acerca deste jurista, 
vcia se A. H. de Oliveira Marques. Dr. /J/ovíj Afonso Mani;aiicli(i. in Dicionário </<• História 
lU Poituiiul. dirigido por Joel Serrão, vol. 11. Lisboa, s. d., pp. 902-903). A circunstância de 
nos apaiecer como licenciado, no instrumento de posse da igreja de S. Nicolau, a qual foi 
anexada à Universidade de Lisboa em 30 de Junho de 1430. parece constituir um indicativo 
dc que teria frequentado essa instituição. Após ter-sc formado em Direito C^ínónico c Civil, 
foi lente de Decretais no mencionado f-stiido {Chartularium Vnivcrsiuitis Portu\:alcnsis, 
vol. Ill, Lisboa, 19(i9. doe. 931, p. 401), Dc facto, figura como professor da Universidade 
de Ijsboa numa escritura de venda outorgada em 12 de Outubro de 1431 iUvro Verde da 
Universidade de Coimbra (Cartulârío do Século XV). ed. A. G. Rocha Madah l. Coimbra. 
1940, p. 197; José Maria Rodrigues, O Infante D. Henrique e a Univeradade (Documentos 

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um discurso pronunciado por este notável jurista, em que foram apresentados 
diversos argumentos extraídos do Direito Civil e Canónico e ainda de outras 
fontes, em que procurava provar-se nâo ser legitima a entrega do poder a uma 
mulher. Concluía a sua exposição, defendendo a ideia de que o regimento do 
reino deveria pertencer a um varão, recaindo tal direito sobre o Infante^ D. Pedro, 
o qual reunia na sua pessoa os requisitos indispensáveis ao desempenho da 
função. Seguiu-se no uso da palavra um vereador, que agradeceu em nome dos 
presentes a oração apresentada, para logo a seguir se escutar a vo/ de D. Alvaro 
Vaz de Almada, o qual foi do parecer de que o regimento deveria ser entregue 
ao Duque de Coimbra, ao mesmo tempo que apontava o perigo que representava 
o rei ser ^<criado em poder do molhercsí. Dividiram-se as Hptniões. sendo a 
minoria representada por Mariiin Alluv cidacLio aleiçoado a D. Leonor, que 
pretendia adiar a resolução para outra reunião, e a maioria dirigida pelo cida- 



(lo linhivi) ilti Uiii\ii\itliule. itlalivits ao ptntccltiiiiilo c (cn htiiriUio^ iln InfoiHt- D. ILn- 
riquc), in O Instilulo, vol. XLI, 1893-1894. p. 494; Monuitunui Uinruinti, vol. IV, Coimbra. 
1962, doe. 2, pp. 2-4. Sianariada por Francisco Leitão Ferreira, Noticias Chronolóftkas da 
Universidade de Coimbra, I.* parte. Coimbra. 1937, p. 271: Thcofífo Braga. História da 
Viiivt isUade de Coimbra /rin suas relações com a insiniçíin pública portuiiueza, lomo I. 
Lisboa, 1892. p 140; Mário Braiiilfio c Manuel I opcs dc Almciil;!. .( U niversiiUult' ilf 
Coimbra, Esboço tia sua História, Coimbra, 1937, p. 115; João Martins da Silva Marques, 
Descobrimentos Portugueses, suplemento ao vol. I, Lisboa. 1944. n.** 749, p. 483: A. Moreira 
de Sá, O infante D. Henrique e a Universidade. Lisboa. 1960. p. 63). Na mencíonailB data, 
assisliu. em representação dessa instituição, à tomada de rf'*'^*^ ^'«'"^ c;is:is que lhe tinham 
5Ído doadas pelo Infante D. Henrique (Jose' Maria Rodriiiiics, i>h. ai., p. 498: Monaiiu nia 
HeiniLiiia, vol. IV, Coimbra, 1962, doe. 4, pp. 9-10. Sumariado por Diogo Barbosa Machado, 
Bibiwtheca Lusitana, tomo I. Coimbra, 1965. p. 628). 

Nas exéquias solenes, celebradas em Outubro de 1433. por altura da trasladação do 
ciirpo dc I). João I puni .i Batalha, coube-llie fa/er uni sermão consagrado ao falecido 
ini>narca (Ruy dc Puia. ( hroiiua ito Senitor Key D. Dnarle, cap. V. p. 88; Duarte Nunes 
de Leão, ChronUu e vula Jeirey D. Duarte, cap. II. p. 8). No ano seguinte, foi autor da 
•Proposição» às cortes de Sanuirém (A. H. de Oliveira Marques, ob. cit., p. 902). D. Duarte 
nomeou-o, em 18 de Novembro de 1435. como membro da embaixada portuisuesa no Concílio 
dc Basileia, a qiitl ci i chefiada pelo Conde de Ourém (A.Ci.S. listatl,» K, 1711. p. 382. 
Publicado na Momumnla ilenriiiita. vol. V, Coimbra, I9()3, doe. 88. pp. 175-177, c nO 
Ciiariuiarium Liiiversiiatis Poriugalensis, vol. IV, Lisboa, 1970, doe. 1030, pp. 103-I04. 
Cf. Ruy de Pimi. ob. cit.. cap. VIII, p. 94 e seg. e Duarte Nunes tie Lcfto. ob. cit» cap. IV. 
p. IS e sc^is ). A missão diplomática, n.i i|ual ele participou, saiu de Lisboa em Janeiro dc 
1436, tendo chegado ao destino em 1 1 de Dc/embro desse ano (António Pereira de Figueiredo, 
Porluguezes nos Coiuiiios Ceraes, Lisboa, 1787, pp. 47-59). 

O Doutor Diogo Afonso Mangancha tomou parte activa nos acontecimentos que 
alcandoraram o Infante D. Pedro ao lugar cimeiro do poder. Pronundou trCs oraçíks nas 
cortes dc Lisboa de 1349. todas elas orientadas no sentido de fundamentar os direitos que 
assistiam àquele governante (Ruy de Pina, Citronica Jo Seitlior Rey D. Afíonso V. caps. XLVI 

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dão Rui Gomes da Grã. homem de antiga linhagem, que manifestou apoio à 
candidatura do infante D. Pedro ('^). 



e XLÍX, PP 273-274 e 277-278, respectivamente; Duarte Nunes de Leão, Crónica e vida 
delrey D. Ajuitso V, cap. VM. pp Ciaspar Dias de l andim, oh. cií.. cap. XXX, 

pp. 131-133). A posição por cie assumida na reíerida conjuntura vaieu-lhe amplos benefícios. 

Foí-lhe doada, em data desconhecida, a quinta da Charneca» lituada no termo da Lisboa, 
a qual. segundo o instrumento de outorga, foia confiscada a D. Fernando de Cascais. 

A pedido do beneficiário, fa/ia-se a rectificação de que essa propriedade fora pertença de 
D. Afonso de Cascais. O regente confirmou-lha, em nome do rei, a 24 de Fevereiro de 
1441, quando ss encontrava em Lamego (A.N.T.T., Livro 10 de Estremadura, foi. 144v). 
Numa carta de mercê ao seu criado Tristão Gomes, de 15 de Fevereiro de 1442. alude-se 
ao facto «do nosso bem amadoa Doutor Diogo .Afonsi.> Mangancha, do conselho do rei, 
ser presidente da Relavâo, na ausência do regedor da Jtisii*,a, Aires Gomes da Silva 
(A.N.T.T., Chancelaria de D. AJonso V. livro 23. foi. 86v). Tal situação volta a ser con- 
firmada nas carUis de mercê ao seu escudeiro Afonso Eanes, de 4 de Janeiro de 1444. 
(A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 24, foi. 9. Faicialmente publicado em Char- 
tularium Universitaiis Porttigalensis, vol. IV, Lisboa, 1970, doe. I 3B. p. 406) e ao seu 
criado Afonso Trigo, de 21 de Dezembro desse mesmo ano ( A N T.T.. Clumcflaria de 
D. Afonso y, livro 25, foi. 65v). Também lhe foram doados os bens móveis e de raiz 
pertencentes aos irmios Diogo Barradas e Gonçalo Barradas, moradores em Beja, os quais 
se tínham exilado em Castela, «falando e obrando cousas em nosso deseruiço e contra nossos 

Regnos. (Carta régia de 12 de JunhO de 1443. A.N.T.T.. Chanr, !,ir!., ,/, D Afnnsn V. 
livro 35, foi. 29. A mesma doação voltou a ser feita em 27 de De/cinhrn de 1444. A.N.T.T., 
Chancelaria de D. Afonso V , livro 35, foi. 3U; Livro 4 de Odianu, fols. 46-46v). 

O seu último acto público de importftnda consiste no discurso de transmissio de 
poderes efectuado nas cortes de Lisboa, em que representa o Infante D. Pedro. Três dias 
depois, agora em nome do rei, solicita ao regente que continue associado ao governo do reino 
(Kuy de l'ina. <>/>. cit., cap. LXXXVI, pp. 352-355; Gaspar Dias dc Landim, oh. cit., livro 11. 
Lisboa. 1893, cap. XXXI, pp. 149-152). Anselmo Braamcamp Freire afirma, equivocadamente, 
que o Doutor Diogo Afonso Mangancha teria sido designado para substituir Aires Gomes 
da Silva no cargo de regedor de Casa do Cível. Para isso, parte da suposição errada de 
que este teria sido exonerado em meados de 1447, quando, na realidade, só o foi depois 
do afastamento do Infante D. Pedro, em Julho de 1448, numa altura em que o célebre 
jurisconsulto já n&o fazia parte do mundo dos vivos {Ob. cit» livro II, Coimbra, 1927, 
pp. I7I'I72). Na realidade, como já vimos atrás, este legista só actuou como substituto do 
titular do cargo, quando o mesmo se encontrava ausente. Também o Doutor Oliveira 
Marques se equivoca quando escreve que »D. Pedro cai cm desgraça durante o ano de 1447. 
Diogo Afonso, como tantos outros, parece também ter-lhe virado as costas» ao elaborar o 
seu testamento de 1447 (Qh. cit., p. 902). Pensamos que outras razões se deverlo buscar 
para explicar a incompatibilidade entre os dois velhos .«migos, precisamente quando o 
Dr Mangancha escreve no seu testamento tie 9 de De/embro de 1447 ; -Peço por mercee 
ao Iffante Dom Pedro, que com meu Testamento, nem coussas, nom aja dc ver, nem se 
entremeta, per bem nem per maL e se tal coussa reccrrecer, leixo a elRey, que per sy, 
e per conselho doutros, e nom delle. ho determine...» (João Pedro Ribeiro. Dissertações 
Chronoitigicas e Criticas sobre a Historia e Jurisprudência Ecclesiastica em Portugal, tomo II, 

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Lido o acordo, em princípios de Outubro de 1439 — 0 qual apenas teve a 
oposição de Maitím Alho e dalguns que o seguiam — . constava o mesmo do 
seguinte teor: «Em nome de Deus. nosso Salvador e Redemptor Jesu Clirisio. 
e de sua Santíssima mai a Virgem Maria Nossa Senhora, acordamos, em buma 
voz e acordo, todos os fidalgos e cidadãos e povo desta cidade de Lisboa, 
conciderando o trabalho e grande destruição que em todo o reino ha em ter 
diversos regentes, entre os quais ha grande devisão. com grande damno e perda 
da republica; e querendo acodir e remediar a lais damnos, em serviço de Deus 
e de elrey. nosso senhor, como quem o ama muito leal e verdadeiramente. 
Acordamos e determinamos, que nestas cortes que com o favor de Deus serão 
feitas, depois de conhecermos a lealdade c grande prudência do muito alto e 
exelente ísic) príncipe e senhor o infame D. Pedro e como hc filho do muito 
podero/o c victorioso senhor rei D. João nosso senhor, cuja alma Deus tem. 
c o mais velho do sangue, chegado à nun alia e real coroa do muito alio e 
exelcnle (sic) príncipe elrey D. Al*inso. nc^sso senhor, que ciie senhor infanle 
seja regente livrenicnlc in solidum neslcs reinos, até que pra/endo a Deus. 
elrey nosso senhor seja em idade pera os go\ernar. Ao qual tempo o dito senhor 
inlanle. seu leal sangue e Vassallo, lhe deixará livremente a pt>sse de seus revnos 
e senhorios e lhe entregará a admini.siiav.io e governo delles. pcra elle os governar 
e administrar, como fizerão os mui virtuosos reis seus antepassados, de cujo 
tronco elle descende. E sucedendo tal caso que o senhor jnfante D. Pedro não 
possa ter o governo delles. pella mesma forma e maneira sera dado aos mui 
leaes príncipes e senhores os in&ntes D. Henrique e D. João. seus irmãos; e fale- 
cendo elles. seja por semelhante modo dado ao senhor infante D. Fernando*, que 
Deus traga com liberdade de Affrica; e faltando elle ou não vindo, então pella 
mesma forma venha ao infante D. Affonso e a seus filhos os condes de Ourem 
e Arrayollos. E cada hum delles a que vier os governe até que el-rei nosso senhor 
seja com idade pera os governar. E assi acordamos e determinamos que a muito 
alta. excelente e prezada rainha D. Leonor, nossa senhora, madre delrei nosso 



Lisboa, 1857. p. 257). Pouco depois, falecia. A sua morte deverá situar^se entre 4 e 7 <le 
Janeiro de 1441!, quando ainda governava o rebente (Idem. Ihuhm). 

Tendo sido casado duas vc/cs. não teve lilhos legítimos. A primeira mulher ch.imava-sc 
Branca Anes e u segunda Maria Dias. No testamento, doixou consiçnudo que sc fundasse 
um colégio numas suas casas, situadas junto da Igreja de S. Jorge de Lisboa, o qual se 
destinava a étn ctrfegiais, de idade superior a 16 anos, que possuíssem conhecimentos de 
gramática ou fossem sacerdotes (Diogo Barbosa Machado, ob. cit., pp. 628'629). 

(••«) Ruy de Pina. oh. cit. cap. XXXVI, pp. 254-255: Cf. Duarte Nunes de I eâo. 
ob. cit» cap. VI. pp. 109-110; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro 1, cap. XXII, pp. 91i l0a 

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Fl. A 



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senhor, seja sempre cm sua vida e honra nianleiíiia. acatada c servida em seu 
alto e real estado e por cMa mui nobre e leal cidaiL- de 1 isboa e povo delia 
seja sempre feito tanto serviço e mando como em vida delrei D. Duarte, nosso 
senhor, e como até agora foi, assi como somos obrigados, por ser madre delrei 
nosso senhor e suas grandes virtudes» 

O acordo, aprovado na câmara de Lisboa, foi dado a conhecer em primeiro 
lugar, ao Infante D. Jofio, que se encontrava oa capital, instalado nas casas da 
moeda. Ao ter conhecimento do seu conteúdo, deu-lhe a mais calorosa aprovação. 
Inebriados os habitantes da primeira cidade do reino pela sua adesão, promo- 
veram uma reunião no refeitório de S. Domingos, a qual teve como finalidade 
dar a saber a todos os cidadãos as principais cláusulas do acordo. A instâncias 
ao alfaiate Diogo Pires, muitos foram os homens das profissões que assinaram o 
documento. Logo a .seguir, tiveram a preocupação de o dar a conhecer a D. Leonor, 
aos infantes e a todo o reino. Diversas foram as reacções suscitadas ao mesmo. 
Enquanto a rainha o rejeitava, o Infante D. Pedro respondia-lhes afirmativamente, 
mostrando-se disposto a «aceitar o Regimento, e secuir jurar e manter as condi- 
çoões do acordo». Fm contrapartida, o Infante D. Henrique, na resposta que 
enviou, vnom mostrou ser do acordo contente», visto ser da opinião de que a 
decisão apenas cabia aos três estados da nação reunidos em cortes, no que 
muito descontentou os cidadãos de Lisboa c seu irmão, o Infante D Jo.io. que 
SC encontrava presente. Também o Conde de Barcelos sc mostrou pesaroso, 
opondo-sc assim ao júbilo reinante na cidade do Porto ('-*). 

Ja depois do acordo estabelecido, deram-se graves alterações na cidade de 
Lisboa Um dos objectivos a atingir consistia na pos.se do seu castelo, cuja 
alcaidaria pertencia a D. Afonso de Cascais ("^, fidalgo afeiçoado à rainha, o 
qual introduzira no seu interior alguns fidalgos e gentes da sua confiança. Pro- 
curou o Infante D. João desfazer o ambiente de tensão, fazendo vir até ele 
D. Maria de Vasconcelos, mulher do alcaide da cidade, a quem propôs que seu 
marido e filho procedessem à entrega da fortaleza. Perante a otetinação da 
recusa, procedeu-.se ao assédio do castelo, ao qual foram cortados todos os meios 
de manutenção. Vendo-se D. Afonso de Cascais em situação delicada, acabou. 



(W) Mommenta Henricina. vol. VI, Coimbra, 1964, doe. 109, pp :*)V295: Cf. Ruy 
dc Pini <>h. rir cap. XXXVII, pp. 256-257; Gasp«r Dias de Landim, ob. cit^ livro I. 
cap. XXm. pp. 101-102. 

('») Ruy de Pina. oh. cii.. cap. XXXVIII e XXXIX. pp. 258-60; Cl. Duarte Nunes 
de Leio, ob. cit» cap. VI, pp. I lO-l 1 1 ; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro I, caps. XXIII 
e XXIV. pp. 10M08. 

()**) Vejam-se a seu respeito dados biográficos a pp. 100-101. 

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ao fim dc alguns dias. por o cnirecar ao Infanic D. João bicava assim resolvido 
o último problema da capilal. antes da reali/avão das suas cortes (-'*). 

Enquanto o Infante D. Pedro organizava a sua hoste nas terras do ducado 
de Coimbra, a Rainha D. Leonor efectuava em Alenquer uma intensa actividade 
epistolar. Os presentes acontecimentos vão verificar-se na primeira quinzena de 
Outubro. Tal série de missivas era enviada aos seus partidários, para «que nam 
vycssem aas Cortes, e se escusassem como melhor vyssem: e enviassem a ella 
procuraçoões abastantes com suas protestaçoões de nom outorgarem, nem obede- 
cerem em cousa que se nelas acordasse». Eram destinatários o Prior do Cratof"*). 
D. Duarte de Bragança D. Duarte de Meneses Fernão Coutinho (^). 
Gonçalo Pereira (^), Alvaro Pires de Távora 0< Diogo Soares de Albergaria C"). 
Fernão Soares C"), Rui Vaz Pereira (^), Lu{s Alvares de Sousa O, Pero Gomes 



Ruy de Pina. ob. cit., eap. XLI, pp. 263-265; Cf. Duarte Nunes de Leio. ob. ciu 
cap. VI. pp. 112-114; Gaspar Dias de Landim, ob. eit„ livro L cap. XXVL pp. 113-117. 

(-■"') Vejam-se a ^eu respeito dados biográficos a pp. 70-72. 

p-) Possuía o senhorio dc Bragança c era alcaide do easlcln de Outeiro de Miranda. 
Faleceu, sem herdeiros, em Janeiro ou Fevereiro de 1442 (Ruy de Pina. ob. cit.. cap. LXXXI, 
p. 342; Duarte Nunes de Lefio. ob. cit., cap. XIII, p. 154; Gaspar Dias de Landim, eit.. 
livro l[. cap. XXVlIi. p. 134). 

('°^) Vcjam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice, 
p») Idem. 
Idem. 
Idem. 
(-"•) Idem. 

(-"^) lalvez possa identiticar-sc Cí>m Fernão Soarei dc Albergaria, senhor do Prado 
(Anselmo Braamcamp Freire, ob. cit., livro il, pp. 342-343). 

C*} Rui Vaz Pereira eia fiilio segundogénito de Gonçalo Pereira de Riba de Vizela 
das Armas e de D. Meda, filha €lo Arcebispo de Braga, D. Martinho {Livro de Linhagens 
do Século XVI. p. 67). Foi senhor de Cabcceíias de Basto (Anselmo Braamcamp Freire, 
oh. cit.. livro I. p. 324), tendo sido diversas as queixas formuladas contra cie. Assim, nas 
cortes dc £voru dc 1442, os procuradores do Porto lamentavam-se de que este fidalgo, que 
nlo possuía terras no seu termo, se apoderava abusivamente de pão, galinhas, vacas, car- 
neiros, lenha e carreias que pertenciam aos lavradores (A.N.T.T., Uvro 4 de Alim-Donro, 
foi. 207v). Idêntica queixa era efectuada pelos procuradores de Guimarics, desta vez nas 
cortes de 1 isboa dc I44«'), contra o fidalgo (A.N.T.T., I.ívid 4 ilv Âlt'm-Douro, fo!s. 198-I98v). 
Ainda nas mesmas cortes, os procuradores apresentavam que a «villa tem priuillegios c liber- 
dades antre os quaacs he hflu que nhOu fidalgo nom faça casa de mocada na dita villa. 
nem pouse em ella nmys que oyto diasa. Ora, acontecia que Ruí Vasques Pereira, e outros 
fidalgos, item aqui casas de morada, os quaacs ssom mujio odiosos ao dito comçelho. per 
muytas rrazòocs : a primeira he a sua casa se cheguarem algilus que ssom theudos aa 
justiça e os juizes nom ousam a fazer delles comprimento de direito com medo do dito 
Rruy Vaaz e doulrost (A.N.T.T.. Uvito 4 de Alétn-Doturo, foi. 198-I98v). De igual modo 
se lamentavam de que ele «da pamcadas per sua miao aos judeus e judias da dita villa. 

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de Abreu (""). Leonel de Lima (-' ). Gomes Freire de Andrade (*"). Lopo Vaz de 
Castelo Branco (■'*). Martim Afonso de Melo (■' ). Diogo Lopes Lobo (•"). Fernão 
de Sá. (-''). João de Gouveia (-'*). D. Sancho de Noronha (-"), Vasco Fernandes Cou- 
tinho e muitas outras pessoas de menor categoria social. A atitude de D. Leo- 
nor fora ditada pela certeza de que ia ser privada do regimento do reino, pro- 
curando assim obstar a que as mesmas funcionassem regularmente, dada a impor- 
tância que possuíam as entidades mencionadas (-*)• 

A par das cartas enviadas aos principais fidalgos do reino, dirigiu-se a 
rainha por escrito ao Infante D. Henrique, com o propósito de u incompatibilizar 



F. SC os iiiizcs a ello querem hir vcer quem lhes deu. os ameaçam e nom ousam a fazer 
direito. E outras cousas muytas semeihauees a estas. Polia quall rrazoiu os moradores da 
dita villa lho nom queriam comsemtir que clle csteuesse em cila. H cllc se socorrco ao 
icnhor rregcmtc. o quall senhor escpreuco aos juizes c homceus boons da dita villa, que 
lhes prouucssc de o Icixarcm aqui estar, porquanto sc scmtia mall por algOus dias. E ellc 
agora ha homze meses e açcrqua dc doze que aqui esta sempre com toda sua casa. seemdo 
ja sãao. H diz que quer estar e fazer sua vontade, c tem casas mercadas, e outras que o 
comçelho tem pcra os presos lhes tem per força ocupadas com suas bestas. E diz que 
dali numca lhas tirara, saluo damdolhe o comçelho outras sem dinheiro» (A.N.T.T., Livro 4 
Ae /Hcm-DoutK. foi. I98-I98v). Não chegou a participar cm Alfarrobeira, porque já era 
falecido em 21 de Março de 1449 (A.N.T.T., Livro 3 de Místicos, fols. Il2v ll3). 

Rui Vaz. Pereira casou com D. Beatriz dc Noronha, filha bastarda de D. Afonso, 
Conde dc Noronha e Jijón, a qual era criada de D. t.conor (Livro de Linhaacns di> 
Sixido XVL p. 68). Obteve aprovação do matrimónio cm 22 dc Maio de 1439. com o 
dote de 401X) coroas de ouro. à razão dc 40 (KK) reais brancos anuais, até ao seu integral 
pagamento (Carta dc confirmação dc 21 dc Março de 1449, a qual fora solicitada pela 
viúva após o falecimento do marido. A.N.T.T.. Livro J de Mi<ticos, fols. I19v-I21). 
D. Beatriz dc Noronha apresentou uma carta, assinada pelo Infan .• D. Pedro, cm 30 de 
Agosto de 1442. cm que Gonçalo Pereira dava a seu filho Rui iz Pereira, por motivo 
dc leu casamento, os lagares de «ElRey» no termo dc Lisboa. D. Afonso V confirmou em 
21 dc Março dc 1449 a Rui Vaz Pereira, o Moço, filho deste casal, a referida doação 
(A.N.T.T.. Livu> J de Misiicos, fols. lI2v-II3v). 

(-'") Vcjam-sc a seu respeito dados biográficos cni tpêndic. 

(-") Idem. 
. -.cn.. 

(2" lilem. 

(-'♦, Jcm. 

(2'') !cm. 

(2") Idcii.. 
;'") Idem. 
( '») Idem. 
Idem. 

(-•) Ruy de Pina, oh. cit., cap. XL, p. 262; Cf. Duarte Nunes de Leão. ob. cit.. cap. VI. 
pp. 111-112; Gaspar Dias de Landim, ob. cii.. livro I. cap. XXV. pp 111-112. 



44 — 



com o irmão mais velho. No entanto, o Infante D, Pedro, que se encontrava cm 
Montemor-o- Velho, «foy delia primeiro sabedor* c apressou-se em procurar o 
Navegador, que então estava em Soure. Esclarecidos os motivos da visita, partiu 
tranquilo o Duque de Coimbra para a capital do seu ducado. Dois dias depois, 
chegou às mãos do Infante D. Henrique, por intermédio de Martim de TávocaO* 
a carta de D. Leonor. Admirado da sem-razão do seu conteúdo, visitou o irmão 
cm Coimbra e testemunhou-lhe confiança e solidariedade O. 



(-~) Vcjam-se a seu respeito dados biográficos cm upcndicc. 

(^) Ruy de Pina, ob, cit„ cap. XLIII. pp. 266-268: Cf. Duarte Nunes de Leio, 
úb. cit.. cap. VI, pp. 114-1 IS; Caspar Dias de Landim, ob. r/í., livro I, cap. XXVII, 

pp. lts-i:i 

Diverge Mihsianci.ilnicntc da dos primeiros .itilores citados a narração que Gaspar 
Dias de Landim apresenta dos factos. Segundo ele, «Chegava-sc o tempo das cortes, pelo 
que os Infantes D. Henrique e D. JoSo c^reveram ao Infante D. Affonso seu irmio que 
estava cm Barcellos, que com a brevidade possível se viesse à cidade de Lisboa, porque 
tinham de tratar com ellc muitas couza> que importava serem tratadas antes d*cllas; o qual 
veiu logo, e tanto que loi na cidade se ajuntaram no Carmo, c entre as mais que trataram 
foi que era necessário em todo o cazo ser a Rainha presente a cilas, e porque sabiam 
que sua tençio na era essa, como era notório, ordenaram que um d'elles a fosse visitar, 
e persuadir-lhc que viesse; e porque também sabiam que o Infante D. João o nio 
acabaria com cila por o ter por mui contrario, principalmente n"cstc tempo, por razão 
da resposta que tinha dado a D. Maria de Vasconcellos. e da entrega do Castello de 
Lisboa, e dado que do Infante D. Henrique não tivesse essa desconfiança, se sabia que 
tinha mais uffeiçio ao Infante D. Affonso, pela qual razão assentaram que elle fosse 
fazer a visita; c tratar com ella de sua vinda ás côrtes, o que elle fez mais por rogo dos seus 
irmãos, que ir lhe parecer bem. porque o seu foi sempre que se n5o deviam fazer as 
côrtes cm Lisboa, pela inquietação do povo c preparações do Infante D. Pedro, mas 
estavam as couzas em tal estado que não podia ser menos, por já estarem aprestados 
para ella, e avizados os Estados do Reino, e outras razões». 

«O Infante D. Affonso se partiu para Alcmquer, onde a Rainha estava, e levou em 
sua companhia o C onde de Arrayoilos s;.ni filho, c tanto que foram na villa todos os 
fidalgos deila os foram a visitar da sua parte da mesma Rainha, e lhe pediram que 
olhassem por suas ctHoas, e as favorecessem porque só n*ellcs tinham sua confiança, ao 
que lhe responderam, que bem certa devia Sua Alteza de estar de que os tinha a seu 
serviço cm que nunca fariam couza contra clkr. c sabendo que guardavam a viUa e 
punham vigias com medo do povo de Lisboa, lh o estranharam, dizendo que não haviam 
de ter atrevimento para tomar armas contra a Rainha, c todos os seus motins e alvoroços 
nfio eram mais que de portas a dentro, de que elles se escuzaram com encarecer o grande 
odío que a cidade lhe tinha, e com o cerco que poucos dias havia tinham posto ao Castello 
dri mesma cidade, e peia estima em que os tinham, pois a todos OS que estavam COm a 
Rainha lhe não sabiam outro nome senão os inimigos.» 

«Logo no mesmo dia foram a vizitar a Rainha, e depois de havor de parla a parte 
muitos offerecimentos, ella lhe fez muitas queixas das sem razões que o Infante D. Pedro 
lhe fazia, e tratou do grande desejo que tinha de El-Rei cazar com sua neta, como ji 

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Prolongou-se por alguns dias a entrevista entre os Infantes D Pedro e 
í). Henrique, à qual assistiu o Conde de Barcelos. Acordaram entre m enviar 
esie último a Alenquer, com o propósito de convencer a rainha a assistir as 
cortes de Lisboa, que deveriam começar a funcionar em 30 de Novembro. Mostrou- 
-se renitente D. Leonor cm participar nelas, ao estabelecer como condição que a 
sua ida ficaria dependente da revogavão do acordo celebrado entre as cidades e 
vilas do país. ao elegerem o Infante D. Pedro para repedor do reino Terminada 
a sua missão, seguiu o Conde de Barcelos para Coimbra, onde se entrevistou 



tinham algumas vezes praticado, c assim de que folgara que o governo «Jo reino ficara 
a um dos Infantes, qualquer que fosw, comlanto que nfo fôra o Infante D. Pedro, 
por muitas couzas e razfles, e a principal, por não haver por s^uia a vida de «eur 
filhos debaixo de seu poder.» 

«Passadas estas praticas, a quem o lnf;intc respondeu com outras muitas de agra 
decimento, e com palavra de não faltar nunca elle, nem o ( onJc seu filho, em matérias 
de seu serviço e honra, lhe disse como seus irmãos, e elle pcrtcndiam pôr as cousas em 
paz e quietação, e sobre isso e outros negócios de muita importância assim, do governo 
do leino, como do resgate do InCanle D. Fernando, e a scisma que havia suooedido no 

Pontificado, era necessário acharem-sc presentes nas cortes Hl-Rci. c cila, ao que a Rainha 
lhe respondeu, que ella iria á!> cortes por satisfazer a elle, e ao Infante D. Henrique, mas 
que para isso haviam de aperceber algumas cousas, a primeira que o aooordo feito pela 
cidade de Lisboa e povo ddla se havia de haver por nenhum, e se havia de tratar da 
matéria do governo como se não fôra feita sobre isso determinação alguma, e que os 
Infantes D. Pedro e D. João haviam de deixar fazer a eleição livre, e haver por deso 
brigados alguns fidalgos, procuradores e outras pessoas, do juramento que lhe tinham 
feito fuer de lhe darem o governo, e haver os taes juramentos por irritos e nenhuns, 
para que podessem dar seus votos livres a quem entendiam se devia justiça, e que as o6rtes 
ic nSo haviam de fazer na cidade de Lisboa, por quanto não era logar seguro para ella, 
nem para os fidalgos, os quacs não podiam votar livres cm seu favor sem grande perigo 
de suas pessoas, pela soberba e insolência do povo da dita cidade, que já estava posto 
em armas, mas com determinação de ficar o Infante D. Pedro sem esse cargo que elles 
diziam que lhe tinham dado, ainda que fosse com risco de se perder a cidade; dizendolhe 
por fim que pois havia ser lusto o que determinava, e todos ou os mais fidalgos do reino 
assim lho tinham aconselhado, os quacs lodos determinavam não sc achar nas cortes não 
se satisfazendo ao que ella pedia.» 

cpareociido-nie ao Infante D. Affonso que a Rainha no que pedia tinha razão, a não 
quiz persuadir, e ia despediram d*eihi, dle e seu filho com esta resposta escripta, e a s s i g n ada 
de sua mão; e não faltaram alguns curiosos que afirmavam que elles mesmos lhe aconse- 
lharam que a fizesse assim; e tanto que tornaram a Lisboa assentaram com os mais 
Infantes que o mesmo Infante D. Affonso fosse a Coimbra a fallar com o Infante D. Pedro 
a vêr ae os podia ooocertar, ou que elle quisesse vir n*aqudlas condíçãcs que a Raidha 
pedia, 0 lofo se partiu sem dillação.» (Ibidem). 

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com o irmão. D;iqiii partiu para Guimarães onde. num acto de duplicidade, pro- 
cedeu a reunião de que íu/ium parle o Arcebispo de Braga D. Sancho de 



D. Fern;inJo da Giiori;i. Aicchispn Jc Brapa. era filho dc D. Pedro da Guerra 
u bisneto de D. Pedro I e de D. Inês de Custro. visto o seu progenitor ser filho natural 
do Infante D. Jofto (Formnato de Almeida, História áa lan ja em Poriugtú, tCMono II, 
Coimbra, 1912, p. 540: Monsenhor José Augusto Ferreira, Fastos Bpiseopaes do Igreja 
Primacial Je Braida, tomo II, Braga, I93I, pp. 249 e segs ; Padre Avelino de Jesus Costa, 
R{'l<içõtK </<• D. Afonso V coni Castela e .\r(i\ião cn\ Braga, 1952, p. 8; Idem, 

D, Fernando da (iiiena. in Dicionário de História de Portugal dirigido por Joel Serrão, 
tomo 11, Lisboa, s/d., p. .197). Devia ser filho ilegítimo, em virtude de não constar que 
sua mãe, Maria Eanes (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 19, foi. Sl)t estivesse 
casada com seu pai, o qual, segundo Fernão l.opcs, era consorciado COm D Teresa, 
filha de João Fernandes de Andeiro, Conde dc Ourem. {Crónica lU- D. Fernando, ed. Livra- 
ria Civilizavuo, Porto, 1966, cap. CXXXiV, pp. 373-374. Veju-se sobre este assunto us 
considerações tecidas por Anselmo Braamcamp Freire, ok. àt^ livro II, p. 350, em que 
o autor pOc a alternativa — no caso de D. Fernando da Guerra não ser ilegítimo — de a 
mulher dc D. Pedro não se chamar Teresa, contra o que afirma o cronista, ou entSo do 
pai do arcebispo ter casado pela segunda vc/. Opina, no entanto. Braamcamp Freire (Ob. cit., 
p. 150) ter a convicção dc que o nosso personagem era filho ilegítimo, ideia que perfi- 
lhamos, apesar de não nos ter sido possível encontrar o docmnento de legitimação). Assim, 
contrariamente ao que alguns autores supOem, a circunstância de D. Fernando da Guerra 
ser filho de Maria Eanes obsta a que o mesmo seja neto do Conde de Ourém, cuja fama 
se ficou devendo sobretudo u sua ligação ilícita com a Rainha D. l.conor de Teles. 

Estudou em Bolonha e em Pádua, tcndo-sc formado in utroque iure (Padre António 
Domingues de Sousa Costa, Estudantes porttigueses na Reitoria do Colégh de S, Clemente 
de Bolonha na primeira metade do século XV. Lisboa, 1969, p. 21; Chartidarium Univer- 
siíalis Porttiiuilcnsis. vol. IM, Lisboa, 1969, doe. 7-l(), pp. 182-183). Foi nomeado Bispo de 
Silves cm 1404, havendo sido transferido para a diocese do Porto em 1414 (Conradus Eubel, 
Hururciúa Caihoiíca Mcdiiai vi. vol. I, pp. 144 e 407. Fortunato de Almeida escreve que 
este prelado já exercia as funções de bispo do Porto em 1416. {Ob. cit., p. 540). Sabemos^ 
com efeito, que já o era em 1414, quando, no ()iit(>no ilcssc ano, sc encontrou em Bolonha 
com o Anti-papa João XXIII iCliarles Martial De Wiite, Lcs biilics poníificates et Vcxpan' 
sion poritinaist' aii XV' sièclc. in Reviw d Uisloire Eclésiasúque, tomo XLVlli (pp. 683- 
-718), Luuvain, 1953, p. 687 n. 1). Cumulativamente às suas actividades eclesiásticas» «nsrda 
o cargo de chanceler-mor de D. João I e regedor da justiça do reino, sendo«no« contudo 
impossível precisar as datas em que foi investido em tais ofícios (Fortunato de Almeida, 
oh. cit.. p. 540; Padre Avelino de Jesus Costa, Rihiçõcs de D. Afonso V com Castela 
e Aragão iin 1460, p. 8; Idem, D. Fernando da Giurra. p. 397). Sabemos que foi nomeado 
governador temporal da arquidiocese de Braga, em 11 de Junho de 1416, ascendendo à 
posição de arcebispo dessa diocese mediante a bula de nomeação Romani Pontifieis de 
Martinho V. outorgada em 15 de Dezembro de 1417 (Conradus Eubel, ob. cit., VoL I, 
p. 452; Padre Avelino de Jcmis Costa. D. Fernando da Guerra, p. 297). 

A sua acção à frente du diocese dc Braga parece ter sido a todos os títulos notável. 
Em 22 de Dezembro de 1426, reuniu um sínodo provincial na sede do seu bispado, o qual 
tinha como objectivo reivindicar certas liberdades e privilégios eclesiásticos, que tinham 

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Noronha (" ). Vasco Fernandes Coutinho í-^). Martim Vaz da Cunha Pero 
Gomes de Abreu C*"). Leonel de Lima (-'O, Alvaro Pires de Távora (*) e Luís 



•ido desrespeitados pelo soberano (Padre Avelino de Jesus Costa, ob. eit., p. 397; Fortunato 
de Almeida, ob. cit., p. 541). Procedeu igualmente a diversas reformas, tendentes a disci- 
plinar o clero e a doutrinar os leigos. Para isso. reduziu à categoria de igrejas p;iroqui;iis 
alguns mosteiros cuja decadência na vida comunitária justificava a sua extmvão. Dc igual 
modo, lovott a efeito a uniio de algumas freguesias que, devido à sua insuficiência econó- 
mica, nlo podiam nwnler um pároco (Padre Avelino de Jesus Costa. O Bispo D. Pedro 
e a organização da eíiocai- dt- Braga, in Biblos, vol. XXXIII (pp. 135-670), Coimbra. 1957, 
pp. 421-422; Fortunato de Almeida, oh. cit., pp. 540-541). Foi ainda autor da publicação 
de muitas constituições e decretos disciplinares visando a moralização de fiéis e religiosos 
(Padre Avelino de Jesus Cosia, D. Fernando da Guerra, tomo 11. p. 297). 

Além da sua intensa actividade religiosa, teve a seu cargo o desempenho de inúmeras 
obrigações de natureza laica. Bastará recordar que pertenceu ao conselho do rei (Padre Ave 
lino de Jesus Costa, Relações r/c />. -t/d/rvo V cuni ( usttlti r -tiourii) eni 1460. p. 8). 
£ também do no.sso conhecimento qui: recebeu um cimvite do Papa Eugénio IV para 
participar no CiMicflio de Basileia (Bula de 16 de Fevereiro de 1433. Monumento Henricuta, 
vol. IV, Coimbra, 1962. doe. 58, pp. 213*214), no qual não chegou a estar, conforme se 
depreende da carta de D. Duarte ao pontífice, de 18 de Novembro de 1415. devido ao 
conflito que travava com o rei (Monumenla Henrivina, vol. V. Coimbra. 1963. doe. 88, 
pp. 175-177j. Efectivamente, D. Fernando da Guerra apresentou algumas queixas a Eu- 
génio IV, peto facto de D. Duarte restringir os privilégios da Igreja e, simultaneamente, 
procurar reduzir os direitos que ele posMlfa Sobre a cidade bracarense (Idem. Ibidem, 
doe. 121, pp. 241-245). Esta atitude deve ter exacerbado o espírito do rei, o qual endereçou 
uma missiva a Aires GiMiies da Silva, regedor na correição de Entre-Douro-e-Minho, 
dando-lbe instruções para que fizesse «çertos proçedímentos contra dom Fernando» arce-> 
bispo de Braga, meu sobrinho, e contra os seus. príuandoos de quacesquer ofiçyos e 
príuilegios que teuesem», pelo que se depreende que o mesmo tivesse deixado de ser 
chanceler-mor do reino e regedor da justiça (Carta régia de 5 de Janeiro de 1437. .A.D.B., 
Colecção Cronolósica, caixa 25). £ de supor, no entanto, que as relações entre D. Duarte 
e o arcebispo nem sempre tmham sido conflituosas, sobretudo nos primórdios do reinado 
deste monarca, tal como se pode ver na carta régia de 31 de Dezembro de 1434, em que 
o prelado bracarense era autorizado a adquirir por compra bens mdveis e de niz 
(A.N.T.T., Chancelaria dc D. Duarte, livro I. fols. 47-48). 

Desempenhou um papel importante no<> principais acontecimentos da nação. Assim, 
quando se «ttacutia. nas cortes de Leiria de 1438, a entrega de Ceuta — com o objectivo de 
libertar do cativeiro o Infante D. Fernando — . foi da opinião de que essa praça não podia 
ser devolvida sem o consentimento do papa, o qual teria de alcançar a prévia aprovação 
do consistório cardinaUcio. Alegava, como fundamento principal, a realização dos > Sanctos 
Sacrificios que por muytos annos nella forom já celebrados, e dai muytas Igrejas Sagradas 
e Altares alevantados, e outras muytas cousas a Deos já dedicadas, o que por salvaçSo 
d algQua humanai pessoa em O contrayro se nom devia cor ertcr» (Ruy dc Pina, Chnmica 
do Senhor Rey D. Duarte, cap. XI., p. 179: Duarte Nunes de leão. Crónica e vida 
delrey D. Duarte, cap. XVII, pp. 68-69). Em Novembn iesse ano, esteve presente nas 
cortes de Torres Novas (A. Moreira de Sá, oh. cit., pp. 25*26; Monumenla Henricina, 
voL VI. Coimbra, 1964. doe. 96, pp. 277-279X 

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Alvares de Sousa C"). com quem assentou que não fossem às cortes de Lisboa, 
cposto que elle fosse, e que em qualquer fdrma que a qualquer parte ficasse 



Ao suifíieiii as disoòidiu entre D. LeoBOT e o iDftnie D. Pedro, seguiu o partido 
da rainha. De facto, paieoe ter anuído à sua solicitação de nio oompaiccer nas oortes 

de Lisboa de 1439 (Ruy de Pina, Chronica do Senhor Rey D. Afonso V. cap. XL. p. 262; 
Duarte Nunes de Leão, Crónica e vida delrey D. Afonso V, cap. VI, p. 111; Gaspar Dias 
de L^dim, ob. cit., livro I. cap. XXV, p. 111). Deve ter assumido, contudo, um papel 
de apaztguamento, confoinie se depreende da carta que lhe taãmçaa Aioo» V de 
Ara^o, em que o sobeiano se congratula por estar em curso uma concórdia entie os 
cunhados desavindos (Carta régia de 13 cie Setembro de 1440. Monumento Henritímo, 
vol. Vn, Coimbra, 1965, doe. 108, pp. 169-171). Também o Papa Eugénio IV lhe escreveu, 
no sentido de ajudar a harmonizar as discórdias existentes, numa altura em que a situação 
se encontrava trremediàvelmente perdida (Bula de 25 de Janeiro de 1441. A.S.V.. R^estum 
Vaiicaniim. vol. 359, foi. I17v). Vamos encontrá-lo na concórdia celebrada em Lamego, 
no mês de Fevereiro de 1441, entre o regente e o Conde de Barcelos, à qual se associou 
com júbilo, entoando o salmo Ecce qutiDi honN/n et quam jucundum habitare fratres in 
unum (Ruy de Pina, ob. cit., cap. LXXV, p. 329; Duarte Nunes de Leão, ob. cit., cap. XI, 
p. 146; Gaspar Dias de Landim, ob. tíL» livro II, cap. XXT, p. 110). A paxtir de cotio, 
deve ter modificado a siia atitude em lelaçto ao Duque de Coimbra, o qual, como prémio, 
o reintegrou no cargo dc chanccler-mor do reino, de que havia sido afastado pelo 
Rei D. Duarte [Carta régia de 29 de Novembro de 1441. A.D.B., Colecção Cronológica. 
caixa 26. Anselmo Braamcamp Freire mostra desconhecer a data de nomeação do arce- 
biqw para o cargo de chanodennor, quando escreve que por cêste mesmo tempo foi, 
segundo parece, nomeado chanceler-mor». Para o eCaito aprasenla uma carta Jc 28 de 
Novembro de 1441 - dia anterior ao de sua nomeação, em que figura o Dr. Rui Gomes 
de Alvarenga como tlogo.teente do Arcebispo de Braga, seu primo e seu chanceler-mor» 
iOb, cil., p. ISO)]. Por esia aloim. deve ter sido ainda investido no cargo de regedor da 
Casa da Siq^dcaçio, offcio que já cjterda, efectivamente, em Deiembro desse ano (Ansdmo 
Braamcamp Freire, ob. cit., p. 150). 

No decurso da regência, aparece-nos como protector do recém-criado Estudo de 
Coimbra, o qual não chegou a funcionar, ao mesmo tempo que o de Lisboa, por carência 
de meios humanos e financeiros (Carta régia de 31 de Outubfo de 1443. A.N.T.T., Chan- 
«torta de D. Afon$o V, livro 35, foi. 25. PuMicado por Firancisco Leltio Ferreira, NoUeiaa 
chronologicas da Universidade de Coimbra, vol. I, Coimbra, 1937, pp. 704-707; Chartu- 
lariiim UniversiUilis Portiigalensit, vol. IV, Lisboa. 1970, doe. 1329, pp. 401-403). Também 
durante esta fase, deparamos com alguns conflitos travados entre o prelado e o Duque de 
Bragança. Chegou ao ponto de se queixar ao frente de que os seus moradores do couto 
de Orneias (terra do Barroso) eram agravados por este fidalgo^ o que deu origem a que 
o governante se dirigisse por escrito ao acusado, com o objectivo de encontrar uma 
plataforma de entendimento (Carta de !2 de Março de 1446. B.P. e A.D.E., Manisola, 
códice 24, p. 50). Nova contenda entre ambas partes tornou a surgir, quando o Arce- 
bispo de Braga manifestou ao rei que o Duque de Aragança «lhe deuassaua çertos coutos 
que dle tinha em suas tenas. Quebnmtando as jurdiçõees delles». ao que este fidalgo 
respondia «que o dito arçebispo sc aprauaua comtra Rezam, porque dos coutos que 
elle dezia teer em suas terras e jurdiçõoes, que em elles ocupaua, nom tinha allgOu 

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B.7 



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o Regimento, sempre seria com segurança de suas bonnas. e esperança de mais 
seu acreoentamento» O. 



legitimo títollo, nem Rezam per que em suas tenas deiieaae teer, nem ocupar» (Carta 
régia de 24 de Janeiro de 1447. A.NT.T.. Uvm 3 de AUm-Douro. foi. 7l-7lv). 

Nada consta relativamente à presença deste prelado em Alfarrobeira, é muilo pro* 
vávcl que se encontrasse ausente na sua diocese de Braga, o que em parle talvez se possa 
explicar pela série de conflitos que travou com o Duque de Bragança e à situação que 
tttufruia durante a regência. Saliente-se. contudo, a sua fidelidade ao rei, que fica provada 
por uma auto de privilégio de 7 de Agosto de 1450, na qual se menciona pertencer ao 
conselho do rei e exercer o ofício de ch:inceler-mor do reino ÍA.N.T.T., Chancelaria de 
D. Afonso V, livro 34. foi, 8v). Também numa carta piisterior, outorgada em 28 de 
Novembro de 1454, se faz alusão ao faclu de continuar a ser regedor da Casa da Supri- 
caçlo (A.N.T.T>* Chancelaria de D. Afonso V. livro 10, foi. 115). D. Afonso V oónoedeu» 
•lhe piivil^o para que trinta dos seus escudeiros e capelães pudessem andar em bestas 
muares de sela e freio (Carta régia de 6 de Fevereiro de 1453. A.N.T.T., Chaneelaria de 
D. Afonso V. livro 3. foi. 9). 

O Arcebispo de Braga fez-se representar no auto de juramento do Príncipe herdeiro 
D. Joio, celebrado em 25 de Junho de 1455, na capital, por D. Lopo de AlmeidB, 
Conde de Abrantes (D. António Caetano de Sousa. Provas da História Genealâgka da 
Casa Real Portuf>iiesa. tomo II, 2." parte, Coimbra. 1947. p. 105). Durante os períodos 
de ausência da corte, fazia-se substituir no desempenho dos seus cargos pelo Dr. Rui 
Gomes de Alvarenga (A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V. livro 12, foi. 85; Anselmo 
Braamcamp Fkeiie, ob, eii.. p. 150). Por carta régia de 31 de Agosto de 1459, obteve 
isenção do pagamento da dízima e portagem aplicada sobre os produtos importados. 
Tal privilégio somente era concedido a membros da casa real, pelo que se abria uma 
excepçSo (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro J6, foi, 219). A última fase da 
tua ciriattncia caracleriza-se por uma série de questfies copn . o E^ue de Bragança e 
pela defesa intransigente dos direitos eclesiásticos da sua diocese, que atravessava uma 
grave crise, devido às guerras e às epidemias. A este incansável prelado ficou-se devendo 
a fundação da Colegiada dc Santa Maria de Barcelos e do Arcediai; iJo de Fonte Arcada, 
além da restauração da capela de S. Geraldo e da ampliação do Paço Arquiepiscopal 
(Padre Avdíno de Jesus Coste, D. Femmdo da Guerra, p. 397; Fortunato de Almeida. 
ob. eit., pp. 541-542). Faleceu em 26 de Setembro de 1467 (Anselmo Braamcamp FIrdie, 
ob. cit.. pp. 150-151; Fortunato de Almeida, oh. cir. p. 542). 

Q^) Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(«) Idem. 

Martim Vasques da Cunha era filho primogénito de Vasco Martins da Cunha, 
o Moço, e de Beatriz Gomes da Silva {Livro ée Unhagens do Século XVI, p. 141). Herdou 
de seu pai o senhorio da terra de Lanhoso, com suas rendas e direitos e jurisdição civil 
e criminal, bem assim como o julgado da Tábua e o morgado da Cunha (Anselmo Braam- 
camp Freire, ob. cit.. p. 164). Casou com Méda de Andrade, de quem teve dois filhos: 
Alvaro da Cunha e Vasco Martins da Cunha {Livro de IMihagens do Séeuio XVI, pp. 14l>142). 

(W) Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(») Idem. 

(««) Idem. 

(■>) Idem. 

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Conhecedora D. Leonor da anii/ade I' lian*;a que asi era feda antre o 
dicto Senhor Jtanie E o dicto dom abade.>. ordenou, do que parece sob inspirarão 
de Nuno Martins da Silveira (-' "). que fossem «aa sua granja dOia. que este ano 
começara dabrir o paul delia E ouuera húu pouco de pam que hi tijnha. que 
lhe tomasse todo o trigo que bi adiassem E o lleiíaawiii aa dieta ujlla». Na rea> 
lidade, «beerom hi os seus E tomarom dhi oyto moyos E hilu alqueire de trigo 
de 1x111]** o moto». O Abade de Alcobaça não se mostrou muito preocupado com 
tal sequestro, o mesmo não acontecendo com o Duque de Coimbra, que. ao saber 
da culpabilidade de Nuno Martins da Silveira, «lhe mandou socrestar por esto 
em Évora L moios C^. De igual modo. determinou a rainha que fosse tomado 
todo o gado existente na granja da Ota, o que deu origem a que o vaqueiro 
Blás Gonçalves tivesse fugido com ele para o mosteiro, em 18 de Outubro 
de 14390. 

Entretanto, o Infante D. Pedro safa de Coimbra, em meados dc Outubro, 
acompanhado por 1800 cavaleiros e 2600 peões, em direcção a Lisboa. Entre os 
seus principais companheiros, figuravam João Gomes da Silva (•*'), D. Fernando 
de Meneses ( ■*). Álvaro Gonçalves de Ataíde (•'"). D Fradique de Castro (^). 
Fernão Coutinho (irmão de Vasco Fernandes CoulinhoM "'), Gonçalo Va? Cou- 
tinho('*^). Pero de Lemos (-*') e João de Alaíde (-'-). Apesar do Bispo de Coim- 



Ruy de Pina, oh. cit.. cap. XI IV, pp 2f>8-270: Cf. Duarte Nunes de Lcilo. oh. til.. 
cap. Vil, pp. 1 16-117; Gaspar Dias de Landim, ob. cii.. livro I, cap. XXVIII, pp. 122-124. 

Escreve este último cronista que, após o Conde de Barcelos haver estado com o 
Infante D. Pedro em Coimbra, bem se apercebeu de «que seu ím^ nio viria eni partido 
algum oomo não fosve ficar oom o governo, e como os ânimos de ambos nio eram muito 
conformes, c a elle lhe parecesse sua causa mais justa, e por outros respeitos propoz de 
em tudo o que pode&se favorecer a causa da Rainha e encontrar a do Infante seu irmão; 
pelo que logo de Coimbra se foi a Guimarftes, e d« lá mandou recado a alguns prelados 
e fídalgos mais qualificados que se viessem a vêr com éUe, que tinha de Iratar com elles 
sobre matérias tocantes ás còrtes que estavam para se feaer; a que accudtmm todos os 
que seguiam as parles da Rainha, e foram os principaes d*este ajuntamento...» {ibidem. 
p. 123). 

("^) VejanMe a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

("*) AN.T.T., Moadro de Alcobaça, Uvro 14. foi. 361v362v. Publicado por Virgínia 
Rau, ob. cit.. pp. 149-150. 

P') A.N.T.T.. Musieiro lU- Ahobaça. livro 14, foi 37Iv. 

Vejam-se a seu respeito elementos biográficos a pp. 20-21. 
^ A seu respeito v^jam^ dados biográficos cm apêndice. 

Idem. 

^ Idem. 
(«■) Idem. 
{^) Idem. 
(») Idem. 
(») Idem. 

— 51 



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bra O nio se incorporar na expedição. tcHnava parte nela moita da sua gente O**). 
Um pouco alÀn de Maiorga. o Abade de Alcobaça aguradava com os seus qui- 
nhentos homens a chegada do Infante D. Pedro, conforme o anteriormente com- 
binado. Reunidas as hostes, em que «todos comjam aa custa do jfante. saluo 

el c os seus que comjam aa custa de! dicto dom abbade». dirigiram-se para o 
mosteiro de Alcobaça, de onde acabaram por sain com destino à capital, em 

22 de Outubro( ' ). 

Avisada a rainha de que o Duque de Coimbra se preparava para vir a 
Torres Vedras e daí a Alenquer, que fica relativamente próximo, com o intuito 
de «levar logo ElRey aas Cortes», tratou de lhe enviar um mensageiro com o 
propósito dc o demover. Era este Henrique Pereira (^*), o qual interceptou o 
Infante D. Pedro em Alfeizarào e lhe pediu «Que na maneira em que hia escusasse 
sua hyda, honde ElRei e ella e seus Fylhos estavam. a.ss> porque pareceria desa- 
catamento, estando eUes tam soos. como por a Villa nom ser capaz de seu apou- 
sentamento, e menos abastante pêra os mantn. E que se sua lúda assy era 
necessária, que se nom podia escusar, que quysesse hir muito aforrado». Aos 
receios manifiestados. retorquia o Duque de Coimbra que muito lhe molestavam 
as suspeitas lançadas à sua volta, pois lhe custava bastante ver como D. Leonor 
era tio mal aconselhada. A entrevista deve ter-se realizado em 23 ou 24 de 
Outubro, isto é, um ou dois dias depois da partida do mosteiro, dada a sua 
proximidade desta localidade ("O- 

Fiel à sua palavra, tomou o Infante D. Pedro o caminho da capital. É muito 
possível que tenha checado ao Lumiar uns dois ou três dias antes de entrar em 



{'^^) Fra D. Alvaro Ferreira bacharel em Direito, Quando exercia as funções de Deão 
da Sé dc Évora, foi nomeado Bi&po da diocese de Coimbra. Investido neste cargo em 21 
de Outubro de 1429. peranneoeu nele até ao dia de ma mon^ ooocrida cm 6 de Maio 
de 1444 (Comadus £ubei. ob. df.. voL I, i». 196), Segando Fbrinaato de Almeida, «teve 

este prelado grandes questões com o cabido, que invocou a auctorldade do in&nte D. Fledro 
como governador e defensor do reino» (Ob. cií.. livro II, p. 548). 

(^) Ruy de Pina, ob. cit., cap. XLV, p. 270; Cf. Duarte Nunes de Leão. ob. cit.. 
cap. VIL p. 117; Oaipar Dias de Landim, ob. tít., Hvro I, cap. XXIX, pp. 126-127. 

Este dilimo autor afirma, erradmente, que o Bispo de Coimbra tomou parte na expe- 
dição (Oh. cif., p. 126). A prova da sua ausência reside nos cronistas citados e no próprio 
escnba alcobacense, quando ei>creve que, com o Abade de Alcobaça, não ia «outra tam 
onrrada pessoa, nem de tanta jente» (A.N.T.T., Mosteiro de Alcobaça, livro 14, fols. 161y 
-362v). 

(**^) A.N.T.T.. Mosteiro de Akobaça, livro IA, fols. 361v^362v. Publicado por VlfgAiia 
Rau. ub. cit.. pp. 149-150 

(MC) Veja-sc a sua biografia em apêndice. 

Ruy de Pina, ob. cit. cap. XLV, pp. 270-271; Cf. Duaite Nunee de Leáo, ob. cit., 
cap. VII, p. 117; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro I, cap. XXIX, pp. 126-127. 

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Lisboa, o que se verificou cm 31 de Outubro, pois os seus cidadãos lhe solicitaram 
que aguardasse a publicação do novo acordo, que lhe conferia o regimento 
in solido. Aproveitou o Duque de Coimbra a paragem para despedir grande 
parte da hoste que o acompanhara. Publicado o acordo em 30 de Outubro, no 
refeitório dc S. Domingos, logo lhe foi enviada pela cidade uma deputação cons- 
tituída pelos cidadãos Pero de Serpa ('''"). Martim Sapata (■"''), Rui Gomes da 
Grã e João Carreiro (^), a qual lhe deu a conhecer o mesmo e o convidou a entrar 



P'") Vejam-sc a seu respeito daUos biográficos a pp. 11-12. 

Martim Sapata apanee>noc como coudel da ddade de Lisboa em 17 de Abril 
de 1439 (A.N.T.Th Chaneelúria de D. Afonso V, livro 19, foi. 66v)» como cavaleiro do 

infante D. Pedro em 1 1 de Agosto de 1441 (A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 2, 
íol. 110) c .Tind.T como tesoureiro-mor da moeda de I isbo:i cm 25 de Março de 1445 
(A.N.T.T., ChanccUiiia de D. Duarte, livro 2, foi. 37v). Faleceu cm 1456, quando de.sem 
penhava o cargo de tesoureiro-mor do rei (A.N.T.T., Ckaneelarkt de D. Afonso V, livro 13, 
foi. 99), tendo obtido em beneffcio de seu filho Alvaro Sapata, uma bolsa anual de 4500 
reais brancos «pêra sseu mantijmcnto com que aprenda no estudo» (Carla régia dc 1 de 
Abril de 1450. A.N.T.T., Chancelaria dc D. Afonso V. livro 34. foi. 63. Cf. Humberto 
Carlos Baqueio Moreno, Um aspecto da politica cidimui de D. Afonso V: a concessão 
dê bolsos de estudo, separata da Revista de Ciências do Homem da Universidade de Lou> 
renço Marques, vol. 111, série A, 1970, p. 30). 

C**) João Carreiro, cidadão de Lisboa, era escudeiro e criado do Infante D. Pedro. 
Coube-lhe a tarefa de organizar a frota enviada a Ceuta cm 1440, sob o comando dc 
D. Fernando dc Castro, para o que cobrou uma importante soma dc dinheiro e objectos 
destinados à expedtçio (Carta de quitação de 2 de Abril de 1441.. A.N.T.T., CfumcehrUt 
de D. Afonso V,. livro 2, foi. 102. Publicado por Francisco Marques de Sousa Viterbo, 
Uma expedição pnrtiigueza às Canárias cm 1440, pp. 346-347; João Martins da Silva Marques, 
oh. cit., vol. I, doe. 320, pp. 406-408; Monunienta Henricina, vol. Vil, Coimbra, 1965, 
doe. 143, pp. 224-226). No mencionado ano, juntamente com outros cidadãos, envolveu^sc 
em conflito com Alvaro Vasques de Almada, alcaide-mor de Lisboa. Impendia sobre este 
fidalgo a acusação de ser o responsável pela escassez de pão existente na cidade, pelo que 
o acusado intentara uma acção contra os homens bons da capital. O regente, em carta 
escrita à vereação da câmara de Lisboa, no dia 12 de Maio de 1440, comunica as diligências 
efectuadas com o seu «fiell e bem amado consselheiro» Alvaro Vasques de Almada, no 
sentido de ter com eles «aqoella bfta maneira e amizade que ataaquy teuera», pois ttaaes 

demandas a mim nom praz secrem começadasi (A.H.C.M.L., Livro 2." dos Reis D. Duarte 
e D. Afonso V. doe. 20. Publicado na Moniiiuenui Henricina, vol. VII, Coinibr;i, 1965. 
doe. 77, pp. 109-111. e exlractado em Documentos do Arquivo Histórico da Cumaru Mimi- 
cipal de Uàtoa» Livro de Reis, vol. II, pp. 273-274). A seu pedido, Diogo Afonso, criado 
em sua cata, foi nomeado lequendor da portagem de Lisboa, em substituição do falecido 
Meem Afonso (Carta régia de 16 de Janeiro de 1443. A.N.T.T., Ckan^laria de Ú. Afonso K, 
Uvro 27, foi. 24v). 

João Carreiro foi procurador do concelho de Lisboa, nas cortes aí realizadas em 
1446 (A.N.T.T., Chtaweiaría de D. Afonso V, Uvro 5, foi. 68v). Sabe-se que o nosso biogra* 
fado andou fugido da capital, apds o afastamenlo do regente ocorrido em lulho de 144S. 

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na cidade como hóspede, no dia seguinte. Perante algumas reservas e diívídas 
formuladas pelo regente eleito, respondiam os representantes da capital que «das 
Cidades e Villas. que nelle bam de dar voz, aquy temos per suas cartas seus 
consentymentos» 

Ao dar entrada na capital, o Infante D. Pedro foi recebido por seu innSo, 
o Infante D. João, por alguns fidalgos e por pessoas destacadas na vida da urbe 
lisboeta. Instalaram-no nas casas do Mestre de Avis, as quais se encontravam 
junto à Sé de Lisboa C'). Por seu lado. o Abade de Alcobaça. D. Estevão de 
Aguiar, hospedou-se em casa de Afonso Eanes, chantre da Sé de Lisboa, que 
estava localizada próximo da porta de Alfoufa (^'). Depois do Duque de Coimbra 
ter assistido à celebração da Missa no dia festivo de Todos-os-Santos. em 1 de 
Novembro, jurou, impondo as mãos sobre as do Bispo de Évora (*^, e sustendo 
nelas o missal e o crucifixo — , «de bem e lealmente reger, e deffender estes 
Reynos em nome d*ElRei Dom Afonso seu Senhor, atée ser em desposiçam de 
os persy poder reger e deffender, e que entam lhos entregaria livremente, e sem 



Na amnistia outorgada pelo soberano, em 2 de Janeiro de 1449. aos partidários do antigo 

governante. encontr;iva-se este cidadão entre os excluídos da mesm;i. Pesava sobrc clc a 
obrigação, num prazo de Irés meses, de cumprir um degredo em Ceuta A ira régia, mani- 
feslada em relação à sua pessoa, deverá atribuir-se ao piípel por ele assumido na subida 
ao poder do Infante D. Pedro (A.N.T.Tn Livro 2 át Ml^kos. fols. 202>202y; Livro / de 
Extras, fols. I07-I07v. A primeira fonte foi publicada por Humberto Baquero Moreno, 
O Infante D. Henrique e Alfarnihcim. p. M); Monti/ncnta Henricinn. vol. X, C oimbra. 1%*). 
doe 1. pp. 1-2). £ muito provável que tenha chegado a cumprir o degredo em Ceuta, pelo 
que se depreende que não deve ter tomado parte na t>atalha de Alfarrobeira. Uma carta 
cdgia de 15 de Maio de 1430 revela que já fora abrangido pda amnistia, vivendo instalado 
na sua casa cm Lisboa (A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 34. foi. 91. Pedro de 
Azevedo, ob. cii., tomo I. doe. J39. p. 386; Monumenia Hetiricitut, vot. X. Coimbra, 1969, 
doe. 164, pp. 225-226). 

Ruy de Pina, ob. cii.. cap. XLV, pp. 271-272; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cil., 
eap. VII. pp. 117>II8: Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro I. cap. XXIX. pp. 127*129. 
Escreve o autor alcobaoense : «E chegaram a Lixboa em saltado. XXX dias do dicto 

mes [de Outubro)» (A.N.T.T., Mosteiro ile Akobaça. livro 14. fols. 36lv-362v. Publicado 
por Virgínia Rau. ob. cit., pp. 149-150). Trata-se de um lapso, poi o sábado recaía em 
31 de.sse més. 

('«) Ruy de Pina, ob. cit., cap. XLVL pp. 272-273; Cf. Duarte Nunes de Leio. 
ob. cífM cap. VII, pp. 1IS-1Í9; Cásper Dias de Landim, ob. cit, Kvvo 1. cap. XXIX, p. 129. 
(») A.N.T.T., Alcobaça (S. Bernardo), maço 27. n.« 26. 
^) VejanHK a seu respeito dados biogrifieos na p. 22. 

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contradivam nem cauiella, e o serviria sempre com amor e lealdade, como bom 
c leal Vassallo» (**). 

As cortes de Lisboa apenas tiveram início em 10 de Dezembro de 1439. 
nos Paços da Alcaçova (''). Apesar do Infante D. Pedro ter permanecido durante 
todo o mês de Novembro na capital (^). o atraso verificado no seu começo 
deverá atribuir-se ao facto dos procuradores dos concelhos terem tardado bastante, 
por razões diversas, em chegar ao destino. Pertenceu a proposição inaugural ao 
Doutor Diogo Afonso Mangancha o qual falou em nome do Infante D. João 
— apesar de este ter chegado a pronunciar algumas palavras — por o mesmo se 
encontrar incapaz de o fazer, devido à emoção que o dominava. Propunha-se o 
orador «provar em nome do Yfante Dom Joham, que fora bem feito enleger o 
Yfante Dom Pedro por soo Regedor, contradizendo o acordo, e detreminaçam 
das Cortes de Torres Novas, em que o Yfante nom fora. e de sy mostrou com 
claras rezoões. aprovadas per Dereito Divino e Humano, e autoryzadas por claros 
emiemplos. que roolber nom devia ter Regimento. Nem que dous em companhia, 
nom deviam reger; mas hum soo. e pera ser hum soo devia ser o Yfante 
Dom Pedro, e que a Raynha servyssem. c acatassem todos como era rezam e o 
requeria, ser molher e madre de laaes dous Reis. sangue e virtudes que tinha». 
Procederam depois os presentes à elaboração e à aprovação de um acordo, por 



C- '*) Ruy de Pina, oh. ril.. cap. XI VI, p. 27V. C f. Duarte Nunes de I-cão, ob. tít» 
cap. VI, p. 119; Gaspar Dias de Landim, ob. cii.. livro I, cap. XXiX, pp. 129-130. 

Segundo o autor alcobacense, o Infante D. Pedro «foy Reçebido do jfanie dom Joham 
leu jrmão que se com elle Ijou, E do conde daRayollo» que esUiua amigo da Rainha e 
nom tijnha ca nem lia. E do bispo dEuoni que tijnha com Ifante. E o poboo da dieta 
çidade E outros doutras çidades, ujlas e lugares do Rcgno. que pera esto forem juntos 
per rrequerimento e chamamento de Lixboa. E logo ao domingo segujnte que era primeiro 
dia do mes de Nouembro da dicui era, per estes todos nom sseendo hi o diclo conde, foy 
fccio na Saee tetor, curador. RéjedcH-; deCmaior per o diclo Senhor Rej de seus Regnoa, 
e lhe derom logo Juremento* ÍA.N.T.T.. Moslelnt de Alcobaça, livro 14, ítA% 36lv-362v. 
Publicado por Virgínia Rau. ob. cit.. pp. 149-150). 

(-••) Ruy de Pina. t>h. cil., cap. XLVI, p. 273; Cf. Gaspar Dias dc Landim, ob. cit., 
livro 1, cap. XXX, p. 131. 

Duarte Nunes de Leio escreve por lapso que «aos dez dias de Novembro se comcçaif o 
as Cortes» (Ob. cit. cap. VII, p. 119). 

Sobre tais cortes, veja-se o artigo do Prof. Joaquim Veríssimo Serrão, Cortes de 
Lisboa (1439). in Dicionário de Hisióriu de Portugal, dirigido por Joel Sctv^o, vol. 11, 
Lisboa, s/d., pp. 76S-767 e a bibliografia aduzida por este historiador. 

C^) Humberto Carlos Baquero Moreno, Os Itinerários do Infante D, Pedro (143S' 
•1448), p. 46. 

Vejam*se a seu respeito dados biográficos a pp. 38-41. 

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todos assinado, exceptuando o Conde de Arraiolos <que se escusou de o assynar, 
nem chamou despois ao Yfante Regente, mas seu nome» p")- 

Aproveitaram os procuradores dos concelhos, pelo facto de se encontrarem 
todos reunidos em cartes, o ensejo, para prooedeiem à assinatura do acordo entre 
eles estabelecido por conespoiulftncia. o qual ficara concluído em 30 de Outubro. 
Gooliecemos os nomes dos representantes concelhios e das cidades e vilas do remo 
por eles representadas, graças à carta do regente de 24 de Janeiro de 1442, em 
que se faz a transcrição desse documento, atendendo a um pedido solicitado pela 
cftmara de Lisboa O* Damos a seguir a sua relação : 



Abrantes Rui Pires e GH VMqnes 

Alcácer do Sal Martim Eanes Serclo e Esteves SenSo 

Alegrete Gil Fcrnandcí? 

Alter do Chão Diogu Alvares e Gonçalo Frome 

Arronches Lopo Afonso e Rodrigo Alvares 

Aveins Gomes Eanes 

Aveiro Joio Gonçalves Homem e Jo5o Pacheco 

Avis Gonçalo Vasqucs c Lourenço Eanes 

Beja Martim Afonso 

Braga Diogo Jáoome e Fernando Afonso 

Bragança Bartoiomett PeresUdo e Femio da Veiga, cavakiros 

Cabeça de Vide Alvaro Esteves 

Campo Maior Gonçalo Vasques Mexia 

Castelo Branco Vasco Eanes de Castelo Branco 

Castelo Rodrigo Nuno Gonçalves e Diogo Monteiro 

Castelo de Vide loto Vasques de Pina c Vasco Pires 

Castro Marim Alvaro Eanes, escudeiro do Infante D. Henrique 

Castro Verde Afonso Geraldes 

Coimbra João Gonçalves Homem c João Pacheco 

Coruche Gonçalo Eanes e Joio Afonso 

Covilhã João Aires e João Feio 

Crato Rui Martins e Nuno Alvares 

FJvas Vasco Martins, Prior de S. Pedro e Garcia Fernandes 

Estremoz Diogo Nunes de Abfeu e Estevio Fernandes 

Évora Diogo Lopes Brandto e JoSo Vasques de Pedroso 

Faro Gil Eanes, criado de Oarda Moniz 

Freixo de Espada-À-Cinta Lufs Eanes 



(SST) Ruy de Pina» ob. eit.. cap. XLVI, pp. 273-274; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. dl., 
cap. VII. p. 119; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro I. cap. XXX. pp. 131-133. 

(^*) A.H.C. M.L., Livro 2." dos reis D. Duarte e D. Afonso V, doe. 25. Publicado 
na Monumenia Henricina, vol. VII, Coimbra, I%5, doe 15, pp. 18-23 e extnctedo em 
Documenios th Arquivo Histórico da Câman Mtmktptd de Uidwa, Livro de Rds, voL II, 
pp. 280-282. 

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Fronteira Gomes Hanes e Carciu Gonvaives 

Garvfto Afonso Geraldes 

Guarda Lopo Dias e Lufs Pires 

Guimaiies Pedro Domingues e João de Barros 

Lagos .. Vasco Gonçalves Vilarinho e Vicente VasqiMS Farelo 

Lamego Gonçalo Monteiro e Rui Lopes 

Leiria João Gonçalves das Cortes e Pero Eanes Coutinho 

Lisboa Pero de Serpa e Joio Lourenço Farinha 

Loulé Lopo Esteves de Sarna 

Marvio ~ Joio Bdo 

Miranda do Douro João Afonso e Afonso Fernandes 

Monção Pero Afonso Malheiro 

Monforte Vasco Afonso dc Sousa c Gonçalo Eanes Biiixo 

Monsanto Pero Afonso 

MontemorHhNovo Garcia Lobo e Dioto Alvares de Carvalho 

Montemor-o-Velho Joto Afonso Chamoa e Rui Gomes 

Moura Miçe Manuel Cavaleiro 

MourSo Alvaro Vasques da Rocha e Mateus Pires 

Nisa Alvaro de Almada e Hstevfio Lourenço 

Óbidos Pedro Fernandes do Rego c João Esteves 

Olivença Gil Vasques Gaviio 

Ourique Afonso Geraldes 

Palmela » Gonçalo Eanes e Afonso Garcia 

Panóias Afonso Geraldes 

Penamacor Gomes Lourenço 

Pinhel Lopo Afonso e Diogo Fernandes 

Ponte de Lima Pero Afonso Malhi^ro 

Portalegre » Heitor Dias e Femio Dias de Abieu 

Porto Gonçalo de Sá e João Rodrigues Taborda 

Santarém Manim de Almada. Alvaro Fernandes do Avelar, Gil 

Vasques e Gomes Eanes, escolares. 

Serpa João Rodrigues da Costa e Martim (Quaresma 

SertS Afonso Eanes e Femio Barriga 

Setdbal Martim Vicenie e Joio Gomes 

Silves Gil Vasques 

Sintra .. Gonçalo de Fróis e João dc S. João 

Tavira Afonso Vasques da Costa, comendador de Cacela 

Tomar Rui Gonçalves de Marrecos e Diogo Alvares Cabrela 

Torre do Moncorvo Pedro Vasques 

Torres Novas Alvaro Vasques c Mem Rodrigues 

Trancoso Nuno Álvares Caruv>,v, c Vicente Fernandes 

Valença do Minho Gonçalo Vasques e Pero Esteves 

Viana do Castelo Pero Eanes e Afonso Eanes 

Vila da Feira Vasco Vicente 

Vila Real Martim Afonso 

Viseu Fernando Eanes e Joào Lourenço, escrivio da cftmara 

— 57 

PI. t 



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No conjunto, apareccm-nos setenta e duas cidades e vilas do País a apoiarem 
a candidatura do Infante D. Pedro e a imporcm-se as classes privilegiadas, ao 
estabelecerem a condição de que o regimento do reino lhes fosse confiado intei- 
ramente. 

Faltava, contudo, a aprovarão das decisões adoptadas nas cortes de l isboa. 
por parte da rainha, ao mesmo tempo que se torna\a indispensável a presença 
do jovem soberano. Para isso. foi enviado a Alenquer Alvaro Cioni,alves de 
Ataíde (- o qual não obteve o menor êxito, o mesmo sucedendo a Afonso 
Nogueira mais tarde elevado ao bispado de Lisboa, que se viu frustrado nos 
seus intentos Foi necessário mandar o Infonte D. Henrique até à rainha, para 
conseguir que ela trouxesse o filho às cortes de Lisboa (^). 

Esperançado o Infante D. Pedro em que seu irmão seria bem sucedido, 
graças sobretudo ao seu excelente tacto diplomático, saiu a receber o rei e a 
rainha em Alverca f"), ou em Santo Amónio, onde «com grande acatamento» 
lhes beijou as mios O- O encontro veríficou-se em 23 ou 24 de Dezembro, 
altura em que, precisamente se observa um hiato nos itinerários do r^enteCO* 



Oferece particular interesse a carta de perdão outorgada em 1 de Junho de 1440 a 
Gil Gonçalves, peleteiro, residente em Coimbra, o qual, havia menoa de um ano, fora 
preso nessa cidade fiiorquanlo diziam que diaeia mal do Ifoole dom Pedro meu tio E asy 

dos honrrados çidadaos dc I lixboa F eso mccsmo dos da dieta çidade de Cojnbra», pela 
atitude por estes assumida em relação a D. Leonor (A.N.T.T., Chancelaria tie D. Afonso V, 
livro 20, foi. 109v). 

(**) Vejam^ a seu lespeilo dados biográficos em apftndice. 

(^) Foi eleito Kspo de Coimbra, nos fins dc 1453 (Fortunato de Almeida, ob. ciU, 
livro II, p. 549). passando a ocupar as funções de Arcebispo de Lisboa, em 1460. Faleceu 
em Alenquer, vitimado pela peste, em 1464 (Idem. Ibidem, pp. 577-578). 

C»^) Ruy de Pina, ob. cii., cap. LVII, pp. 274-275; Cf. Duarte Nunes de Leio» ob. €it., 
cap. Vil, pp. IÍ9>I20; Gaspar Dias de Landim, ob. eit.» livro I, cap. XXX, pp. 133*134. 

(^) Ruy de Pina. nh. cir . cap. XLVIII. p. 276; Cf. Duarte Nunes de I.cào, ob. ctt., 
cap. VII, p. 120. Gaspar Dias de landim, oh. cit.. liv.ro I cap. XXXI. pp. l.^.^-l.Vv 

{-^) Rui de Pina perfilha o parecer de que o encontro se deu em Alverca (Ob. cit., 
cap. XLVIII, p. 276). no que é seguido por Duarte Nunes de Leflo (Ob, cit., cap. VII, p. 120). 

(^) Afirma o escriba alcobaoense que o Infante D. Hentriqoe «fez bijnr a Rainha 
dAlanquer com elRcj pera Santo Antoneo. O jfante dom Pedro, com dom abbade e outros 
senhores o forom rrcçebcr e lhe beijarom a m3ao. Troutousse a paz de tal guisa, que os 
dictos senhores jfunles e dom abbade e o bispo, per mar leaarom o dicto Senhor Rej e seu 
Jrmiao aa dicUi (idade. E hi foj Reçebido com mujUi solenjdade» (A.N.T.T., MosteUo d« 
Alcobaça, livro 14, fds. 36iv362v. Publicado por Virgínia Rau. ob. cit., pp. 149-lSO). 
Assim, ao contrário do que diz Rui de Pina o encontro Irr-se-ia dado em Santo António 
do Tojal e não cm Alverca. Também Gaspar Dias de Landim perfilha uma opinião idêntica 
à do autor alcobacense (Ob. cií., livro I, cap. XXXI, pp. 136-137). 

Humberto Carlos Baquero Moreno, Os Itineréríos do infante D. Pedro, (1438* 
1448), p. 47. 

58— 



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Ilido dependendo do ponlo cm que o mesmo se deu, pois sabemos que chegaram 
a Santo António na véspera do Natal. No dia sciiunue. i.slo c. em 25 de Dezembro, 
seguiram pelo mar uté Lisboa, onde o jovem rei foi uposenlado nos Paços da 
Alcáçova 

Reiniciadas as cortes, agora com a presença de D. Afonso V. assistiu-se u 
uma arenga do Doutor Diogo Afonso Mangancha (^). Pertencia a este jurista 
falar em nome do soberano e justificar, na sua presença, os motivos por que 
o Infante D. Pedro fora investido nas funções de regente do reino. Terminada a 
exposição, ajoelhou-se o Duque de Coimbra e beijou* as mãos ao rei, sendo-lhe 
entregue pelo soberano «huum paao. em que estava alado o sei lo secreto, em synal 
c nome de Poderio». Dada por concluída a cerimónia, tomou o rei para junto 
da mãe. tal como prèvíamenie se combinara 

O regente dirigiu-se então para a «casa das cortes», onde fez «logo ajuntar 
os do povo. e alguns do Conselho». Aí pronunciou algumas palavras, em que 
exprimia a todos o seu programa político. Assim, «os que bem e dereitamente 
vyvessem. esperassem delle em nome d'ElRci seu Senhor, bem c mercèe. e assy 
pena e casiygo aos que o contrairo fizessem, encomenda ndo-lhes outro sy. que o 
amassem e lhe obedecessem, e quysessem ajudalo e defendello com seus corpos 
e fazendas, assy como ellc faria a elles mesmos quando lhes comprysse*. A forma 
como o Infante D. Pedro se manifestou causou descontentamento ao Conde de 
Barcelos, o qual 'fez e horder.ou certos capitules em lorma de Reginicnio. que o 
Yíante havia de ler cm sua governança. Pollos quaaes lodollos feitos pryncipaes 
tirava de seu juizo, e os remeteria aas Cortes, que cada ano apontava se fizessem». 
Apresentada esta proposta, durante a reunião do terceiro estado, foi a mesma 
rejeitada pelos procuradores concelhios, o que provocou uni forte ressentimento 
no seu fracassado proponente (*'). 



{^^) Ruy dc Pina, eh. cíI.. cap. XLIX, p. 277; Cf. Duarte Nunes de Lcao, ob. c/l., 
cap. Vil, p. 12U; Gaspar Dias de Landim, ub. cit., livro 1, cap. XXXII, p. 138. 
(9(7) Vejani*se a seu respeito fiados biográficos a pp. 38-4 1. 

Existe gfande dls|iaridade de critérios quanto à data em que foram reiniciadas as 

cortes. Enquanto Rui de Pina afirma, crrudumente, que as mesmas recomeçaram em 10 de 
De/cmbro ilc 1439 {Oh. cil.. cap. XLIX. pp. 277-278 1, Duarte Nunes do Lc3o aponta a 
data dc 30 dc Dc/cmbro dc 1439. que. aliás, sc nos afigura muito plausível (Ub. cit., cap. Vil, 
pp. 120-121) e Caspar Dias de Lamlim indica a de 10 de Janeiro de 1440, o que já nos 
parece um pouco tardia (Ob. cit.,. livro I, cap. XXXIf, pp. 138-140). N3o sabemos exacta- 
monte quando terminaram os trabalhos das cortes. apcn.T; nos sendo possível indicar que o 
regente permaneceu em Lisboa até 28 de Janeiro de 1440 (Humberto Carlos Baquero Moreno, 
ob. cil., p. 49). 

C") Ruy de Pina, ob. cit., cap. XLIX, pp. 278-279; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit., 
cap. Vil, 121-122; Caspar Dias de Landim, ob. cit., livro 1, cap. XXXII, pp. 141-143. 

— 59 



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Muitos foram os problemas debatidos nesta importante reunião dos estados 
da nação. Começaremos por mencionar algumas das petições c queixas apresen- 
tadas pela cidade cabeça do reino, que condu/iii o movimento revolucionário. 
Solicitavam os procuradores da cidade que a alcaidaria do casiclo não fosse dada 
3 nenhum fidalgiv pelo que se exprimiam nos seguintes termos : E porque 
untre todallas doores de que sse ella majs leme e de que lhe avijr pode morte, 
hc o Castello que em ella esta. como sse mostrou ora por obra. armandosse e 
ueiiandose contra ella. querendo poer magoa em sua grande Ilealdade. da qual 
cousa tomou grande ssentido e sse ouucra de ssigujr grande perda, sse nom 
fora o nobre Jffanté dom Joham. uosso muyio amado tio, que por ssua rrazoada 
braueza nom sse deu aa execuçom». o que constttufa uma evocação dos recentes 
acontecimentos. Isto levava-os a requerer «que a alcaidaria desta çidade nunca 
sseja dada ssaluo aa cidade; e ajinda. sse nossa merçee flor. por moor ssegurança 
e firmeza de manteer ssenpre ssua lealdade, que lhe outorguees que ella nos ffaça 
por ella menagem e por aqui sera atalhado todo o arroydo e ssospeita que lhe 
por aazo delle pode vijr, porque assy he coroo molher casta que nom ha mester 
guarda, muyto majs pouco a Ilealdade desta cidade ha mester castello. E esto 
ssenhor lhe deuees de fazer, porquanto algOas villas ha no rregno que teem os 
castelos e fecta menagem por elles e nom ssom tam mereçedores por seniiços 
de ssemelhante merçee auerem como nos». A resposta dada pelo regente não podia 
ser mais dúbia do que na realidade foi : «Praznos de o tirar e dar a lai pessoa 
de que uos ajaaes boa ssegurança, e nos esso meesmo» (-'^"). Acabaria por nomear, 
em 5 de Abril de 1440. a Alvaro Vasques de Almada ('•'). 

Outro assunto importante consistia no problema das aposentadorias. Lamen- 
tavam-.se os representantes da cidade pelo facto de muitas mulheres «virgeens e 
horfãas e viuuas» serem v lançadas em pcrdiçom» devido ;i ausência de esta- 
lagens», ao que respondia o regente que já atendera ao assunto num capitulo 



o Inf.mtc D. Pcdri), na carta escrita, cm 12 dc Novembro i!c 1440, í»o«; conselheiros 
dc Barcelona, descreve assim as decisões tomadas nas cortes Uc Lisboa : «Les quall se íeren 
E en ells pments los dits Infants e Contes e los dits tres bnços. E foncfa detefmjnat qud 
dit Regiment que axi ab dujs tcBjem vehent los Incouenjenls e enpaxanwnts sobredits que 
ssessasse. Dcc!iir;iren Ics corts generais que Jo In solido fos tudor c curador delrey meu 
Scnyor, RcukIoi. dcfcncdor deis seuv Rcpncs H senyoria. E que la dita Senyora fos obeida 
c serujda de nus ab aquclla ubcdicnçia c Kcuerensiu ques pertenya per que fora muller de 
nostce Rey e Senyor E mare dei dit Rey nostre Senyor que aca es. Dd qual vida e Real 
sttiment Deus maltiplich* (I.H.M.B., Cartas Reales Origituúes, série B^2). 

f^») A.N.T.T.. Chancelaria de D, Afonso V, livro 20. foi. 90; Uvro 10 de Estremadura, 

fols. 9I-91V. 

(-'') A.N.T.T., Chancelurui de D. Afoiísu V. livro 20, foi. 85v. Publicado na Monumento 
Uenridna, vol. VII, Coimbra, 196S, doe. 63. pp. 90*92. 

60— 



Co|.; 1 y ícxl material 



geral outorgado ao reino (-■-'). Agradecia o concelho de Lisboa, por «.«nom auer 
hij pouscnladorias Em ella daquy em djante E que cada húu pouse nos eslaaos 
que sse íatum por sscu dinheiro» Os problemas da administração de justiça 
(ambém mereciam a atenção do concelho de Lisboa. Assim, apresentavam queixa 
contra o alcaide pequeno Fernão Filho, «o qual nom husaua de sseu ofiçio como 
deuja, nem guardaua a ju.sttça», pois «bija os malfeitores» e «nom os prendia». 
Atribuifun o seu desinteresse ao facto de nSo ser natural da cidade. Respondia- 
-lhes o regente que se pusessem de acordo na escolha de quem o substituísse, 
muito embora frisasse que faria mercê a Fernão Filho, «pello serujço que tem 
feito a elRey» (^). Tal significava que o alcaide pequeno favorecera a causa do 
regente no acesso ao poder. Uma fiel Imagem da situação, traduzindo a carência 
de justiça, é-nos dada por esta significativa exposição: <E os pobres ssom 
rroubados e as molheres ssam forçadas, as Jnlurias ssom feitas a muytos boons 
e maaos. Nom presta fazersse queixume que nom ha hij castijgo; os malfeitores 
trazem os poderosos de praça consi^». Mais adiante atribuíam os cataclismos 
a este estado de coisas, quando afirmavam : — «Boom he senhor conheçer que 
em esta çidade nom ha Justiça do Rey, pois a Justiça do senhw Deus e pestel- 
lemçía por taaes e tam graues pecados comtinuadamente teem a sua vara 
sobre nos»^"). 

Triunfante a capital nos seus desígnios, não perdeu o ensejo para solicitar 
ao regente uma série de privilégios. Um deles consistia em que o monarca 
passasse a ter permanentemente no seu conselho um natural de Lisboa f'*). 
O regente fez-Ihcs a vontade e satisfez também a sua, ao nomear para esse cargo 
o seu dedicado amigo Pero de Serpa {^'). Recordavam, ainda, os seus procuradores 



A.N.T.T., Livro JO de Estremadura, fols. 87-87v. Sobre a aboliçSo da concessão 
de aposentadorias gratuitas em lodo o íeino. veja-sc Henrique de Gama Barros, História da 
Administração Pública em Portugtí nos Séculos XII a XV, 2.' ed., tomo V, Lisboa, s/d.. 

pp. 216-218. 

(^*) A.N.T.T., Chuncilariu de U. Afonso V, livro 20, fol. 91; Uvro 10 de Estremadura, 
fols. 93^. 

(»•) A.N.T.T., Chàitcelaria de D, Afonso Y, livro 20, foi. 91; Uvro 10 dê Estrema- 
dum, foi. 93. 

(Pl A.N.T.T., Livro 10 de Estremadura, foi. 86. 

(í^») A.N.T.T., Clwncflaria de D. Afonso V. livro 20. foi. 7Sv. Publicado nft Monu- 
menta Henricina, vol. VII. ( oimbra. I%5. doe 60, pp. S5-8íi. 

A.N.T.T., Chancelaria dc D, Afonso V. livro 20, íol. 55v; Livro 10 de. Estre- 
madura, foi. 76. A primeira fcntc encontra-se publicada na Monumento Henricbia, voL VII, 
Coimbia. 196S, doe. 61, pp. 8649. 

—61 



I 



que D. João I outorgara uma mercê à cidade para que os chanceleres do reino, 
«assy o sseu chamçeier moor, como o desta casa que ora aqui esta em esta 
casa, de que Pedre Annes [Lobato] tem a gouernamça. fossem naturaaes desta 
Vidade» (-■'). A isto acrescentavam que os ofícios da coudelaria. juiz dos órfãos 
e das sisas, com os respectivos escrivães e escrivão da câmara, fossem dados 
«aos cidadãos E moradores da çidadc que pera elles erom pcrteençcntes», conforme 
privilégio da cidade (*"). 

Idênticos problemas aos de Lisboa afectavam os naturais do Porto. Não 
tendo a cidade castelo, possuía o privil^o da sua alcaidaria se encontrar confiada 
a um cidadão. Acontecia que D. João I quebrara as suas prerrogativas, ao* 
nomear João Rodrigues de Sá. Solicitam nas presentes cortes que. após a safda 
de Fernão de Sá, não tomem a ser desrespeitados os seus privil^oft(*). Outra 
reclamação apresentada consistia na impossibilidade dos corregedores nomearem 
008 julgados, besteiros, ouvidoies, jurados e meirinhos, devido à oposição dos 
fidalgos C")* Alguns &dtos foram conseguidos pelos representantes portuenses nas 
cortes, conforme se depreende dos editais afixados na cidade. Estatuia-se «que 
não dem em esta Cidade pousadas, nem camas sem dinheiro, a nenhum seu. nem 
doutrem, por Cartas nem Alvarás que tragão. mais que se apousentem pelos que 
hão. porque taes Alvarás, nem Carias, não hão lugar salvo nas Aldeãs, onde 
não ha estalagens» (*°). De igual modo. ficavam proibidos os poderosos de se 
apossarem nas suas terras dos bens pertencentes aos mercadores e aos lavradores, 
pelo que cumpria aos corregedores zelarem pelo respeito da lei (^'). 

Também a cidade dc Coimbra reclamava, pelo facto dos corregedores não 
respeitarem a vontade do concelho, relativamente à escolha dos juízes e verea- 
dores, pois «nom pooem nos dictos ofiçios aquellas pesoas que lhes pellos homeens 
boons sam dados». Vê-se que vna enliçom antes pooem outros que lhes nom 
som dados, contra suas uoniades quaes lhes apraz E com grande escandallo 
do poboo» (^). Outro dos pontos consistia na interferência do poder real. na 
designação do coudel, escrivão da coudelaria, juiz dos órfãos e das sisas e res- 
pectivos escrivães e ainda escrivães da câmara da cidade 



(*") A.N.T.T., Livro 10 de Estremadura, M. 01 v, 

(*") A.N.T.T., Chancelaria de D. Ajunso V. livro 20. foi. 88v, Livro 10 de Esire- 
madura, fols. 88v-89. 

0^ A.N.T.T., Livro 3 de Além-Douro, foi. 238. 

^) Idem, Ibidem. 

("•) A.C.L., Colecção de Cortes, vol. VIH, p. 25v. 

(2") A.C.L, Colecção de Cortes, vol. VIII, p. 26v. 

O") AM.C Pêr^mtíttho avulso, n.* 65, fols. 4v-5. 

(P") A.M.C., Pergaminho avulso, 65. foi. 4. 

62 — 



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o concelho de Aveiro, por sua vez. queixava-se de que a vila «he muyto 
minguada de mesteyraacs dc lodollos ofiiçios que os nom podemos aver, nem 
querem aqui viuer (emendosse dc os pocrcm por beestcyros do conito» (-'^). 

Reclamações de toda a natureza eram upre.sentadas pelas cidades e vilas do 
pais. A vila de Guimarães protestava contra o facto do corregedor e do ouvidor 
permanecerem, contra o que estava legislado, mais de quinze dias; tal situação 
afligia os seus munícipes, vítimas de estragos e opressões de todo o género C^. 
Viana do Castelo queíxava^se da prepotência dos fidalgos, que se apoderavam 
dos bens pertencentes ao povo e da maior parte dos seus residentes obterem 
cartas de privilégio, eximíndo-se às obrigações concelhias e formando bando, que 
praticavam toda a casta de <arroidos>0. A cidade de Silves lamentava-se da 
dificuldade em arregimentar novos besteiros do conto, pois a maior parte dos 
homens obtinham isenção com base nas cartas de prívil^o que possuíam C^. 

Antes de se ter procedido ao encerramento dos trabalhos das cortes, foi apro- 
vada pelos procuradores, uma proposta efectuada por João Gonçalves, escrivão da 
câmara do Porto. A me.sma tinha sido precedida duma sugestão feita pelo propo- 
nente à vereação da cidade dc Lisboa, manifestando a sua oposição a que o 
rei fosse criado e educado por D. Leonor, a qual aliás, recebeu bom acolhimento. 
Apesar das reservas postas pelo Infante D. Pedro a esta determinação, acabou 
por ceder perante os argumentos de dois cidadãos. Partiu, então, o regente, acom- 
panhado por seus irmãos, para Santo António do Tojal, onde estanceava a 
rainha, com objectivo de trazer a D. Afonso V, no que deparou com viva oposição 
daquela senhora í"*^). Pouco tempo, no entanto, perseverou nessa atitude. Talvez 
por SC sentir abandonada pelos seus partidários, deixou os filhos varões, com 
mostras de grande tristeza e partiu seguidamente para Sintra. Dingiram-se de 



(*•) A.N.T.T., Livro 10 de Estremadura, fols. 69v*7Q. 

A.N.T.T.. Chancelaria <le Z>. Afonso V. livro 2. foi. 2: Cf. Visconde de Santaiém, 

Alguns documentos para servirem dc provas à parle 2." das memorias para a história e 
Theorla das Cnrics Gerais que em Portugal se celebrarão pelos tres estados do reino, 
Lisboa, 1828. p. 341. 

A.C.L., Colecção de Cortes, voL VllI, pp. 20-20v. 

(*•) A.CL.. Colecção de Cortes, vol. III, pp. 778-779. 

{-■'^) A.N.T.T-. Maço 4 do Suplemento de Cortes. x\.'> 41, foi. 6. 

(■") Ruy de Pina. i>b. cit.. cap. L. pp. 279-283; Cf. Duarte Nunes de Lc5o, ob. cií., 
cap. VIII. pp. 122-126; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro II, caps. I e II, pp. 5-14. 

Dí»m>s o escriba alcobacense que, «depois o leuafom » aa madie e ella folsse peca 
a sua uilla de Sintra, e leixou el Rej de sua boontade no dicto lugar de Santo Antonio, 
que ucesse o Jfante per ele e fezesse delle o que quisesse Outra uez beo o Jfante 
per elle c leuou o aa dieta çidadc c dhi cm diante senpre o tcuc cm seu poder» (A.N.T.T., 
Mosteiro de Alcobaça, livro 14, fols. 361v-362v. Publicado por Virgínia Rau, ob. cit.. 
pp. 149-150). 

—«3 



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novo os infantes para essa localidade e de lá trouxeram o rei c seu irmão (^). 
Em que altura se teria dado tal acontecimento ? Supomos que em 25 de Janeiro 
de 1440. visto o regente ter assinado uma carta em Alverca i'"^^). 

É provável que ainda durassem as cortes quando, cm 21 cie Janeiro de 1440. 
o regente confirmou os privilégios aos moradores da alcáçova de Lisboa P*); 
mas o mesmo ja não acontecia, pelas razões apontadas, ao conceder, em 25 desse 
mês. confirmação geral de privilégios aos residentes na cidade de Coimbra ("* ). 
Vê-se o Infante D. Pedro partir para a sede do .seu ducado, onde já se encontra 
pelo menos em 3 de Fevereiro, talvez com o objectivo de resolver alguns dos 
problemas pendentes com o corpo expedicinário que o acompanhara a Lisboa; 
mas. no dia 19 de Fevereiro, deparamos de novo com a sua presença na capital, 
na qual ficara o jovem rei C"). Durante a ausência, coube ao Infante D. Henrique 
assegurar a administração da casa real, conforme se comprova num documento 
dado pdo Navegador em Almada, a 16 de Fevereiro, em que se 16 : «ElRej o 
mandou per o Srahor Iffante dom Anrrique seu tio, nom Seendo bij o SenhOT Ifiinte 
dom P^dro titor e curador ect.^ (^. 

No período que decorre de 19 de Fevereiro a 12 de Abril, vamos encontrar 
o regente em Lisboa e Sacavém. A série alternada de documentos assinados 
numa e noutra localidade talvez possa encontrar explicação na circunstância do 
Infante D. Pedro residir em Sacavém, enquanto que o rei estava instalado nos 
Paços da Alcáçova 0"). Outorga o regente, em 24 de Março de 1440. confirmação 
geral de privilégios ao tesoureiro, moedeiros e oficiais da moeda de Lisboa (^). 
Dias depois, em 30 de Março, concede licença aos vassalos da capital para que 
possam trazer armas por todo o reino (^); torna a beneficiá-los. logo a seguir, 
quando, em 5 de Abril, os isenta de dar aposentadorias nos seus domicílios ("O. 



(**) Riiy de Piíu, ob. eit.. cap. LI. pp. 283-286; Cf. Duarte Nunes de Leio. ob. cit» 
cap. Vttlt pp. 126-127; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., Uvn> II, caps. Ill e IV. pp. lS-23. 

Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit., p. 49. 
(»♦) A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V. livro 20, foi. 25. 
C*^) A.N.T.T.. Livro JO de Estremadura, foi. 177v. 

Humberto Cados Baquno Moreno, ob. tíL» p. 49. 
0^ A.N.T.T., Chancelaria dê D. Afoiuo V, livro 20, foi. 51. 

("•) Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit., pp. 49-54. 

P*) A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 20, fi^l 4S\ ; /.n ro 10 dr f strcnui- 
etura, foi. 94v. Cf. Damião Peres, ob. cit., doe. 21, p. 136, cm que o autor publica u caria 
existente no Arquivo da Casa da Moeda, U»ro dos MoedHros, foL I7v. 

(*") A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso Y, livro 20, foL 83; Livro 10 de Estie- 

madura, foi. 81. 

(^'1 A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 20, fols. 85-85v; Uvro 10 de Estre- 
madura, íols. 82-83. 

64— 



■^u^j I ighted tiiu.L i lui 



Já se encontra em Saniarcm, ao confirmar, em 29 de Abril, a carta dc privilégios 
outorgada por D. João I. em 10 de Abnl de 1385. aos habitantes dc Lisboa ). 
Depois cabe a vez aos alcaides, arraiais c carpinteiros das gales da capital, 
quando, cm 25 dc Julho de 1440, lhe são confirmados os privilégios ('")• Toda 
esta política de mercês e confirmações denuncia as obrigações contraídas pelo 
regente em relação à primeira cidade do Pafe, cujo papel relevante nos sucessos 
passados lhe permitiu ascender ao lugar cimeiro do poder. 



("«) A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 20, foi. 59v; Uvro 10 de Estre- 
madura, fols. 76v-77v. 

(«•) A.N.T.T., Uvro U de Estremadura, foi. 49. 

—65 



Fl 9 



CAPITULO U 



A fuga de D. Leonor e a campanha contra o priorado de Crato 



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Antes de D. Leonor ter iniciado a sua caminhada para o exílio, encontrava-se 
na vila de Almeirim. Daqui partiu, acompanhada por cgente daarmas». para o 
castelo do Crato, principal baluarte do Priorado do Hospital, exactamente na 
noite de 31 de Outubro de 1440, conforme revela uma carta escrita pelo Infante 
D. Pedro, logo no dia seguinte, à vereação da câmara da cidade capital do seu 
ducado ('). A fuga da rainha dava assim origem ao início das hostilidades, depois 



(') A.M.Cm Cartas Originais dos Infantes, n." AO. Documento publicaUo por João 
Pedro de Oliveira Martins, Os Filhos tic D. João I, Usboa. 1922. doe. VII. p. 413; Beliflário 

Pimenta, As Cartas d,< Injoiítv D. Pedro à Cthmim de Coiíuhra, (14:') 1448), Coimbra, 1958. 
doe. LV. pp. 52 53: Mitminu-nUi Uciiriciiui. vol. VM. Cuimbr;». í^)í>\ iloc. 113, pp. 180-18.3. 

Nestu carta enviada pelo regente u câmara Uc Coimbra, ta/ sc alusão à anterior «con- 
córdia damizade» celebrada com D. Leonor, a qual fora oportunamente comunicada k 
vereação da mencionada cidade. A atitude agora assumida pela viúva de D. Duarte causava 
o maior desgosto ;io Infante D. Pedro, que se via obrigado a ni;inifcsiar publicamente que 
cia pretendia «bem o conlrayro» do que cic • dcseiniia». O repente chamava a atenção dos 
vereadores para o cuniporlumento equivoco da rainha, ao denunciar que, após o acordo 
estabelecido entre ambas partes, a mesma «mandou passar aos Regnos de Casiella aqueltas 
cousas que lhe mays prottue*. Tinha ainda em mente, na presente carta, alertar a opiniio 
pública contra os desígnios de D. Leonor, ao mesmo tempo que conMitiiía um aviso para 
que os seus p.ulidários se encontrassem «prestes pêra scruivo do dillo nosso Senhor». 

Através do icor desta mensagem, deprcndc-sc que ambas as facçòes se preparavam 
para o rompimento das hostilidades. A acusação formulada pelo Infante D. Pedro, relativa- 
mente ao cnvii>, por parte da rainha, de algun» bens para Castela, surge-nos comprovada 
pelo cronista Rui dc Pina. quando dcci.ira : « A Rainlui ante que dc sua pessoa fy/cssc 
alguma mudança, mandou a Castela secretamente, p'"" Mossem Gabriel dc i ourenço seu 
Capellam Moor, todallas joyas d'ouro prata c pedraria que tinha, que eram assaz muitas, 
e bôas; porque aliem das que trouxe d'Aragam, ouve com o movei d*ElRey seu marido, 
todas as que fycaram per seu fallecimento. e foram postas no Castello d'Albuquerque, que 
era V'i!n do >'f.inte Dom Anrrique dc Castella. Donde lhe vieram muitas a Almeirim, que 
elia secretamente mandou pedir pera sua partida» (Cliruiuça Jo Senhor Rey D. A ff ousa 
ín CoUecçdo de Livros Inéditos de História Portugueza. tomo I. Lisboa, 1790, cap. LX, 

— 69 



iighted material 



de um período de relativa acalmia que sc sucedera à reunião das cortes de Lisboa, 
em De/embro dc 1439. Devemos irisar, no entanto, que esta tranquilidade era 
meramente aparente, pois. no fundo, respirava-se um ambiente de tensão. 

Em que condições c a que móbeis obedecia a fuga da rainha D Leonor? 

Os preparativos da sua ida para a fortale/a do Oato parece corresponderem 
essencialmente a um plano prcviamenle esiabelecido. Dc acordo com a versão de 
Rui dc Pina. seguido de perto por Duarte Nunes de Leão c Gaspar Dias de 
Landim, o principal responsável pela efectivação do projecto era o Conde de 
Barcelos. D. Afonso ('). Encontrava-se. igualmente, comprmnelido no mesmo o 
Prior do Hospital. D. Frei Nuno de Góis. que mantinha relações epistolares bas- 
tantes assíduas com a viúva do Rei D. Duarte e com o referido conde, muito 
embora nos seja vedado conhecer o conteúdo de tais missivas, em virtude de hoje 
ser praticamente impossível encontrar vestígios delas ('). 



p lO.V CT Diiaric Nunes de LcÍo. Crónica e vida delrey D. Affonso o V, tomo II, Lisboa, 
1780. cip IX, p. 132). 

A rcspcilo du história da Ordem do Hospital, veja-sc o c&ludo de L^urenl OaiUiéz, 
Esstti hinarique sur fordrc stmventín de StUni Jean de Jéimalem, de Rhodes et de Malte, 
ou Fortuítal iXthXV aèdes), in Arquivos do Centro Culturai Português, vol. I, Fáris. 1969, 
pp. 13 e fxg-i. 

(-) Ruy lie Pin.i. ,>h. cil., c.tp. LVIII. p. 300; Duarte Nunes dc l.cão. ob. cií., cap. IX, 
p. 130; Gaspar Dias dc Landim, O Inlanic D. Pcilio, livro II, Lisboa, 1893, cap. X. 
pp. SI •54. 

(•) Ruy dc Pina. ob. cit.. c.ip I XIII. p. 307. 

Acerca do Prior do C ralo. D I rci Nuno Gonçalves dc Gi>is. as primeiras notícias 
que se colhem ligam-no à armada de João Alvares Pereira, que, após a tomada de Ceuta, 
em 1415, percorria a costa marroquina com o objectivo de participar na guern de corso. 
Junlamente com este fidalgo, entre outros feitos, participou no ataque desencadeado contra 
Almarça (Gomes Eannes dc Zurara, Clironica <lo Coiule Dom Pedro dc Menezes, in Collccçâo 
dv Livros hiiiliii>\ dc História Piotimiiczd tomo II. Lisboa. 1742. livro I. cap. I VI, p. 391). 
Depois deste acontecimento, apenas tornamos a deparar com a sua presença a frente da 
ordem do Hospital, cujo priorado tinha a sede no Crato. 

D. Frei Nuno de Góis ravelou, desde o inCcío da regência, uma acérrima inimizade 

CV 

contra o Dui-nic dc Coimbra (B. P. e A. D. E., cód. d. foi. 19). Tal comportamento 

II') 

observa-sc nitidamente, antes da celebração das cortes de Torres Novas de 1438, ao coligar-se 
com o Arcebispo de Lisboa D. Pedro de Noronha e com os poderosos fidalgos D. Sancho 
de Ntwonha e Vasco Fernandes Coutinho, mediante um juramento realizado numa igreja, 

o qual tinha por finalidade impedir o acesso ao poder do Infante D. Pedro (Ruy de Pina, 
oh r/f cap. X pp 2I7-2I8-. Duarle Nunes dc l.crto. oh. cit.. cap II. pp. 88-89). Outra 
atitude que denuncia claramente u sua posição favorável a D. Leonor foi a de ter anuído 
ao pedido desta, não comparecendo às cortes de Lisboa de 1439. organizadas pelos parti- 
dários do Duque de Coimbra (Ruy de Pina, ob. cit,, cap. XL, p. 262: Duarte Nunes de 



70 — 



Os acontecimentos começaram a precipitar-se velozmente, a partir do momento 
exacto em que a rainha se deslocou da sua vila de Sintra para Almeirim C). 



Leio. ob. cU.. cap. VI. p. Ill: Gaspar Dias de Landim, oh. cit» livro 1, Lisboa. 1892, 

cap. XXV. p. III). 

Além dos frequentes contados epistolares que ele manievo coni a viúva de I). Duarte, 
observa-se da sua parte uma correspondência muito assídua wm os Infantes de Aragão, 
irmãos de D. Leonor (Ruy de Pina, ob. cit.. cap. LI. pp. 284-285: Duarte Nunes de LeSo, 
ob. cit» cap. VIII. p. 126). tendo-lhe cabido, igualmente, uma quola-parle muito importante 
na fuga da rainha para Castela (Ruy de Pina. oh. cii.. cap. I V. pp. 2^4-295; Duarte Niine* 
de l.eão. ob. cit.. cap. IX, pp. 128-129; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro II. I ishoa. 
1893, cap. VIII, pp. 40-41). Sabe-se que recebeu duas missivas de Afonso V de Aragão: 
a primeira, com data de 22 de Julho de 1440, em que o soberano deste reino lhe agradece 
a leal colaboração prestada a sua irmi D. Leonor {Monumentn Henrícino, vol. VII, Coimbra, 
1965. doe. 93. pp. 142-144); a segunda, escrita no primeiro dia de Setembro do referido nno. 
cm que o Magnânimo lhe comunica haver recebido uma carta da deposta ramha, pela 
qual se congratula e faz votos sinceros para que a concórdia, de que esta lhe fala. a entabulai 
com o Regente D. Pedro, se venha a concraiizar plenamenie lldetn. vot. VII, doe. 106, 
pp. I69-I7I). Apesar da aparente atmosfera de desanuvíamcnto. não tardou muito que o 
Prior do Crato se preparasse para receber nas suas fortalcxas lUi Hospital a fugitiva viúva 
de D. Duarte, muito embora se desse conta, perfeitamente, do pengo de que tal situação se 
revestia (Ruy de Pina, ob, cit., cap. LIX e LX. pp. 3UI-303; Duarte Nunes de Leão, ob. cit.. 
cap. CIX, pp. 130-UI; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro II, cap. X, pp. 53-53). 

O Infante D. Henrique procurou obstar, por todos os meios ao seu alcance, a que 
D. Frei Nuno de Góis sc imiscuísse em tão delicado aNsunto. Na realidade, a posição do 
Prior era extremamente crítica, se nos lembrarmos ainda da sua condição de criado do 
mestre da Ordem de Cristo. Cabia a este a tarefa ingrata de o avisar do «grande caso e 
perigo» em que incorria por «nom obedecer inteiramente» às suas determinações. Mas, por 
outro lado, não podemos esquecer que, no estado actual dos acontecimentos, já se encontrava 
D. Frei Nuno de Gois muito comprometido com o problema dc D. Leonor (Ruy de Pina. 
ob. cit.. cap. LXIII. p. 307; Duarte Nunes dc Leão, ob. cit., cap. X. p. 134; Gaspar Dias de 
Landim, ob. cit., livro II, cap. XVI, p. 77). Ao fim e ao cabo. prevaleceu o acordo secreto 
celebrado com a viúva de D. Duarte, que veio a refuj$iar-se no Crato, tal como já tivemos 
OCasiSo de assinalar, em I de Novembro dc 1440. tendo-lhe o Prior entregue as «chaves de 
todas suas fortallc/as, com rezoòes de grande humyldade e muyta obediência» (Ruy de Pina. 
ob. cif., cap. LXIV. p. 310). 

Encontrando-se D. Frei Nimo de Góis totalmente impossibilitado de defrontar a máquina 
de guerra montada pelo regente e por seus irmáos. nSo viu outra alternativa senio a de 
procurar refúgio na vizinha localidade de Albuquerque, situada em C astela, para onde partiu 
na companhia da rainha e doutros partidárií>> dela. cm 29 de Dezembro de 1440 (Ruy de 
Pina. ob. cit., cap. LXXIV, pp. 322-323; Duarte Nunes de Leão, ob. cit., cap. X, pp. 142-143; 
Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro II, cap. XX, pp. 98-100. Os cronistas Rui de Pina 
e Duarte Nunes de Leio apontam este acontecimento, como tendo-se verificado em 1441, 
quando, na realidade, o mesmo se observmi ni> ano anterior Não se trata propriamente de 
um lapso, se atendermos ao facto de que era hábito, no século XV. começar a contar o ano 
H partir do dia de Natal. Nem sempre, porem, tal cntcno era usado, o que. por vezes, suscita 

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de onde lhe era mais fácil cximir-se ao controlo que exercia ^obrc ela seu 
cunhado, o regente, o qual permaneceu em Lisboa e Sacavém, com muita assidui- 



alguns problemas no domínio da cronologia. Quanto a Gaspar Dias de Landim, ao assíni^r 
o ano de 1442. comete um erro manifíesto. Devemos salientar que a sua cronologia se apre> 

sentii, cm geral, muito distorcida). 

O Prior do Crato terminou os seus dias em Castela, em data que não nos foi possível 
determmar. Em todo o ca!>o. deverá notar-se que já havia falecido em 1442, pois, em 18 de 
Fevereiro desse ano, o Papa Eugénio IV, medianie letns pontíffcias Religionis z/Hut, «onfieria 
o priorado do Hospilal a D. Henrique de Castro, fazendo alusSo a que o seu anteoetsw jtf 
não era vivo. (Documento inverido na bula Dum concessimus, de 18 de Março de 1443. 
A.N.TT.. Hiílas, maço 26, n.^ 24. Publicada na Mnnumciua ffcnricina. vol. VIII, Coimbra. 
1967, doe. 13, pp. 31-33, e sumariada por Joaquim dos Santos Abranches, íonies tio Direito 
Eedesiasiko Portuguet. I Summa do BuNario Portuguez, Coimbra, 1895, n.* 250, p, 40, 
e pelo Visconde de Santarém, Quadro dementar, tomo X, Lisboa, 1866, pp. 32'33). 

Teve vários filhos. Fm 4 de Dezembro de 1437, obteve três cartas de legitimação em 
benefício de Gonçalo de Góis, Estevão de Góis e Diogo de Góis, cuja mãe. Beatriz Gonçalves, 
era solteira ao tempo do seu nascimento (A.N.T.T., Chancelaria de D. Duarte, livro I, 
foi. 237v; Uvro 2 de Legitiinaçõeg, foi. 25lv). Desconhecemos se leria sido esta aenh(»a a 
mie de Femio de Góis e Fedro de Góis. os quais se encontravam com o pai no castelo 
do Crato, na altura em que se verificaram os acontecimentos acima mencionados (Ruy de 
Pina. oh. (ii.. cap. LXIII. pp. 307-308, Duiirte Nunes de Leão, ob. ciL, cap. IX, p. 135; 
Gaspar Dias de Landim, ub. cii., livro II, cap. XVI. p. 78). 

(*) A rainha D. Leonor obteve a vila de Sintra, juntamente com as de Alenquer e 
Óbidos, através da reforma efectuada cm coimbrã, de 4 de Novembro dc 1428, sobre alguns 
capítulos dc casamento com o futuro Rei D. Duarte, estabelecidos cm Olhos Negros a 16 
de Fevereiro do mencionado ano (A.N.T.T., (Javeta XVII, maço 8, n.' 4. Documento publi- 
cado por D. António Caetano de Sousa, Provas da História Genealógica da Casa Reai 
Portuguesa, tomo I, livro III, Coimbra, 1947, doe. 40, pp. 222-239; na Monnmenta Hen- 
rieÍHa. vol. 111. Coimbra, 1961. doe. 128, pp. 263-275; e cm .'t.v Cunitas da Torre do 
Tontho, vol. VII. I isboa. 1968. pp. 513-528. Sumariado pelo Visconde dc .Santart'm, Quadro 
hienwniar. Paris. 1842. pp. 3U3-3U4). Mais tarde, em 1 1 de Janeiro de 1435, El-Rci D. Duarte 
doou vitalíciamcnte a sua mulher as referidas vilas, acrescentando ainda ao contrato de casa* 
mento a pos.«ie das vilas de Alvaiázere, Torres Novas e Torres Vedras. A Rainha D. Leonor 
passava a perceber as rendas c direitos delas, com as suas igrejas c pertenças e ainda a res- 
pectiva jurisdição (A.N.T.T., Gaveta XVII. maço 1. n. 14; Chancelaria </»' D. Dinuir. livro I. 
foi. I13v e livro 3. foi. 46v; Livro I de Reis, fols. 65-65v. A primeira fonte enconlra-se 
publicada na Monnmenta Henridna, vol. V. Coimbra, 1963, doe 60, pp. 134-135 c sumariada 
em As Gavetas da Torre do Tombo, vol. VI, Lisboa, 1967, p. 554). Estando próximo do fim 
do reinado, fez-lhe D. Duarte, em 16 de Julho de 1438. doação das terras e padroados das 
capelas c igrejas das vilas de Torres Vedras, .Alenquer, Óbidos, Sintra. Torres Novas c 
Alvaiá/.erc. com as respectivas rendas e direitos, e ainda a jurisdição civil e criminal. (A.N.T.T., 
Gaveta XI H. maço 3, n." 12. Documento sumariado em As Gavetas da Torre do Tombo, 
vol. III, Lisboa, 1963, p. 8). Já no ano anterior a esta concessio. o soberano tinha determinado 
que as justiçai reais não entrassem nas terras da rainha cni serviço da jurisdição d;; conw 
(Carta régia dc 2\ de Fevereiro de 1437. A.N.T.T.. (uivita Xlll, maço 3, n." 11. Documento 
sumaiiado em as Gavetas da Torre do Tombo. vol. III, p. 8). 

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dade. enquanto D. Leonor se enconlrava residindo na sua vila Não há dúvida 
de que a presença vigilante do Duque de Coimbra sobre a viúva de D. Duarle 
causou muilos incómodos a esia senhora, que devia sentir-se manietada nas suas 
possibilidades de manter um estreito contacto com os seus partidários. A situação 
deve ter contribuído para que em D. Leonor aumentasse o ressentimcnio contra 
o governador do reino. 

A quem teria cabido o papel primacial na partida de D. Leonor da sua vila 
de Sintra para a de Almeirim ? Julgamos que o principal instigador seria o 
Prior do Crato, com a adesão do Conde de Barcelos e dos Infantes de Aragão, 
que assim se encontrava mais próximo da rainha. Podia manter intensos contactos 
por escrito com a viúva de D. Duarte, a qual. em qualquer momento, obteria 
refúgio seguro nas fortalezas do priorado do Hospital (*). 

A deslocação da rainha, de Sintra para Almeirim, causou as maiores apreen- 
sões ao regente e a seus irmãos.' os Infantes D. Henrique e D. João. Tinham a 



I ) Kuy Je Pina, ob, cit., cap. LV, pp. 294-295, Duurte Nunes Je LeSo. ob. cit., 
cap. IX. p. 129. 

Gaspar Dias dc Lundini afirma que D. I.conor partiu de Sintra para n sua vila de 
Alenquer, tendo seguido daqui para Almeirim (Ob. cit., livro II, cap.v VI e VIII. pp. 27 e 
40-41). Deve ter si<lo esta, na realidade, a trajectória secuida pela rainha. Mais diffdl 
resulta definir o momento exacto em que se verificou a dcslocai;ão. Sabemos, duma maneira 
genérica, que t;il acontecimento se deu no primeiro semestre de 1440, conforme nos revela 
uma carta escrita por D. Leonor, de Almeirim, em 1 de Junho de i440, a qual é dirigida 
aoa fidalgos, cavaleiros, juízes, vereadores, procurador e homens bons da cidade de Coiml»a. 
em que informa encontrar-se em boa paz e concórdia com o Infante D. Pedro (A.M.C.. 
Cartas Originais ,1^^ Iniantcs. n. 53. Documento publicado por João PoJn lo Oliveira 
Martinv, oh. cil. doe. pp. 4Q9-4I0. e na Moiiiimciittt Hiitrkina. vol. VII, duc. 81, p. 115). 
Mas duma forma mais precisa, temos conhecimento que D. Leonor se encontrava em Saiva- 
lerra de Magos, oriunda de Alenquer, no dn IS de Fevereiro de 1440 (A.N.T.T.. Clumcdaria 
4e D. Afonso V, livro 24, foi. 44v) pelo que se deprende que deve ter atravessado o rio no 
trajecto que se encontra dc permeio cnire c^sas duas localidades. Deparamos com a sua 
presença em Almeirim, pelo menos desde dc Marvo desse ano (A.N. F.T.. C lui/n i Im ia th- 
D, A /ouso y, livro 27, foi. ]29v). hntre as duas datas atrás citadas deverá situar-se u sua 
chegada a esta tUtinia vila. Por seu lado o regente deixou a capital do reino no dia 13 de 
Abril dirigindo^ para Santarém, onde vai permanecer, ininterruptamente, até ao dia 2 de 
Junho de 1440, precisamente logo imediatanu-nte a seguir à mencionada carta dc concórdia 
elaborada por determinarão da rainha (Humberto Carlos Baquero Moreno. Os Itintrários cio 
Injaiue D. Pedro, separata da Revista Je Ctèiuias tio líonu in da Universidade de Lourenço 
Marques, vol. 1, série B, 1968, pp. 54*57). Estamos em crer que as deslocações do Infante 
D. Pedro, durante esta fase, devem estar esireiUimente relacionadas com os movimentos de 
D. Leonor, o que nos leva a pressupor, conforme acima afirmámos, uma vigUtoda e controlo 
aturados. 

(*) Ruy dc Pina. ob. dl., cap. LV, pp. 294-295; Duarte Nunes dc Leão, ob. cit.. cap. iX, 
p. 129; Gaspar Dias de Landim, ob, cit., livro II, cap. VIII, pp.. 40-41. 

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Fl. 10 



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perfeita tn\âi) de < que taaes nuidanças nom eram por serviço d'ElRcy. nem bem 
e assessego do Reino». Assim, todos eles decidiram, cm conjunto, permanecer 
na vila de Santarém, relativamente próxima de Almeirm. Nos momentos de perigo, 
o Duque de Coimbra apenas se sentia bem junto dos irmãos, de modo a que estes 
o pudessem aconselhar sobre as decisões a adoptar. Com os Inlantes. filhos de 
D. João I. encontra va-se igualmente o io\em rei. que então contava a escassa 
idade de oito anos; a sua presença, ao lado destes, era símbolo da unidade da 
monarquia ( ). Apesar do Infante D. Pedro ter plena consciência de *quc no 
Reyno avya pessoas pryncipaaes a elle contraíras, e que sostynham e favoreciam 
a parte da Raynha». o seu maior receio residia, contudo, numa invasão oriunda 
de Castela. Não eram totalmente injustificadas as sua.s apreensões, se fizermos fé 
em Rui de Pina e nos outros cronistas que o seguem de perto, quando este autor 
afirma que. em Constança, tinham sido apreendidas, por homens da sua confiança, 
algumas cartas remetidas por D. Leonor aos Infantes de Aragão, seus irmãos, 
incitando-os abertamente a «que fizessem a estes Reinos mostrança de guerra» O* 



(^) Idem. Ibidem. 

C) Kuy de Pmu, ob. cil., cap. LV, p. 295; Cf. Duarlc Nunes de Leão, ob. cit.. cap. IX, 
p. 129; Gaspar Dias de Ijuidiín. ob. cit.. livro If, cap. VIII. p. 42. 

Dos cronistas alados, i sem dúvida este último quem nos oferece maior número de 
dados relativamente ao conteúdo das missivas de D. Leonor para seus irmãos. Resta, no 
entanto, apurar que tipo dc fontes teria utilizado Gaspar Dias de Landim, o qual. por cerli\ 
conlormc declara, leria acesso aos arquivos da casa de Bragança, mais ricos no século XVil 
do que actualmente. Revelavam as referidas cartas uma série infinita de vexames perpetrados 
pelo regente contra a cunhada. As mesmas mostravam que o Infante D. Pedro «chegava a 
nKinJar os seus criados [dc Dona I eon(>r] e fidaliios de sua casa que a não servissem, e os 
obrigava com jiravcs penas a que a desamparassem, c os persuadia a que a aborrecessem». 
Com base em lais queixas, solicitava a rainha a scu:> irmãos «que não consentissem ser tão 
maltratada e dessem ordem que com a maior brevidade possível se desse ivmedio a suas 
cousas, e quando nio fosse possivel ser logo, dessem mostras de ccmieçar as guerras com 
algumas entr:ul;is por aquclla parte que mais contraria lhe era. por que porventura com 
medo os mesmos povos se mudaram, e que fossem certos que lhe não haviam de faltar no 
reino grandes ajudas, porque o melhor d'elle e toda a nobreza e fidalguia não esperavam 
mais que vêl-os n*elle com soocorro para se declararem e pôr em campo por sua parte, 
e principalmente o Infante D. Affonso c seus filhos a quem seguia a mór parte do refaio» 
(Idem. Ihiiltnt. livro 11. cap. VIII, pp. 42-4.^). 

Não sendo hoje possível encontrar o rastro destas missivas, resta saber se a descrição 
das mesmas corresponde à sua naluieza. ou se se trata dum processo artlfldoio do cfonisla. 
Sbilta & vista o facto de D. Leonor, segundo a referida afirmaçio, poder contar com o apoio 
dos filhos do Conde de Barcelos, quando, na realidade talve/ por mero calculismo — , 
o C onde dc Ourém se encontrava ao lado dos filht^s dc O. João I. Fm lodo o caso, devemos 
advertir que a narrativa de Landim, refer.:nlc às cartas de D. Leonor, não deve estar muito 
longe da verdade dos factos ocorridos. 

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Perante a gravidade da siluaçâo política, lornava-sc indispensável ao regente 
do reino envidar os maiores esforços no sentido de afastar o perigo. Para tanto, 
cra necessário pôr em prática um esquema de acvào que garantisse a unidade 
política da nação. A neutralização dos partidários de Dona Leonor apenas seria 
viável no caso de estabelecer uma estreita aliança com o Condestável de Castela 
D. Alvaro de Luna. de modo a ficar salvaguardado de qualquer ataque dos 
Infantes de Aragão. Não tardou muito que pusesse em execução esta solução ('). 
Dispunha, igualmente, de um dispositivo militar que lhe garantia a defesa da 
fronteira portuguesa. As funções de fronteiros cncontravam-.<:e confiadas a seus 
irmãos. Assim, a comarca de Entre-Tejo-e-Guadiana pertencia ao Infante D. João. 
Condestável do reino e governador do mestrado de Santiago, que. em 9 de Maio 
de 1440, tinha sido investido nessas funções ('"). Também nó mesmo dia, foi 
designado o Infante D. Henrique para o cargo de fronteíro^or de lodos os 
lugares da Beira ("). outroianto sucedendo com D. Afonso, Conde de Barcelos, 
que passou a ocupar o ofício de fronteiro-nior das comarcas de Entrc-Douro- 
-c-Minho e I rás-os-Monles (''). Pensamos, no entanto, que a ulterior atitude deste 
filho bastardo de D. Joào 1. na crise aberta entre D. Leonor c o Infante D. Pedro, 
tenha provocado a sua destituição do cargo. Uma carta do Regente I). Pedro, 
outorgada cm nome do rei. com data de 19 de Novembro de 1440. nomeia o 
Conde de Ourém para o lugar de íronleiro-mor ( ). Muito embora a ementa da 
mesma, lançada na chancelaria regia, omita a designação da frontaria. julgamos, 
por exclusão de parles, tralar-se da comarca outrora pertencente ao Conde de 
Barcelos, pai do bencticuido. lai sistenia licuu ainda reforçado ct>m o envio 
para a cidade do Porto dc Aires Gomes da Silva, fidalgo da casa do Infante 



(*) Ruy de Pina, ob. cit» cap. LV, pp. 295*296: Duarte Nunes <le l^eio. ob, cit., 
cap. IX. p. 129; Gaspar Dias de Landim, ob, cit., livro II, cap. VIII. p. 43. Veju-sc tamWm 
o estudo do Prof Avelino de Jesus CosUi. Relaçõts dt D. Afonso V com Castela e Aragão 

em 1460. Brn^u. 1952. p. 18. 

('-) A.N.T.T., Cliuncflaiiu dc D. A forno V. livro 20. foi. I27v; Livro 3 ilc Misncos, 
foi. 182. A primeira fonte, que se encontra em ementa, tal como a segunda, foi publicada na 
MonumciUa Htnrkina. vol. VII. Coimbra, 1965. doe. 74, p. 107. 

('") A.N.r.T.. Chaitulaiia tlc H Ifmno V. livro foi. I27v; /./»/.< ' Mi\tic,>\, 
fols. I81-I8IV. A primeira fonte cncontra-sc publicada por Antonio Joaquim Dias Dinis, 
Estados Henriquinos, vol. 1, Coimbra, 1960, doe. Í5 pp. 41 8*420 e na Mottumeuta Himríçina, 
vol. VII. Coimbra, 1965. doe. 73. pp. 105-107. 

("» A.N.T.T., Chancelaria de D. i' ^víí t'. livro 20. foi. I27v; Livro J dv Místicos, 
foi. 182. A primeira fonte encontra*se publicada na Monumento Henricina. vol. VII, Coim- 
bra. 1965, doe. 75, p. 108. 

C*) A.N.T.T.. Chaneehría de D. Afonso V, livro 20, foi. 127y. Documento publicado 
na Monumenta HenricUta, vol. VII, Coimbra. 1965. doe 116. p. 186. 

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Co|.; 1 y ícxl material 



D. Pedro, o qual tinha como missão principal o objeciivo de promover a 
«deffensam. e registcncia a quaaesquer rebates, que naquela Comarca sobre- 
viessem»("). Assinale-sc que este cavaleiro e companheiro do Duque de Coimbra 
nas suas digressões através da Europa já exercia o ofício de regedor da justiça na 
comarca e correição de tntre-Douro-c-Minho ( ' ). 

Alguns meses depois de D. Leonor ler estado em Almeirim, resolveu partir 
para o Crato. Quais teriam sido as forças políticas que a induziram a assim agir? 

l undamenlalmentc, como já vimos, coube a iniciativa a D. Afonso. Conde de 
Barcelos, no que foi secundado pelo Prior do Crato e por um sector importante 
da nobreza do norte do País ('*). Parece que a reacção do primeiro foi sobretudo 



(■*) Ruy de Pina, ob. eit.. cap. LXVI, p. 313; Duarte Nunes de Lefio. ob. eit.. cap. X. 
p. 139; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro II. cap. XIH. p. 67. 

(' ) Não sabemos exactamente em que data é que Aires Gomes tia Silva foi investido 
nas funções de regedor da justiça na referida comarca. João Pedro Ribeiro, no seu estudo 
RtUfxàes Históricas. Coimbra, 1836, vol. II, p. 43, c da opinião de que este fidalgo exerceu 
o cargo durante alguns anos, no período compreendido entre 1430-1440. Do ponto de vista 
documental, apenas sabemos que o mesmo foi novamente enviado como regedor da aludida 
comarca, por carta régia de 28 de Abril de 1439, ou seja, mais de um ano antes da referida 
crise (A.N.T.T., Chaiuiluria de D. Afonso V, livro 18. foi. 53. Veja-se Luiz Vaz de Sampayo, 
Subàdios paru uma biotsra/ia de Pedro Alvares Cebnút in Arquivos da Universidade de 
Coimbra, vol. XXIV, 1970. p. XXV), Sobre Aiies Gomes da SOva, vejam-se os dados bio- 
gráficos em apêndice. 

('*) De todos os autores c(>nhecidos, é. sem dúvida. Gaspar Dias dc l andim quem se 
refere mais circunstanciadamente a estes acontecimentos. Diz ele : «Publicada que foi a liga 
que o Infante fez com • CondeslaMe de Castella e Mestre de Alcantara contra os Infiinles 
irmios da Rainha, foi commummente reprehendida e tida injusta de toda a nobreza doestes 
reinos; c a Rainha se mandou qiicix n ifolla ao Infante D. Affonso e seus filhos e a toda a 
fidalguia do reino, por ser com os homens com que se fazia, c contra os tios d'Fl-Rei 
destes reinos, e a mesma queixa ú Rainha de Castella, sua irmã, dizendo que já o governador 
se nlo contentava de a perseguir a dia dentro n*elles, mas ainda fora d*elles contra seus 
irmãos, com o Condestable D. Alvaro, satisfazendo aos particulares odíos que o mesmo 
Condestable com elles tinha, posto que são estratagemas de guerr» He que cada um se pôde 
valer c com que se pode livrar das Ncxaçôes do inimigo». 

•Tanto que o Infante D. Atfonso teve este recado da Rainha, o sentiu gravissimaniente, 
assim pelo parentesco .que tinha com os Infantes de Aragfio. como primos que eram de sua 
mulher, com a qual segunda vez casara sendo morta a Infante D. Brites sua primeira 
mulher, filha do Grão Condestable D. Nuno Alvares Pereira, pois as obras rião podem ser 
dignamente louvadas conforme os seus merecimentos; este parentesco o obrigava a deffender 
suas causas, como também por ser em odio da Rainha, com quem tinha o mesmo parentesco; 
e logo que teve este recado da Rainha se foi a Ouimarles, d*onde avisou aos condes seus 
filhos e ao Prior do Crato, e o mesmo recado màndou aos fidalgos mais príncipaes de que 
por aquellas comarcas tinham suas casas, os quaes se aiuntaram brevemente n'aquella villa, 
c dando-lhe conta ^da liga, e praticando-lhe a elles a injustiça d elia, e de quão mau exemplo 
era por ser feita em nome d'El-Rei d'cstes reinos, e contra os tios do mesmo Rei, para 

76 — 



■^u^j I ighted niu.L i lui 



molivadu pela aliança do regente com o Condestável D. Alvaro de Luna. De facto, 
já muito antes de D. Leonor partir para o Crato, nolavam-se indícios de inquietação 
por parte do conde, traduzidos por um acordo celebrado entre este e os Infantes 
de Aragão ('"). A aliança resultava, na realidade, numa resposta ao tratado que 
fora convencionado entre o Infante D. Pedro e O. Alvaro dc Luna ('^). 

O esquema de acção concebido pelo filho natural de D. João I consistia 
essencialmente em criar condiçOes favoráveis à deslocaçio de D. Leonor, a qual 



vingar e satisfazer paixões dc particulares inimigos que contra clles se queriam satisfazer 
e contra a mesma Rainha mãe de seu Rei. a que era necessário accudircm, podendo ser dado 
algum remédio; pelo que todos assentaram favorecer a Rainha e pedir ao Infonie qulzeae 
tomar a sua conta ser catMça e governados, e que de outra maneira não podia haver ordem 

nem dar-sc a execução cousa quj sc ordenasse: o qiio por clle foi acccitado. e a primeira 
cousa que ordenaram toi avisar os Infantes irmãos da Kainha. que deixadas todas as mais 
paixões e competências daqueiks reinos e guerras que traziam com o Condestable e Mestre 
d*Alcantara. se passassem logo a esses reinos com a mais gente que podessem, que o Infante 
D. Affonso os esperava com o melhor d*e]|es, e não seria podoNMO O Infante governador para 
fhe resistir, c lhe conviria pedir partido, e ou a Rainha ficaria com tudo ou pelo menos com 
o que d'ellc qui/cssc. piuquc toda a parle do reino que seguia ao Infante era gente de pouca 
unportancia, e todo o melhor era de sua parte. E despachados com este recado fieis mensa- 
geiros retomaram as suas terras para se fazerem prestes para que tanto que oii Infonlea 
pozessem ordem em sua vinda e entrassem, os achassem apercebidos» {Ob. eit^ livro II, 

cap. IX. pp. 45-47). 

!'•) () cronista Rui dc Pina refere a aliança entre o Conde de Barcelos e os irmãos da 
rainha, nos seguintes termos : -H o Conde de Barcelios sentyndo como as cousas se chegavam 
a rompimento, sendo duvidoso do fym que averia, acordou de se liar como liou com ElRey 
de Navarra, e Yfonte Dom Anrrique Irmaãos da Raynha, concordando antresy suas capitu- 
laçoôcs de s-rem amigos d'amigos, c ymigos de yniigos. c com ainda certa de gentes d'armas» 
que cada huns dariam aos outros, quando as suas neccssydades e afrontas comprysse» 
{Ob. ai.. cap. l.X. p. 302). 

Segundo o menci<mado cronista : ■ Destas lyancas (entre o Conde de Barcelos e oa 
Infantes aragoneses] foy togo ho Reino todo sabedor e mui espantado, especialmente mos- 
traram disso grande senlimcni<i. o Yfantc Dom Joam seu genro, e o Yfanic Dom Anrrique 
ambos seus Irmaãos. E o Yfantc Dom Joam lho enviou muyto estranhar, per Vasco Gil 
>eu Confessor, que despuis foy Bispo d'Evora, e o Yfante Dom Anrrique per Femam Lopez 
d*A2evedo Comendador moor de Christo. Aos quaes o Conde respondeo, que nom desistiria 
do que tinha feito, e que sabia bem o que lhe cumpria F ;issy o disse ao Conde d'Arrayollos 
seu Fylho, que a clle sohr*issii foy em pessoa». (Idem. Ibidem). Veia-sc também Duarte 
Nunes de I cão. oh. cil.. cap. IX. p. 131, que resume e segue a versão de Rui de Pina. 

Gaspar Dias dc Landim apresenta uma versão muito semelhante à dos cronistas citados» 
apenas com a pequena dlvergtoda de considerar que foi o Conde de Ourém, e não o de 
Arraiolos, quem falou com o pai sobre o mesmo assunto (Ob. cit» livro II, cap. XIII, 
pp. 64-66). 

('^) Ruy de Pina. oh. cit.. cap. LVI, pp. 296-298. Duarte Nunes de Leão, ob. cil.. 
cap. IX. p. 129; Gaspar Dias de Landim, livro 11, cap. IX. p. 45. 

—77 



partiria para o Crato com a aquiescência do seu prior, que assim se veria obri- 
gado a entrar no conluio. A viúva de D. Duarte, conforme o projecto, poderia 
seguidamente deixar a fortale/a do priorado, atravessar o leio c penetrar na 
Beira, onde o marechal do reino Vasco F-crnandes Coutinho com outros F-ydalgos 
e gentes se hiriam pera ella. e que o Conde com todolos outros Fydaigos ouirosy 
lhe acudcríam. c a recolheriam cm suas terras, que logo começaria de reger, e 
que da execuvani. e obra desta empresa os Yfantes seus Irmaãos. e assy todolo.s 
outros seus servydores tomariam mais esforço, e desejo de a proseguir» C). 

D. LeoncMr fíoou satisfeita ao tomar coniMcimenio do plano, que âeu logo 
a conhecer ao Prior do Crato; mas este, que «era homem de muytos dias e siso, 
ouve o feito por sem fundamento e muy duvidoso. E assy lhe respondeo em muitas 
e boas pallavras. e em fym que se de todo em todo sua vontade quisesse forçar as 
armadas de tam vyvas razoões. como lhe mandou, pera o ella nom cometer, que 
elle estava prestes de a receber, honde ella quysesse. honra, e fazenda, que elle 
nom podia escusar» ("). 

Um dos principais opositores da concretização do projecto, que, apesar de 
secreto, constava entre os filhos de D. João I, foi o Infante D. Henrique. Com a 
tenacidade que lhe era peculiar, envidou todos os esforços no sentido de obstar 
à sua execução. Além de ter enviado uma advertência ao Prior do Crato, que 
era seu criado, ele próprio partiu para Lamego, com a finalidade de demover o 
seu meio-irmão, que permanecia obstinado nos seus intentos. O seu principal 
objectivo visava trazê-lo a boa paz e harmonia com o regente. Apesar de terem 
resultado infrutíferos os esforços do infante D. Henrique, conseguiu afastar do 
Conde de Barcelos algunii dos principais fidalgos beirões que o apoiavam 



('») Ruy dc Pina, nh. cit., cap, [,VII, p. .100; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. cit., 
cap. IX, p. 130; G.ispar Dias de L.undim, nb. cil., livro 11. cap. X, pp. 53-55. 
(=») Idem, IbUk-m. 

P) Ruy de Pina. ob. cit., cap. LXI. pp. 303-304; Duarte Nunn de tjefto. ob, cit^ 
cap. IX, p. 132; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro II, cap. XIV, pp. 69*71. 

Através da narrativa do último autor citado, podem seguir-se dc per{o as intensas 
diligências levadas a efeito pelo Navegador, no senlido de impedir que o Conde dc Barcelos 
continuasse a conspirar contra o governador do reino. Para isso, seguiu para Viseu, com o 
propósito de «que não passassem cartas ou recados alpuis para o Infante D. Affonso ou 
para oi Infantes de Aragfto que nio fossem tomadosi (Ob, cit., livro 11, cap. IX, p. 48). 
Dc tal maneira se desempenhou bem da sua tarefa, «que nào lhe escapou recado que fosse 
u mão» (Idem, Ibidem, cap. IX. p 49 1. Só depois de ter esiado em Viseu, é que se dirigiu 
para Lamego, onde conferenciou com o meio-irmão, no mosteiro de S. João de Tarouca, o 
qual se encontrava junto à leCnida cidade (Idem, Ibidem, cap. XiV. p. 69). 

78 — 



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firam eles Vasco Fernandes Coutinho, marechal do reino ("), João de Gouveia 
e Martim Va/. da Cunha (■'). 

Entretanto, D. Leonor mosirava-sc hesitante na decisão a tdmar. Antes mesmo 
de ter aderido à solicitação de partir para o Crato, procurou ouvir o conselho 
do seu confessor Frei João de Moura, que para o efeito tinha sido mandado 
chamar ao mosteiro de S. Domingos (-). Depois de conhecer as intenções da 
rainha, foi ele do parecer dc que a mesma não devia arriscar-se a um empreen- 
dimento dessa natureza C*). Nâo obstante a prévia determinação de D. Leonor 



{^) Vejann^se sobra o mencionado marechal do reino, alguns dados biográficos em 
apêndice. 

De igual modo. se enconu^m em apêndice dados biográficos acerca deste fidalgo 

beirão. 

(-') Já tivemos oportunidade de fazer referencia a este fidalgo, quando aludimos ao 
plano urdido pelo Conde de Barcelos para convencer a nobieta a não participar nas cortes 
celebradas em Lisboa no ano de 1439. 

(^) Existe uma ligeira divergência entre Rui de Pina (Oh. cit.. cap. LXIV, p. 308) 
e Duarte Nunes dc Leão {Oh. cit.. cap. IX. p. 135). por um lado, c Gaspar Dias dc Landim 
{Ob. cit.. livro II, cap. XI, p. 57) pelo outro, relativamente ao convento em que se encontrava 
o confessor da njalw. Enquanto <|ue os dois primeiros autoies referem que a ninhu mandou 
chamar Frei João de Moura ao convento de S. Domingos de Benfica, que na allun se 
encontrava h distância de meia légua de Lisboa, é o último autor citado da opinião de 
que o referido religioso tinha sido mandado vir do convento de S. Domingos em S;intnrcm. 
Su, do ponto de vista geográfico, parece ser dc aceitar a afirmação de Landim, visto que 
Almeirim se encontra muito mais próximo de Santarém do que de Lisboa, queremos crer, 
contudo, que a circonstftnda de Rui de Pina esUir muito mais perlo dos acontecimentos, 
nos deve fazer pender a favor da sua versão. 

Existia, ainda, na mencionada vila dc Santarém, o convento das freiras dc S. Domingos» 
que. em 29 de Março de 1462, recebeu carta de privilégio de «guarda» e «encomendai do 
Rn D. Afonso V (A.NXT.t Uvro 8 de E^remadwa, foi. 70v-71). 

<*)' Caspar Dias de Landim descreve esta entrevista entre a rainha e o seu confessor, 
afirmando que D. Leonor lhe deu «conta dc sua determinaçSo, dizendo-lhe que o fazia por 
fugir às perseguições do Infante governador, dando-lhc conta do que cm seu lavor lhe estava 
ordenado pelo Infante D. Affonsu». Por seu lurnu Frei João de Moura «ouvidas estas razões 
lhe reprovou com outras muitas mui bem fundadas, persuadindo-a a que se aquielasra e 
sofresse com pacíenda todas as semrazScs que lhe eram feitas, e se lhe fizessem, porque 
indo-sc para o C rato haviam de ser muito maiores, e no desterro que se lhe esperava se 
havia dc vêi cm grande desamparo cercada de grandes tiesventuras. e que não fizesse tanto 
caso das negociações que di^ia, porque nunca as cousiis succedíam como se esperava, que 
bem via quão impedidos estavam seus irmãos para lhe poder accudir, e que sem éUes o 
Infante D. Affonso, nem os fidalgos do reino se haviam de aventurar» {Ob. cit., Uvro II, 
cap. Xl. p. 57). 

Não sabemos onde c que o referido autor terá ido buscar tais informações, sendo até de 
presumir que exista nas mesmas uma certa dose de imaginação. Em todo o caso, o seu teor 
não deve encontrar-se muito distante da verdade dos factos verificados. 

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sair para o Crato, não há dúvida de que as palavras do seu C(^nfessor. em quem 
havia «grandes dias e doutrina», lhe devem ter calado nuito lundo no ânimo. 
De tal maneira que à rainha «assentava ja em sua vontade nom se partir, pesando- 
-lhe muito da palavra que dera aos filhos do Prior» (^). Demasiado tarde, porém, 
chegaram ao íntimo de D. Leonor as sen.satas palavras de Frei J(xlo de Moura, 
pois a realidade dos eventos ultrapassara, havia muitQ, a vontade da viúva de 
D. Duarte. 

Próximo de Almeirim, ou seja, na noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro 
de 1440. encontfavam-se os filhos do Prior do Crato, Fernão e Pedro de Góis, 
os quais intentavam vir buscar a rainha (^). Faltava a coragem a D. Frei Nuno 
de Góis para o fozer em pessoa, alegando em sua defesa «velhice e doença>. 
pois teria de se encontrar previamente com o Infante D, Pedro, depois das dili- 
glacias de apaziguamento encetadas pelo Infante D. Henrique (^). 

Entretanto, a rainha, visivelmente perturbada, simulava os preparativos de 
se deslocar até à Batalha, a fim de proceder ao «saymento> de seu falecido marido. 
De modo a que não houvesse qualquer desconfiança da parte do Infante D. Pedro, 
«dessímuladamente mandou lá fazer algum percebimento». De facto, como sublinha 



t") Ruy de Pina. oh. (if.. cap. LXIV. pp. 308-309; Cf. Duarte Nunes de Leão. ob. cit» 
cap. IX, p. 135; Gaspar Dias de Landim, ob. cil., cap. XI, p. 57. 
(=«) Idem. IbUhm. 

(*) Ruy dc Pina, ob. cil.. cap. LXIII, p. 307; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cil.. 
cap. IX, p. 134; Gaspar Dias de Landim, ob tít, livro 11, cap. XVi. pp. 77-78. 

Este último autor, contraríamenie a Rui de Pina e Duarte Nunes de Leio, considera 
que a inteivwiçfto do Infame D Henrique junto do Prior do Crato, a favor de um apazt- 
guamenlo com o Regente Pedro, npcnas sc verificou dcp*iis da rainha já se encontrar 
na fortaleza desse priorado. Sú depois de D. Leonor ui estar refugiada é que D. Frei Nuno 
de Góis «foi escusar-se com o Infante D. Henrique e com o governador com sor velho e 
mal diqiosto. e nBo se achar em estado para se pôr a caminlio. mandando em seu nome 
um filho chamado D. FernuPLlo Jc Goes a dcsculpar-se com eite. e%fevendo a ambos COm 
muita submissão e humiU!;ulc, di/cndo que cllc recolhera a Rainha cm suas terras como 
sua senhora e mãe d'£l-Rei seu senhor, mas não com animo ou tenção de desobedecer 
ou offender o governador ou o encontrar em cousa alguma, e estava prestes e sempre o 
estivera pata em tudo o servir e nlo faltar nunca com a obediência devida a seus man* 
dados; nio foi bem recebida esta escusa do Prior pelos Infantes, porque lhe parecia que 
eiam escusas, pois as obras com a resposta não diziam» (Idem. Ibidem, cap. XVÍ, p. 78). 

Deve tratar-se duma interpreiaç.-to f.intasista de Gaspar Dias dc l andim, em que não 
sooocnte transgride no respeito pela cronologia dos factos como aindu compõe u versão dos 
acoiUiaetnienios a seu jeito ! 



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Rui (Je Pina. o regente «nom era em certo sabedor, que a Raynha se queria 
partir pera o Cralo» ( ). 

Dc acordii com a versão do supracilado cronista, alguns dias antes dos 
filhos do Prior trazerem D. I eonor para o Craii>. Veo Fernam dc Gooes a 
Santarém, e offercceo a enibaaxada lalsa de seu Pay per sua crença ao Recente, 
mostrando querello desculpar úo passadio ciíerccendosse em todo o que estava por 
vir ao que elle mandasse, e pedio logo ao Regente licen(,a pera hir fallar aa 
Raynha, porque lhe queria dizer o em que fycava com elle, e assy lhe pedir 
que d1iy em dyante nas cousas, que fossem contra vontade e servyço do Yfante. 
ella nom se quysesse servir do Prtol seu Pay. nem detles seus Fylhos. salvo nas 
cousas em que os Yfantes a servyssem. Mas ysto em .seu coraçam e propósito era 
muyto em contrairo: porque como foy ante a Rainha, concertou com ella sem 
deferença o dia e ora de sua partyda. que avia de ser logo em bespora de todollos 
Santos aa noite. E que ele e seu Irmão Peàro de Gooes viriam por ella. com 
mayor resguardo e com a mais gente que podessem. E com ysto se partio. e o 
notefycou ao Prior, que com muyta dellygencia e mayor desymullaçam fez logo 
prestes a mais gente que pode. Dando pubrycamente a entender por nom fazer 
na terra sospeita nem alvoroço, que ja eram concertados com o Regente, e que 
pera o mais obrygarem o queriam hir honradamente servir, de que toda a terra 
mostrou ser muy alegre» ("). Tudo .se preparava, na realidade, sob a folsa apa* 



(^) Ruy de Pina. oh. cif., cap. I.IX. pp. 101 -302. 

Gaspar Dias de 1-andiin descreve estes aconicciincntos do seguinte modo : «Tanlo que 
a Rainha teve determinada sua partida, mandaiá os seus que se apercebessem de cavallos 
e o mais necessário, dinndo que queria ir ao mosteiro da Batalha fazer o sahimenio e 

solemnidades d'elle, que ainda não tivera tempo dc o fazer. porqiM nSo suspeitasse o gover- 
nador alguma outra cousa, c por m;iis dissimtilavão nirindoii negociar na Batalha algumas 
cousas que parecessem mais necessárias para as solemnidades das exéquias e celebração 
daquelle acto. O Infante D. Pedro soube bem d'estes preparamentos, mas nSo pôde alcançar 
a tenção com que se faziam, porque a Ramba o communicou com poucos, e esses muito 
fieis, porque tamWm os tratos que tinha o Infante D. Affonso com cila sobre sua ida para 
O Crato não lhe viera a noticia, como havia pouco que fi/cr.i com cila sua rnalguardada 
amizade, não lhe pareceu que seria mais do que cila di/ia c «vcus criados publicavam; por essa 
razfto nSo fez deligencta pelo saber, e taml)ém por se não dizer que dava occasião a novas 
discórdias» (Ob. cit., livro 11. cap. XI. pp 5^-57). 

(") Ruy dc Pina. oh. cii.. cap. I XIIÍ. pp. 307-^)8: Cf. Duarte Nunes de Leão, nb. cit., 
cap. IX. PP J 34-1 35. Gaspar Dias dc Landim descreve a partida da rainha duma forma 
estremamcnie sucinta, ao afirmar : «que foi um dia antes de véspera de Todos os Santos, 
e como tinha concertado vieram os dois filhos do Prior do Crato com boa gente, com a 
qual chegaram até jimto de Almeirim, e deixando-a um pouco JcsviaJci em logar que não 
podesse ser descoberta, entraram na villa, com cuja chegada a Rainha se poz em ordem 
dl- partir acompanhada dc grandíssima tristeza e lagrimas que não pode encobrir» {Ob. cii.. 
livro U, cap. XI, p. 58). 

— 81 

Fl. II 



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rcncia de concórdia, pura ikubtrair a rainha ao controlo do Iníante D. Pedro e 

de seus irmãos. 

Assim, dando sequencia ao plano préviuniente estabelecido, chegaram ao 
Paiil de Atela os mencionados íillios do Prior do Crato, os quais traziam em 
mente o propi>siio de conduzirem D. Leonor para a íoriale/a. Na citada terra 
pantanosa deixaram as suas tropas. deslocando-sc a seguir para Almeirim, apenas 
acompanhados por dois pagens c dois escudeiros. Nos paços da rainha tiveram 
de utilizar os melhores argumentos para convencerem a indecisa senhora, que 
se encontrava fortemente .sugestionada pelos prudentes conselhos do seu confessor. 
Era absolutamente indispensável agir com a maior rapidez e confidência, não fosse 
acontecer que os espias do governador descobrissem que algo de anormal se 
estava passando V^, 

Os preparativos da saída de D. Leonor fizeram-se. de facto, com o maior 
sigilo. Coube a sua organização a Diogo Gonçalves LoboC). vedor da fazenda 
da rainha, cque com muita trigança deu aviamento a todo o que compria pera 
sua partida>. Eram 21 horas, quando ela recolheu aos seus aposentos, não tar- 
dando mais de uma hora que saísse por uma porta secreta, apenas acompanhada : 
pelo referido vedor; pela ama que levava ao colo a Infante D. Joana, ainda criança 
de peito: pelo seu escrivão da puridade. João Vaz Marreca ( e. também, pda 
donzela aragonesa Beatriz Corelha e pela sua covilheira Maria Dias(^;. 



( -) Ruy úe Pina, oh. cit.. cup, LXIV. p. 309; Cf. Duarte Nunes de l-cão, ob. cit., 
cap. IX. p. 135. 

O primeiro <los cronistas citados refere que D. Leonor, ao dar oonhecimento aos filhos 
do Prior da sua intenção ilc nflo sair dc Almeirim, provocou neles uma forte perturlnção. 

Sfgiindo as su:»-; prõpri;is p.ilavnis. -clics f\c:ir;ini miiy torvados; porque a conheceram ja 
mudada de tudo, c sobre yssti ouvcrum anire sy muitos debates, em que a Kuynha fynalmente 
foy dos agravos deles vencida, e quis contra sua vontade sal^fazer ao oue tynlia prometídot 
(Idem. Ibkiem). 

('■') Veja-se a sua bitigrafia em apêndice. 

O*) Veja-se. de ijiual modo. a sua biografia em apêndice. 

(3-) Ruy de Pina, ob. cit.. cap. I.XIV, p. 309; Cf. Caspar Dias de Ljindim, ob. cit., 
livro II. cap. XI. p. 58. o qual diverge na sua narrativa do primeiro cronisla. ao afimmr 
que acompanharam D. Leonor, logo saída de Almeirim. tD. Fernando, senhor *de Cascaes e 

sua mulher D. Maria de Vasconcelos, D. Affonso seu filho. Nuno Martins da Silveira, 
aue fôra aio de Kl-Rci. e lhe toi tirado o cargo pelo ínf.inic D. Pedro. Dioço (ionçalves 
Lobo, veador de sua casa. João Vaz Marreca, seu secretario, Pedro Annes Lobato, que 
havia sido regedor da justiça e também fôra privado pdo governador por ser affeíçoado 
ás cousas da Rainha. D. Maria, sua camareira e Beatriz Corelha. dama aragoneza». 

Parece-nos menos exacta a versão de Landim do que a de Rui de Pina. até porque 
s:ibcmos que Nuno Martins da .Silveira n."io chegou a cxilar-sc em Castela, tendo-se retirado 
para «hiiua quinlua ssua homde a ell & a ssua moihcr & ff. íczyão muytos agrauos» (D. Luís 
Gonzaga de Lencastre e Távora, A Heráldica da Casa de Abrantes, in Armas e Troléus. 

82 — 



^up; iighted material 



A comitiva dc D. Leonor dirigiu-se imediatamente para o Paiil de Atela, 
onde ^e encontravam as hostes do Prior do Crato. Daqui seguiram rumo á forlalc/a 
do priorado, sem que. no entanto, o fi/essem muyto de pressa por lhes noin 
aturarem as bestas em que hyam->. No dia seguinte, pelas 10 horas da nianhà. 
chegaram a Ponte de Sor. onde ^comeram c repousaram hum poucos, pondo-se 
logo a seguir a caminho do destino. Atingiram o Crato ao anoitecer, em cujo 
castelo os aguardava o prior, que entregou à rainha vas chaves de toda.s suas 
fortallezas. com rezoôes dc grande humyldadc e muyta obediência» C). Após a 



tomo X, n. 1. 1969, p. 34). Quanto ;i D. Afonso de VasconccloN, sua mulher c filho, que se 
encontravam com D. Leonor cm Almeirim, só na madrugada do dia I de Novembro ú que 
fugiram para o Crato, por não terem sido anteriormente avisados da partida da rainha 
(Ruy dc Pina. oh. cit.. cap. I X\'. p. .110; D\ur\c Nunes dc I.câo, oh. cit.. cap. IX, p. 136). 
No concernente a Pedro I- ines I ol-iai ^ icnor.mios .lo certo o que Ihc terá acontecido, não 
nosi constando, porém, que tenha estado homiziado cm Castela. 

Na carta escrita pelo Infante D. Pedro aos conselheiros de Barcelona em 12 de 
Novembro de 1440, aparecem-nos descritos estes acontecimentos do seguinte modo : «E desque 
axi fonch declarai per crts goneralls Ab lajuda dcl Omniipotcnt Senyor Deus, sab que ab 
bona voleniat H ucrtailcr ct>r.itj: he iVt c ;iconsc!hai li>la lionor e serujr dela dita Senyora 
c fuy prest a coniplir seus honests kcquerwnents. H a ella fonch Plasent de for ab my bona 
concórdia e liansa damistat fermada antre nos per nostres scrits. E sent nos axi en aquesta 
concórdia. Mali consellers que la consellen, que no esguarden la exçelençia de la dita Senyora, 
ny desigcn son bc e honor, fundats cn gran ma!i(,'ia. desjgant discórdia enaquests Rcgns ly 
fan antendre qucs pcrtis desta hona concórdia c amist.il que ,im .mire nos al auja. F Ian feia 
mudar dc son bon proposit cn tal manera que Ian endujda que sen pertis denjt dc uns 
palaus hon staua que sen dei dit Senyor Rey que sen apper desta uila: los quais palaus se 
apelen Almerim. E axi sen perti denjt. E lo ssen dema per la mati que era dia de tots sants 
icn troba ab poca gent c de poca condiçio T. anasscn a un castcll ques dc Ia borde dei 
Kspit.il de Rodes, lo quall castell se apella lio Cr:ito a ht^nt era de preseni Ia dita Senyoria 
esta.s. b nianasen ucitar E guaÍLtr per lota la uila con se sos aseegadu ho em temps de 
guerra. De la qual cosa Deus sab de mya Intençio que me desplage molt E me desplau. 
E men plauria e auría syngular placr se a ella fos plasent de tomarssen en suas terras 
E uolent uiure cn aquellas. E de sig seruirhi c linnrrala axi com cs de Rabo. E axi lov 
Iremcti dar e Requerir per letras delKey meu Senyor c niyu-si (LH.M.B., Carias Realcs 
OrininaUs, série B-62). 

<*) Ruy de Pina, ob. cih, cap. LXIV, pp. 309-310; Cf. Duarte Nunes de Leão. ob. kt.. 
cap. TX. p. 136. 

Hxistc uma ligeira divLMgcncia cm (iaspar I>i:is de Landim, relativamente à duração 
da \iagem. Hnquanto que para os dois primeiros autores, esta teria decorrido num espaço dc 
tempo inferior u 24 horas, para este último cronista proloiigou-sc a mesma por dois dias, 
tendo a comitiva régia permanecido na prinwíra noite na vila de Ponte de Sor {Ob. cit» 
livro II, cap. XI, p. 60). 

Pensamos, mais uma ve?, tratar-sj de um lapso cronológico lie Gaspar Dias dc Landim, 
pormenor em que. aliás, este autor c fértil, e que também, embora em menor escala, afecta 
os outros cronistas. 

— 83 



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chegada. D. Leonor procedeu ao envio para todo o reino de cartas que já trazia 
elaboradas desde Almeirim. Nelas dava instruções aos seus súbditos para ^-^que 
lhe tornassem o Regimento e o tirassem ao Ylante. contra quem apontava cousas 
em que parecia nom reL'cr cowo devia». Ao contrário do que. por certo, imaginara 
a rainha, o seu efeilti loi contraproducente, gerando no País uma onda Ue reac^'ão 
bastante generalizada a favor do Duque de Coimbra C'). 

O regente teve conhecimento da fuga da rainha, pouco depois da meia-noite. 
através de Gil Pires Resende, contador de Santarém. Não foi este funcionário 
capaz de averiguar o itinerário da fugitiva, nem se a mesma levava consigo as 
Infantas; mas, pouco depois, o governador foi certificado do caminho que seguia 
e da Infante que levava em sua companhia (^). Ao mesmo tempo que o Infante 
D. Pedro se apercebia da situação, reinava em Almeirim a maior das confusões. 



( } Ray de Pina, ob. cit., cap. LXVII, pp. 313-314; Cf. Duarte Nunes de Leão. ob. cil.. 
cap. X, p. 139, Gaspar Dias de landim, ob. cit., livro 11. cap. XVl. pp. 78-80. 

Na descríçSo relativa à reacção do País perante as cartas remetidas por D. Leonor, 
mais uma vez se observam discrepâncias entre Rui de Pina e Gaspar Dias de I andim. Para o 
primeiro «foram os que receberam suas cartas tam indinados contra a Rayíitia, c traluvam 
tam mal os prymeiíos mcsscjcirus delas, que os segundos temendo taaes escarmentos, uuium 
por melhor encondellas e nom apresentalas» {Oh. cit.. cap. LXVII, pp. 313-314). O tUtimo, 
escreve, porém, que essas mensagens «foram recebidas por differenies modos», o que me 
parece estar mais de acordo com a realidade dos factos. Enquanto que -os fidalgos e pessoas 
mais qualificadas não deixavam Jc conhecer e sentir que iniustamente era maltratada c 
perseguida*, obscrvu-sc, pelo cunirurio, que «os povos o tomaram por Ião dtfferente modo 
que onde livraram melhor os mensageiros foram afrontados de palavras, e muitos o fonm 
de obres» {Ob. eit., livro II, cap. XVI, pp. 79-80). 

Um dos mensageiros da Rainha D. Leonor foi Lourenço Alvares Boto. residente em 
Castelo de Vide, o qual, segundo um documento régio de 17 de Janeiro de 1451. «esteuera no 
dicto Castello [Castelo de Vide] por noso seruiço E fora com ulgQus Recados du Senhora 
Raynha mjnha madre que Deus aja a algduas partes». O soberano, tendo em atençio tais 
serviços, outorgou-lhe, a pedido de Nuno Martins da Silveira, carta de prívilé^o, em que 
o isentava do pagamento de impostos c do cumprimento de serviços e tarefas concelhias 
(A.N.T.T., Chancelaria de D. Monso V. livro 35. foi. 18). 

(^0) Ruy de Pina, oh. cit.. cap. LXVI. p. 311; Cí. Duarte Nune^ de Leão, ob. cil.. 
cap. IX, p. 137; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro II, cap. XII, p. 61. 

Considere o dltinio dos cronistas, ao contrário de Rui de Pina e Duarte Nunes de 
LeSo, tratar-se Gil Pires de Resende de um corregedor da corte. Fstamos. na realidade, perante 
um lapso cometido por Gaspar Dias de I arulini. Lm documento régio de 27 de Julho de 
1450 revela que este contador nos ulmoxurdadus de Santarém e Abrantes passava a receber, 
com início em 1450, as rendas e direitos da lezíria «que he acerca da Toorruja» <A.N.T.T., 
Chancelaria de D. Afonso V, livro 34. foi. 190). Mais tarde, ocupava as funçOes de vedor-mor 
das obras de .Mmeirim e solicitador dos direitos reais m^s almoxarifados atrás citados, 
usufruindo da tença anual dc 6000 reais brancos (Carta régia de 22 de Setembro de 1464. 
A.N.T.T., Liiancdaria dc D. .Monso V, livro 8, foi. 62v). 

84 — 



o pessoal da casa da rainha, ao aperceber-se da sua retirada, sentiu-se dominado 
por um indizível sentimento de pânico. Ouviam-se por lodo o lado cxclamavões 
como esta : «l ugir fugir do Yíantc Dom Pedro, que vos vem prender». Entre 
os fugitivos figuravam D. Afonso de Vasconcelos, senhoi dc Cascais, que já era 
bastante idoso, sua mulher D. Maria de Vasconcelos (^). e seu filho. D. Fernando 
de Vasconcelos ("). 

Com sinceridade, ou mais provàvclmcnic sem cia. smosirou o Regente grande 
tristeza e sentymento» pelo acontecido. Agindo com rapidez, enviou a Martim 
Afonso á6 Miranda ("'). acompanhado de alguns notários, «a escrever e segurar 
todo o que se achasse em Almeirim». No que concerne aos haveres de D. Leonor, 
eram estes apenas constituídos por roupas de cama e panos, sendo dadas ordens 
para que os mesmos fossem entregues aos oficiais do rei. Os bens dos demais 
servidores da rainha foram entregues «per lecadaçam» a Martim de Almeida (*'). 
cavaleiro de Santarém. Foi ainda em pessoa h mencionada vila o governador 



i"^") Esta senhora vcr-sc-in mais tarJe recompensada «por os miijtos c boos seruiços 
que tem feitos a nus H a senhora Rainha minha madre qiic Deus aja>, com a tença anual 
de 30 000 reais brancos (Carta régia de 6 de Abril de 1451. A.N.T.T.. Chancelaria de 
D, Afottto V. livro 37. foi. 28v). 

(^) Ruy de Pdia, ob. tíU cap. LXV, p. 310; Cf. Duarte Nunes dc Leio, *th. c/r.. 
cap. IX, p. I.if). 

A confirmar tal partida de D. Afon.so de Cascais c dc grande parte do pessoal dc 
D. Leonor, depois desta senhora sc ler já ausentado de Almeirim, dispomos dc um precioso 
depoimenlD de Lub Vaz, criado de Jofio Alvares, que foi tesoureiro do Infante D. Pedro, 
o qual residia em Torres Novas. Ao Impetrar o mencionado indivíduo uma carta de perdio 
ao rcgcnic, que acabou por lhe ser concedida, afirma : «que cll sc partira clAlmcirim com 
dom Afomso (de Cascais] quando se fora apos a Rajnha, sem sabendo per hu hia nem 
pera que terra c depois que cm Castclla fora com elle se arrependera muyto e tíjnha vontade 
e desejo de se vijr pera Nossos Regnos se ousado fose e que porquanto cll nom veuja com a 
dieta Rajnha nem fora nem era de sua tençom» (Carta réfiía de 22 de Abril de 1444. 
A.N.T.T.. Cluiiuclaiia dc D. Afonso V. livro 24. foi. 61). 

Luis Vaz ou Vasques obteve uma caria dc mercê de D. Leonor, outorgada cm Almeirim 
a 4 de Fevereiro de 1434, pela qual era designado tabelHIo da vila de Torres Novas. 
(O regente confirmou-lhe este cargo em 29 de Março de 1444, sensivelmente um m£s antes 
dc outorgar a carta de perdão. A.N.T.T.. Cliancciaria de D. Afonso V, livro 24, foi. 29v). 
Durante a co-regôncia foi-lhc confirmado o ofício dc escrivão dessa vila e seu termo, 
tun^ões que já vinha exercendo desde o remado de D. Duarte (Carta régia de 23 de Fevereiro 
de 1439. A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 18, foi. 42v). 

(**) Vejam-se dados biográficos a seu respeito em apêndice. 

(*'} Vejam-se, também, dados biográficos sobre este cavaleiro, em apêndice. 

— 85 



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do rcinor'). Finha cm mcnlc o objectivo de lomar conta da Infanta D. Leonor, 
que se encontrava doente, a qual foi logo entregue ao cuidado de D. Guiomar de 
Castro. Foi esta senhora sua aia ate ao momento em que D. Leonor partiu para 
a Alemanha a fim de se consorciar com o Imperador f redenco 111 i ' ). 

Encetou ainda o regente algumas diligências no sentido de denuner D. Leonor 
dos seus propósitos, o que não o impediu de adtiptar igualmente medidas mais 
convenientes que se impunham perante uma solução negati\a do caso. .Assim, 
em 1 de Novembro de 1440. enviava uma caria ao concelho de Lisboa, em que 
lhe dava conta do sucedido e ordenava aos seus habitantes que se preparassem 
para a guerra ("). Anunciava ainda, nesta epístola, que também tinha escrito a 
Alvaro Vasques de Almada (*^). do conselho do rei. «per que lhe mando que 
logo se uenha a essa çidade e seia presente em esa camará pera em todos uosos 
fectos e cousas uos auer de dar conselho» ("). De igual modo escrevia outra carta 
para a cidade de Coimbra* em 2 de Novembro, dando as suas instruções para 
que a cdicta çidade seia guardada de todatlas cousas que lhe conpridoiras forem 
assi e pella guisa que o era nos tempos de guerra C). Referia na mesma mensa^m 
que enviara uma carta ao Bispo de Coimbra D. Alvaro Ferreira {% para que ele 
viesse imediatamente à cidade e acordasse com o seu conselho as providências a 
tomar (**). 



('-) Os itinerátios do Infante D. Pedro inUicam-nos que o r^nte permaneceu em 
Santarém ininterruptamente após a partida de D. Leonor, que como ji observámos se verificou 
em 31 de Outubro de 1440. Tal facto nio impede, porém, que o Duque de Coimbra tenha 

feito uma rápida visita a Almeirim, saindo e regressando no mesmo dia a Santarém (Hum- 
berto Carlos Baquero Moreno. i>h. cit.. p. 64). 

(") Ruy de Pina, ob. cit., cap. LXVI, p. 311; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit.. 
cap. IX, p. 137; Gaspar Dias de Landim, ob. tíU livro II. cap. Xil. p. 62. 

(**) A.H.CM.L.. UvM 2." dos Reis D. Duarte e D, Afonso V. doe. 22. Documento 
publicado na Montimcitia Hcnricina, vol. VII. Coimbra, I%5. doe. 114. pp. 183-184; 
DiHiiincntos do Arquivo Histórico da Cântara Municipal th Usboa. Livro de Reis, Lisboa, 
1958, vol. II, doe. 22, p. 277. 

(*^) Acerca deste rlco-homem, vejam-se dados biográficos em apêndice. 

(**) A. H. C M. L., Uvro 2." dos Reis D. Duarte e D, Afonso V, doe. 22; Monumento 
Hcnricina. vol. VII. Coimbra, I%5, doe. 114, pp. 183-184; Documentos do Artfuivo Histórico 
da Côiinim Miinni/uil dc l.i\boa. l.ivro dc Reis. Lisboa, 1958, vol. II. doe 22, p. 277. 

('•) A.M.C., Carias Ohainuis dos Injanies. doe. 61. Documento publicado por João 
Pedro de Oliveira Martins, ob. cit., doe. VIII, p. 414; Belisário Pimenta, ob, eit.» doe. LVI, 
pp. 53*S4: Monumento Henricina, vol. VII, Coimbra. 1965, doe. 115. pp. 184-185. 

('") Vcjam-se a seus respeito dados biográficos na p. 52 

(*'( A.M.C.. Cailas ()iii;inais dos Infantes, doe. (A. Jo.lo Pedro de Oliveira Martins. 
ob. cit.. doe. VIII, p. 414; Belisário Pimenta, ob. cit., doe. LVI, pp. 5.3-54; Monumento 
Henridne» vol. Vli. Coimbra, 1965, doe. 115. pp. 184>185. 

86 — 



^up; iighted material 



A par das mencionadas acliv idades epistolares, enviou ao Craki o vedor du 
fazenda Diogo Fernandes de Almeida { ' ). o qual linha como missão solicitar a 
D. Leonor, «com muy brandas re/oões e forCes seguranças, que se tornase. e que 
elle e os Yfantes hiriam por ella, e se o nom quysesse fazer que ao menos entre- 
gasse a Yfante Dona Joana. E que se isto tudo denegasse, que presentes notairo.s 
que consigo levava, lhe fyzesse em nome d'EIRey protestaçoões a nom ser obry- 
gado elle. nem o Reyno daMhe dote nem arras, nem outra cousa algumat. Sabe-se 
que Diogo Fernandes de Almeida se desempenhou muito mal da sua missão, 
ou melhor ainda, não chegou a cumpri-la integralmente por razões premeditadas. 
Ao atingir Alter do Chão resolveu voltar para Santarém, sem ter chegado à fala 
com D. Leonor que se encontrava a pouca distância no Crato, e deu como justi- 
ficação ter sido informado no trajecto que a rainha não se encontrava na dispo- 
.<ição de aceitar nenhuma das suas propostas. Considera Rui de Pina como maios 
válida esta justificação, apresentando como razão dessa atitude a circunstância 
de Diogo Fernandes de Almeida ser casado com uma filha do Prior do Crato 
e por esse motivo ser ele «sabedor de todollos movymentos passados, e que folgou 
de nom fazer por sy cousa em que a Rainha recebesse nojo. nem desservyço 
contra seu Sogro ( '). 

É natural que o regente tenha aceitado como verdadeira a versão do seu 
emissário. A prova disso reside nas indicações por ele dadas a seus irmãos e 
nas mensagens enviadas a lodos os fidalgos, cidades e vilas principais do reino. 
< requerendoos e percebendoos com seus corpos e armas* ( Como dado concreto, 
temos a sua carta de 8 de Dezembro de 1440 enviada aos fidalgos, cavaleiros 
e escudeiros domiciliados em Coimbra, e nos restantes lugares do seu almoxari- 
fado, em que lhes dá notícia de que, *per aa/o do moujmenio da rrainha c do 
perçebimenio de guerra que alguus castelãaos fa/em em quererem uijr poderosa- 
mente contra esies nossos reignos». deverão estar correpidos para a guerra na 
comarca de Entre- l ejo-e-Guadianu. o mais tardar em 21 de Dezembro ( Idên- 



( Sobre este fidalgo vejam-se iludas biográficos cm a^K-ndice. 
(^M Ruy úe Pina, ob. cit„ cap. LXVI, pp. 311-312; Cf. Duarte Nunes de l^o. ob. eit^ 
cap. IX, pp. 137-138. 

Gaspar Dias de Landim acrescenta à versão de Rui de Pina que cabia a Diogo Fer- 
nandes de Almeida a missão de «pedir à Rainha com nuiit:i^ pnlavms lic corte/ia c segurança 
se turnusiic u Almeirim ou a qualquer terra do districto e comarca de l.isboa ou i>antarem, 
qual dia quizesse escolhen iOb. cit» livro II, cap. XII. p. 62). 

(H) Ruy de Pina, ob. eit^ cap. LXVI, p. 312; Cf. Duarte Nunes de LeSo, ob. at» 
cap. X. p. 138; Gaspar Dias de Landim, oh. cir.. livro II, cap. XI 11 pp 66-67. 

( ') A.M.C., Carias ()iit;iii(iis tios InfaiUes, doe. 63. Documento publicado por Joào 
Fedro dc Oliveira Martins, ob. cil.. doe. X, pp. 415-416; Belisário Pimenta, ob. cil., 
doe. LVIII, pp. 55-56; Monumenta Henricina, voL VII, Coimbra, 1965, doe. 119, pp. 191-192. 

— 87 



iighted material 



liças instruções cic\em ter sido dadas a outras cidades e vilas do País, dispondo 
ainda o Infante D. Pedro do apoio de seus irmãos, que desempenhavam os já 
mencionados cargos de fronteiros das comarcas do Pais. 

Fsgoiadas todas as possibilidades de um entendimenui cnlre as partes em 
litígio! '). pôde o regente, de comum acordo com os irmãos. e>tabeleccr um plano 
de ataque iis fortalezas do priorado do Oato. Assim, pertenceu a Lopo de 
Almeida ( ) a laieía específica de se apoderar do castelo do Belver e dos *celleiros 
da.s terras chaãs do Pryor». o que. aliás. con.seguiu levar avante em 17 de 



f*) Ao que parece houve ainda uma tentativa de apaziguamento por parte do regente, 
quando «escreveo huma carta de sua mio à Rainh:). peJinJollK- sc tornasse, e que com sua 
tornada se faria quanto cila mandasse». (Duarte Nunes de I cão. t>h. rit.. cap. X, p. 1.18". 
Cf. Ruy de Pina. oh. cil., cap. LXVI, p. 312; Gaspar Dias de Landim, oh. cit., livro II, 
cap. XIII, p. 67). Um dos principais motivos que deve ter contribuído para a abertura das 
hostilidades poder^se-i atribuir ao facto do regente ter sido certificado «per recados e carias 
da Raynlia e do Prior, que foram tomados, e trazidos a elle dos portos que se guardavam», 
dc que os mesmos «procuravam de meter jentes d'armas de Casiella em Portugal, e bastecer 
as fortallezas que sostyntiam sua voz, com armas e mantymentos de fóra, e assy se fazerem 
alguns alevantamentos no Reino contrairos a seu Regimento» (Ruy dc Pina, ob. cit.. cap. LXX, 
p. 316; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit„ cap. X, p. 140; Gaspar Dias de Landim, ob. cit„ 
livro 11. cap. XVri, p. 86). 

(•'•-) Veja-se a sua biografia em apêndice. 

(•*) Ruy de Pina. ob. cii.. cap. I.XX, pp. 316-317; Cf. Duarte Nunes dc Leão, oh. cif.. 
cap. X, p. 140; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro II, cap. XVIII, pp. 87-89. Este último 
autor diz, por lapso, que a conquista de Belver se efectuou em 17 de Dezembro de 1441, 
quando' na realidade o foi no ano anterior (Ob. cit., cap. XVIII, p. 89). 

Segundo Rui de Pina. era alcaide do referido castelo. João Lopes da Nóbrega honi 
homem e esforçado cavallciru», a quem coube «dcspois de fa^er muyla rcgislencia, com 
grande dano dos cercadores, concertase e entregar o Castelo com segurança sua, e dos 
cercados» (Oh. cit.. cap. LXX, p. 317). A «tocumentaçSo avulsa revela, no entanto, que essa 
tarefa pertenceu a Vasco Lourenço, vassalo r^o, morador na Cortiçada, o qual fora enviado 
pelo Prior do Hospital ao cislclo dc Belver, acompanhado por sua mulher, dois filhos e 
três mancebos. Instado por Lopo dc Almeida c Alvaro Mendes dc Cáceres, cavaleiros da 
cas;i do rei, para que entregasse o castelo, opòs-se u solicitação. Depois de algumas esca- 
ramuças, acabou por proceder à sua rendiçSo. Tal atitude valeu-lhe, bem como a seus filhos 
t mancebos, carta dc perdão, outorgada em 2 dc Maio de 1441 (A.N.T.T.. Chancelaria de 
/) .Monso V. livro 2. foi. 97; Moininienia Hcnricitui, vol. VII, Coimbra, 1965, doe. 153, 
pp. 2Vs-2.^6). Antes mesmo de ter sido dada esta carta de perdão, obtivera uma carta dc 
mercê, com validade no início de 1441, mediante a qual passava a receber anualmente, no 
almoxarifado de Abrantes, a tença vitalícia de 5000 reais brancos, «porquanto ffoy em 
consentimento de aucrmos o nosso castello de Belueer, que era alçado contra nosi (Carta 
régia de 14 dc Abri! de 1441; A.N.T.T., Chancelaria de D. Afon.w V. livro 20. foi. II; 
Monitnunía Utnriiina. vol. Vil, Coimbra. 1965, doe. 145, pp. 227-228). Um documento dc 
27 de Julho de 1439, revcla-nos que Vasco Lourenço desempenhava a partir daquela data o 

88 — 



oopyiiytuoa inaiuiial 



Dezembro depois de uma fase de assédio a essa fortale/a ( De igual modo. 
Álvaro Vasques de Almada ( ") foi designado para proceder a tomada do castelo 
de Amieira, lendo para o efeito saído de Lisboa «.com sua gente d armas e de pce» 
e < com as artelharias e provysoões. que pera o cerco convynham». Pôde cumprir 
da melhor maneira a missão de que fora incumbido ( 

Faltava, ainda, pôr em execução a tomada do castelo do Crato, mas a com- 
plexidade da tarefa obrigava a uma convergência de esforços entre o Regente 
D. Pedro, o Infante D. João. seu irmão, e os Condes de Ourém c de Arraiolos, 
que se encontravam na facção oposta à do pai Antes mesmo do regente iniciar 
a sua campanha militar contra a fortaleza, pertencia ao Infante D. João. que se 
encontrava em Estremoz no desempenho das suas funções de fronteiro da comarca 
de Entre*Tejo^Guadiana. a missão de impedir o acesso até ele de mantimentos, 
os quais já começavam a escassear, dada a circunstância de D. Frei Nuno de Góis 
não ter adopudo as principais providências, convencido do prometido auxílio 
do Conde de Barcelos 

Ao ver*8e a rainha na aflitiva situação de não dispor de recursos para 
suportar um longo assédio, decidiu, «a peso de suas joyas e baixelas», mandar 



cargo de juiz dos órfãos da Corliçada. Belver, Mendo. Carvoeiro e Bicheiro (A.N.T.T., Cfuin- 
cvloria (Ir D. Afonso V, livro 19, foi. 93v). Foi. pois. durante o exercício deste ofício que 
se viu envolvido, como mcns;igciro do Prior do Crato, no problenia du entrega de Belver aos 
fidalgos designados pelo Regente D. Pedro. 

Vej«m-w dadox Iriogrificoft a «eu mpeilo em apêndice. 

{*) Ruy de Pina. oh. cii.. cap. LXX e I XXI, pp. 3K»-3I8; Cf. Duarte Nunes de Leão. 
ob, cil: cap. X, pp. 140-141; Gaspar Dias de Landim, oh. cit.. livro II, cap. XVIH. pp. 88-92. 

Na carta régia de quitação, de (> de Julho de 1443, outorgada a Garcia Fernandes, 
cacudeiro do Infante D. Pedro e recebedor no almoxarifado de Abrantes, faz-w referência 
a uma determinada importância gasui na aquiiúçfto de trigo e vinho fornecido ao CapiíSo 
Alvaro Vasques de Almada, que sc encontrava no cerco de Amieira (A.N.T.T.. Chamvlaria 
(Ic D. .Afonso V, livro 27, fols. l2'K-|.H)v. Docimiento publicado por Iria Gonçalves. Pcdulits 
e empirstuiios públicos em Formigai durante a Idade Média, Lisboa, 1964. doe XV, 
pp. 228-232). 

NIU> paiece ter rigorosamente exacta a afírmaçfto contida na carta de penlio de 
17 de Maio da 1441, concedida a Vasco Romeiro, morador em Vita Viçosa, de qua o 

perdoado «fora com o Ifante dom Pedro meu tio a Amyeira e ao Crato», a não ser no 
que respeita a este último castelo (A.N.T.T., Lhancelaria de D. Afonso V. livro 2, fols. 94- 
•94v. Sobre o itinerário do Duque de Coimbra, nesta campanha, veja*«e o nomo citado eitudo 
a pp. 66<67). 

( ') Ruy de Pina, oh. cit.. cap 1 XX. p. 3Ifi: Cf. Duarte Nunes de t^eSo, ob. cil., 
cap. X, p. 140; Gaspar Dias de Landim, oh. cit.. livro 11. cap. XVIII. p. 87 

(W) Ruy de Pina, ob. cil., cap. LXVIII, p. 314; CL Duarte Nunes de I-cão, ob. cit., 
cap. X. p. 139. 

— 89 

Fi. 12 



vir até ao Crato D. Afonso Henriques, que se encontrava na vila de Alconchel, 
cm Castela. Esic fidalgo castelhano apareceu acompanhado por um pequeno 
contingente de sessenta cavaleiros e cem peões, cm auxílio dos defensores do 
castelo. l'ma das suas principais missões consistia em obter tricô, cevada e gado 
nos arredores do Crat(\ pelo que. reforçada a sua hoste, desta ve/ constituída 
por cento c oitenta cavaleiros e du/entos peões, resoheu atacar Cabeço de Vide. 
Assim obtidos os mantimentos ncces.sários. recoiheu-se com os seus homens no 
Crato ("'). Entretanto, no regresso à fortaleza, depararam com a resistência dos 
habitantes de Alter do Chão. que acabaram por ser vencidos. Houve, de parte a 
parte, mortos e feridos, o que gerou uma onda de indignação por todo o reino 

A intervenção militar de D. Afonso Henriques deve ter-se verificado em 
meados de Dezembro de 1440, contribuindo assim para que o regente acelerasse 
os seus planos de dar início a uma acção bélica contra o Crato. Sabemos, através 
dos itinerários, que o Infante D. Pedro partiu de Santarém em 26 de Dezembro, 



(S') Ruy de Pina, oh. cil.. c;ip. LXXII. p. 319; Cf. Dii.irtc Nunes de Ldlo, ob. cil., 
cíip. X, p. 14]; Ga!>par Dias de Landim, ob. cU., livro 11. cap. XiX. pp. 94-95. 

Existe um teslemunho documental acerca da escaramuça travada em Cabeço de Vide. 
A carta régia de 7 de Fevereiro de 1443 concede a Vicente Esteves, morador em Aller do 
ChSo. isenção do pedido e meio «que oru mundamos tirar>, uu dc quaisquer outros pedidos 
que venham a ser lançados, em virtude de lhe terem matado um filho, quando da luta ence- 
tada entre o.s moradores dc Cabeço de Vide e D. Afonso Henriques (A.N.T.T., Chancelaria 
de D. A/otxif V. livro 24, foi. 37; Monumento Henncina, vol, Vlllt Coimbra, 1967, doe 6. 
pp. 19-20). 

['•') Ru\ Je Pina, oh. ciu. cap. l.XXII, pp. 319-320: Cf. Duarte Nunes de Leio, 
oh. lii.. cap. X. p 141; Gaspar Dias Je l andim, oh. cil., livro II, cap. XIX. p. 

Dc Igual modo, aparecem-nos .liguns testemunhos documeniuis sobre a refrega dc 
Alter do ChSo. O regente, em nome do soberano, outorgou dois alvarás contendo todos os 
privilégios, graças, mercês, honras e lilierdadcs que competiam às mulheres viúvas dos vassalos 
dn ciMoa n primeiro foi iI:hIi\ em 27 de laneiro de 1441. a Maria Frome. residente eni 
Alter do Chão. cu|o marido. Alonso Vicente Coletes, mt>rrcra cm combate (A.N 1.1.. Chiin- 
íciaria </<■ D. AIoilso V, livro 2. lol. 12.1; Muniinunia Htnrutna, vol. VII. Coimbra. 196.^, 

doe 135, pp. 206-207); o segundo, concedido em 8 de Fevereiro de 1443 a Inês Alvares, 
também moradora nessa localidade, que igualmente ficou privada de seu consorte Gonçalo 

Afonso, t.iiccido na peleja. L'm filho do casal. Nuno Gonçalves, sofreu nesse mesmo recontro 
alguns leritncntos (A.N.T.T., C liuiiceloria lie D. Afonso V, livro 27. foi. 50v; Monumenta 
Hvnricim, vol. VIII, Cc imbra. 1967, doe. 8, pp. 22-23). 

A mais importante, no entanto, de todas as fontes, para o conhecimento do ataque dos 
castelhanos a Cabeço de Vide e Alter do Chão, consiste numa carta de privilégio dada pelo 
regente a esta última vila. para que os seus habitantes pudessem fa/cr vizinhança com os 
do Crato. Reza o ducumento scíiuinte : «Dom Alfonso e ect. A quamios esta carta virem 
fazemos saber qiic da nossa villa do Crato, estamdo hi a rrainha minha madre e senhora, 
sayrom çertos castelliaos com outros da dita villa. E por nos fazerem deserulço e perda a 

90 — 



..up; iighted material 



a caminho da vila dc Avis. onde deve ter chegado dois dias depois ( ^). lo\ preci- 
samente a meio do trajecto entre eslas duas localidades, nos Casais do Couto, 
que se encontrou com os emissários enviados a Sanla Sc. os quais tra/iam de 
regresso a bula que libertava os mestrados de Santiago e dc Avis da sua subor. 
dinaçâo a Calatrava e Uclés. em Castela, e ainda a dispensa papel que autorizava 
o consórcio entre D. Isabel, filha do regente* e D. Afonso V. seu primo direito (**). 
Supomos que o encontro se verificou em 27 de Dezembro C^. 



nossos iregnos correrem nosu tern e sae forom a Cabeça de Utde e a rroubarom do que 
em eita eslaua. E vyindo amy com o rroulw e cousas que trozianu os UAlter do Chãao como 

boons cauallcyros c Icaacs portii^iucvcs sayrom :i dlcs c comcçarom com clics a pellciar. 
cm a quall pelleia morrerom Ireze homcens. A 'Nabcr. quatro da C abcva ila Vitic c noiíc 
da dita villa dAUer e outros muytos feridos. E porque nos avemos per cmformaçom que 
a dita villa dAller nom tem termo sse nom muy pequeno, em o quall sse nom podem 
manleer ssenam muyto gastadamente. E queremdo-lhes comgalardoar sseu boom seruiço 
que nos feito (cm cm o qoc ilito he. Tccmos por bem c mandamos que clics vi/inhem com 
os do Crato per todo seu termo em hcruas payer e bcucr as auguas. E outrossy mandamos 
que os do Crato vizinhem com elles per sseu termo cm as cousas suso ditas. E porem 
vos mandamos que cumpraaes esto que per nos he mandado s.sem lhe a ello poentes outro 
algOu embargo em nOiQua guisa, porque nossa incrçec c uomtade he dc assy seer feito 
por ho seruiço que nos feito teem. E all nom façades D.id.i em o arreai! ilo Crato xvi dias 
do mes dc Janeyro. EIRcy o mandou per o dcnitor Diceo Affonsso [Mangancha] do sseu 
comsciho e sseu chamveller moor. Afonso Trijgo a tc/ anno de mill liij Rj.» (A.N.T.T., 
Livro 6 de Odiana, foi. 152v). 

C) Humberto Carlos Baquero Moreno, oh. cit.. p. 66. o cronista Rui de Pina afirma 
uue o regente sc cncontra\a em Avis na bespura de Natal», tendo deixado essa localidade 
ao tomar conhecimento que seu irmão o In! ante D. João. procurava nela inslalar sc com a 
sua hoste (Ob. cii.. cap. LXXIV, p. 322). lai como já tivemos ocasião de afirmar, deve-se 
tratar de um lapso do cronista, pois o regente, conforme nos testemunham algumas cartas, 
ainda se encontrava em Santarém nessa data {Ob. ciU p- 10). 

Enquanto o cronista Rui de Pina considera que a primeira reunião do Infante D. Pedro 
com seu irmão, o Infante D. João. e com os C ondes de Ourém e de Arraiolos, se processou 
junto à ribeira dc Seda [Oh. cit.. cap. I.XXIV. p. 322), Duarte Nunes dc Leão (Ob. cit., 
cap. X, p. 141) e Caspar Dias de Landim (Ob. cii„ livro II, cap. XIX, p. 94) dedaram 
por seu lado que o primeiro encontro se verificou em Avis. 

("♦) Ruy de Pina. >>h. t/7., cap. I, XXIII. pp. 320-321; Cf. Huarle Nunes de l eão. oh. (ir.. 
cap. X, pp. 141-142; Gaspar Dias de Landim. <th. cil., livro il. cap. XIX. pp. 96-97. é notória 
a imprecisão deste líltimo autor, ao afirmar que o Provincial do Carmo, D. Joto, «pouco 
depois foi bispo da Guarda». Na realidade, sò o foi em 1459, depois de ter sido primeira* 
mente Bispo <la diocese de Ceuta (Fortunato de Almeida, oh. cit.. p. 566). 

Acerca dos cmiss.irios regressados dc Roma o referido D. João c o Prior de Santa 
Maria de Guimarães. Rui da Cunha, os quais, por ironia do destino, lutaram em facções 
opostas no conflito de Alfarrobeira, veiam*se dados biogfáfieos em apêndice. 

(*^) Humberto Cark» Baquero Moreno, ob. eU.. p. 10. 

— 91 



^up; iighted material 



Oriundo de Avis. chegou o Infante D. Pedro ao arraial de ribeira de Seda, 
acontecimento que se verificou em 29 de Dezembro de 1440 ('^). Em pleno campo 
de operações teve uma conferência com seu irmão. Infante D. João. os Condes 
de Ourém c de Arraiolos, alguns fidalgos e membros do conselho do rei. Depois 
dc largas discus.sões. acabaram por aceder ao parecer do Infante D. João. que 
era da opinião de «Ouc ante de tudo aa Raynha per huma pessoa honrada fosse 
prymeiro pedido c requerydo. que ««c tornasse pera suas terras, ou pcra outro 
qualquer lugar que ella quysesse nom sendo sospeito. com todallas seguranças 
que ella pedisse, e que clles todos hiriam por ella. e a serviriam e acatariam 
como ella merecia, por ser molher e madre de dous seus naluraaes Reis e 
Senhores». No entanto, caso D. Leonor recusasse a proposta, avanvariam sobre 
a íortalc/a do C rato 

A mensagem não teria chegado a tempo a D. Leonor. Nesse mesmo dia. 
29 dc De/embro. à noite, decidiu a rainha, ao verificar que se preparavam para 
cercá-la e lhe faltava o prometido auxílio do Conde de Barcelos e demais 
fidalgos, partir para Albuquerque, em Castela. Na sua companhia, seguiam o 
Prior do Crato. D. Afonso Henriques. D. Afonso e D. Fernando dc Vasconcelos, 
entre outros dc menor categoria social. Quis. porém, antes de deixar o castelo, 
confiar a sua guarda a Cionçalo e Vasco da Silveira, ambos filhos de Nuno 
Martins da Silveira C). 

O regente foi avisado de tais acontecimentos por alguns moradores do Crato, 
que eram seus «servydores secretos» ("). De igual modo. enviaram estes uma 



(*■) Idem, Ibidem, p. 66. 

(•*) Ruy de Pina, oh, eit. c.ir ' XXIV. pp .■<:2-32.V. C f Ci.ivpar Dias Jc I andim, 
que afirma ter havido divergências cntic o Int mtc D. Pedro, p<n um lado. c o Infante 
D. João e seus sobrinhos, os Condes tie Ourem c de Arraiolos, pclr oulro. Apesar do regente 
ler discordado do envio de luma pessoa de auctoridade com embaixada & Rainha em nome 
de El-Rei. e de todos elles», teria acabado por ceder Ik vonuide unénlme da maioria (Ob, cit„ 
livro II. citp. XX. p. 99). 

Rm> dc Pina. ,>h. t il., cap. I XXIV. p. :<2 V. C f. Duarte Nunes de I e.m. oh. cil.. 
cap. X. pp. 142-143 o qual antecede a partida de D. Leonor para o dia 28 de Dezembro. 
Por seu lado. Gaspar Dias dc Landim, oh. cil., livro II. cap. XX, pp. lOU-IOl, considera 
erradamente que a rainha «se partiu para Albuquerque em amanhecendo, a 29 do mez de 
Dezembro, principio do anno de 1442». Vê-se aqui nitidamente que o autor começa a contnr 
o no\o ano a partir do dia de Natal, mas, mesmo assim, oomete o lapso cronolòfico de 
um ano 

(■ '} Ruy de Pma. ob. cu., cap. LXXIV, p. 323; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cU., 
cap. XI. p. 143; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro 11. cap. XX, p. 100. 

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mensagem a Garcia Rodrigues dc Sequeira ('' ). comcndador-mor de Avis e capitão 
em Aller do Chão, para que \io.ssc apoderar-se da vila do Crato. Tomada a 
mesma, foi enviado um recado aos Infantes acerca deste feito: eles, por sua vez. 
encarregaram Vasco Martins de Melol"'), casado com uma filha de Nuno Martins 
da Silveira, de convencer os cunhados a proceder à entrega do castelo. A missão 
foi. no entanto, condenada ao malogro, perante a obstinada recusa de Gonçalo da 
Silveira («). 

Ciente o regente do que estava a acontecer, decidiu passar ao ataque. Assim, 
em 31 de Dezembro e no primeiro dia de 1441. vémo-Io no arraial do Marmeleiro, 
junto de Benavíla. Ainda em 1 de Janeiro, entra nesse lugar, passando à ofensiva 
sobre o castelo de Crato no dia 4 de Janeiro (^). Enquanto o Conde de Ourém 
«com a gente de Lixboa se apousentou dentro na Vylla». o regente e seu irmão, 
o Infante D. João, colocaram^se «em torno do Castello, onde em chegando 



l'^") Relativamente a este comendaitor-inor da Ordem de Avis, que devia ser fílho do 

falcciilo mestre da Ordem, D. Frei Fcrmmdo Rodrigues de Sequeira, colhem-se poucas 
noticia";. Sabc-se, no entanto, que se manicve no tarj!0 depois da batalha de Alfarrobeira, 
coníurme nos revela uma carta regia dc 21 dc Junho dc 1434. Além destas funções, pertencia 
ao conselho do rei e era atcaide-mor do castelo da vila de Alandroal, que fazia parte do 
mencionado mestrado. A seu pedido, o solwrano autoriza-o a deixar a alcaidaría em 
benefício dc seu filho. Frei Fernão Rodrijzues de Sequeira, o qual era comendador da 

Jurnmenha (A N.T.T.. Cluiiucliirin de D. .ílomo l . livro 10. foi. 68). 
(•') Vcjum-sc a NCU respeito dados biográficos cm apêndice, 

(^) Ruy de Pina. ob. tít» cap. LXXiV. pp. 323-324; Cf. Duarte Nunes de Leio, 
oh. dt.. cap. Xi, p. 143: Caspar Dias de Landim, ob. cit., livro 11. cap. XX, p. lOÍ. 

Humberto Carlos Baquero Moreno, oh. cit., p. 66. 
Muitos foram os homens «amorados». autores dos mais diversos delitos, que acorreram 
iis fileiras do regente para tomarem parte na campanha do Crato. Ê muito provável que, 
para tal efeito, tenha sido concedida uma amnistia pelo Infante D. Pedro. Além do atris 
citado Vasco Romeiro, morador em Vila Viçosa, que andava em parte incerta por ter tido 
uma questio com João Pascoal, alcaide pequeno dessa vila. havia uns 16 ou 17 meses 
(Carta de perdão de 17 de Maio de 1441. A N.I.I., C hancíldna dc D. Afonso V. livro 2, 
fols. 94-94V), conhecemos o caso de tstevào Pires c Pedro Afonso, ambos moradores 
em Sines, que forem acusados «em ajudar de cortar sua natura^ a Gil Gonçalves, residente 
nessa vila. Encontrando-se «anriorados». dirigiram-se «ao çerco do Crato ataa partida dhy 
do Iffante dom Pedro». Cumpriram um ano de deyredo no couto de Ouguela, obtendo 
o perdão da coroa (Carta régia dc 12 de Abril de 1442. A.N.I.T., Chancelaria de D. AJonso V, 
livro 23, foi. 60). 

Relativamente a Estevão Pires, sabemos que foi designado pelo Infante D. loAo, 
em 4 de Outubro de 1432. para o cargo de tabelifto na vila Sines, em substituição de Alvaro 

Fernandes, que renunciou ao exercício do offcio. Alguns anos depois, o Regente D. Pedro, 
cm nome do régio sobrinho, confirmou-o no desempenho das referidas funv'ões (Carta régia 
de 30 de Julho de 1444. A.N.T.T., Cliaiicviana dc D. Alonso V, livro 38, foi. 20). 

— » 



oopyiiytnoa inaiutial 



fyzeram publyco allardo com toda a gente, em que se achanun doze myl homens 
de pelleja com muyta artelharia, que logo foy assentada em ordenança de combate, 
de que os mais do Castello tomáram grande desmayo» TM. Foi relativamente 
longo o cerco do castelo, pois aí se manteve o Infante D. Pedro até ao dia 17 de 
Janeiro (' ). mas tal demora deverá atribuir-se ao prazo de dez dias solicitado 
pelo seu alcaide, Gonçalo da Silveira, que assim ganhou o tnnpo indispensável 
para saber se a rainha exilada lhe pcxleria enviar algum socorro, o que aliás fez 
através do seu mensageiro Gonçalo Eanes, criado do prior e alcaide do Crato ("). 
Obtida a resposta de D. Leonor, enviada por Pero de Góis( -). piocedeu-se logo 
h rendição do castelo, que foi entregue, por determinação do regente, ao Infonte 
D. JoáoC*). 



(") Ruy dc Pina, nh. <it.. cap I XXIV. p. 324: ( f. Duarte Nunes de l.câo, ob. cií., 
Cap. XI, p. 143; Gaspar Dias dc 1 andim. ,)h. cir.. livro II. cap. XX, pp. IUI-102. 

C'-') Humberto Carlos Baquero Moreno. i)h. cit.. pp. (>(>-67. 

(*) Ruy de Pina, ob. cit.. cap. IJCXIV. p, 324; Cf. Duurle Nunes de Leão, ob. cit., 
cap. XI. pp. 143>I44: Gaspar Dia» de luindim, ob. cit.. livro II, cap. XX, pp. I02>I03. 

Contrariamcnic ao que afirma Gaspar Dias de Ijindiín, de que Gonçalo Fanes era o 
alcaidc-mor do castelo do Crato, deveremos talvc7 estar na picaença do alcaide que teprc- 

sentava o Prior do Crato, na qualidade de seu criado. 

(") Frei Pero de Góis, que era tilho de D. Frei Nuno de Góis, Prior do Crato, 
linha estado anteriormente no catido de Amieira, contra o qual investiu D. Alvaro Vasques 
de Almada, conforme se pode consular na caria de perdão outorgada pelo regente a 
Meem de Afonso, em 3 de .A{;osto de 1442 (A.N.T.T.. Chancelaria de D. f ^c/rw» V, Uvro 23, 
fols. 77-77v). Juntamente com seu pai e irmãos, esteve este frade da Ordem do Hospital 
exilado em Castela com a Rainha D. Leonor. Através da carta de 6 de Janeiro de 1446, 
a Rainha D. Maria de AragSo propôs ao Cónego de Vich, Gabriel Cogolls. que lhe entre- 
gasse a ele e a seu irmão. Frei Fernando de Gtis, a quantia de oitenta florins de ouro 
de Aragão, obtidos com base nos rendimentos da vila de Alcolea. para que os mesmos 
pudessem encetar uma viaucni à corte de Afonso V de .Aragão, que se encontrava no 
seu reino de Nápoles (Monnnuitia Uiiimiiui. vol. IX, Coimbra, 1968, doe. 77, p. 105. Este 
soberano aragonês cnoontrou-se envolvido cm diversas lutas pela conquista do reino de 
Nápoles durante o período compreendido entre 1336 e 1442, tendo acabado os seus dias em 
Itália em 27 de Junho de I4.S8 sem mais ter regressado a Aragão. Acerca das suas deslo- 
cações vcja-se a obra de Andre Gimenci Soicr, itinerário í/f/ rey don Alfonw de Aragon, 
el que fianó Nápoles. Zaragoza, 1909). 

('*) Ruy de Pina, ob. ui.. cap. LXXIV, p. 325; Cf- Duarte Nunes de Leão, ob. cit.. 
cap. XI, p. 144; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., Uvro II, cap. XX, p^ 104, 

Um documento régio revela-noc que à frente da aicaidaria do castelo do Crato se 

encontrava, depois dos referidos sucessos. D. Alvaro de Castro, cavaleiro da casa do rei. 
Uma carta dada pelo regente, em nome do soberano, de 19 de Junho de 1441, determina 
que o mesmo seja entregue a D. Henrique de Castro, fidalgo da casa do Infante D> Hen* 

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Com a conquisia do caslcUi do CraUi. cla\;i-sc por finda a primeira fase da 
campanha militar, a qual rcprcscmara. dada .1 sua cincrgadiira. um largo dis- 
pêndio para a ta/enda pública conforme sc comprtna na carta dc tjuita(,\io dc 
15 de Abril de 1443. outorgada pelo Regente D. Pedro, cm nomo do rei. a João 
Rodrigues da Costa, almoxarife de Deja(^'). Os seus efeitos perduraram ainda 
durante largo tempo, tal como pode ob.servarose nalgumas reclamações apresen- 
tadas pelo concelho do Crato a D. Afonso V. nas cortes da Guarda de 1465. 



ríque. N;i mesm;i ordem cvtiibclcci;i-vc qiic Peilro Roiirij:iii.s dc Castro c M;irtim de Oliveira, 
que estuvuni u frente, rebpeçuvamente. dos cunIcIos de Amieira c de Mor du Rosa, deveriam 
igualmente efectuar a entrega dessas fortalezas uo mencionado fidalgo da casa do Infante 
D. Henrique (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonxt» V, livro 2. foi. 86v. Documento publi- 
cado na Moniimeiita lleiírichiii, vol. VII. Coimhr.i. doe. 169. p. 254). Reconstituindo 
c processo, parecer ser possível afirmar que ;i aU.iiilari.i do ( riito foi entregue pelo regente 
a seu irmão, o Intante D. João, mas como este voltou paru a cidade de f^voru, entregou 

0 governo da mesma a D. Alvaro dc Castro: mais tarde, por ordem do governador, foi 
confiada a D. Henrique de Castro, filho de D. Fernando de Castro. 

A entrega do priorado do Cr.iio 1 I). Henrique dc Castro, cnctintra-se documentada 
através das letras Dtan r4>nrfs\iii>n\ do P.ipa Kugénio IV', de 18 lie M.Uvi> dc 1441, enviadas 
ao Arcebispo de Braga, ao Bispo de I amego e ao Juiz Episcopal dc Coimbra, na qual 
aparecem transcritas outras letras alusiva> ao facto. Assim, pclus letras Eisi universorum, de 
3 de Fevereiro de 1441, o citado pontífice rescrvava-sc o preenchimento do priorado em 
causa» logo que o mesmo vagasse por falecimento de O. Frei Nuno de Góis. ou outro 
qualquer motivo: as individualidades supracitadas receberam com ilata de 24 dc Abril 
dc 1441, as letras Ciipientibus vilam. segundo a qual deveriam recel>er na ordem dc S. João 
do Hospital a 1). Henrique de Castro, caso ele quisesse professar, não tivesse qualquer impedi- 
mento canónico e f<»sse uma pessoa idónea: finalmente, sendo já falecido em Zamora 
D. Frei Nuno de Góis, o pontífice acaba por aceder a súplica do Infante D. Pedro c 
nomeia, mediante as Ictrav Rtli'^'ii>ii(\ :(li<\ de 18 de Fevereiro de 1442, a D. Henrique de 
Castro paia o referido priorado (A.N.I.I.. Hiilas, niav"i> 2í). n." 14. Documento parcial- 
mente publicado na Moiuinnniu llintkina, vol. VIII. Coimbra, 1967, doe. 13, pp. 31-33, 
e sumariado por Joaquim dos &ntos Abranches, Fontes do Direito Ecclesiastico Portuguez. 

1 Siiiitma do Builario Ptntin-uez. Coimbra. I8<)S. n." 250. p. 40; Visconde de Santavdm, 
Quadro F.lvincntar, tomo X, Lisboa. I8í»6, pp. ^2 ^^>. 

(""I MonunuiUa Hcnriciiin vol \'ni. ( oiinbra. iy(i7, doe. 27, pp. 51-53. 
No que respeita ao dinheiro gasto com a campanha do Crato, temos o seguinte : 
«E deu seis mjl rreaaes a Ruy Lopez de Sampanyo. per mandado do jfante dom Joham, 
pella jda do Crato. 



E deu vinte e oyto mjl e duzentos e ssasenta rreaues a Mecm dc Brilo, a saber 
xxb rreaaes da tença de ssua molher, e iijir Lx rreaaes em comprimento de pago dos 
djnheíros que lhe forom desenbargados da jda do CraU>. 

E deu oyto mjl e noueçentos e cinquocnia c dous rreaaes em conpra de certos manti- 
mentos que o ifante dom Joham mandou leuar ao çerco do Crato.» (Idem, Ibidem, p. 53). 

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Nelas afirmavam os procuradores concelhios «que nos tempos passados esta uilla 
foi de mujta pouoraçam que auia nclla mais dc oilocemtos vizinhos. E naquelle 
tempo, foram postos nesta uilla e termo uimte uesteiros de comto. e ora ha dita 
uilla hc muj despouorada. E ajmda foy dello causa gramde a estada da Rainha 
nossa madre que Deus aia. E os Roubos e perda que os moradores delia ouueram 
de guisa que aguora nom moram na dita uilla e termo quatro<;emtas pessooas. 
E ajmda como vossa mercee sabe todos sani lauradores que ali nom tem per hu 
uiuam. Pedimos a uossa altc/a que nos queira relleuar de nom aueer nesta uilla 
c termo mais de dez besteiros do comto». O soberano atendia parcialmente ao 
pedido, ao estabelecer que o número de besteiros passaria de vinte para doze C). 
Outra das solicitações formuladas por este concelho consistia em que «A primçipal 
ígfeia desta uilla que he Samcta Maria he em tal! pomto de destroiçam como 
uossa senhoria uee. E porque o corregimento delia he do do comçelho, o qual he 
em tamta pobreza poltos males roubos e perdas dos beens que ho Iffomte 
dom Pedro deu de moradores delia pollo de uossa madre e do prioH Nuno 
Gttomcanuez. E ora o uosso prioll que ha fez nouamente a ousia da dita uilla 
E queremos fezer a dita igreja. Ptedimosuos por merçee que nos façaaes merçee 
tres annos da terça deste corocelho pera fazermos a dita igreiat. pedido este que, 
aliás, era satisfeito pelo monarca, com a condição de não deixarem «de repaiiar 
os muros da uilla se tem algfiu danjficamento^ durante os referidos três anosO* 
Aceitando-se mesmo que pudesse haver algum exagero da parte dos pro- 
curadores concelhios, ao atribuírem os principais problemas da vila à campanha 
militar encetada contra o priorado do Crato, não há dúvida porém, de que a 
mesma, devido aos seus estigmas, deixaria uma marca perene na recordação dos 
homens, decorrido praticamente um quarto de século. 



(") A.N.T.T., Livro 5 de Odiaw. fols. 4v5. 

(«') Idem, Ihiíltn). foi. 5. 

De acordo com Kr. Joaquim de Sunia Rosa de Viterbo, a terça real «É um direito 
inseparável de majestade, que se paga aos reis de Portugal de todas as rendas dos concelhos 
do Reino, das quais a terça parte é para a coroa. Estas terças foram dadas patriòticamente 
pelos povos, para que os monarcas as despendessem na construçio ou reparo de muros e 

fortalezas, que podiam assegurar a tranquilidade, o sosseco e a independência da nação, 
o que cies. paternalmente, executavam» {Eliauiúriu das Palavras, Termos c Frases, ed. crítica 
dc Mário Fiúza, vol. II, Porto • Lisboa, s/d., p. 605). 

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CAPITULO III 



Partidários e pessoal da casa de D. Leonor 
a que foram confiscados os bens ou confirmados os privilégios. 
Identidade dos beneficiários que obtiveram essas doacSes 



n. n 



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No momento preciso em que o Regcnic D. Pedro tomou a resolução de iniciar 
o cerco dos castelos pertencentes ao priorado do Crato, foram enviados, em nome 
do Rei D. Afonso V. alguns editais, que deveriam ser afixados publicamente, pelos 
quais seriam sentenciados «com pena de morte c perdimento de bens» os ocupantes 
das referidus fortaie/as. <se dentro de dez dias nom se sahyssem. salvo as vinte 
pessoas aa Raynha ordenadas, e assy com promessa de perdam de todollos casos 
aos que a EIRcv lo<ío se vyessem. Exceptuando alguns poucos a que expressamente 
o tal perdam nom sc estendia, cm que enlra\a o Prior e seus lylhos»('). 

É muno provável que a maioria dos D^upantes das forialc/as sc lenfia homi- 
ziado cm C astela assuiU(^ que teremos oportunidade de locar, ao traiarnuis do 
pessoal de D. Leonor exilado nesse teini> . sendo ainda de pressupor que muitos 
outros tivessem procurado rctúgio ein parte incerta do nosso pais O. 



(') Ruy de Pina, Chronka tto Senhor Rvy D. AffoHso V. in Ct^lecçào de Uvras iné- 
ditos de História Portuftueza. tomo I, Lisboa, 1790. cap. LXX, pp. 316-317; Cf. Duarte 
Nunes de l^âo, Crouka < vida delrey D. A/onstt o V. tomo II. l.isbo i, pso, c ip X, p. 140. 

Gaspar Dias de I .mJim apresenta uma versão circunstanciai. i das diligencias postas 
cm prática pelo Infante D. Pedro, ao declarar que mandou «pôr éditos por jogares públicos, 
com pena de morte e confiscação Oc bens contra todos os que se achassem na villa do 
Crato e nas mais tenas do Prior, que se n&o sahíssem dentro de breve tempo que se lhe 
assígnava: wi mesmas penas sc publicaram contra todos os que de novo viessem a mettcr-se 
nVlIas, ou por aljium modo lhe dessem aiiida. favor ou mantimentos; e sc po/cram outros 
cditON com perdão geral dc quusqucr crimes que tivesvem commciidos aos que sc viessem 
logo ao governador, excepto alguns u que se nfio concedia tal perdão, cm que entravam o 
Prior e seus filhos, e outros fidalgos, todos nomeados nos mesmos edtlosa iO Infante D. Pedro. 
livro II. Lisboa, 1993, cap. XVIII. pp. 87-88). Na realidade, constatamos, através de um 
documento régio, que o regente concedeu perdão aos ocupantes dos castelos do prioratlo, 
com a condição, porem, de que qutsscssem os mesmos >viucr em paz c asesscgo cm nossos 
Regnos» (A.N.T.T., dtancelMm dk D. Afomo V, livro 23, foL 77>77v). Interessante é o caso 

— 99 



oopyiiytnoa inaiutial 



Interessa-nos aqui tâo-sòmenie considerar o conjunto de homens que se 
mantiveram fiéis a D. Leonor, e que, por esse mesmo motivo, foram objecto de 
confiscação dos bens móveis e de raiz. além de outras sanções de natureza física 
ou jisicológica. 

Cumpre-nos destacar, em primeiro lugar, os membros da nobreza que se 
viram privados dos bens ou dos cargos, em virtude de haverem seguido a viúva de 
O. Duarte na sua grande desventura. Entre eles. já fizemos referência ao Prior 
do Crato, que se viu na contingência de abandonar o priorado do Hospital, 
arrastando consigo os filhos para o exflio. Não conhecemos, no entanto, nenhuma 
carta de confiscação que esteja ligada ao seu nome. o que. de certo modo, se 
explica, se tivermos em linha de conta as suas funções. 

Entre os nobres mais importantes que aderiram u rainha, temos D. Afonso 
dc Cascais O* senhor de Cascais: Vítima da sua fidelidade a D. Leonor, mesmo 
antes da campanha levada a efeito pelo Regente D. Pedro contra o priorado do 
Craio. ficou privado dos bens móveis e de raiz pertencentes a seu sogro. Joane 
Mendes de Vasconcelos, os quais foram outorgados a seu cunhado D. Pedro dc 
Castro. Estando já exilado em Castela, sofreu a confiscação da quinta da 
Charneca situada no termo de Li.sboa. doada ao Doutor Diogo Afonso Mangancha. 



ét Femão Martins, ferrador do Prior do Crstto. ()iie esteve com ele no CAStelo cUi nicsmo 
nome c tv">lcvo perdãd sob a aleuavâo ilc qiic «el nom quisera hir cm companha do dicto 
prior pcra liondu cl fora c ssc vco pêra nos» (Carla régia de 1 dc Janeiro de 1441. A.N.T.T., 
Chancelaria de D. Afonso V, livro 2, foi. 119; Monumenta Henriclna. vol. VII, Coimbre, 
1965. doe. 128, p. 200). 

(') Conhecemos, no entanto, o caso de Femio Pais. escudeiro do comendador-mor da 
Ordem de Avis, que não se chegou a exilar em Castela, tendo permanecido no castelo dc 
Amieira em companhia de seu filho. A solicitação do Infante D. Henrique obtivera o perdão 
real, sob a condição dc não tornar a entrar nas terras do priorado. Agora, sob a alegação 
de que «tijnha hQua sua muUre, a qualt era ja nuiyto velha e tam fraca que nom poderia 
vlinr honde elle estaua pêra o aueer de veera, conseguiu que lhe fosse levantado o degredo 
(Carta régia de 23 de Abril ilc 1446. A N. í T.. Chaiicilaria dc D. Afonso V. livro 5, foi. 55v: 
Monumenta Henrkiiut. vol. IX. Coiníbr.t. I"íí>S. doe. WS. pp. 13'' 140). 

C) C arta regia dc 1^ dc Oe/cnibro de 1440. \ N r 1 .. l.i\ )o 10 lU EMnmiuluni. foi. 270. 

D. Afonso de Cascais era casado cni segundas núpcias com D. Maria de Vasconcelos, 
a qual era a filha mais velha de Joane Mendes de Vasconcelos. Este fidalgo não tinha fdhos 
varões por Unha legftima {Livro de Linhagens do Século XVI. ed. da Academia Portuguesa ' 
de História, Lisboa, Í956, p. 179). Por morte de Joane Mendes de Vasconcelos, tratou D. Peilro 
dc Castro, que era casado com a sua filha sci:undt>pcnita, D. Teresa de Vasconcelos, dc sc 
apossar das suas terras, o que deu origem a uma reclamação do seu cunhado U. Afonso de 
Cascais. O Rei D. Duarte, ao abrigo da Lei Mental, expediu uma sentença, em 13 de Julho 
de 1434, mediante a qual declarava que essas terras deveriam reverter novamente para a 

100 — 



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jurista e membro do conselho do rei C). outrotanto sucedendo a determinados 

bens que ele e sua mulher, D. Maria de Vascoiu-clov possuíam e que não aparecem 
especificados, os quais acabaram por ser dados a<» C onde de Ourém, apesar do 
mesmo não os haver solicitado. Lxceptuavani-sc desta douvà<^^ <^^*^ haveres que já 
tinham sido dados pelo regente ao seu cunhado D. Pedro do ("astro ( ). De maneira 
a não deixar quaisquer dúxidas. tornou o Infante D. Pcdr(\ cm nome de seu 
sobrinho, a fa/er outorga a Pedro de Castro de todollos bccns de rrai/ que 
pcrtcnçem c de djrccto podem pertencer aos mciirgados que o d;cto dom Alonso e 
dona Maria, sua molher, tjnham e pusuiom c ouucrom dc Johane Mendez de 
VasLiiin^clos V. A ra/ão ile tal atitude surge cfliramcnte consignada logo no início 
(\o documento, em que sc declara que divii Atlonso de Cascaacs c dona Maria. 
5ua molher. st partirom destes nossos rregnos pera os de Castella. falando e 
obrando cm elles coussas cm nosso deseruiço e contra nossos rregnos. polias 
quaacs rrazOoes. alem da pena corporull que por ello merecem, deuem perder 
todos seus becns que aujom em os dictos nossos rregnos. os quacs djrectamente 
podemos dar a quem nossa merçee for»('). 

Também o filho dc D. Afonso de Cascais, se viu na contingência de se 
homiziar com os seus pais em Castela. Assim vemos, de igual modo. os bens 
móveis e de raiz de D. Fernando de Cascais ou dc Va.sconcelos Ç) serem objecto 
de confiscação por determinação do regente. Foram eles doadas ao Conde de 
Ourém C)< lima parte dos bens, existente em Alcácer, que obtivera por casamento 
com D. Isabel de Meneses, filha de D. Pedro de Meneses, Conde de Viana, e de 



coroa. Eram elas metade «le Penela e SoalhScs (Anselmo Braamcamp Freire. Braxdes da Sala 
de Sintra, 2.* ed., livro I, Coimbra. 1921. p. 353). Pouco depois, no cntiinio. cm 2 dc .Setembro 
ilesse ano. o sober.ino fc/ doavâo das mcsm;is a D. I cm. indo de Vasconcelos, filho dc 
D. .Afonso de Cascais c dc D. Maria de Vasconcclo-» «A.N.I .I.. Chanulona Jt' D. DuurW. 
livro 1. foi. 32; Anselmo Braamcamp Freire, oh. cit.. p. 354». Não .se percebe, portunto, com 
muita clareza, porque motivo a carta de confiscação <lo Infante D. Pedro-diz que os bens dc 
Joane Mendes de Vasconcelos se encontravam na posse de D. Afonso de Cascais quando, na 
realidade, tinham sido doados ao filho. 

(•) C arla rcgui dc 24 dc Fcvcrein» dc 1441. A.N. I .T.. Livin 10 </«• Esin niiuiiim. foi. 244v. 

i) Carta regia dc 19 dc Março dc 1441. A.N.T.T., Livro .i de MisiUo.\, lols. 152-I52v. 

Contiàriamente ao que deixa adivinhar Anselmo Braamcamp Freire, não foram o* 
ben.s dc D. Afonso dc CivcaiN cntrcciies na sua quase iv t:ilid.ulc .lo Conde dc Ourém, mas 
sim tambcni a seu cunhada D Pcdrii dc C^aslro c ao l)r. Diogo Afonso Mangíincha, bcncfi* 
ciário^ que o mencionado aulor nào refere (Ob. cit., p. 352). 

(() Carta régia de 26 de Setembro de 1443. A.N.T.T., Chancetaria de D. Afonso V, 
livro 27, foi. I46v. Documento publicado na Monumento Henricitut, vol. VIJI. Coimbra. 
1967. doe. 58, pp. 102-103. 

0) Acerca do seu exílio vcja-sc a p. 85. 

(•) Carta régia de 19 de Março dc 1441. A.N.l.r., Livro J dc Mtsticos fois. I52-I52v. 

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CopyliyluCa liit-Ui-lial 



Dona Bcutri/ C outinho. foi-Ihe igualmente confiscada e doada a Lopo Mendes de 
Vasconcelos, cavaleiro da casa do Infante D. João ('). 

A citada mulher de D. Fernando de Calcais viu-se igualmente perseguida 
pelo regente, devido ao facto de ter acompanhado o seu marido no exílio e. 
sobretudo, após a morte deste, por se matrimoniar de novo. agora com João 
l-rcirc de Andrade!'), o qual se encontrava em idêntica situação. Alegava o 
Infante D. Pedro. que. andando ela de <ímal em pior casou com Joham de 
Andrade, sscendo huua pessoa que mujto foy e he em nosso deseruiço e contra 
O.S dictos nossos regnos c naiuraaes delics. nom esguardando ho grande linhagem 
de que cila he c como de com elle assy cassar per modo que cassou tez o que 
nom deuja e he grande abatimento de sseu estado e honrra. Polias quaaes rre/õoes 
ou cada hQua delias, aallem da pena corporal que por ello mereçe todollos dictos 
sseus beens asy moujs como de rraíz perdeo e nos os auemos por perdidos e 
perteencem a nos de os dar e fazer delles todo que nossa merçee for» (")• 

D. Isabel de Meneses casou-se com João Freire de Andrade, em Arevalo, 
no primeiro dia de Outubro de 1442 ('-). Nessa localidade. encontravam>se ambos 
com a Rainha D. Leonor a qual por certo teve bastante influência na realização 
do enlace matrimonial. A notícia do casamento chegaria algum tempo depois 
ao conhecimento do Infante D. Pedro, provocando no regente um forte sentimento 
de desagrado e ressentimento, por se tratar dum matrimónio desigual, constituído 
por dois inimigos seus. O facto explica-se pela circunstância do regente, em 20 
de Dezembro de 1443. ter doado a Rui Gomes da Silva membro do conselho 
do rei e alcaide-mor de Campo Maior, todos os bens móveis e de raiz perten- 
centes a D. Isabel de Meneses que se encontravam localizados na comarca de 
Entre-Tejo-e-Guadiana (")• Alguns meses depois, em 3U de Maio de 1444. confis- 



(*) Carta régia de 2 de Maio de 1442. A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V» livro 23. 

foi. 34: Livn> 6 dc OilUtno, foi. I27v. 

D. IsatMrl dc McriL-ses, obtivera, ainda solteira, por carta de 15 de Fevereiro de 1434, 
a confirmação da terra dc Arcgos (A.N.T.T., Chancelaria de D. Dmrie, livro I, foi. 87; 
Uvro 3 da Beira, fd. 137; Anselmo Braamcamp Freire, ob. cit., p. 356). Sua mfte, D. Beatriz 
Coutinho, era senhora da mencionada terra por sucessão de seu pai, Fernão Martins Coutinho, 
a quem foi douda por D. João I. em 11 dc Janeiro de 1392 (Idem. Ibidem). 

('") Vcjam-se dados biográficos a seu respeito cm apêndice. 

(") Carta regia de 30 dc Maio de 1444. A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 24, 
fols. 77-77V; Uvn» 10 de Estrenwdura, fols. It9>l20. A primeira fonte encontra-se publicada 

na Mottumenia Henricina, vol. VIII. Coimbra, 1967. doe. 109, pp. 169-171. 
(") A.N.T.T., Chancelaria dc D. Afonso V. livro 34. fols. 76v-77. 

Vcjam-se dados biográficos a seu respeito em apêndice. 
('♦) A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 25, foi. 7v. 

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cava-lhe o regente 8I(X) dobras de ouro. que dc\cria receber pelo seu primeiro 
casamento com o falecido D. Fernando de Cascais, as quais seriam pagas na 
portagem de Lisboa e no almoxarilado de Sintra, à ra/ão de 82 676 reais brancos 
anuais. Esta quantia passava a ser paga a D. Leonor de Meneses, irmã da casti- 
gada, «pollos seruiços do diclo sseu padre e por cila s.secr huua tam especial 
pessoa de que muy grande carrego teemos e dc que mujtos seruiços rreçebcmos 
e esperamos rreçeber». Além da mencionada tença. fa2ia4he ainda o regente, em 
nome do rei, doação «dos mojnhos de Torres Nouas, a saber, os de Caldcircnn 
e os de Soalapa e de todollos outros beens e heranças que forom do conde sseu 
padre que ssom em o dicto logo e seu termo. Os quaaes beens perteençiam ao 
dicto dom Femamdo e aa dieta dona Isabel per bem de partilha, e do casal de 
Thõoes e da herdade da Pipa, que he em termo de Santarém. E esso mesmo 
lhe fazemos graça e merçee de todos os frujtos e rrendas e djreítos que a dieta 
dona Lianor rreçebeo das dietas coussas. despois que o dicto dom Femamdo 
e a dieta dona Isabel partirom destes regnos pera os de Castella» (""), 

Outro dos fidalgos sobre quem recaiu a justiça implacável do Infante D. Pedro 
foi D. Nuno dc Noronha, o qual, segundo a sentença cominatória, «falou e obrou 
em noso deseruiço e contra nossos rregnos». por cujo motivo «aallem da pena 
corporal que por cl lo mcrcçe dcue perder todos seus bsens». Foi beneficiado com 
oi mesmos Mestre Martinho Vilarinho, físico e escudeiro do regente ('*). A este 



(») Carta régia de 30 de Maio de 1444. A.N.J.T.. Chancelaria de D. Afonso V. 
livro 24, fols. 77-77v: Livro 10 de Estremaduiu, fols. r 19-120. A primeira fonte encontrasse 
publicada na Moiuinienui Hiiimiiui. \o\ VIM. Coimbra, I9(i7. doe. 109, pp. 169-171. 

("') C arta regia dc M dc Maio dc 1441. A.N.I .T.. Clunudana dc D A/onso V. livro 2. 
foi. 94v; Livro J dc Místicos, fols. 150-I50v. A primeira fonte cnconlra-se publicada na 
Mommenta Henricina, vol. VII. Coimbra, I96S, doe. 156, pp. 238-239. 

Nada nos foi possível apurar sobre D. Nuno de Noronha, cujo nome nSo figura no 
Livro df Linhaufns do SítiiIo XVI. nem nos registos da chancelaria afonsina. Talvez seja 
viável formular a hipótese de se tratar dum hipst> cometido pelo escriba, que teria lançado 
incorrectamente o seu nome no livro da chancelaria. 

Relativamente a mestre Martinho Vilarinho, julgamos tratar-se do mesmo físico que. 
após a morte do Infante D. Pedro em Alfarrobeira, passou a ser o médico da Rainha 
I"). Isabel, a quem o rei. cm lf> dc Março de 1452. isentou do pacamento de duas coroas 
por uma vinha que trazia aforada em Malapados, no termo de Lisboa (A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V, livro 12, foi. 76v; Livro 10 de Estremadura, fols. 297-297v. A primeira 
fonte encontra-se publicada por Francisco Marques de Sousa Viterbo, Notkia sobre alguns 
tnidicos portas: tu' ses. Porto, I9I5, p. 127). Era casado com InCs Afonso, filha do Dr. Estevfto 
Afonso, clérigo de missa c chanceler-mor do Infante I). Pedro, e de Moor Rodrigues, mulher 
solteira ao tempo do nascimento da filha. Hslii foi legitimada em 17 de Março dc 1441 
(A.N.T.T.. Livro 2 de Leniiiinaçòex, foi. 182). A solicitução da rainha, foi a mencionada 
sogra de mestre Martinho isenta do pagamento de pedidos, por carta rígia de 29 de De- 

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caso poderemos ainda acrescentar o dc Diopo Gomes de Abreu ('■). cavaleiro- 
-fidalgo. que foi juÍ7 em Torres Vedras e corregedor do rei na comarca de 
Fstrenuidura. a quem. pelos mesmos motivos atrás adu/idt-s. foram confiscados 
os bens móveis e de raiz existentes na citada vila. tendo sido doados a Huelxira 
Duarte, cavaleiro-íidalgo da casa do rei ( ). Não nos consta que. tanto D. Nuno 
de Noronha, como Diogo Gomes de Abreu, se tenham homiziado em Castela, 
não sendo, no entanto, dc pôr inteiramente de lado que tal facto lenha acon- 
tecido. 

Figura proeminente, a quem coube organizar a partida secreta da rainha 
de Almeirim para o Crato, foi a de Diogo Gonçalves LoboC), escudei ro-fidalgo 
e vedor da fazenda de D. LeoiKMr. No mesmo dia em que acompanhou esta 
senhora na sua ida para Castela, foram-lhe confiscados os bens que possuía em 
Alferragide. no termo de Lisboa, os quais foram doados a Lopo do Vale(*). 



/.embro de 1452 (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 12, foi. 76v. Documento 
publicado por Francisco Marques de Sousa Viterbo, oh. cit., p. 127). O filho deste casal, 
de nome Fernando, obteve do rei uma bolsa dc estudos anual, no quaniii:itivo de 4000 reais 

brancos, a qual lhe foi outorjiada em 24 de Maio de 1452 ( A N T I , Clianct hiriíi ãv 
í). .1i,,riM, K. livro 12, foi. 7f)v. Documento publicado por Francisco Marques de Sousa 
Vitertu). ob. eii., p. 127; Cf. Humberto Carlos Baquero Moreno, Um aspecto da politica 
cidtural de D. Afonso V : a concessão de bolsas de estudo» separata da Revista de Clincias 
do Homem da Universidade de Lourenço Marques, vol. III, série A, 1970, p. 32). 
('') Veuim-se dados biográficos a seu respeito cm apêndice. 

< Carta régia de 7 de Março dc 1441. A.N.I.I ., Chancelaria de D. Afonso V, 
livro 23, foi. 22; Livro 10 de Esiremaduira, foi. I5-I5v. 

Poucos elementos pudemos colher sobre Huelxira Duarte, cavaleiro da casa do rei, 

0 qual testemunhou em Segura, a 13 de Novembro de 1432. a ratificaçSo do tratado de paz 
celebrado entre os reinos de Pcrtiieal e de C astela. (A Ci.S, Patronato Real, Icgajo 49-22. 
l^oeuniento publicado por Luís Suáre/ Fernandez, Ri laciones entre Foriuual y Castilla en la 
tipoca dei Infante Don Enrique, Madrid, 1960, doe. 52, pp. 210-213: Motmmenta Menricina. 
vol. IV. Coimbra, 1962, doe. 43, pp. 170-174). Trinta anos mais tarde, em 1462, era cavaleiro- 
-fídalgo da casa do rei, recebendo a moradia mensal de 1400 reais brancos (D. António 
Caetano de Sousa. Punas da História Ceneotógica da Casa Real Portuguesa, tomo 11. 

1 parte. Coimbra, 1947, p. 32). 

(>») Vcjam-se elementos biográficos a sctt respeito em apêndice. 

(*>) SSo escassos os dados que pudemos coligir sobre Lopo do Vale, cavaleiro da casa 
do rei. D. Afonso V. tendo em atenção os muitos serviços por ele e por stia mulher Isabel 
Henriques prestados .i coroa, fe/ lhc doação de umas casas, com os respectivos sobrados, que 
posMií a na rua dos Torneiros em Lisboa. As referidas tendas encuntravam-se aforadas ao ano 
peia quantia de vinte e oito libras de mo«da antiga, ao tanoeiro da capital, Pero Domingues 
(Carta régia de 22 de Maio de 1451. A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro II, 
foi. 52; L/vfO * de Estremadura, foi. I75v. Acerca da origem dos Henriques em Portugal, 
veja-se o estudo do Padre António Jo.squim Dias Dinis, O.ç />n<C( 'iífi>ri v dos HenrigueS de 
Portugal, separata da Revista Portuguesa de História, lomo XIII, Coimbra, 1970). 

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cavaleiro da casa do rei. Tais bens eram constituídos por uns casais que o incul- 
pado houvera do cavaleiro Pero Pereira, os quais se encontravam localizados 
entre umas herdades que tinham sido perlen»ja de L opo Dias. escrivão f)erantc o 
corregedor da cidade, e ainda umas outras herdades anteriormente pertencentes a 
Fernão Vasques. As razões invocadas pelo regente, justificativas da sua atitude, 
obedeciam à consagrada fórmula de que o culpado «pensou, fallou e obrou em 
nosso deseruiço e comtra nossos rregnos» (-'). 

Um dos grupos que mais se ressentiu com a política de sequestro de bens. 
posta em execução pelo Infante D. Pedro, foi sem dúvida a do pessoal da própria 
casa da Rainha D. Leonor, que acompanhou a viiiva de D. Duarte na fug» para 
Castela ou se opôs deliberadamente ao governo do regente. Pela sua posição de 
relevo, já fizemos referência ao vedor da fazenda de D. Leonor. Diogo Gonçalves 
Lobo. cabendo agora a vez de agrupar nos seus respectivos quadros os servidores 
e os criados que pertenceram à casa da mencionada senhora. Se. em alguns dos 
casos, é possível determinar o paradeiro dessa gente, na maior parte deles, porém, 
apenas temos conhecimento da confiscação dos .seus bens móveis e de raí:;, em 
função dos motivos sempre aduzidos de terem pensado, falado e actuado contra- 
riamente u política do governador (^*). 

Consideremos, primeiramente, o pessoal que se encontrava ao serviço de 
D. Leonor: 



(X) Carta régia de 31 de Dezembro de 1440. A.N.T.T.. Chancetaria de D. Afonso V, 
livro 2. foi. 120; Livro 10 de Esire madura, foi. 52v. 

(-'") Esta situação deu origem a que D. Alonso V. na sua carta patente dc 15 ilc 
Setembro de 1448. tivesiie declarado que, up6s n morte Uc seu pai. «algQus sseus criados e 
outros neus senijdores e bem assy da rnijnha. minha senhora e madre, muj conprída de 
iiertudes, que Deus aja em sua sancta groria. e doutros grandes de nossos rregnos de ssua 
uiilia c acostamento, foram priuados jninst.imcntc do ssous c;istfllos, \\\\.\s c lugares e offjçios 
que tinham c aynda lhes fforam tomados sseus bceUN que aujani. asy moujs como de rraiz, 
«em teendo líccta coussa aigúa per que laces penas ouuessem de padeçer, senom soomente 
por seerem a serujço da dieta senhora rratnha ou dalgOus outros da ssua uallia e acosta- 
mento ..» tG.H.C.P., Vereações Je 1448- 1449. foi. 17. Publicado por Artur de Magalhies 
Ba&to. Limiar da irai;cilia. Reflexos do Porto nas vrspcraK th- -ilfarrohfira. separata da 
Rrvisía dc História, vol. XIII. Usboa. 1925. p. 262; Mottunwtita Henricina. vol. IX, Coimbra. 
1968. doe. 198. pp. 315-318). 

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106 — 



oopyiiytuoa inaiuiial 



Do presente quadro, ressalta a circunstância de a totalidade dos beneficiários 
pertencerem à casa do Infante I^. Pedro, quer na qualidade de escudeiros, quer 
ainda na situação dc seus servidores. Também se observa em todos os casos 
conhecidos que ob bens confiscados se encontravam localizados na região da 
Estremadura, na sua maior parte situados em Santarém e em Lisboa. Não admira 
que tal acontecesse, pois era precisamente nesta região que a rainha possuía os 
seus interesses. 

Passaremos agora a considerar os criados de D. Leonor, cujos haveres 
sofreram igual sorte : 



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Revela-nos esie quadro, ao contrário do anterior, uma extrema dispersão na 
localizavfu) dos bens confiscados, os quais nos aparecem situados em Lisboa, no 
Porto e em F-lvas. Metade dos beneíiciados são escudeiros do Infante D. Pedro; 
se acrescentarmos o seu número ao do quadro anterior, vemos que 75 por cento 
dos homens ligados ao regente foram contemplados com os haveres pertencentes 
ao pessoal que se encontrava ligado à ca.sa de D. Leonor. Este facto não deixa 
de ser bastante significativo, como indiciador duma política que tinha em mente 
beneficiar aqueles que apoiavam o Infante D. Pedro nas suas tarefas governativas, 
as quais, neste caso. se traduziam por uma luta aberta contra os partidários da 
rainha, 

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Depois de termos passado cm revista alguns dos criados c escudeiros de 
D. Leonor a quem foram confiscados os bens. analisaremos conjuntamente deter- 
minados criados e escudeiros pertencentes às casas dos fidalgos que aderiram ao 
partido da rainha e. inclusivamente, se homiziaram em Castela : 



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Uma observação sumária deste cjuadro indica uma dispersão na localização 
de bens. os quais nos aparecem em Alverca c cm Évora. Idêntica distribuição se 
nos depara na política de doação dos bens confiscados, os quais vão contemplar 
um escudeiro Uo Conde de Arraiolos, um cavaleiro do Infante D. Pedro e um 
cirurgião. 

Num pequeno quadro, iremos considerar seguidamente um <criadoí> e um 
escudeiro pertencentes a casas de nobres que não aderiram ao partido de D. Leonor 
durante a campanha efectuada contra o priorado do Crato. A desvinculação dos 
referidos indivíduos às respectivas casas .senhoriais oferece o particular interesse 
de mostrar o carácter extremamente flexível do nosso regime .senhorial, que não 
obrigava dum modo rígido a uma submissão total de «criados» e escudeiros aos 
seus senhores. Muito embora fosse pouco habitual seguirem a facção contrária 
à doa seus senhores, não raro deparamos com situações em que os mesmos com- 
batiam no partido opositor; determinadas causas de natureza particular poderiam 
contribuir para que eles procedessem assim. Observe-se, no entanto, que, numa 
fase inicial, D. Sancho de Noronha, de quem Meem Afonso era escudeiro, tomou 
o partido da rainha, o mesmo não sucedendo na campanha do mencionado 
priorado. 



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Através do presente quadro, damo-nos coma de que os beneficiários foram 
um escudeiro do regente e o moço de estribeira do Infante D. João. cuja acção 
a favor do irmão garantiu ao mesmo um êxito seguro na sua contenda com a 
cunhada. Apesar dos bens não aparecerem rcícrenciados. e muito pro\ável que 
os mesmos existissem nas localidades onde se encontravam domiciliados os 
inculpados. 

« * * 

Somente raras vezes nos aparece designada a profissão dos homens que foram 

condenados à privação dos seus bens móveis e de rai7. Cumpre-nos. no entanto, 
destacar a figura de Gonçalo de Pinharanda, que foi criado de D. Leonor, tendo 
desempenhado as funções de almoxarife, juiz e contador dos resíduos na vila de 
Sintra. Sabe-se que se encontrava nesta localidade, quando D. Leonor se exilou 
em Castela, tendo mais tarde partido para esse reino, onde \iveu com o celebre 
Marquês de Santillana. D. Inigo I npe/ de Mendoza ("). Tal atitude deu azo a 
que o regente o privasse do oíício de juiz c contador dos resíduos de Sintra e de 
seu termo, tendo sido designado para essas funções Diogo Afonso de Abreu, 
criado de D. João 1 c escudeiro do Infante D. Pedro ("). Também lhe íorain con- 
fiscados os bens que possuía nessa vila. os quais foram doados, por carta de 1 de 
Dezonbro de 1442. a Algarve, rei de armas de D. Afonso V Oníseguiu. no 
entanto, impetrar uma carta de perdão do regente, a qual lhe foi concedida em 
29 de Abril de 1445 (^). Não sabemos, contudo, se teria regressado ao reino 
durante a regência ou se o teria feito quando o Infante D. Pedro foi afastado 
das tarefas governativas. 

Depois de termos posto em evidência as vicissitudes sofridas por Gonçalo de 
Pinharanda. apresentaremos num pequeno quadro todos os indivíduos que desem- 
penhavam profissões menores e que. devido à sua afeição pela rainha, se viram 
perseguidos e privados dos haveres : 



A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 25, foi. 62. 

Carta rigia de 10 de Abril de 1442. A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, 
livro 23, foi. 61 v. 

(* ) A.N.T.T.* Chancelaria de D. Afonso V, livfo 23. foi. 59; Uvro 10 de Estremadura, 
íol. 24-24V. 

('^) A.N.T.T., Chancflaria de D. Afonso V, livro 25, foi. 62, Criado da Rainha 
D. Leonor e vassalo do rei, que, após o seu regresso ao rdno, voltou a morar em Sintra; 
obteve, em 7 de Outubro de 1463, uma carta de aposentação, cm que sc fa/ia alusão aos 
grandes serviços por eles prestados à mencionada senhora e a D. Afoaso V (A.N.T.T., Chanr 
celaría de D. Afonso F, livro 9, foi. 148v). 

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Numa resenha breve, observamos novamente a dispersão de bens localizados 
cm Amieira c Mafra, sendo contemplados pelQs mesmos um escudeiro do Conde 

de Abranches e um fidalgo. 

Cumpre-nos ainda chamar a atenção para o caso de Gil Vasques. arcediago 
da Guarda, que. por ter seguido o partido de D. Leonor, se viu privado de bens 
móveis c de raiz que possuía em Arruda e no seu termo, tendo sido os mesmos 
doados a Rui Lourenço, guarda dc D. Jaime, filho do Infante D. Pedro, que mais 
tarde foi Cardeal e Arcebispo de Lisboa O. 



* * * 



Não nos foi possível averiguar, por carência de elementos de identificação, 
a profissão ou a categoria social de diversos indivíduos que se viram expoliados 
dos seus ha eres por determinação do regente, devido à atitude por eles assumida 
a favor da iúva de D. Duarte. 

Exporemos seguidamente a identidade destes homens, a localização dos seus 
bens, sempre que possível, e o nome dos beneficiários : 



A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 27, foi. 108; Livro 10 de Estnma- 
dura, foi. 262v. 

Rdativanieiile ao Cardeal D. Jaime, veja-ae o artígo do Prof. loaquim Verbsino Senio, 

Cardeal D. Jaime, in Dicionárío de História de Portugal, dirigido pm Joel Sento, vol II, 
s/d., pp. 574-575, e a bibliografia aduzida por este historiador. 



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l'ma aprcciavãd niuiUi sumária deste quadro rcvela-nos uma certa dispersão 
dos bens confiscados, muito embora a mesma obedeça a duas razões funda- 
nicniais : os haveres existentes em Amieira, Elvas. Olivença, etc prendem-se à 
localizarão regional em que sc encontravam situados os partidários do Prior do 
Crato. Alenquer e Óbidos eram vilas de D. Leonor e Lisboa. Santarém. Turcifal, etc. 
pertenciam ii região da Estremadura, onde assentavam os principais bens fundiários 
da rainha. Quanto aos beneficiários, ohserva-sc de igual modo uma tendência 
dispersiva, mas mais accniuada. São cv^nlcmpladoN alguns fidalgos, furistas. escu- 
deiros do rei e de algumas casas senhoriais. Acentue-se. no eiitanlo. o facto de 
algun.s des.se.s fidalgos ou juristas serem pessoas da extrema confiança e ami/ade 
do regente, de quem receberam diversas benesses, como é o caso de Diogo Lopes 
de Sousa e do Doutor Diogo Afonso Mangancha. 

« * • 

Depois de termos procedido à análise dos simpatizantes da causa de 
D. Leonor ('*) a quem foram confiscados os bens móveis e de raiz, vamos pro- 
ceder ao estudo quantitativo dos beneficiários, para assim podermos determinar, 
com relativa exactidão, a percentagem do pessoal da casa do Infante D. Pedro 
que foi beneficiada com estas medidas discricionárias C*") : 



Nome dm hcneficiiidus 


Categoria social ou irrnfissio 


Numero de doaçAct 
a *tu favor 


Afonsd Aboim 


Esciulciro cl;» cas;» tio rei 


l 'ma 


Alvaro «Jc Abreu 


EKudciro du casa do 1. D. Pedro 


Uma 



(**) São muito inconipktON tis rcjjislos c\i>tcntcs n;i ('hanL.'.iri;i úc D. .Afonso V. 
quer durante a rcjicncia tic I) ['«.'Iro. i|iicr iik-nmio após ela. A situarão ;>giava se ainda com 
o dcsaparecitncnlo dos livios icl.auos aos anos dc 1447. 1448, 1449. I4.S7. 1458, 14í>t), 1461, 
1465. 1467, 1470. 1474, 1477. 1478 e 1479 (Anselmo Bravincamp Freire. A ChmeeUaría de 
D. AIftmso V, in Anhivo ílhiòrico PortuKmz. vol. II c 111 1 isboa. I901-IW5; Cf. A. H. de 
Oliveira Marques. (Utitt Jn líumltiiiie </< fli'ytona Mídu val Pt>rtii\:ucso. 1 isboa. s d., p. 2K>> 
F.stc estado dc coisas itcnii.i-sc cru parle, sc tivermos em conta a existência de alguma docu- 
mentação avulsa, ahas quase sempre muilo escassa, c, sobretudo, os registos exarados nos 
livros da Leitura Nova, nem sempre isentos de erros de Iranscriçfio, sobretudo no que concerne 
è cronologia. 

('••) Seguiremos no presente quadro uma ordem alfabética, com base no ultimo apelido, 
indicando, loj:!» .ipos o nome do contemplado, o numero exacto das doações provenientes de 
contiscaçào de bcn^ que o mesmo recebeu. 

124 — 



Copyríghted material 



Nnme dm bcncficiárim 


C.ilvi:»ri.i MKial lui prafbsSo 


NOmcro de *loai.-<^f> 
a Mil favor 


Mariim Afonso (") 


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Escudeiro <Ja casu do I. D. Pedro 


Uma 


Algarve 


lici de armas de D. Afonso V 


Uma 


Dr. Rui Comes de Alvarenga C*) 


Doutor em Leis 


Uma 


Uiogo Alvares ('*) 


Cavaleiro da casa do !• D. Pedro 


Uma 


Rodrigo de Alvelos(«>) 


Hsciideiro da casa do rei 


Uma 


Rui Gomes de Azevedo 4") 


Cavaleiro da casa do 1. D. Pedro 


Duas 


Alvuru C;içuu 


C riado do conde de Ourém 


Duas 


D. Pedto de Castro 


hidalgo 


Uma 


jouo rires Lffago 


Rwuoeiro uo i. u. ixoro 


Uma 


HueUiru Duarte 


Cavaleiro da oissi do rei 


Uma 


Afonso Eanes 


Aposentador do 1. D. Pedro 


Uma 


Alvaro Eanes 


Escudeiro do conde de Arraiolos 


Duas 


Come» Eanes 


Escudeiro Je Pero Rodrigues de 
v.aMK<f cavaleiro uo i. u. reuro 


Uma 


Martim Eanes 


Escudeiro da casa do rei 


Uma 


Lopo Fernandes 1**) 


Servidor do 1. D. Pedro 


Uma 



(") ( «iiihaieti cn« Alfarrohririt ao bJo .Jw Infamu t>. HeUro (A-N.l.T.. CbUMlaria 4» D. Alan» V. 
livro n. r> I I09v. Litr» R ilc t-jilrramlani. U U IM-IMv). 

(■'') l-tilou cm Alfarrnl>i ir.i tuts hovlct rf.ii> ( A N.T.T.. t'l»aiic»lafia «Ir I). Al<>n>n \. cro 20 foi 4 V) 

(•!>) Cnmhaicu cm Alf^rrohtira nn exercito Uo l>uq-.;e «k- Coitit'ira (A.N.I.I.. CluiBcelaria dc D. Afeno V, 
livto II. frt. 7Kv: Lí*to 9 4c RMrciniMiNni. foi. IKI). 

(«•). I.iiiou (111 Mf.ir-i.K ir.i lui h<•^lc tio liifjiiu- O. PcUro (Ruv (Ic Pilia. «b. cll.. cap. CXXI. p. 422; 
f>uarl« Nuiws Uc LcAo. ob. ríi.. cap. XXII. p. 20.>). 

(n> Combateu ao lado do Infame D. Pedro em Alfarrobeira {A.N.T.T.. Chaardaria da D. Afoaio V. 
livro 34. fel. 6». Li«r« 3 de MMCM. f< I ksi 

(>>> Membro do coiiMflho do rei U. Afonso V, criado Uo Intantc I). Hcnrii|ue (A.N.T.T., CImactIaria 
da D. Alan» V. livro 34. foi. «3>. 

(«S> LuUM ao lado do Inf.nn, P Jr<< cm Alfiirrobeini lA.N.T.T.. .ChwwatariB d* D. Aio— o V. 
Itvro 34, foL I25v: Uvra t dc tstrcniailiira. h>|. 21b)- 

— 125 



Copyrighteci material 



Nome dM hcofeliciailiM 


Gucfloris social ou nnififdo 


NdiMfo de doav6«» 
a Mtt Ikvor 


Rui Fernandes (■) 


Escudeiro do I. D. Pedro 


Duas 


Martim Ferfeira 


Escudeiro da casa do rei 


Uma 


Diogo Cionçalves de Figueiredo 


Eiicudeiro de D. Beatriz de Vilhena 


Uma 


Mettie Gil 


Cirurgião do rei 


Uma 


Sebastião Comes 


Escudeiro de Pero Rodrigues de 
Castro, cavaleiro do 1. D. Pedro 


Duas 


Alvaro Gonçalves 


Criado dc I opo Afonso, escrivão 
da puridade do i. D. Pedro 


Uma 


Leonel de Liina<**) 


Fidalgo 


Uma 


Ruí Lourenço 


Guarda dc D. Jaime, filho do 
1. D. Pedro 


Uma 


Dr. Diogo Aíonito Mangancha 


Doutor em Leis 


Tres 


Vasco Martins 


Escudeiro do 1. D. Pedro 


Uma 


Martím Afonso de Melo(**) 


Fidalgo 


Uma 


D. Leonor de Meneses 


Filha de D. Pedro de Meneses 


Uma 


Martim Afonso dc Miranda (*•) 


Fidalgo 


Uma 


Montejunto 


Moço de estribeira do l. D. Joio 


Uma 



(H) Lutou ao lado do Infunio D Pedro cm Alfarrobeira (A.N.T.T.. OuMcatefia dc D. AfoMo V, 
livro 34, foi. 125v; L4vr« S dc EstrcMadara, foi. 276). 

m Combateu cm Alfarrobeira ao lado. do rei (A.N.T.T.. ClMa«ÍMriB da D. -Mmam V. livro M. M. Il»7: 
Pedro de Azevedo, ob. cb., vol. I. r 606). 

(Si) Lutou ao lado do rei cm Alfarrobeira (A.N.T.T.. ChaaccUria ilf D. Afon»o V. livro 10. foi. 8v). 

(»•) Combateu nas hostes reais cm Alfarrobeira (A.N.T.T.. Chauiriana de D. Afoara V, livro II, 
foL Mv; Uff* • da iiIfluÉMl, fab. Ulw-M4. Eita Ahitna fonte mcontra se publicada em M M i a i r h de 
A««b«. CiliilliM da DMOMMaa HfaMefcM, «ol. I. Avdro. 1959. doe. CVII. p. 207). 



126 — 



Copyrighted material 



Nome 4m beiwttciadas 


Categofta social ou proflailo 


Número de doeçfles 


Nunes 


Cavaleiro da casa do rei 


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C (itule dc Ourt?m 




L'ma 


João Pais 


Cavador da casa do rei 


Uma 


Migad de Pineda 


Escudeiro da casa do í. D. Pedro 


Uma 


Ruí Gomes da Silva (*) 


Fidalgo 


Uma 


Diogo Lopes de Sousa 


Fidalgo 


Duas 


Gonvulu Kodrii^ucs de Sousa (*) 


Cavaleiro da casu do I. D. Hen- 
rique 


Duas 


Diogo de Torres 


Porteiro da 1. D. Leonor, irmS de 
D. Afonso V 


Uma 


Lopo do Vale 


Cavaleiro da casa do rei 


Uma 


Lopo Mendes de Vasconcelos 


Cavaleiro da casa do i. D. João. 
e por morte deste, do L D. Pedro 


Uma 


Gil Vasqucs 


Escudeiro da casa de D. Alvaro 
Vaz de Almada 


Unna 


Murtim Vasques 


Escudeiro da casa do rei 


Uma 


Mestre Martinho Vilarinho 


Físico e escudeiro da casa do L 
D. Pedro 


Uma 



(!>;) Lutou em Alfarrobeira ao Ja«lo úe D. Afonso V (A.N.T.T.. CkaMCCIwia dc O. AfoBfo V. livro 15, 
foi. 19 e livro 34. foi. 49). 

Não ^bcmo5 sí chrgou .i p.irticir-T iJirrtt.inirnte na hatalha dc Alfurrobiir.» A sua lealdade ao rei 
transparece na presença de mus filhos Pedro da Silva Meneses, Diouo da Silva Meneses, Fernão da Silva 
Mrnfini e Joio de Meneie* (beaio Amadeu) no conflito, jumo de D. Afonso V (A.N.T.T., Clnaeelwla de 
D. AIOWO V. livrii 10. foi. 101). 

(•») Combateu ao lado do rei em Alfarrobeira (A.N.T.T., ChMctteria da D. AfoMO V, livro 12. fnl. i7v; 
Riedio de AwMdo. ok, cft., vol. I. pp. 3S7-)58). 

— 127 



oopyiiytuoa inaiuiial 



o presente quadro lotali/a o número de quarenta c quatro beneficiados, cora 
uma ou mais doações. Se considerarmos o pessoal da casa do Infante D. Pedro, 
incluindo no mesmo os criados e os escudeiros dos ficlaliros c cavaleiros do 
Duque dc C oimbra. vemos que o seu quaniuaiivo se ciira em dc/asseis indivíduos. 
Nao podemos esquecer ainda que não figuram nesse número alyumas das prin- 
cipais pcrsonahdades que apoiaram o reiiente na luta contra a cunhada e que 
foram de igual nnxlo conlcmpludas com diversas confiscavões aplicadas aos parti- 
dários desta senhora. A lílulo de exemplo, poderemos apontar os nomes do 
Dr. Diogo Afonso Mangaiicha. de Diogo Lopes de Sousa e de um ou outro 
escudeiro do Infante D. João c de D. Alvaro Vasques de Almada, cujo papel nas 
contendas travadas foi decisivo para o triunfo alcançado pelo regente. 

Desta forma é-nos possível estabelecer as percentagens do seguinte modo: 

BohcIki.kIiis Número '/» 

Pessoal da casii do I. I). l*etIro . 16 .. 36 

Diversos 28 ., 64 

Daqui se infere que. sensivelmente, um terço de elementos ligados à casa do 
Infante D. Pedro, foi bcncliciado pela políticH de confiscações levada a cabo por 
este governanle. Apesar da ann^siragem apieciada se mostrar bastante reduzida, 
não deixa de ser sigiiilicativa a pereenlaj:em atrás apresentada. Assim. pensamos, 
com base na me>ma. ciue leria havido uma aiiiude prc-concebida, assumida 
pelo Dutiue de C oimbra, a t|ual i>bet!eceu ruiulamcnlalnieiue ao apoio tiicondi- 
cional que lhe loi prestado peia sua gente. Daqui se depreende que tenham sido 
estes os que quantitativamente ni>s aparecem como os principais favorecidos. 
Era com eles. electivamenle, que o Duque de Coimbra podia contar cm todas 
as eventualidades que viessem a processasse. O futuro acabaria por ju.stificar 
amplamente as suas previsões. 

Vem ainda a propósito salientar que nos foi possível determinar a presença 
de cinco dos contemplados nas fileiras do exército do Infante D. Pedro em Alfar- 
robeira, mas. cm contrapartida, deparamos com outros oito. na sua maioria 
poderosos fidalgos, que lutaram nas hastes reais durante o recontro. Tal facto 
não deixa de ser significativo, por revelar que a principal nobrezii que apoiou o 
regente no conflito com D. Leonor, acabou por abandoná-lo quando o mesmo 
deixou a regência do reino <"). 



(^') Jiilgumos ser dc considerar o papel decisi\o que desempenhar.ini o»; Infantes 
D João e D. Henrique, apoiados poIt>s Condes de Ourem e de Nitaiolds. n i cnliii.içãd que 
SC formou cm torno do regente c lhe proporcionou a vitoria írentc a cunhada. Mais tarde, 
além das razOcs políticas e sociais que levaram a nobreza e os concelhos a afastaiem-se 
tio Duque de Coimbra, lemos ainda de levar em conta a prematura morte do Infiante 
D. João. cujo indefectível apoio era indispensável ao irmão, e a atitude assumida pelo 
Conde de Ourém, cujo ressentimento coniru o governador era bem notório. 

128 — 



Copyrighted material 



« • * 



Se considerarmos a categoria scKial ou a profissão exercida pelos beneficiários 
com os haveres confiscados aos partidários de D. Leonor, podemos elaborar a 
seguinte distribuição : 



Categorii srtcio-prnrmional th» beneficiatlos Número % 

Fidalgos e cavaleiros 14 ... 31,8 

Escudeiros e criados J8 ... 41 

Legistas 2 ... .4,5 

Físicos e cirurgiòes 2 ... 4,5 

Diversos 8 ... 18,2 

Totai 44 ... 100 



Através deste quadro, vislumbramos com clareza que os extractos sociais 
mais favorecidos nos aparecem constituídas pelos fidalgos e cavaleiros (31,8 por 
cento), apenas ligeiramente superados pelos criados e escudeiros dessas ou doutras 
casas senhoriais (41 por cento). Estes dois grupos sociais formam» no seu con> 
junto. 72.8 por cento da totalidade, o que representa um valor superior a 2/3. 

Não deverá causar estranheza que assim tenha sido. se dermos a devida conta 
a que foram estes os elementos da sociedade que participaram mais activamente 
na consecussão do triunfo. À frente das respectivas casas ou de pequenos grupos, 
chefiados pelos escudeiros-fidalgos. deram uma quota-parte importante a favor 
da referida causa. Assim, tinham de colher o fruto, vindo a ser os principais 
contemplados pela política posta em execução pelo Regente D. Pedro. 

Outro problema que importa considerar é o do número de doações que 
cada um dos beneficiários veio a receber. Exporemos seguidamente a sua distri- 
buição : 

Doiçfies Nâmero % 

Beneficiários com I doação 35 ... 79,5 

Beneficiários com 2 doações 8 ... 18,2 

Beneficiários com 3 doações I ... 2,3 

Toial 4-1 ... Im; 



A grande maioria dos beneficiários recebeu ap^as unia doação (79.5 por 
cento). sciiUo no entanto de considerar o facto de existir um segundo grupo que 
foi beneficiado com duas doações (18.2 por cento), o que de certo nuxlo terá de 
ser tomado na devida ccmia. Apenas nos iiparccc urn contemplado com trcs 
doações. Trata-sc, por sinal, de um jurista : o célebre Dr. Diogo Afonso Man- 

— 129 

n. 17 



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gancha, que icvc um prcvmincntc papel na legiiimavào da candidalura do Infante 
D. Pedro à rcacncia do reino, no decurso da menoridade de D. Afonso V e 
ainda apt>s o mesmo ler completado a idade que lhe comeria pleno direito a 
assumir /// solido o governo da nação. 



Vejamos, por ulr.mo. como se processa a distribuição geográfica dos bens 
de rai/ que toram objecto de conii^cavao. Seguiremos um criierio muito amplo, 
embora possa não estar .sento de erros, ao considerarmos, além das localidades 
que vêm mencionadas nos documentos, os locais onde se encontravam domiciliados 
os inculpados. Temos obseivado. dum modo geral, através da análise de laigas 
dezenas de documentos, que se verifica quase sempre a tendência para os indi- 
víduos possuírem os seus domicílios, onde dispunham de interesses materiais. 
Abre«se uma excepção aos fidalgos e juristas que. na sua qualidade de áulioos 
da corte, acompanhavam o rei nas suas incessantes deslocações através do reino, 
os quais não foram considerados para este efeito ("*). 



Locslidadei 
Alcácer do Sal 
Alenquer 

Alverca 

Amieira 

Arruda 

Arronches 

Beja 

Crato 

Elvas 

Estremoz 

Évora 

Lisboa 

Mafra 

Óbidos 

Olivença 

Portalegre 

Porto . 

Santarém 

Sintra 

Torres Novtis 
Torres Vedras 
Turcifal , 



de confiscacSo 
I 
I 
1 
5 
I 



Domicilio 
do ÍQCal|MdO 



1 
4 



Totai 



2 
2 
2 

2 
1 



10 



% 

2.5 

2.5 

23 
12,5 

2,5 

5 

5 

5 

S 

5 

5 
10 

23 
2J5 
23 
23 
23 
10 
23 
5 
5 

23 

100 



Também aqui seguiremos uma ordem alfabética. 



130— 



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Se agruparmos o conjunto destas localidades dentro de uma dislribuivão 
regional, apresenta-se-nos o seguinte panuraniu : 

Ttital das localkladn 
Keeifi^ «bnngidu X 

Enire-Tejo-e-Guadiana 20 ... 50 

Estremadura 19 ... 47»5 

Eatie>Douro-e-Míiiho 1 ... 2,5 

Total 40 ... 100 

A quase total concentração das propriedades confiscadas, no Alentejo e na 
Estremadura (97.5 por cento), cxplica-se perfeitamente em função dos aconteci- 
mentos. Enquanto que os principais interesses de D. Leonor se encontravam 
pràtícamente confinados à Estremadura, os do Prior do Crato, seu aliado, residiam 
no Alentejo. Daí a quase total participação dos partidários da rainha que possuíam 
os seus bens nessas províncias, sem que os seus adeptos existentes noutras regiões 
do País tivessem chegado a participar na contenda. A ausência de elementos 
nortenhos de cunho tradicionalista aceita-se plenamente. Não chegaram a intervir, 
porque se encontravam agrupados em redor do Conde de Barcelos. Além disso, 
obtém-se assim a confirmação de que o conde não chegou a enviar qualquer 
auxílio a D. Leonor e ao Prior do Crato. Faltou a estes o total apoio do centro 
e do norte do País, que primaram pela não comparência, apesar de todas as 
promessas de auxílio anteriormente feitas. 

* * * 

Não se limitou o Regente D. Pedro a conliscar os hcns dos partidários de 
D Leonor, mas orientou igualmente a sua acção no sentido de exonerar do 
desempenho de cargos públicos muitos indivíduos que lhe eram desafectos, lorna- 
-sc difícil fazer uma estimativa do número de pessoas atingidas por tais medidas, 
visto que. em muitos casos, o afastamento das mesmas deverá antes atribuir-se a 
irregularidades cometidas pelas mesmas no exercício das suas funções ("). Em 
todo o caso, não queremos deixar de notar, pela sua evidência, certos aconteci- 
mentos desta natureza, em que se vislumbra uma exoneração motivada por razões 
políticas. 



(") Ê muito frequente durante todo o remado de u, Afonso V, como ainda nos 
reinados dos seus sucessores, encontrarmos cartas em que os titulares são exonerados das 

suas funções cm virtude de terem pratieiJo irregularidades ou da sua permanência no 

desempenho dos ofícios não ser do aeraJo ilo s.>hcrano. Tem«>s de ser muito cautelosos, pois 
nem sempre é possível destrinçar as causas verdadeiras que levaram a um afastamento do 
Indivíduo exonen^. 

-131 



oopyiiytuoa inaiuiial 



Começaremos por referir o caso de Alvaro Afonso Pessanha, contador na 
Casa dos Coi los cm Lisboa, que se viu privado do seu ofício por carta régia de 
19 de Janeiro dc 1445. cm virtude de ler aeido e dito coussas em nosso descruiço 
contra o dicto meu thiov. sendo substituído no mesmo por Alvaro Goncalves 
Vogado, escudeiro da casa do Iníanie D. Pedro ( ' ). Outnxanio sucedeu a Rui 
Martins, escudeiro do Prior do Crato e morad(ir nesta localidade, que partiu com 
sua mulher Beatriz lianes para C astela ("). Alem de ter perdido os bens. conforme 
já tivemos ocasião dc referir, \iu-se privado do ofício de escruão das sisas do 
Crato, cargo em que foi subsjiluído por Cionvalo I erruiiidcs. criado de D. João I. 
A caria de exoncravào tem a data de 29 de IXvembro de 144U. estando o Regente 
D. Pedro em Avis, e nela se alega que deverá perder o mencionado ofício. «ípor 
estar no dicto logo do Crato em nosso desseruiço» ('*). Também o já atrás men- 
cionado Gonçalo de Pinharanda. criado de D. Leonor, se viu privado do lugar 
de juiz e contador dos resíduos de Sintra e do seu termo, no qual se viu substi- 
tuído por Diogo Afonso de Abreu, criado de D. João I e escudeiro do Infante 
D. Pedro C ). 

Outros exemplos poderemos aduzir desta mesma situação. É o que se veii* 
fica precisamente com Lopo Dias. casado com D. Maria Dias de Almazan, senhora 
castelhana, que desempenhava as funções de sumilheira da rainlia. os quais 



(''-) A.N.I.I.. Cluiiicclíii iti í/( />. Diiditi. livro 2, foi. Chatirrliiria dr í). Afonso l', 
livro 25. toi. 74. Aparccc-nos esta lillimu íonlc cituda pela Professora Virginm Rau em A casa 
dos Comos, Lisboa. 1951, p. 251. 

Após o afastamento do Infante D. Pedro da regincia do reino, queixou-se ao rei o 
referido Alvaro Afonso Pessanha de que fora injustamente privado desse ofício. Instaurada, 
por Jcterminaç.lo rc;ji;i, a competente inquirição, foi por D. Afonso V deliberado que o 
quei.voso fosse leintegr.ido no cargo, por sua vez tirado ao escudeiro do infante D. Pedro 
(Carla régia dc 20 dc Setembro dc 1448. A.N.T.T.. Chancelaria de D. Duarte, livro 2, foi. 50; 
Virgínia Rau, ob. cit., pp. 251-232). 

A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 25, foi. 85. 

(**) A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 2. foi. 120. O presente documento 

aparcce-nos registado na chancelaria af(HUBmi com a dala de 29 dc Dj/cmbro de 1441. 
Mais uma vez sc verifica o hábito dc começar a contar o ano a partir lin di.i ile Natal, 
pois a carta c do ano anterior, quando o Infante D. Pedro se encontrava cn» Avis, prove- 
niente do arraial da Ribeira de Seda e prcparando-se para no dia seguinte acampar no arraial 
do Marmeleiro, junto a BenavUa (Veja-se o nosso estudo. Os Itinerários do Infante D. Pedro 
(I438-N48). separata da Revista de Ciências do Homem da Universidade de Lourenço Mar^ 
ques, vol. I. serie B, I9(.8, p. 6(í>. 

C ) Carta régia dc 10 de Abril dc 1442. A.N.T.T., Chancelaria dc D. Afonso V. 
livio 23, foi, 61v. 

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acompanharam a I). Leonor no seu exílio para Castela (*'). Esta atitude valeu-lhe 
ter perdido o oliVio de sacador das terras que stiva de tra/er a Senhora Rcjnha», 
D i|ua! íoi contei KÍo a Jo io V asques. escudeiro dc I ernao Cionçalves de Miranda, 
que residia em Alenquer, lira Lopo Dias acusado de vuliíuuas cousas que fez 
contra nosso seruiço» ('"). Outra das vítimas da depurarão foi Pero Nunes, substi- 
tuído no cargo de almoxarife em Aldeia Galega de Merceana por Afonso Esteves, 
criado do reiC*). Idêntica atitude foi assumida em relação a Gomes Martins 
Moscoso, escudeiro da casa do rei. privado do lugar de contador e arrendador 
das rendas do almoxarifado da vila e da comarca de Beja; foi substituído por 
Vasco Afonso, escrivão da puridade do Cònde de Arraiolos (**). Por último, 
queremos ainda assinalar o caso de Fernando Eanes; capelão da rainha D. Leonor, 
desapossado de um benefício pelo Regente D. Pedro, readquirindo-o mais tarde 
por determinação de D. Afonso V C^). 

« « * 

Diversas foram as pessoas que se manifestaram contra o Regente D. Pftdro. 
recríminando-o pelo seu comportamento em relação à cunhada. Oferece-se-nos 

este ambiente de mal -estar através de algumas cartas de i>erdào outorgadas pelo 
próprio Infante D. Pedro, em nome do régio sobrinho, a indivíduos que tinham 
proferido palavras contra ele. Apresentaremos alguns exemplos denunciadores 
desta situação. 



(**) A. P. Lopes de Mendonça, Damião de Coes e a Inquisição de Portugal» Estudo 

Biofiraphico. in 1/i<;/v tias Scieitcias e Leiras, Lisbo;i. IS 58. p. 257. 

{ opo Dias era fiiho Je Gomes DUs de Góis, sendo avô do cronista Damião de Góis 

(Idem. Ihulim, pp. 257-2.«!8). 

('^*)Carla regia «Jc 1 dc Maio dc I44L A.N.T.T., Cliaiiifltinu ilc D. Afonso V. livro 2. 
foi. 111. Documento publicado na Monumento Henrtcina» vol. VII, Coimbra, 1965, doe 152, 
pp. 234-235. 

(^) Carta légia de I de Maio de 1441. A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, 
livro 2. foi. 111. 

(-) rxisleni duas cartas semelhantes, dadas em I c 2 dc Julho de 1444. as quais se 
encontram rcspeclivamente inseridas na Chuiicelaria Je D. Ajonso V, livro 24, fols. 70v 
e 70V-7I. 

Gomes Martins Moscoso estava casado com Isabel de Brito. O rei concedeu a esta 

senhora, com início I4^o icnv"a anual de 1500 reais brancos para sua manutcnçSo 
(Carta régia de 28 d4: Agosto de 1449. A.N.T.T.. Chancelaria de D. Alonso V, livro 34, 
foi. 174). 

('«•) Bula de lU de Novembro dc 1453. A.S.V., Re^csiiun òuppUcaiionuin, vol. 469, 
fols. I69-170V. 

— 133 



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Assim, não deixa de ser interessante o testemunha de João Eanes, tanoeiro, 
morador eni Palmela, o qual alirmou que o poboi> meL'do da dieta ujla... era 
muyto pobre E mingoado». atribuindo a responsabilidade deste estado de coisas 
ao facto de o coudel lhes exigir que tivessem armas e cavalos prestes para a 
guerra, c dc o regente os martiri/ar com pedidos que pede en tall gisa que os 
caliuos dos pobres noni ptxlem medrar com tantas peitas que ajnda algQs tem 
os penhores apeiiliados da outra pasada F". agora lhe vem outra peita em çima» ('°'). 
Constitui tal depoimento uma imagem eloquente das perturbavões de toda a 
ordem que causava ao reino o clima de tensão em que se vivia pelo receio dum 
eventual rompimento de ho.stilidades. se não considerarmos já os gastos avultados 
devidos à campanha do Crato e às expedições militares enviadas a Castela. 

De igual modo. Vasco Barbudo, morador em Elvas, foi acusado de «allgíias 
coussas que fez e disse contra nosso serujço E do ICante dom Pedro» ("°), butro- 
Uinto sucedendo a Afonso Dinis, morador em Torres Vedras, que fora preso e 
fugira, «porquanto era dicto contra elle que disera e fizera algOuas cousas contra 
o Iffante dom Pedro» ('**). O mesmo se verifica com Afonso Simões, prior de 
Santiago de Tavira, o qual «hia em tres anos que era degradado da dita villa de 
Lagos bonde era morador para Çepta por quanto ho culparom que disera maU 
do Iffante Dom Pbdro regente, etc.» (***). e ainda com João Martins, criado do 
Rei D. Joio 1. que proferira palavras pouco abonatórías em relação ao Duque de 



Carta de perdão de 13 de Maio de 1444. A.N.T.T.. Chancelaria tle D. Afonso V. 
livro 24, foi. 64. 

Contra as afirmações proferidas por João Eanes, insurgiu-se Gonçalo Domingues, criado 
do Infante D. Pedro, que o denunciou a este governante (Idem, Ibidem). NSo nos restam 
dúvídn sobre a veracidade das palavras do tunoeiro. se aienJermos .'i situação política que 

atravessou o reino Jiirantí prandc parte da regência. Coube .i Di/ liia Gonçalves o mérito 
dc (er chamado a nos^a atcnvão para os sucessivos pedidos lançados durante a regência, 
cuja sequencia nos oferece num quadro publicado em apêndice, salientando a queixa apre- 
senuida pelos procuradores de Braga, nas cortes de Santarém de 1451. cm que, numa 
retrospectiva, manifestavam a angústia e as atribulações que sofreram as gentes do povo 
com o pagamento dos mesmos no rcferidi^ período governativo (Po/n/ov e empréstimos 
púhlicus i iii Pintui^al ihiitiiiit a Llmle Mcilui. ! isbna, l'>f>4, pp. 162 c 208V 

('*'-) Carta de perdão do degredo em Ceula dc 10 dc Setembro de 1446. A.N.T.T., 
Chancelaria de D, Afonso V, livro 5, foi. 92v. Documento puUtcado por Pedro de Azevedo, 
oh. cii.. tomo I, doe. CCXCIt, pp. 340-341. 

Carta de perdão de 25 de Abril de 1441. A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, 
livro 2, foi. 111. 

("") Carta dc perdão dc 27 de Abnl dc 1445. A.N.T.T.. Chaucchma dc D. Ajotisn V 
livro 25, foi. 64. Documento publicado por Pedro de Azevedo, ob. cit., tomo I, doe. CCL, 
p. 28«. 

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C oinibra(" ). TambJm João Pires, corretor cm Lisboa, esteve preso, pc^rquanto 
era em muilo iuism> deseruiço E de meu muito Amado c pregado thio jfante 
dom l*edi(> Reconte . apenas vindo a conseguir a libertação praças à intercessão de 
alguns lidaluos e cavaleiros do Duque de Borgonha. l:ra-lhe outorgado o perdão 
com a condição de «nom ssccr cm nosso dcserujço nem do ssenhor rregente e nos 
sirua e possa serujr nas cousas que lhe por nos fforem encomendadas», pois. em 
caso contrário, «nos lhe nom auemos por dado o dicio perdom e lhe sera dada 
aquella pena e escarmento que nossa merçee for e elle mereçer». Procedia-se neste 
instrumento à indicação de devolução imediata de «todollos bens que lhe nos 
mandamos tomar e lhe fforom tomados por a dieta rrazom» ('"). 

Ainda outros documentos poderemos aduzir em relação a indivíduos que 
criticaram a acção do Infante D. Pedro e dos seus partidários na luta pelo poder. 
Assim, Gil Gonçalves, peleteiro. residente em Coimbra, esteve preso durante um 
ano nessa cidade, «porquanto diziam que disera mal do Ifante dom Pedro meu 
tio E asy dos honrrados çidadaos de Llíxboa E esso meesmo dos da dieta çídade 
de Cojnbra», por terem auxiliado o regente no seu acesso ao governo O")» Também 
Afonso Gonçalves de Sequeira, vassalo do rei, morador em Nisa, foi preso e 
degradado dessa vila por dois anos. «porque disera pallauras e rrazõees contra o 
jffante áom Pedro rregente e contra o jffantc dom Enrriquc» É de supor 
que a censura contra este último príncipe tivesse derivado do apoio por ele 
prestado ao irmão na luta contra a cunhada. 1 inalmente. temos ainda João Paulo, 
escudeiro, criado de Fernão Gonçalves de Miranda, residente em Torres Vedras, 
acusado de «sse hir a Castella e fora de nossos regnos» e de «dizer algOu mall 
contra nós ou contra o Iffante Dom Pedro regente etc.» C'^"). 



("*■) Carta de perdão de 30 de Março de 1445. A.N. l .1., Chancelaria de D. Afonso V, 
livra 25, foi. 44. 

{^) Carta régia de 29 de Junho de 1441. A.N.T.T., Ckancelaría de D. Afonso V. 

livro 2. foi. lOí). Documento publicado por Francisco Marques de Sousa Viterbo. D. Isabel 
de Portui-ul. Dutiut\a í/c Humonlia. in Archivn Históruo Poitii<iuez. vol. Ill, ListKKl, 1905, 
pp. 88-89; Monanunta Henricina, vol. VII, Coimbra. I%5, doe. 173, pp- 258-259. 

Carta régia de perdão de 1 de Junho de 1440. A.N.T.T., Chancelaria de 
D. Afonso V, livro 20. foi. 109v. 

Este documento possui um Interesse excepcional, na medida em que confirma o apoio 
dos cidadãos ou «burgueses» dessas duas urbes do puís, ao regente O. Pedro, na sua vitória 
na conquista do poder. 

(10») Carta régia de lelevamento da pena de infftnna de 28 de Fevemro de 1446. 
A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 5, foi. 12. Documento publicado na Monumento 
Henricina, vol. IX, Coimbra. 1968, doe. 98, pp. 124-125. 

C*^) Carta regia de 5 de M;iio de 1445. A.N.T.T.. Chancelaria ilc D. Ui^tno V. 
livro 25, foi. 63. Documento publicado por Pedro de Azevedo, ob. cit., tomo 1. doe. CCLI. 
pp. 289-290. 

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Outras vezes o Infante D. Pedro mandava prender os seus opositores e sub- 
melia-os a torturas, para os obrigar a confessar as suas presumíveis culpas ou 
delitos. Foi precisamente o que aconteceu a João Pais Cantor e Dioso de Pedrosa 
^<que eram casados com criadas da Rainha, aos quaaes por aver nelles alguma 
sospeita. que estando o Regente nos Paços de Santarém, tratavam de o matarem 
aa besta, foi dado tromcnto daçoutes nos pées. e por nom confessarem culpa, 
que os obrygasse a outra mayor pena. os mandou soltar» (•*"'). Outro tanto sucedeu 
a Gonçalo Eanes, escrivão perante os ouvidores da corte, que obteve relevamento 
da pena de infâmia, o qual «mandáramos prender e meter a tormento por sabermos 



Fernão Gonçalves de Miranda casou em Torres Vedras, «que hé lugar da Rainha», 
lendo permanecido junto desta senhora durante todo o reinado do D. Duarte c parte do 
dc D. Afonso V. ate ã partida da mesma para Castela. Acusado de ter pronunciado palavras 
contra o regente, acabou por ser detido. Fugiu da prisão cm I^isboa c refugiou-se na região 
dc Entrc-Douro-e-Minho. passando seguidamente para a Galiza. Andou por aqui na terra 
de Pai Gomes, ate que lhe foi concedido o perdão (Idem, Ibidem). 

("**) Ruy dc Pina, oh. cit.. cap. I.XVI. p. 313; Cf. Duarte Nunes de l eão. oh. cif., 
C9p. X. p. 138. 

A respeito de Diogo de Pedrosa, foi-nos possível colher alguns dados biográficos. 
Séíbemos que, depois do referido episódio, conseguiu rcfugiar-se em Castela, onde perma- 
neceu pelo menos até ao falecimento du Rainha D. Leonor. (A.N.T.T., Chancelaria <le 
D. Afonso y, livro 36. foi. 7). Ignoramos se regressou a tempo dc participar na batalha de 
Alfarrobeira, tendo vindo a ocupar, após a sua chegada ao reino, o lugar de cavaleiro da casa 
do rei c vedor da casa da Infanta D. Leonor, irmã dc D. Afonso V. Era casado com Joana 
Vasques, criada da Rainha D. Leonor, tendo-lhe sido outorgada a tença anual de 2 500 reais 
brancos «pcra ajuda de criaçom de duas ssuas filhas», que supomos serem Leonor e Isabel 
de Pedrosa (Carta régia de I dc Abril de 1450. A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, 
livro 34, foi. 110). Recebiam, ainda, estas senhoras no almoxarifado de Leiria, a partir dc 
1452. dois moios de trigo ao ano (Carta regia de 14 de Setembro de 1451. A.N.T.T.. Chan- 
celaria de D. Ajonsi) V, livro 37. foi. !23v). Idênticas condições eram ainda atribuidas a 
Joana Vaz, mulher deste cavaleiro e mãe das beneficiadas (Carta régia de 14 de Setembro 
dc 1451. A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 37, foi. 123). Ele próprio também 
)i usufruía 3(i6 alqueires de cevada ao ano. que lhe pertenciam como cavaleiro da casa da 
Infanta D. Leonor (Carta régia dc I^ de Junho de 1450. A.N.T.T., Chancelaria de 
D. Afonso V. livro 34. foi. 110). Partiu para Itália, integrado na comitiva dc D. Leonor, que 
se ia consorciar com Federico III. Imperador da Alemanha. O soberano conccdeu-lhc um 
moio de trigo anual, pago no almoxarifado de Leiria, «pera ajuda de mantença c criaçom» 
de sua filha Mécia Pedrosa «que leixom em nossos Regnos» (Carta régia dc 4 dc Outubro 
de 1451. A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 37. foi. 123). Regressado da corte 
de D. Leonor, aparece-nos desta feita como cavaleiro da casa do rei, consorciado com Inês 
Gomes, colaça do rei, provavelmente por falecimento dc sua primeira mulher. Este casal 
passa a receber anualmente da coroa a importância de sete moios de trigo, entregues no 
almoxarifado de Leiria (Carta régia dc 4 de Maio dc 1454. A.N.T.T., Chancelaria de 
D. Afonso V, livro 10, foi. 48v). Além do cereal que já recebia, passou u auferir, com 



136 — 



dei algúuas cousas que nos torom dietas que ell ssabia E que depois do dicto 
lormenio o mandáramos ssollar» ( 

* « * 

Falsearíamos inteiramente a realidade, se concluíssemos este capítulo apenas 
com a descrição dos actos de perseguição movidos pelo Infante D. Pedro contra 
os correlegionários de D. Leonor, sem assinalar, em contrapartida, outras atitudes 
políticas do regente que visaram essencialmente estabelecer um clima de apazigua- 
mento entre as partes em litígio. Se é certo que o Infante D. Pedro actuou com 
particular dureza contra os opositores ao seu governo, também não é menos ver- 
dade que procurou atenuar tal situação, sempre que encontrou no lado contrário 
alguns indícios de aceitação ou renúncia a actos hostis. Procuraremos funda- 
mentar o nosso ponto de vista, através da explanação de confirmações de privi- 
légios e mercês efectuadas pelo Duque de Coimbra a entidades das vilas e terras 
de D. Leonor, que resolveram continuar a viver no País, no desempenho dos cargos 
para os quais tinham sido nomeados por esta senhora. 

Apresentaranos seguidamente um quadro assinalando uma lista de tabeliães 
das terras da rainha, por ela nomeados, que se viram beneficiados pela política 
de concórdia posta em execução pelo governador do reino : 



Nome <lo UbelUo e dados 
de ideatlfica^io 


Data 
da nomcaçSo 

efectuada 
por O. Leonnr 


Data 

da confirm.iv^" 

filio Regente 
D. Pedro 


Fonte 


Alvaro Eanes, criado de 
D. Leonor, tabeliio em 
Alenquer e seu tenno("*} 


I6-M434 


I2-V-I44] 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonso V, 
livro 2. foi. 94 



inicio cm 1459, mais três moios de trigo (Carta régia de 28 de Novembro de 1458. A.N.T.T., 
Chancelaria de D. Afonso V, livro 36, foi. 81). Teve dois filhos, que recebeiam bolsas de 

estudo. O primeiro. Luís de Pedrosa, havido de sua mulher Joana Vaz, obteve um subsídio 
anual de 1500 reais brancos (Carta régia de II de Abril de 1452. A.N.TT , Clumcclaria de 
D. Afonso V, livro 12, íol. 95. Sobre este cavaleíro-fidaigo, vcjam-sc dadus biográlicos no 
nosso estudo. Um aspecto da politica cultural de D. Afunu* V : a conccsaão de bolsas 
de estudo, pp. 20 e 33). O segundo, Sancho de Pedrosa, tido de Inês Gomes, recebeu, a 
partir de 1469, uma bolsa de estudo anual, no valor de 5600 reais brancos (Carta r^ia de 
25 dc Outubro de 1468. A.N.IVr., Chancelaria de D. Afonso V livro 28. foi. I19v). 

\}^) Carla régia de 15 de Junho de 1441. A.N.T.T., Lhanceianu de D. Afonso V. 
livro 2, foi. 102v; Monumento Henricina. vol. VII. Coimbra, 1965, doe. 168, pp. 253-254. 

— 137 

Fl. 18 



Copyriglited material 



Nome Jo luhelino c dado* 
«te iUcntiítcavão 


Dita 

da MMimçBo 
efectuada 

por D. Leonof 


Data 
da confiniwçSo 
realizada 

D. Pedro 

I9-IX-1442 


Fenta 


Gil Vasques, tabdiio na vila 
de Torres Vedras e seu 

tL-rmo ("') 


IO-VI-1434 


A.N.T.T., Ch, de D. Afofuo V, 
livro 23, ítA, 79v 


Joáo Gomes, tabelião nu vílu 
de Aldeia Galega de Mei^ 
ceana 


1 2-1 X- 1437 


J7-VIII-1443 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonso V. 
livro 27. foi. 141 


João Eanes, criado dc Vasco 
Gon(;;ilves, tabelião na vila 
Ue Alenquer e seu termo ("-) 


1 

I6-M434 


6-11-1444 


A N T T.. Ch. de />. Afonso V. 
livro 24, foi. 46v 


João Martins, tabeliSò na vila 
de Alenquer 


? 


6-IM444 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonso V, 
livro 27. foi. IS6v 


Luis Pires, tabelião na vila dc 
Sintra 


16-XM437 


lO-m-1444 


A.N.I.r., Ch. ch- D. Afonso V, 
livro 24, foi. 26v 


João Afonso, tabelião na vila 
de Torres Novas (i") 


7 


29-1IM444 


A.N.T.T.. Ch. de D. Afonso V» 
livro 24. foi. 40v 


Luís Vasqiics, tabelião na vila 
de Torres Novas ("•) 


4-IM434 


29-11M444 


\ N T.T., Ch. df D. Afonso V» 
livro 24, fui. 29v 


João Gonçalves, tabelião na 
vila de Torres Novas 


7 


20-1V-1444 


A.N.T.T., Ch. de. D. Afonso V» 
livro 24. foi. 42 


João Meirinho, tabelião na 

vila ilc Torrov N<u:is(' '< 


7 


2l)-lV-!444 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonso V, 
livro 24. foi 4(K 



(110) Fmc iti.iJn dc D Lcoí or ohicvi- i...ri.i J<- .ip<>-.t rn.,,. ",i Jt- va^^-iln ainda vjiic njo tivnta a idadt 
Irfal. nii 27 de I>cz<.inbro Uc 1470 (A.N.T.T . Cluiacctería dc D. Afoa*« V. livro 31. ío|. IJO). 

(111) Foi ainda confirmado prio reitente. na data supracitada, no desempenho das funçdes de contador 
dcK (Srfãos J.i nuncionadj <• <m-u u-rmn (ANT.T. fhancHariji de D. Afonso V, livro 2!*. I"! "Js^) r iin 
exercício Uo cargo de e^rrivão da> ovelhas iloi» pobres, ne^vu mesma vila e referido termo (A.N.I.I.. CiMncelaria 
dc D. Afowo V. yvro 23. fò| 79). 

(i>~) N.i nK■^ma d.iM ' • i \ - «.onfitnuKjo do ofício dc contador do> feiíoB na vila de AleMpier c teu 

termo (A.N.T.I., Chancctafia dc U. Aíoavo V. livro 24. (ol. IS). 

(113) Esu fonte cneontra-se repetida na supracitada elnnoelaria. no livro 3S. lòl. 2Cv. 

(11») Vejjm-sc a seu rcNpfilo dudoN hioi;ráficos a pp. K5. 

b&tu (onte encontra-ii« rcpetkia nu supracitada chancelaria, no livro Jtl, foi. 36v. 

138 — 



Copyrighteú matciial 



A repartição geográfica dos tabeliães designados por D. Leonor nas suas vilas 
C respectivos termos, que se viram coníirniados nos seus cargos pelo Regente 
D. Pedro, dá-nos a seguinte distribuição : 



Número 

Localidade» de ubeliScs % 

Alenquer 3 ... 30 

Aldeia Galega de Meieeana I ... 10 

Sintra 1 ... 10 

Torres Novas 4 ... 40 

Torres Vedras I ... 10 

Passaremos agora a considerar agrupadamente os juízes, procuradores, reque- 
redores, inquiridores, distribuidores e contadores das terras da rainha, que de 
igual modo foram beneficiados pela política do Regente D. Pedro, no que concerne 
à confirmação dos seus ofícios : 



Nome do funciniiário e dados 
de idemificaçio 


Dall 

d.l lliMtte.iv.l" 

efectuada 
por D. Leonor 


du cnnfirmavão 
rratirada 

p<-li> Ri'j;(-M(í? 

D. Pedro 

6-II-I444 




Alvaro de Castanheiía, criado 

dc D. Leonor, juiz c conta- 
dor dos resíduos na vila de 
Alenquer ("•) 


23-XIM439 


A.NXT., C/l. rfr D. Afonso V, 
livro 24. rol. 46v 


Diogo Lourenço, escudeíro- 
-Criado de D. JoBo I* juiz 
dos órfãos, judeus e mouros 

dc Alenquer 


I3-M434 


6-IM444 


A.N.T.T.. C/l. dt D. Afonso V, 
livro 24, foi. 44v 


Pero Esteves, procurador do 
número na vila de Alen- 
quer (>") 


•y 


b-1 1-1444 


A.N. l .1 ., C /i. ih- D. Alonsi, V. 
livro 27. foi. I56v 


ivÃo Cionçalvcs. inquiridor do 
número na vila de Alen- 
quer c seu t«rnio 


181-1434 


6-IM444 


A.N.r.r.. Ch. ih- D. Afonso V, 
livro 24, íol. 4»v 



(1^ o Reiente D. Pedro confirmntdhe ainda, na citada data. uma carta outorcada por D. Leonor, 

cm 15 Je FcMTeiru tSe I4'4. a i-^lo m'! <ri,ijn ^- lahi-liâi» n.i moncion;id.i sil.i. cm ti ii- >li' fu.n.i .lulnri/ajn s 
nomear um escrivão que, em seu nome. lavr^isse todas as escrituras, devendo, nn entanto, autenticá-las com o 
wii sinal pdblice (A.N.T.T.. ClMMahrin de D. Afoa*o V. livro 34. foi. 44v). 

'-'"I f) Rc^irnic D. PedTO COnfirmou-n. n.i nii-snu Jal;i im L.ir> • 1 i.iHclião Ja dc At.ni)u<rr. pjra 

O ilual (inha sido nomeado peia Rainha D. Leonor (A.N i. I.. Chancelaria tic U. Afon»o V, livro 21. íol. |S6.) 

— 139 



oopyiiytuoa inaiuiial 



Nome do funcfcNiário « dado^ 
de identiOcaçlo 


Daia 
iiu norticavSo 

efectuada 
por D. Leoiutr 


Data 
da confirmação 
realizada 

pelo RfLtrtiu- 
O. Pedro 




ViMco Gil, procurador na vila 
de Torres Novas 


? 


6-IIM444 


A.N.T.T.. C/l. de D. Afonso V, 
livro 24« foL Slv 


1 oiirenço Martins, procurador 
do numero nu vila de Sintra 


í-lX-1433 


7-UM444 


A N.T.T.. r/l. cU' D. Afonso V. 
livro 24, foi. 26v 


Martim de Gói;», procurador 
do número na vHa de Alen- 
quer 


23-XII-1439 


lS-III-1444 


A.N.T.T.. C/l. de D. Afonso V, 
livro 24, foi. 46v 


Vasco Ear, s. escrivão dos 
órfãos na vila de Torres 
Novas 


16-VM434 


29-111-1444 


A N.T.T . r/l. ile D. Afonso V, 
livro 24, foi. 29v 


Joio de Beja, distribuidor, 

inquiridor c contador das 
terras da rainha na Eslre* 
madura ("") . 


? 


3-1V-1444 


A.N.T.T., Ch. de D, Afonso V, 
livro 24, foi. SI 


Alvaro Eanes, criado de 
D. Joio 1, inquiridor do núr 
mero c contador das custas 

dos feitos c escrituras trata- 
das perante os juízes de 
Sintra 


22-1X-1433 


19-VM444 


A.N.T.T., CA. de D. Afonso V, 
livro 24. foi. S5 



(«*) Supomos traiar-«e do meunn individuo q-jc lomeu fiarie activa, ao lado do rei. nas 
Caricia travadas entre D. Afonso V e oa Reis Caiólicoa. tcndo-lhe sido atribuída com início em 1476. 
tcn^ j anu.ii dir 2K0O bnncos (Caru régim ile 20 tie OtttubfO de 1475. A.N T.T.. CtaM«Mt de D. Mom» V, 
livro 7. foi. 104). 



140 



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A distribuição geográfica destes ofícios exercidos nas vilas c terras úe 
D. Leonor revela-nos a seguinte proporção : 

Número 

Localidiíilci. tlc funcionáriot % 

Alenquer 5 ... 55,6 

Sintru 2 ... 22.2 

Toms Novas 2 ... 22,2 

Não considerámos o caso de João de Beja. visto que desempenhava as suas 
actividades em todas as terras que a rainha possufa na região da Estremadura. 

Concentraremos agora a nossa atenção sobre a posição assumida pelo' Infante 
D. Pedro em relação aos merceeiros e merceeiras que D. Leonor mantinha c 
protegia nas suas vilas. Cumpre-nos assinalar, antes de mais. o facto do regente 
ter confirmado a carta outorgada pela rainha, em 15 de Abril de 1434. às mer> 
ceeiras da albergaria da vila de Alenquer, as quais foram tomadas em sua guarda, 
defesa e encomenda ("*). Idênticos privilégios teriam sido concedidos a outras 
vilas pertencentes a D. Leonor, onde se encontravam instituídos albergues de 
protecção aos desamparados da fortuna. 

Começaremos por assinalar quais os merceeiros da rainha que obtiveram con. 
firmação dos seus privilégios por parte do regente : 



Nome «Jn merceeiro e dados 
de jdenlifkaclo 


Data 
da nonHMi>ã<< 
cfcciuaUa 
ftor D. Lconof 


Dau 
tia confirmacio 

reali/ada 
pv!<) Rci;cntc 
D. Pedro 


Fooie 


Pero Limpo, merceeiro em 
Óbidos (») 


l-IV-1440 


9-V-I441 


A.N.T.T.. Ch. de D. Afonso V, 
livro 2. foi. 93v 


Gonçalo Pires, merceeiro em 
Torres Vedras 


22-XIM433 


9-M444 


A N TT . C/l. Jc D. Afonso V, 
livro 23, foi. 24v 


Pero Martins, merceeiro em 
Alenquer ' 


7-VIII-1435 


2-V.I442 


A.N.T.T.. Ch. de D. Afomo V, 
livro 23. foi. 34v 



(<») Carta rc||M de 27 de Junho de 1442. A.N.T.T.. Unioc«Iwíb de D. AfoBio V, livro 27. foi. 73v; 
Um le de EttrcmMhM. foh. 57v.5ft. 

(1-0) Afirma-\e no cilado Uocumcntii qi:e Pero Limpo cr.-i nomeado merceeiro em ÔhiJm. em !iub<»iiiuii,'âo 
da falecida Maria OominKues. Na cana de nomeação de D. Leonor, aitom confirmada peto reKcnte. eram dadas 
instrucfiet « Dioio de Pedninia. diweiíwiro da referida wtihora. para que tiv»«e o beneficiado como m e r ce e ira 
<^ • nu iK íonaila vila. « Dw dosc irauitimento todos os ano*, recorrendo para o efeiío àit rendas das suas tcna» 
(lUem, Ibidca) 



Apresentaremos agora as merceeiras da rainha que alcançaram idênticas 

mercês : 



Norut; da incrccrira c «lu«Jn\ 
tJc i(Jcniiíicai;iin 

Margarida Ranes, merceeira 
cm Óbidos 


Data 
da iiftmt-dvão 
cfccltiada 
por D. Leonor 

22 X11-1433 


Data 

il 1 f*nn firmai * \íf\ 

pe'r> Rciicnie 
U. Pedro 


Fonte 


1-XIM44I 


A.N.T.T., C/l. de D. Afonso V. 
livro 2. fols 50-50V 


M.iria Gii. merceeira cm 
loiros Novas 


7 


2-1 1442 


A.N.r.T.. C/í. iie D. Afonso V. 
livro 23, foi. 24v 


Aldonça Eanes, merceeira cm 
Óbidos ('-') 


I4-I-I438 


5-M442 


A.N.T.T.. Ch. íle D. Afonso V. 
livro 23. foi. 25v 


Vl.uia liancs, merceeira em 
Torres Vedras (' -) 


7 


9-1-1442 


A.N.r.r., Ch. ilc D. Afonso V. 
livro 23. f(^l. :4v 


Maria Afonso, merceeira cm 
Torres Vedras 


22 XII-Í433 


24III-I442 


A.N.T.r., C/l. de D. Afonso V, 
livro 23. foi. 85 


Catarina Alvares, merceeira 
cm Alenquer 


7-XII-1439 


2-V-I442 


A.N.T.T., Ch. dv D. Afonso V, 
livro 23. foi. 34v 


Branca Ganes, merceeira em 
Alenquer 


MiI-1434 


2-V-I442 


A.N.T.T.. C/l. de D. Afonso V, 
livro 23, foi. 34v 


Maria Afonso, merceeira em 
Alenquer 


I-III-I434 


I2-VI-I442 


A.N.r.I.. Ch. dl' D. Afonso V, 
livro 27. foi. 73 


Margarida Lourenço Leiria, 
merceeira cm Alenquer 


1-111-1434 


I2-VI-I442 


A N. 11.. C/l. de D. Afonso V, 
livro 27. foi. 73 


Ines Martins, merceeira em 
Al«mqucr 


l-in-1434 


I2-VI-1442 


A.N.T.T.. C/l. de D. Afonso V, 
livro 27. foi 65 



(!-') A benoficiadu eia mulher de E<;tevão DominKtie*. lendo sido nomeada por D. Leonor merceeira em 
Obidoi. em Nuh>liíiiiv.'io da f.ilocida Mar):.irida M:irlin% ilJcm. Ibiden). 

(i.-J) A bcncli.i.ida f>iava ca%adj com Afonso M.iriin'.. pacciro dos paços de Torres Vedra*. obtendo 
cs\a inrre* de D. Leonor, em <(ubMiiiiii..*iu de sua honiiinima Maria Eanes, jà falecida, que fora mulher de 
Aloi:^i> \-'squcs (Idem. IbidcniV 



142 — 



Nonw da merceeira r dujos 
4c itlentiticav^o 


Dau 

dd nonie;ic.'i<i 
cfecluaiia 
por D. Leonor 


n.ii.i 

il.i ti>n firmarão 

pelo ReK>.'n»e 
n. PcJro 


Fonte 


Catarina Eanes, merceeira em 
Alenquer 


1-1!M434 


I3-VI-Í442 


A N I, 1.. Ch. ,lc D. Afonso V, 
livro 27, foi 73v 


Domingas Eanes, merceeira 
em Alenquer 


1-111-1434 


I3-VI-1442 


A.N.T.T.. Ch. de D. Afonsn V, 
livro 27, foi. 73 


Catarina Fernandes, merceeira 
em Alenquer 


MIM434 


Í3-VI-1442 


A.N.T.T., C/l. tie D. Afonso V, 
livro 27, foi. 64v 


I eonor Goncalves, merceeira 
cm Alenquer 


1-111-1434 


13-VI-I442 


A.N.Í . I .. ( /,. ,/r D. A/OH.W V, 
livro 27. lol. 65 


Isabel Esteves, merceeira em 
Alenquer 


1-I1M434 


Í4-V1-1442 


A.N.T.T.. C7/. lie D. Afonso V, 
livro 27, foi 74 


Isabel Pires, merceeira em 

Torres Vedras 


22-XIM433 


20-VM442 


A.N.T.T., Ch. Jc D. Afonso V, 
livro 2^, toi. M 


Catarina Eanes, merceeira em 
Torres Vedras 


22 X11-1433 


2I-V1-I442 


A.N. r. r., c/í. lU' D. Alonso V. 
livro 23, foi. 69 


Margarida de Cristos, mer- 
ceeira em Sintra 


8-XM434 


13-V!-I443 


A.N.T.T., C/l. dc D. Afonso V, 
livro 27, foi. 155 



Neste conjunto de dc/oilo merceeiras de O. Leonor, a quem o Infante D. Pedro 
confirmou as suas mercês, em nome do soberano. ob.serva-se a seguinte distri- 



buição geográfica : 

Número 

LecniidiHles de merceeiras % 

Alenquer 10 ... 55,6 

Óbidos 2 ... ll.I 

Sintra I ... 5,6 

Torres Nov;is I ... 5,6 

Torres Vedras 4 ... 22,2 



Depara-sc-nos um predomínio de niereeeira- em Alenquer (55.6 por cento), 
o que, em certa medida, se explica pela especial atracção que D. Leonor tinha 
por essa sua vila. na qual permaneceu com muita assiduidade durante o reinado 

— 143 



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de seu falecido marido c no conturbado período da luta pelo poder, que se lhe 
seguiu à abcrtiM ) do seu testamento, confonne o comprovam as suas cartas regis- 
tadas na chancelaria regia. 

• • « 

Ficaria incompleta esta série de casos pessoais que mereceram a aceitação do 
Regente D. Pedro, se não mencionássemos outros que obtiveram confirmação dos 
privilégios que lhe tinham sido outorgados por D. Leonor, no decurso do reinado 
de D. Duarte. Apresentaremos alguns exemplos que nos foi possível arrancar ao 
silêncio dos documentos régios. 

Gonçalo Fernandes de Medina, carniceiro ao serviço da Rainha D. Leonor, 
obteve desta senhora, «n 20 de Fevereiro de 1437, carta de privilégio para que 
os animais de abate destinados h manutenção da corte, fossem isentos do paga- 
mento de portagem e costumagens. O Regente D. Pedro confirmou-lhe tal mercê 
em 27 de Abril de 1440. quando a rainha permanecia ainda no reino ('^). 

Depois do exílio da viúva de D. Duarte, continuaram a veriCicar-se actos 
desta natureza. Assim. Isabel Rodrigues, guarda-roupa de D. Leonor, que, em 
23 de Abril de 143S. obteve da rainha a tença anual de 10 000 reais brancos paga 
com as rendas do almoxantado de Torres Novas, a qual teria efectividade a partir 
do dia de S. João do mencionado ano e do primeiro dia dos anos seguintes, viu o 
privilégio confirmado pelo recente cm 15 de Maio de 1441 ('"'). Depreende-se 
desta caria que a guarda-roupa da rainha não a acompanhou na fuga para Castel?.. 
Também Afonso Cordeiro, criado de D. Leonor e receb.'dor do seu tesoureiro, 
que. em 1 de Fevereiro de 1437. obteve desta scnhtna a ten(,a anual de 2000 reais 
brancos pagos em Lisboa, acrescidos de húu movo de lrigo> e de um ^<tonel de 
\inho . recebeu idêntica conliimavão do governador do reino por caria de 18 de 
Maio de 1441 (' ). 

Outros exemplos poderemos ainda aduzir. É o que se verifica com João 
Lourenço dchinho, mestre de «correger os beens e penas», que, em 10 de Agosto 
de 1435, foi isentado pela rainha do pagamento de oitavo e jugada. O regente, 
em nome do rei. confirmou-lhe o privilégio em 23 de Junho de 1441 (*")• Outro 
caso é o de Vicente Eanes Mouro, morador em Aldeia Galega da Meroeana, que 
desempenhava o oficio de almoxarife nessa localidade. Estabelecia a rainha, por 
carta de 9 de Março de 1440. que o seu servidor teria todos os privilégios inerentes 



(»*) A.N.T.T.. Chanctlaria de D. Afonso V, livro 20. fols. 94-94v. 

O») A.N.T.T., Cluiiuelarki de D. Afonso V, li\ro 2. foi. 117v. 

(" ) A.N.T.T.. Chancelaria ile D. Afonso V. livro 2. foi. II8v. 

O») A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 2, foi. 105v. 

144 — 



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à sua condição de besteiro de caxalo c que. na sua qualidade de almoxarife, seria 
isento dos encargos c serviços concelliios. o uuc lhe íoi ci>níirmado pelo regente 
em 6 de Abril de 1442 ( ■'■). Também \'icciitc Martins, lahcliao das terras da vila 
de Torres Vedras, que pertenciam a D. Leonor, c)bte\c privilegio desta senhora, 
em 24 de Abril de 1442. que o isentava de pagar pensão, para poder exercer o 
ofício de tabelião, juntamente com os outros tabeliães. O regente confirmou-lhe 
tal privilégio, por carta de 24 de Abril de 1442 

Por lUtimo. assinalemos a confirmação feita pelo Infante D. Pedro, em 5 
de Janeiro de 1442, a Pbro do Bairo, clérigo de missa, residente em Óbidos, que 
foi empossado pela rainha D. Leonor, em 22 de Dezembro de 1433, nas funções 
de capelão da capela de Albacara, situada na mencionada vílaC"*). 

Os casos acima apontados mostram sobretudo que não se limitou o regente 
a perseguir sistemàticamente os criados e servidores de D. Leonor, mas que abriu 
sempre algumas excepções, desde que os mesmos dessem indícios de se mostrarem 
receptivos a uma aceitação do staíus-guo existente. 



O*) A.N.T.T., Chancelwia de D, Afamo V, livro 27, foi. 129v. 

Almoxarife de D. Ix-onor. obteve carta de aposentação como besteiro de cavalo, em 
10 de Abril de 1451 (A N T I .. Chancelaria de D. Afonso V. livro H, foi. 61). 
0») A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 23. foi. 28v. 
("») A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 23. foi. 25 v. 

— 145 

n. 19 



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CAPITULO IV 



A campanha do regente^ contra o Conde de Barcelos. 
D. Leonor e alguns dos SjBUS compswheiros de exilio em Castela 



Uopyi 



Conforme já tivemos ocasião de ver. partiu a Rainha D. Leonor para Castela, 
acompanhada por alguns dos seus partidários, na noite de 28 para 29 de Dezembro 
de 1440 (*). Tudo indica ter o exílio da viúva de D. Duarte contribuído para uma 
maior aceleração, por parte do regente, na sua campanha contra os principais 
baluartes do priorado do Crato O. A prova leside no facto de o Duque de 
Coimbra ter chegado a Abrantes, pelo menos, em 21 de Janeiro O* Iniciava a 



O Ruy de Pina. Chnmka do Senhor Rey D. Affonso V, ín CoUeeçâo de' Livros 
Ittédiuu de História Portuguem, tomo I, Listxn, 1790, cap. LXXIV, p. 323; Duarte Nunes 

dc Le5o, Crónica e vitla clclrey D. Affonso o V, tomo II, Lisboa, 1780, cap. X. p. 142; 
Gaspar Dias dc Landim. O Infante D. Pedro, livro II. Lisboa, 1891. cap. XX. p. I(M). 

(-) O Regente D. Pedro chegou ao urruiui de ribeira de Seda cm 28 de Dezembro 
de 1440, dando asrim inj[^ à sua campanha pessoal contra os principais ledutos do priorado 
do Crato. Com a sua chegada a Abrantes, na supracitada data, vemos que esteve envolvido 
nas operações militares num período inferior a um mês (Humberto Carlos Baquero Moreno, 
Os Itinerários Jo Infante D. Pedro (I438-1448>. separata da Revista de Ciências do Homem 
ú-j Univcr<>idade de Lourcnvo Marques, vul. I. série B, I96ii, pp. 9-lU c 66-67). 

O Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit» pp. 10 e 67. 

A campanha contra o priorado do Crato foi de tal modo rápida que ultrapassou todas 
as previsdes. Basta ver o que aconteceu com os homens do Algarve, que nSo chegaram a 

ser necessários para intervir nela. Afirmavam os procnrailores do mencionado reino, n.is 
cortes de Torres Vcdra^ de 1441, que tinham sido «rrequeridos asy caualleyros e scudeiros 
por carta do ssenhor jfante dom Joham que esteucsemos prestes pcra uoso seruiço com 
nosas bestas e armas, pera quando visímos seu rrecado fosemos com el. E por bem do seu 
nequerimento todos nos fezemos prestes com nosas bestas e armas e com azemelins e 
homecns de pcc e corrcgimento que pera eilo aujamos mester, em que ffezemos grande custa, 
asy em compra dos dictos caualios e armas, azcmeiias. vistjr que demos aos que comnosco 
aujam dhir. E de fecto estauamos ja prestes pera bir e a custa ife todo fecta, veonos carta 
do jfante dom Joham que nom fosemos e esteuesemos quedos e de fecto asi o fezemos. 
Seja uosa mercee de fazerdes a nos merçee, asy como aos outros fezestes que forom ao Crato. 
Pois que nos ja estauamos prestes e fezemos custa que fezerom os que lia forom e a culpa 

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sua caminhada com o desígnio de reduzir pelas armas a oposição que lhe vinha 
sendo movida pelo Conde de Barcelos, desde que surgira a crise resultante do 
problema dmásiieo suscitado pela prematura morte do Rei D. Duarte. 

O governador do reino permaneceu cm Abrantes até 24 de Janeiro, ou talve/ 
até um pouco mais tarde, pois apenas se observa a sua presença cm lomar no - 
dia 27 desse mês. Daqui segue para Coimbra, sede do seu ducado c centro de 
recrutamento de principal importância para as operações militares que .se avizi- 
nhavam. Encontra-se aí, pelo menos, entre I e 5 de Fevereiro, conforme revelam 
as cartas expedidas de Coimbra, registadas nos li\ros de chancelaria í'). Essa pre- 
sença é-nos descrita por Rui de Pina como obedecendo ao propcSsito de se refazer 
«da mais jenlc» que lhe fosse possível recrutar ( ). Daqui inllecuu, a trente da sua 
hoste, em direcção a Orgcns, pióximo de Viseu, onde chegou em 12 de l eve- 
reiroC). Levava em mente, de acordo com um piano prèviamente estabelecido, o 
propósito de estabelecer uma junção das suas forças com as do fiifante D. Hen- 
fique, «que também pera o caso estava de jente, armas e mantymentos muy bem 
percebydo». A fusão das duas hostes vcrificou-se no Couto, situado no termo de 
Viseu O. 

Da mencionada localidade, dirígíram-se os infantes, à frente dos seus homens, 
para a cidade de Lamego. Regísta-se a sua presença af a partir de 13 de Feve- 
reiro de 1441 (")• O objectivo que os trazia consistia no projecto «de assy pode- 
rosos passarem o Doiro, e ho Regente husar ynteiramente de seu Ofycío nas 
Comarcas d*Antre Doyro e Minho, e Tras os Montes» (*). Da longa permanência 
da hoste do Infante D. Pedro na cidade de Lamego, que se estende da supracitada 



nom foy em nos de hir. ssaluo ficamos por mandado do diclo ssenhor jffantei. A req»osta 

dada pelo regente .i esta petição revela à saciedade a grave crise económica que atravessava 
o reino, quando este declara -que uos leendes rra/oni de nos esto rrcquercrdcs e nos de uollo 
fu/A;rnios. Mus bem satKes us despesas que se nos rrecreçerom e rrecrcçsm, pur as quaaes 
ao preante vos nom podemos proveer, nua prazendo a Deus pdlos tenpos em deante uoUo 
gallardoaremos com merçeesa (A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 23, foi. 24. 
Publicado na Mfnunicnta Jíciirhbui. vol. VII. Coimbra. Joc. 160, pn. 242-244). 

Um panorama do estado económico do País durante a regência de D. Pedro é-nos 
dado peio quadro publicado pela Dr.' iria Gonçalves, relativo aos sucessivos pedidos solici- 
tados por aquele governante {Pedidos e empréstimos públicos em Portugal durante a Idade 
Média. Lisboa. 1964, p. 208). 

(♦) Humberto ( arlos Baquero Moreno, oh. cil., pp. 10-11 c A7. 

(■) Ruy de Pina. i>h. cif., cap, I XXV. p. 32í>; Cf. Duarte Nunes de l.cão, ob. cit., 
cap. XI, p. 144; Liaspar Dias de l,andim, (*/;. cil.. livro 11, cap. XXI, pp. 105-106. 
(') Humberto Carios Baquero Moreno, ob. cit., pp. II e 67. 

O Ruy de Pina, ob. cit.. cap. LXXV, p. 326; Cf. Duarte Nunes de Leão. ob. cit., 

cap. XI. jip 144-145; Gaspar Dias de I andim, oh. cit., livro II, cap. XXI. p. 106. 
O Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cil., pp. II e 67. 

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data ate 15 de Março ("*). dá-nos conta uma queixa formulada pelo concelho da 
urbe nas cortes de Torres Vedras de 1441. ao declarai que, quando o vrrcgcnle 
esteue em esta cidade com ioda ssua hoste se fezerom muytos danyficamentos e 
malfeytorias aas persoas da ciicta çidade e termos deliam ("). Outra das recla- 
mações consistia em <'quc quando ora o diclo sscnhor rrciTcnte stcue cm a dieta 
cidade forom tomados pera sua despesa c daqucilcs que cm sua hoste vyerom 
muytos mantijmentos os quaaes por elle íoy mandado que se pagassem por os 
preços que sua inercee foy. E ora nos he dicto que nos querem demandar ssísa 
dos dictos mantijmentos que asy pera o dicto ssenhor forom toihados. Praza aa 
uosa meroee .mandardes que pois nos demos os dictos mantijmentos por seu 
mandado, que mandees que nos nom demandem deles nShOa sisa» 

Entretanto, a rainha, seguindo o conselho do Conde de Barcelos, deixou 
a vila de Albuquerque, onde se encontrava desde o inicio do seu exílio em 
Castela. Tal acontecimento^eve ter-se verificado, com toda a probabilidade, em 



(») Ruy de Pina. ob. cit.. cap. I.XXV. p. 326; Cf. Duarte Nunss de LeSo, ob. ciU 
cap. XI, pp. 144-145; Gaspar Dias dc Landim, o/), cii.. iivro 11. cap. XXI, p, 106. 
Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. ai.. pp. 11c 67-69. 

(") A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 2, foi. 87; Livro I da Beira, íol. 256v. 
A primeira fonte encontrasse publicada na Mommenta Henricina. vol. VII, Coimbra. 1965,. 
doe. 161, p. 245. 

Ao apresentar o seu protesto, afirmavam os procuradiircs dc Lamego que. depois da 
partida da hoste do Infante D. Pedro, sscnhor jfanic dom Hcnrriqiic mandou dar prcgom 
que tudalas dietas malfeytorias fossem screpuer, dando cargo a Ciil Gonvaliucz tabaliam 
que as screpuesse, as quaaes por elles som scriptas. Praza aa uosa mcrçee Senhor mandardes 
pagar as dietas malfeytorias que asy per bem da vijnda do diclo Senhor Regente forom 
fectas c fazcrnosecs djreito, justiça e merçee». Em resposta a esta petição c agravo, afirmava 
o regente em nome do soberano, <:que scrcpucremos louo ao jfantc dom Anrrique, meu 
muyto preçado c amado tio, que cncamjnhe como logo scjum pagas estas malicytortas do.s 
djnheiros do serujço que nos foy outorgado naquella comarca. E que nom os auendo hi 
que nollo faça saber pera sobre ello proueermos donde logo seiam pagasi (Idem, Ibitirm). 

('-) Idem, Ibidem. Fm resposta ao pedido solicitado, declarava o regente «que dos 
mantijmentos que foroni tomados mandamos que nom paguem sisa e rrcqueiram sobre cllo 
ao noso uccdor da fazenda. £ ellc lhe dara sobrcilo desembargo» tldcm, Ibidem). 

De facto, o regente outorgou, em 24 de Abril de 1442, cariti de quitação a João Lou- 
renço da Seara, residente em Lamego, «rreçebedor que foy da parte dos djnheiros do pedido 
que sse tirou na dieta çidade e almuxarifado», o qual se destinava ao «pagamento dos 
mantimentos de pam e \'mho e carnes e lenha que se tomou iu^s moradores do dicto almu- 
xarifado e doutros lugaics contheudus em sseu iiuro». Este dinheiro, que orçava o quanti- 
tativo de 238 377 reais brancos, procurava satisfazer as despesas do exército e ainda outras 
obrigações, como a da construção da barca do Douro a utilizar na travessia do rio (A.N.T.T., 
Chancelaria de D. Afunso V. livro 2^. foi. ?(); livro 2 da Beira. foi. 9riv. Fstas duas fontes 
foram editadas em conjunto peia Monuiiieiira Henricina, vol. Vil, Coimbra. 1%.^, doe. 213. 
pp. 3U6-308, visto que a primeira se encontra muito manchada e rota no pergaminho). 

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meados de Fevereiro. Dali partiu rcom fundamento dc hyr ao longo do estremo 
atce através da Comarca dc Trás os Montes, pcra hy entrar em Portugal pelas 
terras d'Alvaro Pirez de Távora, onde o Conde de Barcelios, e os de sua opiniam 
se offcreccram de a hirem receber c servyr». D. Leonor chegou a Ledesma, daí 
enviando alguns mensageiros a quem cumpria a missão de se avistarem com 
o conde 

Encontfaram-se os mensageiros com o Conde de Barcelos, nos paços que 
o mesmo possuía na vila de Guimarães. A entrevista verifícou-se <ao tempo que 
os Yfentes [D. Pedro e D. Henrique] chegaram a Lamego». Quando o* conde 
tomou conhecimento do principal objectivo dos emissários, «nom pode desymullar 
a muyta tristeza, e grande cuydado que por ysso recebeo. e respondeo aa Raynha 
escusandosse com cousas necessárias, a nom poder compryr por entam seu reque- 
rymento. reprendendo com largas rezoões, o pouco cuydado que os Yfantes 
d*Aragam para sua lestituyçam mostravam 

Preparou-sc o conde para a guerra, procedendo seguidamente ao envio de 
um mensageiro que se avistou ocnn seu filho, o 0>nde de Ourém, o qual se 
encontrava integrado na hoste dos infantes. Còntinha a mensagnn um ultimato 
enviado ao regente, para que este se «escusasse passar o Doiro; porque elle lho 
nom avya de consentyr». Mostiou-se o Duque de Coimbra muito iiado «com 
pallavras e contenença nam livres de sanha», tendo transmitido ao Conde de 
Ourém as suas intenções. Coube ao mesmo, na sua posição de fílho. um papel 
muito activo no sentido de um apaziguamento, tendo para o efeito solicitado 
autorização ao regente para mviar um emissário ao pai-C) A missão coube a 
Luís Alvares de Sousa ("), que viu fracassados os seus objectivos. Após o malogro, 
instou o reg^te junto do prdprío Conde de Ourém, para que visitasse o progenitor 
e o demovesse dos seus propósitos. Apesit deste ter usado «palavras de muyto 



O*) Ruy de Pina, oh. cit., cap. LXXV, pp. 326-327; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. cif., 
cap. XI, p. 145; Gaspar Dias de Landim, ob. cU.» livro II, cap. XXI, p. 106. 

Ruy de Pina, oh. ctt., cap. LXXV, p. 327; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. eit., 
cap. XI, p. 145; Gaspar Dias de Landim, oh. cit., livro 11, cap. XXl, pp. 106-107. 

t'^) Ruy de Pina, ob. cit., cap. LXXV, p. 327; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit., 
cap. XI, p. 145; Gaspar Dias de Landim, ob. cii., livro 11, cap. XXl, pp. 107-108. 

O desejo de faarroonia e de paz evidenciado pelo fegente tianspaieoe coro dareza na 
afirmaçSo feíla pelos procuradoies de Viseu nas cortes de Torres Vedras de 1441, quando 
ciUun a determinação daquele governante «a todos em geeral». para «que fossemos todos cm 
hfiu e nom fossemos em debisom» (.A N. 11.. Chuncchiria dc D. Afonso V, livro 2, fol. 22vX 

Sobre este fidalgo vejam-se dados biográficos em apêndice. 

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amor. e rezões de grande effycacia». não conseguiu convencer o pai c •*.nssy assaz 
triste e anojado, tornou pera o Regenle sem alguma conclusam* ('*). 

Tudo parecia indicar que o conflito armado era mipossível de evitar. Saindo 
dc Guimarães, à frente da sua hosic. instalou-sc o Conde de Barcelos vct>m sua 
jente em aulo de guerra» em Mesão Frio. a poucos quilómetros de Lamego. 
Dc maneira a impedir a travessia do Douro por parte de seus inimigos, ^ mandou 
allagar e meter de sob a agua toda lias barcas e balees do ryo». Tal determinação 
gerou no Infante D. Pedro, v aceso ja em desejo de v\ngança». o propósito de 
construir sobre o referido rio uma ponte constiluida por «tonees», de modo a 
permitir a passagem dos homens e das montadas ( "). 

Vendo o Conde de Ourém a tragédia que se avi/infia\a. pediu novamente 
ao regente .ícom palla\ras de grande prudência e mufta psadadc ". que o autorizasse 
a visitar de novo o pai, numa derradeira tentativa de conciliação. Deparou outra 
vez com a maior compreensão do Infante D. Pedro, tendo este governante louvado 
e exaltado « a dor e cuydado. que pera remédio de seu Pay a lodos mostrava». 
Assim partiu o conde à procura dc .seu pai, com o objectivo de lhe fa/cr ver 
«os erros de sua dureza, e os pryncypios que .se ordenavam pera sua queda». 



('") Ruy de Pina, oh. cii.. cap. I XXV, p. Ml: Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit^ 
cap. XI, p. 145; Gaspar Dias dc Landim, ob. cit., livro li, cap. XXI, p. 108. 

Resulta curioso assinalar as manifestações de lealdade apresentadas pelo concelho dc 
Ponte de Lima ao regente nas cortes de Torres Vedras de 1441, ao declarar : «E ora porque 
nos temos feita menagem a vossa merçee e senhoria por esta villa quando hora assy vimos 
estes fidallgos emfestar comtra o IffantJ dom Pedro vosso tio, pousemos garda na dita villa 
em guisa que nom leixamos emlrar cm ella nchúu fidallguo por garda de nossas homrras c 
verdades. E ora o dito LioncU de Lima por as.sy nom coms.semtirmos cmtrar na dua villa nos 
ameaça em tamto que nos mamdamos deli segurar a Aires Gomez (da Silva]» (A.N.TT.. 
Uvro 2 de Além-Douro, foi. 16). 

Ruy de Pina» ob, cit,, cap. LXXV, pp. 327-328; Cf. Duarte Nunes de Leflo, ob. cit.. 
cap. XI. p. 145. 

Gaspar Dias de Landim escreve : «O Intante D. Alfonso, tanto que chegou, mandou 
tomar lodos os barcos e bateis que havia no no abaixo e acima por grande distancia, e todos 
mandou queimar e alagar» (Qb. eit„ livro II, cap. XXI, p. 108). 

A carta de qtiitafÃo outorgada pelo Infante D. Pedro, em 24 <le Abril dc 1442, a João 
Lourenço Seara, revela que foi entreçue a Nuno Vasques Homem a quantia de 1570 reais 
brancos, destinada ao pagamento dc «prcgadura e cordas joinacs de carpinteiros que 
fezerom a barca no Doiro, per aluara do dicto sscnhor linfantc D. Pedro] íecto a xiiij dias 
de março da dieta era de iiij« Rj e per confissom feda a xb dias desse mes» (A.N.T.T.. 
Chancelaria de D. Afonso V. livro 23, foi. 30; Livro 2 da Beira, foi. 96v. Ambas as fontes 
foram utilizadas na transcrição inserta na Monumento Henricina, vol. VII, Coimbra, 1965, 
doe. 213. pp. 30Ò-308). 

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Fl. 20 



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remeroso do que lhe pudesse vir a acontecer, acabou por acompanhar o filho iia 
sua viagem para Lamego ( ). 

A cheuada do C onde de Barcelos à cidade provtKou grande auitai;ão entre os 
infantes. Ao terem conhecimento da sua vinda, 'sahiram a recebelo íóra da C idade 
acompanhados de muyta e muy nobre gente». O encontro entre os irmãos desa- 
vindos caracterÍ7ou-se. na versão de Rui de Pina. por vpallavras fynLMdas de tanto 
amor e cortesya \ que ambos -se abraçavam a cada passo com tanta allegria. que 
pareceo que huum nom estvmava nem desejava mais bem que a visla do outro, 
sem alguma lembrança dc roturas passadas»!^'). 

Em que momento preciso se leria dado o encontro? Torna-sc dilicil conjec- 
turar uma resposta segura. Em todo o caso. convém assinalar o facto do Infante 
D. Pedro ter escrito uma carta aos conselheiros de Barcelona, com data de 
23 de Fevereiro de 1441. estando portanto em Lame^. na qual se refere ao 
«Conde de Barcellos meu muito prcçado e amado jrmãao». A forma afectuosa 
do tratamento, pouco viável no caso de continuarem incompatibilizados, aliada 
à circunstânçia de o Duque de Coimbra reclamar cmitra o apresamento dum 
barco que transportava mercadorias pertencentes a esse seu irmão, parece cons- 



('*) Ruy de Pina. ob. cir., cap. LXXV, p. 328; Cf. Duarte Nunes de L.eSo, ob. cit., 
cap. XI, pp. 145-146; Gaspar Dias de Landim, oh. cit.. livro 11, cap. XXI. pp. 109-1 10. 

Na carta dirigida pelo regente D. Pedro à Câmani dc I isbo.i cm 12 de Março de 1441. 
aparece a dcchi ração de que «cscrcpuj ao conde dc Harçcllos. nicu prcçado c bem amado 
jrmuau, que me viesse falar» o que vem lançar uma certa lu/ nesta qu.:stão. Através das 
próprias palavras do Duque de Coimbra ilepreende-te ter havido da soa parte a maior 
diUiinda em evitar o embate entre as facções opostas, visto que foi ao ponto de tomar a 
iniciativa de lhe escrever. Secundava assim a laboriosa acção do C onde dc Ourém no sentido 
de um apa/iyuamento (A.H.C.M.I . Lívid 2." ilci Kiis />. Duarte c D. Afonso V, foi. 23. 
Publicado na Mommunia lltiirkiiui. vol. Vil, Coimbra, WbS, doe. !38. pp. 209-210. Parcial- 
mente editado em Documentos tio Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa. Livro 
de Reis. vol. II, Usboa. 19S8. doe. 23, p. 278). 

Ruy de Pina. ob. cit.. cap. l.XXV. pp. 328-329; Cf. Duarte Nunes de Leio. ob. cil., 
cap. XI. p. 14fí; Gaspar Dias de Landim, oh. cil.. livro II. cap. XXI. pp 110. 

Assisiiu ao encontro do Arcebispo de Braga, D. Fernando da Guerra, o qual comemorou 
as pazes entre os irmãos desavindos, cantando as immeiras letras do salmo Ecce quam bonum 
et quam jucundum habilwe fratres in unum (Idem, Ibidem). 

Entre as principais cláusulas acordadas no convénio celebrado, ficou estabelecido que 
doravante o Conde de Barcelos nâo mais tornaria a seguir o partido d:i Rainha D. Leonor, 
lambem as.sentaram ambas as partes no casamento do rei con) a filha do regente tendo 
este último acedido ao pedido do Cònde de Barcelos, no sentido de D. Pedro de Noronha 
sei reintegrado na sua diocese de Lisboa, visto que andava exilado em Castela (Idem, Ibidem). 
Na versão de Gaspar Dias de l andim, coube ao Infante D. Henrique a iniciativa da reali- 
zação do consórcio {Ob. cit., livro Jl, cap. XXU, pp. 111). 

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tiluir uma indicação dc que cntâd já tinham íoito as pa/cs ( ). Causa estranheza, 
no entanto, o íaclo do regente ler permanecido nessa cidade ate 15 dc Março e dc 
somente em 12 do aludido niès ter escrito à Câmara de Lisboa, dando conta i'»*» 
apaziguamento. usando para o efeito a e\pressi\a linguagem de que per graça 

de Deus. os laciiis do rrecno som em sirup.de ase.scgo e de íora delles em 

boa segur[anvaj em lodo boom acordo» ( ). 

Entretanto, a rainha, ao conhecer a resposta do Conde de Barcelos, não 
teve outra alternativa senio a de abandonar Ledesma e dírígir-se para Zamora (-'). 
Ê muito provável que D. teonor. após algum tempo de permanência, tivesse 
deixado a cidade rumo a Madrigal das Altas Torres. Aqui foi visitada por uma 
embaixada chefiada por Alvaro Pires de Távora, a qual trazia em mente harmo* 
nizar as discórdias existentes entre ela e o cunhado conforme fora acordado em 



(^) I.H.M.B,, Cartas redes originales. série B-63. Publicado |Tor Humberto Baquero 
Moreno» Cartas do Infame D. Pedro aos Consetheims de Barcelona, in Arquivos do Centro 
CNÍturaf Poríir^iu s. IV. Paris. 1972, pp. 29-30. 

(") A.H.C.M.I .. livro 2." <l«s Riis n. Diiarlf <■ />. ijonso V. f»>l. IV. M niiunu-nta 
llenricina, vol. Vil, Coimbra. 1^65. doe. 138, pp. 209-210; bociimciUos tio Arquivi» llisióriço 
da Câmara Municipal de Lisboa. Livro de Reis, vol. li, Uoc. 23, p. 278. 

Na introduçSo por nós publicada nos Itinerários do Infante D. Pedro (Í438>144S). 
chamdmos a atcnçrio para o lapso cometido pelo cronista Rui dc Pina. ao afirmar que o 
regente c o Conilc «Jc Ourem p;irtiram para I isboa «c ysto foy na fym dc Fevereiro do 
ano de myl e quatrocentos c quarenta c hum» {Oh. cit.. cap. LXXV, p. 329). Pior sc mostra 
a ciondofia de Gaspar Dias de Landim ao escrever «que tudo passou no mez de Janeiro 
de 1442b {Ob. cit» livro II, cap. XXil, pp. 111*112). Os itinerários do Duque de Coimbra 
revelam-nos que o mesmo saiu de Lamefo em 15 ou 16 de Março dc 1441, lendo chegado 
a S. Pedro do Sul no dia seguinte. Vamos encontrá-lo cm Seijadães a t8 c l'> c cm Sp/.i ;i 2l>: 
sabemos que esteve cm Leiria entre 22 e 2(>, havendo noticia de que chegou j capitai cm 31 
de Março. Em Lisboa permaneceu até 1 1 de Abril, alternando a sua presença com esporádicas 
deslocaçAes a Sacavém e a Sintra (Humberto Carlos Baquero Moreno, ob, cit., pp. II e 69*70). 
Foi a mesma prolongada estada na capital que deu motivo k queixa apresentada pelo<« 
procuradores Rui Gomes da Bctesga. Vicente Fuas c I uís Fanes mercador, todos eles cida- 
dãos de Lisboa, nas cortes reunidas em Torres Vedras no ano dc 1441, de que «us vossas 
jemtesi não pagaram os seus débitos nas pousadas onde estiveram alojados. Respondia o 
regente, de má catadura, que iria enviar a Lisboa para solver a divida ao escrivio dus 
aposentadorias, tposto que saybamos que na pouscmiadoria e camas se teue tam maa horde- 
namça que bem com rrazom sse nom deuera dello pagar 'ínheyro». o que constituia uma 
censura aos habitantes da cabeya do reino l A N. r.l .. Livio 10 dc lísinmuílura, tol. 13v-14). 

Por seu lado, o Infante D. Henrique regressou a Viseu e o Conde de Barcelos a 
Guímaiies. Em lodo o conflito, nota*se a ausência do Conde de Arraiolos, o qual, na versão 
de Gaspar Dias de Landim, «senão achou presente por se escusar de ir a esta jornada por 
ser contra seu pac» iOb. cit., livro 11. c-ip XXII, pp. 1 11-112). 

t-^) Ciaspar Dias de Landim, ob. cii., livro li, cap. XXi, p. 106. 

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Lamego entre o regente e o Conde de Barcelos. A rainha reagiu ma! à diligência. 
<'Por aver ja por sospcito o Conde, pclla concórdia fcyla antre cllc e ho F^egentc. 
em que Alvaro Pyre/ também entrara: como porque lhe parecia, segundo os 
Ylantes seus Irmàos estavam enlam apoderados de Caslella. c Aragam. c Navarra, 
que com as jentes e poder destes Reinos apremaryam e guerreariam o Regente, 
per maneira que de necessidade lhe convyesse leixar a ella livremente o Regi- 
mento, como requeria c desejava*! '). 

Assinala-se a presença de D. Leonor em Ciómez-Naharro, durante o mes de 
Maio de 1441. onde teve uma entrevista c<nn o Rei de Castola. a qual durou 
a volta de três horas (- ). Tornou a encontrar-se no aludido mês com o soberano 
castelhano agora cm Arevalo, cabsndo-lhe «tratar alguna bucna manera cn los 
fechos dei rreyno, los quaics estavan em farto peligro» C). Em 2 de Junho, estava 
D. Leonor em Medina dei Campo. Aqui falou com João II, ao qual aprouve 
instalá-la no mosteiro de Santa Maria das Donas, «onde yazia su madre enterrada, 
la qual avia echo el dícho monasterio» O* Novos contactos entre João II de 
Castela e a viúva de D. Duarte se sucederam. Um deles observa-se a seguir à 
vitória da nobreza castelhana em Medina dei Campo, ocorrida em 28 de Junho. 
Diz-nos Pedro Carrillo de Huete que, «estando asy elRey en el comienço de la 
Rua. vido la Reyna su muger. e el Príncipe su fijo. e la rreyna de Portugal; 
e feziéronle rreuerençia. e estovieron con él un poco, e bolbiéronse todos al 
portal de Sant Antolin. E asy estovieron vna muy buena pieça. e quedaron con- 



Riiy dc Pina. <i/>. cit., cap. LXXVIII, pp. 333-334; Cf. Duarte Nunes de Leão, 
ob. cií., cap. XII, pp. 147-148. 

Refere o primeiro dos mencionados cronistas que D. Leonor recusou a proposta de 
acordo sugerida por Alvaro Pires de Távora, ao scntir-sc ftMtcmente moralizado pelo êxito 
obtido por seus irmãos sobre o rondcst;i\cl D. Alv.iro ilc I ima. cm Medina tiel Ciimpo 
iOh. cif., cap. LXXVIII. pp. 33.^.^34). F>te acontecimento veriíicou-se precisamente em 28 
de Junho de 1441 (Luís Suúrcz Fernandez. Los Tiasíámaras de Castilla y Aragon en el 
sigto XV (1407-1474) in Historia de EspaHa de D. Ramon Menendez Pidal, tomo XV. 
Madrid, 1964, pp. 169-171; Idem. Relaciones entre A>f//íi,'<i/ .\ Castilla en la ('poco dei Infante 
Di^n EnrlqKf. C S I.C., Madrid. l')r.O, pp. : Cesar Silió. Dfn Alvaro de l ima y SU 

íienipo. M.tdrid. 1^57. pp. 14()-I4;<). Parecc-nos que a cronologia apresentada por Rui de Pina 
é deficiente, se atendermos a que a missão reaii/xida pelo fidalgo deve ter-se verificado pouco 
depois da partida do regente da cidade de Lamego, que. como já vimos, se deu em 15 de 
Março de 1441. A distAnda de mais de trás meses entre estes dois eventos toma inviável, 
a nosso ver, a razão apresentada pelo cronista. 

(" ) Pedro Carrillo de Huete. Cióniai dei Halconero de Juan li, ed. Ue Juan de Mata 
Carriazo. Madrid. 1946. cap. CCCX, p. 404. 

{^) Idcni. Ibidem. 

1-6") Idem. Ibidem, cap. CCCXiV, p. 4ia 
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cordes que sc fuese la Rcvna su muger e la rrcyna de Portugal con él a su 
palascio. e estovo cIRcy vien \na ora : dc^pucs lornóse a palascio'. (-"). 

Novo alento deve ter senlídn D. I concir ao lomar conhecimento da derrota 
e da fuga precipitada de D. Alvaro de Luna. scii principal aiivcrsário nos seus 
anseios de recobrar o trono português (^). I ruio das conversações havidas entre 
o soberano castelhano e a rainha portuguesa, temos a carta do primeiro, de 30 de 
Junho de 1441. enviada à junta antilunista. a qual era constituída por sua mulher, 
a Rainha D. Maria, por seu filho, o Príncipe D. Enrique, e ainda pelo Conde de 
Alba e pelo Almirante D. Fadrique. A parte que interessava à vílíva de D. Duarte 
continha o seguinte : «Otrosi, por quanto la Reyna Doiía Leonor de Pcntugal. 
mi muy cara é mi muy amada prima, díce que el Infante Don Pedro de Portugal le 
tiene tomada é ocupada por fuerza la tutoria de las personas y de los bíenes dei 
Rey Don Alonso de Portugal y dei Príncipe Don Fernando sus híjos. mis caros 
é muy amados sobrinos, é ansímismo la governacion é regimiento de los Reynos 
de Portugal, lo qual todo diz que le hubo dexado y encomendado por su testa- 
mento el Rey Don Eduarte su marido, que Dios haya. é dioe que yo soy tenudo 
y obrigado de le ayudar cerca dello en cierta forma é manera, por los grandes 
debdos que conmJgo é con vos la dicha Reyna, mi muy cara é muy amada muger. 
ú con vos el Príncipe Don Enrique, mi muy caro é muy amado hijo ella tiene, 
é por la gran naturaleza que ella tiene en mis Reynos. é aun por virtud de los 
contratos, é de las paces é lianzas que entre mi é mis Reynos. y el dicho Rey 
Don Eduarte, que Dios haya, é sus Reynos fueron hechas é firmadas. Ias (fuales 
dice que atacan á ella como tutora é governadora susodicha. por la parte de los 
dichos Rey y Reynos de Portugal é conosciendo que á mi ansi como á Rey y 
Senor pertenesoe remediar en lo susodicho, é que á mi será gran cargo si en 
elio luego no remedíase en tal manera que lo susodicho cesase. é se diese tal 
orden porque mis súbditos é naturales vivan en buena paz. é mis Reynos sean 
regidos en vii^icpo c tranquilidad; c otrosi. en quanto tanc á la dicha Re\na de 
Portugal nii prima, queriéndole satislacer c proveer cn lo que con razon y derccho 
Ic soy Obligado» (■'). 



Ibidem, càp. CCCXVII, p. 419. A confirmar a verdo do fiikoeiío de JoBo U. 

possuímos a narrativa do cronista Fernan Pcrc? cie Guzman : alli [Medina dei Campo] 
vinieron luego las Reyn.is dc ( astilla > dc Pcirtii^al. o con ellas cl Principe. c h.iblaron con 
el Rey gran piem, é apo!>entáronsc cn d nicsnu) pulaciu» {Crómai livírci Don Juan Sii;untio, 
in E.A£., tomo Madrid, 19S3. cap. XXVlIi. p. 587). 

O*) Crónka de Don Alvaro de Luna. cd. de Juan de Mata Carriazo, Madrid, 1940» 
cap. XLVIII, p. 154. 

(") Feman Perez de Guzman, ob. cit.. cap. XXX, pp. 595*596. 

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A resposta dada pela junta, como veremos a seguir, deixa adivinhar a incapaci- 
dade por ch revelada em resolver o urgente e grave problema com que se debatia 
D. Leonor. Exprimiam-se os seus responsáveis dum modo extrenuimcnte vago. 
ao declararem : vllem en nuanto toca á lo que pide la Reyna de Poriueal. por 
quanto al presente las c^cniuras c]ue para ello son necesarias y se han de \cr. no 
cstán aqui; ordenamos y mandamos que lo vea el Obispo de Coria. y el Doctor 
Pero Gon/alez de Avila, dei ("onseio dei dicho Senor Rey. dentro de seis dias 
primeros siguicntes. t> si dentro deste tiempo no lo pudiere ver. que lo pueda 
prorogar por veinte dias. y por ellos visto, hagan relacion al dicho Senor Rey 
dc lo que les parcscicrc de lo que Su Senoria en este caso dcb: haccr : y aquello 
suplicamos á Su Allezu que iiaga y cumpla, y Sa nicrced le.s dc para cllo su 
mandamiento en forma debida» C). 

O dima de incerteza existente no reino vizinho, relativamente ao problema de 
D. Leonor deve ter contribuído para libertar o Infante D. Pedro da terrível e 
angustiante preocupação duma imediata intervenção militar de Castela no nosso 
país. Atendendo à inoperância de seus irmãos em encontrar uma solução concreta 
para o seu caso, procurou a viúva de D. Duarte obter auxílio e compreensão por 
parte de João II. Assim tomou a entrar em contacto com ele, estanceando a corte 
castelhana em Valladolid Como resultado do encontro, temos o envio de 
várias embaixadas â Portugal, «humas brandas e outras com aspereza, humas 
mostrando desejar paz, e outras mais desafyando guerra^. Em todas elas se exigia 
«que a cryaçam d*ElRey e do Pryncepe seu Irmão e Irmãs fosse á desposyçam da 
Raynha. ou ao menos em poder de dous cavallclros. quaes a ella prouvesse, que 
fossem de todo ysentos da jurdiçam e mandado do Yfante» C'). 

Desconheconos o momento exacto cm que a Rainha de Portugal se avistou 
com o .soberano castelhano em Valladoiid. Em todo o caso. a circunstânçia do 
Infante D. Pedro ter recebido duas embaixadas oriundas de Castela, quando se 
encontrava em Santarém, no período compreendido entre 13 de Novembro de 
1441 e 22 de Janeiro de 1442 C^). parece indicar que a entrevista se realizou nos 



O Idem, Ibitli ni. cap. XXX. p. 602; ( f. Pedro Carrillo de Huclc, ob. cu.. 
cap. CCCXViII, p. 431. 

(") Gaspar Dias dc Landim, ob. cii., livro II, cap. XXili, p. 114. 

Ruy dc Pin;i. ,>h. cii.. cap. LXXVIII. pp. 332-333; Cf. Duarte Nunes de Leão, 
<•/>. cit.. cap. Xn. p. I4S; Ciaspar Dias de I anJini, oh. ril.. livro II cap. XXlll, pp. 114-116; 
Visconde dc S;iniarcni. {Jumlru Litnu-ntar, ion«o I, Paris, 1842, pp, 333-334. 

("> Humberto Carlos Baquero Moreno, Os Itinerários do infante D. Pedro, pp. 12 
c 81*84. 

Uma das embaixadas era constituída por Gonicv Jc Benevides e pelo Dr Afonso 
Fernandes de Ledesma. Segundo nos diz Rui de Pina, traziam cum eles «arautos e trombetas. 

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derradeiros meses do ano de 1441. Aliás, a caria convocal^n la enviada peio 
regente em 19 de De/cmbro desse ano à Câmara de Coimbra, ordenando aos 
procuradores que comparecessem nas cones a inictar em Évora em 25 de Janeiro 
de 1442. representa sem dúvida um precioso indicio de que graves problemas se 
estavam verificando ("). Foram adoptadas nas mencionadas cortes importantes 
medidas dc emergência, tendentes a frustrar uma possível invasão oriunda do reino 
vizinho, ao mesmo tempo que nelas se deliberava a confíscação dos bens perten- 
centes a D. Leonor e a proibição de esta senhora regressar ao nosso país ( ). 

Outras medidas de ordem prática foram assumidas pelo regente, ainda antes 
da reunião das cortes de Évora. Com a maior urgência, escreveu aos infontes 
para que os mesmos «fossem logo aas frontaryas de suas Comarcas, e provessem 
lodallas fortalle/as da Raya e as fyzessem velar, armar, bastecer, e repairar. como 
pera tal necessydade compria se sobre vycsse, c assy mandassem arredar os 
gaados e provysoões dos estremos» 

As zonas mais vulneráveis, devido à ausência duma fronteira natural, eram 
o Alentejo e a Beira. Como já vimos, pertencia a sua frontaria, respectivamente. 



como Offidaes de desafyo Real, peraque se is cousas tocantes aa Raynha nom res|NHidesseni 
oonformes a seu rcquerjrmento. que solicnemente desafyassem logo a guerra de Reino a 
Rcytio. A qual publycavam miiy «soltamente, crendo que com medo delia eslc Rcyno a cerca 
do Rcgimenlo se inudaiya tie seu prymciro proposylo» (Oh. cit., cap. LXXVllI, p. 334; 
Cf. Duarte Nunes de Leão, <'/>. cU.. cap. Xil, p. 149 e Gaspar Dias de Landim, ob. cit., 
cap. XXIII, p. 116, que confirmam esta vers3o). Refiere-se à mesma emliaixada o cronista 
castdhano I-cman Perc/ dc Gu/man, o qual se exprime nos seguintes tcrmrs : l'n este 
licmro cmbi. >. 1 Rey Don Juan de Castilla por siis cmliaixadorcs al Rey de Portoga! é al 
Infante Don Peuio su tio. el qual tenia la (lovernacion dcl Reyno, á Gomez dc Benavides. 
Scíior dc FromcNta, c dos doctorcs dc su Consejo, rogándoles afectuosamente que Ia Reyna 
de Portogal, madre dei Rey, fucse restituída en todo lo qw el Rey Eduarle su marido le 
habia dexado. á los quales fuc' respondido por el Infante Don Pedro é por los oiros dei 
Consejo dei Rey. que cl Rey de Castilla oviese en este caso paciência porque habia muchas 
razones porque la Reyna no Uebia ser restiluidu ;:n lo que el Rey su marido Ic habiu dexado» 
(Ph. cil.. cap. 111, p. (yOT). 

CO A.M.C., Carias Orígiiutis dos infantes, n." 68. Documento publicado por J. P. dc 
OUveire Martins, Os Filhos de D, João /. Lisboa. 1922. doe XV. p. 421; Belisário Pimenta. 
.'Iv Carias tin Infoutv D. Pairo à Câmara </<• Ci>imhr,i (I429-I448). Coimbra. I95?í. doc. LXII, 
pp. 63-(>4; Miiniinniiui Hvitrkiiui, vol. VII. Coimbra, |y()5, doc. 190, pp. llu-lll . 

l ) Ruy de Pina, ob. cit., cap. LXXVllI, p. 333; Duarte Nunes de Leão, ob. cil., 
cap. XII. p. 148. 

Gaspar Dias de Landim volta a inconer num erro cronológico, quando escreve que o 
regente «mandou que ajuntassem os procuradores dos povos e mais estados do leino para 
o mez de Janeiro de 1443» {Oh. cit.. livro 11, cap. XXIII, p. 118). 

Ruy dc Pina, uh. cit.. cap. LXXXIX, p. 335; Duarte Nunes de Leão, ob. cit., 
cai». XII. p: ISO; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.» livro II, cap. XXIV, p. 119. 

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aos Infantes D. João e D. Henrique. Entendeu o reccnu . no entanto, que haveria 
a maior vantagem cm nomear Ironleiros que sc cncarrega>sem da defesa de zonas 
restritas. Assim, ao longo do seu governo, deparamos com as seguintes nomeações : 



Nome «lo fronteiro 


LocaliUadc 


DfeU 
de noimaclo 


Fome 


Gonçalo Nunes Barre- 
to, cavaleiro da casa 
uu m&ituic U' f^cuiu 


Algarve 


? 


A.N.T.T.. Livro 6 de Odiana. 

foi. i:<I-i:<!v: Livro de Ex- 

• * * f * j diii^ iTidi ua 

Silva Marques, Descobrimen- 
tos Portugueses, vol. I, Lis- 

boa. 1944, doe. 367. pp. 464- 
-466; M ('iiitnivnía Heitricina, 
vol. X. Coimbra, 1969, 
doe. 35, pp. 41-42 


D. Sandio de Noronha, 
Conde de Odemira 


Estremoz 


18-VI-I442 


A.N.T.T.. C7i. de D. Afonso V. 
livro 23. foi. 109 


D. Duarte de Menezes, 
Conde de Viana 


Beja 


22-XIM442 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonso V» 
livro 23, foi. 48 


Jofto de Mdo, oopeíto- 
•mor de D. Afonso V 


Serpa e Redondo 


24-XIM442 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonso F, 
livro 27, foi. lv-2 


Vasco Martins de Melo, 
cavaleiro da casa do 

rei 


Castelo de Vide 

1 


26-XII-1442 

1 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonso V, 
livro 27, foi. 14-14V 



(}•) Desempenhou as func6es de froniciro-mor do Algarve durante a regência. Ignoramos, cOMwSo. » 
daia da stw nomeacio par* etw importaiKe cargo. 

C") D. Afoiuo V ccnfirmou-ii im t .ir .o Jc fr.niti-iro dc Scrpu e Redoodo. pOf carta régia de 20 ds 
Janeiro dc 1450 (A.N.T.r.. CbaaccUria dc 1). AfoBuo V. livro 34. foi. 60v). 

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Daqui se depreende l.ieilmente a necessidade de se proceder a uma consoli- 
dação defensiva do Alentejo, particulurnienlc vulnerável aos ataques oriundos de 
Castela ( '). 

Na realidade. D. Lennor não desistia do seu propósito de reaver pela for^a 
das armas o trono dc Portugal. Aproveitando a celebrarão das cortes de Valladolid. 
cujos trabalhos decorreram durante os meses de Maio, Junho c Julho de 1442 (' ). 
ela própria fez um depoimento sobre as «suas querellas e agravos contra o 
Regente» ("). Não se encontrava o reino vizinho, contudo, em situação política e 
económica que lhe peimitisse proceder duma forma imediata à invasiio de Por- 
tugal ('-). mas o facto não impediu que, com a maior «graveza», fosse enviada ao 
Regente D. Pedro uma embaixada em nome do Rei de Castela e do seu povo. 
«com temerosas protestaçoões; dizendo que quando aos requerimentos delia nom 
se satysfizesse. poderyam entam mover guerra, sem parecer que por sua parte 
as pazes se quebrantavamt ("). 

A embaixada castelhana, composta por quatro individualidades, a saber, 
«dous em nome d*ElRey de Castella. e dous em nome de seu povo» chegou 
à cidade do Porto quando o Regente D. Ptdro aí se hospedava pela segunda vez. 
O governador do reino, que tinha no maior respeito os privilégios do burgo 
nortenho, os quais não consentiam aos fidalgos uma estada superior a quinze dias 
dentro dos seus limites, vinha agora no período compreendido entre 18 e 31 de 
Agosto de 1442. escutar as reclamações que lhe eram formuladas (*^). Prudente* 



(^) Ao analisarmos a atitude assumida pelos alcaides dos castelos nas vésperas de 

Alfarrobeira, claborurarcmos um quadro, no qual se aludirá às alcaidarias em que se man- 
tiveram ou onde foram substituídas as respectivas autoridades. 

(*•) Luís Suárez Fernandez, Los Truslámuia.s dc Castilla y Amaon cn vl sif-lo XV, p. 173. 

(*') Ruy de Pina. oh. tít., cap. LXXX., p. 337; Cf. Duarte Nunes de LeSo, ob, ciu, 
cap. XIII, p. 151; Gaspar Dias de Landim, ob. eU.. livro II. cap. XXV, pp. 122-123. 

Este último autor define com muita clarc/a o papel assumido pela viúva de D. Duarte 
nas cortes dc \ alladoiid, quando escreve : sendo juntos em acto de cortes, em presença 
de £1-Rei D. João, muitos grandes dos seus reinos, com os ires estiidos delles, se propozcram 
as queixas e aggravos da Rainha D. Leonor, sendo ella também presente, e a sua instancia se 
despadKNi esla nova erohalxada» (Ob, ciu, p. 123). 

('-) Luís Suárez Fernandez, oh. cir. p 173. 

(") Ruy dc Pina. oh. cit.. cap. LXXX, p. 337. 

(**> idem. Ibidem, cap. LXXX, p. 337. 

Humbero Carlos Baquero Moreno, ob. ciL, pp. 13 e 92-93. 

Gaspar Dias de Landim escreve erradamente que o Infante D. Pedro cse foi á cidade 
do Porto, havendo tres mezes que n*ella estava, chegaram á mesma cidade quatro embai- 
xadores...! {Ob. cit.. livro II. cap. XXV, p. 122). Na realidade, nunca o regente, durante o 
seu governo, permaneceu ires meses seguidos ou alternados no Porto. Tendo chegado pela 

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Fl. 21 



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mente, cenvyou avysos aos Yfantes e pessoas príncipaes do Reyno», sem arriscar 
uma resposta precipitada, que pudesse acarretar maiores problemas ao PafsC^. 
Assim foi deliberado, após c(Miselho tomado pelo r^ente com as figuras 

gradas do país. enviar a Castela uma missão diplomática chefiada por Leonel 
de LimaC') e pelo Doutor Rui Gomes de Alvarenga A decisão foi levada 
a efeito, quando o governador do reino se encontrava em Tentu.eal (") Ora, como 
ele nos surge na referida localidade entre 19 e 22 de Setembro de 1442. julgamos 
que a partida dos emissários para o pa(s vizinho deverá recair neste lapso de 
tempo ( 

Cumpria à embaixada a missão de se avistar com o Rei de Castela, a fim 
dc discutirem o assunto de I). Leonor. ( tíravam-se as proposições daqueles em 
«que a Raynha por muvtas cousas, rc/oões, e ympedimenlos que apontaram, nom 
devya vir ha estes Rc>nos. nem menos ter a governança delics. nem a cryaçam 
d'EIRey c seu Irniaao que rcqucrya. e que o Reino loúo avya por tamanho incon- 
viniente. pêra o bem e assessego delle. que pera o jwm consentir se despocryam 
ante a lodo trabalho e perygo; mas ainda que per dereyto nom ouvesse pera ysso 
Dbrytíaçani. que por ser Madre d EIRcv seu Senhor, e por elle Rey o requerer, 
lhe darsam honde ella quvsesse fora de Portugal, seu dote e arras, e todallas 
cousas suas que neste Reyno acha.ssem. que nom fossem da Coroa, c mais dez 
myl dobras douro pera satysfaçam dos que a servyram» ( '). 

Ouvidas as propostas dos mensageiros do Infante D. Pedro, deliberou João II 
de Castela escutar os pareceres dos seus conselheiros, numa reunião em que 



primeira vez á cidade, no desempenho do seu cargo, em 25 de Julho de 1441, af etianoeou 
até 10 de Agosto. Daí s^tu para Coimbra, onde se encontra em 12 de Agosto; depois, 

partiu para Guimarães, onde O vamos locali/ar cm 14 e I^' <lc Agosto. Volta ao Porto em 
18 de Agosto, com uma demora que se eslende ate ao dcrradcuo dia do mês. Daí regressa 
às suas terras do ducado coimbrão (Humberto Curiós Baquero Moreno, ob. cit., pp. 13 
e 91-93). 

(*•) Ruy de Pina. ob. cit.. cap. UCXX, p. 337: Cf. Gaspar Dias de Landim, oh, rít» 
livro II. cap. XXV, p. 123. 

('") Ver a seu respeito dailos biográficos em apêndice. 

(*") Veja-se também a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

Ruy de Pina, ob. cit., cap. LXXX. p. 338; Cf. Gaspar Dias de Landhn. ob. cU.» 
livro II. cap. XXV. pp. 123-124. 

Humberto Carlos Baquero Moreno, oh. cit.. p. 93. 

Asslnala-se ainda, a presença do Infante D. Pedro na sua vila de Tentúgal, em 12, 
24 e 26 de Setembro (Humberto Carlos Baquero Moreno, oh. cií., pp. 93-94). 

( >) Ruy de Pina, ob. cit.. cap. LXXX, p. 338; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. eit„ 
cap. Xlli. pp. 151-152; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro II, cap. XXV, pp. 124-125; 
Visconde de Santarém, ob. cit., tomo I. pp. 338-339. 

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estiveram presentes os Infantes de Aragão e a Rainha D. Leonor. Dividiram^se as 
opiniões, sendo uns favoráveis à declaração de guerra contra Portugal, enquanto 
outros se mostraram partidários do cumprimento das cláusulas de paz existentes 
entre os dois países (''). Pesaram muito a favor deste último ponto de vista as 
posições assumidas pelo Bispo de Ávila. D. Lopo de Barrientos ("'). e pelo Conde 
de Haro. D. Pedm Velasco! '). 

Pertenceu sobretudo a este liliimo fidaleo castelhano uma longa exposição 
oral diricicia a D. l c<^in^r. que o cronista Rui de Pina rcconsiiuii da scjiuinie 
forma: Senhora bem crco em caso que o \olo que de\ seja cojiiiaiín a \osso 
desejo, que iiom leixaiá Vo^sa n>crece. de crer que eu amo muito \osso scivnço. 
c dos Senhores Ytantes vossos Irnuiò^. por cuja honra e Fistado eu trabalhev e 
padeci, o que elles sabem, cá por ywo o dey e o dy^sc. c por \sso vos quero hcm 
conselhar. Sooes primeiramente muyto enganada em procuraides. entrar em Por- 
tugal per guerra, e contra vontade do Regente e dos Yfanlcs seus Irmaàos; pois 
sabees que todo o Rcyno por naiure/a os ama. e por obrigaçam e vontade os ham 
de servir, e das mostranças que alguns lá fyzeram de vos recolher e servir, ja deveis 
de ser desenganada, e a concórdia do Conde de Barcellos. e do Níarichal lVa.sco 
Fernandes Coutinho] com o Yfante Dom Pedro, vos he pera ysso claro enxemplo, 
e que vos parei;a que a nece.ssydade do tempo lho fez assy fazer, aynda nom 
creaaes, vendo elles as cou.sas revoltas, que ndm .sostenham a parte de seu Rey 
natural antes que a do estranho, e mais eu nom sey que segurança tereys do 
amor do povo. que guerreardes per fogo e sangue, que tal caso se nom pode 
escusar, antes pera vosa vida conseguyreis. odio desamor e perygo. que por 
todas rezoões nom deveis querer; nom fallo ja no grande trabalho e muyia perda, 
que estes Reynos de Castella receberam, com esperança de tam duvydosa vitoria. 
Aquelle Reyno nom he pequeno, e he muy forte, e de gente leal e muy esforçada. 



( •-) Idem, Ihitleni. 

(^) A seu iespeito. vejam-se os dados biográficos elaborados por Juan de MaUi 
Carriazo no estudo preliminar à RefundicUm de la Cniniea dei Halconero do supracitado 

bispo, Madrid. 1946. pp. CXXXil - ( XXXVIII. 

í ') Acerca deste tiJako casiclhatio colhem se abundantes elementos nas citadas crónicas 
dc Fcrnan Perez de Guzmun e Pedro Curnllo de Huetc. 

Tanto Rui de Pina, como Caspar Dias de Ijindim, designam este personagem como 
sendo Conde de Faro, mas, em contrapartida. Duarte Nunes de LeSo escreve correctamente 
o título de Conde de Haro. Pior foi o c|iic aconleceu ao Visci>nilc iI.; Santarém, quando 
tomou o referido fidalgo por um notiie pt-i tu.-ucs que sc teri.i exilavio com I) I conor cn» 
Castelu {Ub. cil.. tomo i, p. 339). Na realidade, o nossti primeiro C t)nde de haro foi 
D. Afonso, sobrinho de D. Afonso V, que recebeu este título em 22 de Maio de 1469 
<A.N.T.T., Livro 2 de Místicos, foi. 40. Veia*se sobre o mesmo. Anselmo Braamcamp Freire, 
Bnuôes da Saía de Sintra, livro 111, Coimbra, 1930, pp. 290-291). 

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e seraa. muy maao de socigar per torça. E pcra mylhor verdes esta impossybylly- 
dade. sabeys bem que hum cavallciro de duas fortalezas tem nestes Reynos 
coraçam de se levantar contra a obcdyencia. c scrvyço d'ElRey nosso Senhor; 
c quero dizer se o devo dizer, que nom hc poderoso de o cercar nem tomar, 
quanto mais que os Yfantcs vossos Irmfios que aquy estam. de nece^^ydade 
conviria terem nestes Reynos outra gente d armas. c nam pouca contra ho Con- 
destabre. e o meestre d'Alcantara seus Ymygos. o que serya ympossyvcl ou com 
abatyniento de suas honras e Esiailos se sogiearem a elles. t|ue seria yrande 
vitupério cin sangue Real que Deos ?uinca consenia. c;i noni aveis de ilu\ydar, 
que estes dous homens pella grande \mi/ade que com \oscm. c com elles tem. 
e pellas bõas obras que do Regente em suas necessydades e aíronias lem recebydas, 
O ham sempre de servir e ajudar, por mais cnfraquentar vosso poder, cá de todo 
sam dcsconfyados de vosa concordya, e fazendo aynda esta empresa tam leve, 
que sem muyta pena cobrássemos o Reyno de Portugal, nom creaes que o déssemos 
a ElRey vosso Fylho, nem a vós o Regimento delle. porque pera cobrar novos 
Reynos nom ha fée nem verdade, cá he aos mortaes cobiça sobre todas, e sobre 
tudo com roverença e acatamento d*ElRey noso Senhor que aquy estaa. vos digo 
que sua Senhorya tem com gram rezam grande amor ao Regente. E crede que 
por soo impurtunaçam de que per vós e vosos Irmaâos foy vencido, tem feyto 
contra elle o que fez. nestas embaaxadas que envyou. cá nom ha per sua vontade 
de prosseguir cousa que em sua honrra e Estado muyto desfaça. poUo qual Senhora 
meu conselho he. que pollo que a vosso abito. conciencia. e assessego pertence, 
aceiteis qualquer rezoado partydo que de Portugal vos fyzerem. cá do oontrayro 
sede certa, que cada vez recebereis mais dano e moor paixam» O* 

O peso da argumentação de D. Pedro Velasco foi de molde a ccmvencer os 
conselheiros de João 11 de Castela da inviabilidade duma intervenção militar em 
Portugal. Devemos acrescentar ao mesmo o parecer de D. Lopo de Barrientos, 
que era homem de grande aut(M'idade e saber, cuja opinião tinha muito peso 
jutito do soberano. A línica .solução estava em enviarem ao nosso País uma missão 
diplomática com o objectivo de oblerem. em benefício de D. Leonor, huma 
grande soma de dobrões». .Arrasiaram-sc as negociações, muitas vezes interrom- 
pidas pela situação política de C astela, sem que fosse possível ou se tivesse querido 
atender U5 necessidades mais prementes da viúva de D. Duarte O- 



("■) Ruy tie Pina. ,>h. cit.. cap. 1 XXX. rp. ^3*)- 340; Cf C. t-par Dias Je Landim, oh. cil., 
livro il. cap. XXVI. pp. 126-129, que segue muito de pertu u reconstituição da declaração 
feiía pelo primeiro cronista. 

(^) Ruy de Pina, ob. cit. cap. LXXX, p. 340; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. eit^ 
cap. XIII, p. 153; Gaspar Dias de Landim, ob. ciU livro II, cap. XXVI, pp. 129-130. 

o ultimo dos supracitatitis autores afirma qwc '•f(>ram tantas ns dilações que senão 
eflectuou nada, e se conheceu que o governador não queria vir em concórdia alguma, nem 



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Havendo s^asU) esta senhora grandes somas do seu pecúlio, numa contínua 
e persislenle esperança de conseguir auxílio militar de seus irmãos, acabou por 
conhecer dias extremamente diííceis ( •). Para a ajudar a vencer os grandes pro- 
blemas íinuncciros que se lhe deparavam. Ícz-Ihe suu cunhada D. Maria, mulher 



satisfazer á Rainha, e qtie suas obras eram mui differentes do que as palavras prometiíam; 
e ii*aquelles reinos houve logo tantas novidades que foram parte para se não entender mais 

em suas cousas; e finalmente os embaixaclor:s <ic lorn inim sem resposta, enfadados de esperar 
e do mau procedimento qtie com clles tinha; nem a Rainha pmide nunca haver do 
governador cousa alguma do que era seu, nem mantimento para si nem para a infanta 
D. Joanna sua filha, que sempre a acompanhou em seus trabalhos» (Ob. cii., pp. Í29-130>. 

(^^ A Rainha D. Leonor obteve de sua mãe D. Leonor de Aragão, através do seu 
contrato de casamento com D. Duarte, celebrado em 16 de Fevereiro de 1428, o dote de 
100 OUO florins de oiirt> de Aragão. Idêntica quantia lhe íoi oiiloreada por seu irmão Afonso V 
dc Aragão, ficando a niesmu garantida pelos rendimentos das vilas dc i-raga. Bergu e l.iriu 
(A.N.T.T., Gaveta XVII, maço 4, n." 8; A.C. A., CaucUleria ReaU Registro 2%2, foi. 13v-19v. 
A primeira fonte encontra-se publicada na Monumenia Henricinti, vol. IIL Coimbra, 1961. 
doe. 91, pp. 180-197). lornou sua mãe a fazer-lhc um.i lio avão. em i electividade SC daria 
após o seu falecimento. As-im. mediante o instrumcnit> de 7 de Ahril <.le 14^4. feito cm vida 
daquela, recebia D. Leonor a vila de San Fclices de los Gallegos «con su fortalc/a e aldeãs 
e lugares c tierra e termjnos c con los vezinos e moradores delia, nuestros vassallos, que 
agora ende vjuem e viujerem despues de nuestro fnllesçimjento, de qualquier naçion e con- 
di^rion que ssean, con la jurísdiçion e justiça çeuil e crímjnal alta e baxa e mero e mjsto 
jmperio e con todos sus tertnjni^s e solares, poblados c por poblar. e con todas sus vo7es 
L acciones, pcliviones reales. perssonales, vtiles. direitas, vanas. omissas z con montes dehesas 
e prados e pastos c aguas corrícntes e estantes e manantes c con todas las hcredades e posses- 
siones e con todas las rentas e pechos derechos delia, qualesquier que sean e qualquier 
nonbre que ayan, e con todos los pedidos c serujçios qualesquier que pertenesçen c pertenesçer 
deuem» (.A.N.T.T., Gaveta XVII, maço 7, n. ' 20. Publicada com erros de transcrição cm 
I). An((>nio Caetan<^ t!e S<mis:i. Provn^ ihi Hi<'li'riti (1< nt al<'>i;ic(i tia Ctiui Real PoituvKcsa, 
tomo I, livro iU. C oimbra. 1947, pp. 275-2S0 e com boa paleografia na Monnim iita Hcniiciifu. 
vol. V, Coimbra, 1963, doe. 1. pp. 1-5 e em As Gavetas da Torre do Tombo, vol. VII, Lisboa, 
1968, pp. 479^3. Sumariado pelo Visconde de Santarém, ob. cit.. tomo I. p. 320). Por morte 
de D. Leonor de Aragão ocorrida em 16 de Dezembro de 14^^ (Fernan Pere? de Guzman.. 
eh. cif., cap. XI. p. 527), recebeu sua filha a quantia de .sOOO íldnris de ouri> de Aragão, de 
acordo com o que ficara consignado no seu lestanjcnio. A entrega desta importância u bene 
ficiáría foi efectuada em 26 de Maio de 1438. conforme se comprova pelo respectivo recibo 
(A.G.S., Patronato Real, legajo 49-24). Além das mencionadas doações, viu-se D. Leonor 
beneficiada cm 22 de Julho de I44t). com a qiiota-parte que seu irmão .^fonso V dc Aragão 
po&suia nas vilas de l iedra e Ureiía, as quais s.j achavam situadas entre lordcsillas e Braganza 
(A.N.T.T., (JtíVíiu XV , maço 9, n. 35. Publicado cm /I v Gavitus da ioin- da Tombo. vol. IV, 
Lisboa, 1964, pp. 238-243 e na Monumeiitu Henricina. vol. VII, Coimbra. 1965. doe. 92, 
pp. 136-142; sumariada pelo Visconde de Santarém, ob. cit., tomo I, p. 328). Não podia a 
rainha exilada contar com os rendimentos lías suas \ilas c terras portuguesas, em virtude dai 
mesmas lhe terem sido expropriadas por dcterminuçuo das curtes de Évora de 1442, conforme 
jà tivemos ocasião de observar. 

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de Afonso V de Aragão, doação da vila de Alcolea de Cinca, que fora violenta- 
mente expropriada ao Regente D. Pedro f "). F.fectivamcn'e, na carta escrita pela 
soberana aragonesa, cm 30 dc Janeiro de 1443. ao Governador Juan de Muntayo, 
figura a declaração dc que o seu portador Ramon Ollcrs. secretário do Bispo de 
Lérida. leva instruções sobre a mencionada vila. que fora outorgada a D. Leonor dc 
Portugal en alguna emjenda delas grandes sobrerias, danyos c fucrças uuel jnfant 
don Pedro dc Portugal le ha dado c fecho, contra Icxla razon e justicia, ocupandole 
sus vilias, lugares e rendas sin aicuna causa o occasion justa, vltra otras muchas 
cosas que contra cllo ha fecho?-. Na mesma missiva. da\a a soberana de Aragão 
a conhecer que o procurador do regente português tinha sido mal recebido pela 
justiça do seu reino, motivo por que lhe fora apresentada queixa ( Associando-se 
à determinação de sua mulher, deu o soberano aragonês Afonso V. que se encon- 
trava ausente em Itália, instruções ao seu embaixador em Castela, Fiei Luis 
Despuig. para que garantisse apoio material a sua irmã, através de «los fets de 
Alcoleja e dela assignacío per son sostiment» (^. 

Insurgiu-se o Infonte D. Pedro contra a usurpação de Alcolea de Cinca. 
Em carta escrita aos conselheiros de Barcelona, com data de 14 de Março de 1443, 
comunica o regente português «que poucos dias ssom passados que do rregno 
dAragom me veerom cartas como aa minha vila dAlcoleia chegaram rrecados 
per que çertificauam aos moradores dela que a muy alta e muy excelente prinçesa 
e muy esclarecida Senhora a Rainha desse negfio tijnha hordenado de aalem da 
jurdiçom que da dieta vila me Ja mandara filhar, que a dieta vila e nendas 
dela me tomasem de todo». Apesar de conhecer no íntimo os motivos que teriam 
levado a soberana aragonesa a assim proceder, causava-lhe estranheza que «nom 
seendo çitado nem demandado nem dada Sentença contra mym ouuesse de sseer 



(^) No contrato nnirimonial, realizado em 13 de Setembro de 1428, entre o Infanie 
D. Pedro t D. Isabel de Urfel, sendo procundoies pdo primeiro o Dr. EsteWto Afouto 

e Aires Gomes da Silva, e pela segunda Bcrengiier BariJtcll. Arcediago de Barcelona, ficava 
consignado que o dote da princesa seria de 40 900 florins de ouro de Aragão, pelo que o 
noivo recebia como fiança a jurisdivão e a posse Ja vila e do castelo de Alcolea de Cinca. 
Caso o Duque de Còimbra quisesse receber o dote, poderia prooeder à venda do aludido 
castelo e vila. mas, pan isso. leria dt indemnizar suas cunhadas, D. Leonor e D. Joana, na 
parte que lhes cabia {Monumento Hi nru 'ia, Ill, Coimbra. I%l, doe. 122, pp. 244-250. 
Sobre este assunto veja-se o nosso estudo. Quattt. '•<irtí:x de D. Isabel de Uri;cl. Duquesa de 
Louiihra, separata da Revisiu de Ciências do Homem da ú'r>versidade de Lourenço Marques, 
vol. III. série A, 1970. p. 9). 

P) MoHumenta Henrkina, vol. Vill, Cmmbra, 1967, doe 4, pp. 9-10. 

(*>) Idem. Ibidem, doe. 124. pp. 195*196. A carta com as supFwiladas instruções tem 
a data de 6 de Julho de 1444. 

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fifOTçado e esbulhado do pairmuniNo c herança que direitamenie perteencc a 
mym E aa Iffanlc minha muvio pro/ada e amada molher F a meus filhos. 
Mes desto ouue rrecado de pcsoas de tanta tíe que me nom conuem mais douidar*. 
Chamava a atenção dos poderosos oligarcas de Barcelona para o facto de ele ser 
descendente > da casa rreail desses Reignos por parle da Rainha dona Isabel», 
que fora casada com o Rei D. Dinis, acrescido da circunstância de sua mulher. 
D. Isabel de Urgel, «desçender per linha direita de padre e madre da casa rreall 
deses reignos», o mesmo sucedendo com seus filhos. Concluía a missiva, solicitando 
os bODS offck» dos conselheiros de Barcelona junto de D. Maria de Aragão, de 
maneira a que lhe fosse feita a devida justiça 

Devem estes ter procurado atender aos desígnios do Duque de Coimbra, con- 
forme se depreende da sua carta de 12 de Novembro de 1443. em que agradece 
as diligências levadas a efeito pelos conselheiros do município barcelonês. Foram 
baldados, no entanto, os esforços dos representantes municipais da capital da 
Catalunha, conforme se depreende das próprias palavras do regente, ao declarar 
que não houve delas «algfiu proueito». Num desabafo muito íntimo, escrevia o 
Infante D. Ptedro que. <sse aquelles que teem forçado a Ifanla minha muyto 
prezada E amada molher. E assí a suas Jrmaas. muy gramdes heramças assí de 
Raiz como moueis em esses Regnos. ham ajmda coobijça desta pequena parte 
que lhe hi ficaua, bem a poderom filhar. Mas Deus que ajmda que algiiuas vezes 
a taaes feitos espaça numca os quita, a sseu tempo tornara com a vingança», o que 
faz pressupor um espírito dominado por uma ideia fatalista, perfeitamente em 
sintonia com a mentalidade medieval (*^). 

Não se limitou o regente a dirígir-se aos conselheiros de Barcelona, mas fê-lo 
directamente u própria Rainha D. Maria de Aragão, infelizmente, perdeu-se a carta 
(lo Infante D. Pedro, mas deixa-se adivinhar o seu conteúdo através da resposta 
dada pela soberana do reino aragonês, na qual alude à sua existência. Aproveitou 
esta senhora o enseio para censurar o governante português recriminando a atitude 
por ele assumida em relavão à cunhada, medianle estas signiticativas palavras : 
«Es verdat que somos stada nnicho marauillada de lo que contra la rreyna 
dona Elienor de Portogal. nuestra muy cara e muy amada hermana. haueys fecho. 
Car a todos parcsce seycr slado processo muy rigoroso, considerado cila .seyer 
rieyna vidua. muller c madre de rreyes dc Portogal. e vos cauallero que en las 
partes do vos conoscen soes tenido por virtuoso. E a nus desplaze por ella seyer 



(''J I.H.M.B., Carias Reules Orifiiitales, série B-74. Documento estudado e publicado 
por Humberto Baquero Moreno, Cartas do Infante D. Pedro aos Conselheiros de Barcelona, 
pp. 25-26 e 32-33. 

C^-i I.H.M.B.. Cartas ReaUs Ori\:Uwlcs. série A-4ri3. Documento cstudado e publiodo 
por Humberto Baquero Moreno, ob. ai., pp. 26 c 34-35. 

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virtuosa c herniana dei ssciiNur rrev. nuestro muy caro e miiy amado marido c 
senyor». para mais adiante frisar i|ue todo esto no empata hana que \iis scriuiendo, 
nos vos respondiesscmos . Num apelo derradeiro solicitav; I). Mana ao seu desti- 
natário para que «vos concordeys coii ia diclia muy jllustrc rreuia. car ciertamentc 
a nuestro parcscer cumplc mucho a vucstro honor» O. A soberana aragonesa 
ignorava deliberadamente a reclamação que lhe fora endereçada pelo Regente 
D. Pedro, resultante de o ter privado da posse de Alcolea. prcocupando-se tão- 
-sòmente em dar>lhe conselhos para que intentasse concílíar-se com a viúva de 
D. Duarte. Não restava ao governante português a mais pequena hipótese em 
reaver Alcolea de Cinca, pelo que não deve ter voltado a insistir no assunto. 

Por seu lado, D. Leonor sentía^se abandonada pelos irmãos, não obstante 
as promessas de auxílio do Rei de Aragão. Este, estando em Nápoles, foi ao 
ponto de escrever duas cartas idênticas aos Reis de Castela e de Navarra, dando- 
•Ihes a entender que se encontrava na disposição de logo que lhe fosse possível, 
vir à Península Ibérica tratar da questão da irmã e de seu sobrinho D. Afonso V de 
Portugal. Exasperava-se pela «grande sobreria e manifiesta jnjusticía que por el 
jUustre jnfante don Pedro de Portugal es fecha ala jllustrissima rreyna de Portugal, 
nuestra muy cara e muy amada hermana, e avn al muy alto rrey su fijo, nuestro 
muy caro sobrino. detenjendogelo occupado, de la qual cosa, no sin deujdo sen- 
timiento, por seyerem personas a nos tanto conjunctas. hauemos desplazer» 
Na mesma altura, foram escritas por Afonso V de Aragão duas cartas de reco- 



(<*) Carla de D. Maria de Arag&o de 3 de Peveieiro de 1444. A.CA.. Cancitlería Real, 
Registro 3185. foi. 85-85v. 

Devem ter sido intensas :is relações epistolares entre D. Maria de Aragão e D. Leonor 
dc Portugal, sobretudo durante o período de cxflio desta senhora. Conhece-se a carta escrita 
pela soberana de AragSo, em 16 de Dezembro de 1442, a sua cunhada, em resposta a duas 
missivas daquela, na qual se exprime um profundo desapontamento pelo fecto dos irmãos 
de D. Leonor não agirem convenientemente a seu favor. Afirma D. Maria textualmente: 
• Perd vuesiros hermanos son aqui con el rrey de Castella. nuestro muv caro e muy amado 
hermuno, e puedan mucho t'a^er cn vucstrus negócios, somos marauillada porque no lo 
fazen» (AX:.A., Concffleria Red. Registro 3269, foi. 54). 

Sobre D. Maria de Aragio, veja-se o estudo de Fernando Soldevila, La reyna Maria 
ntnllt r tícl M,n;it,iitini. in Mnnorias de la Academia de Buenas Letras de Barcelona, tomo X, 
Barcelona, 1934. pp. 215 345. 

(") Carta régia dc 2S dc Março de 1443. Moininunta Henricina, vol. VllI, Coimbra, 
1967, doe. 16. pp. 36-37. 

Como é sabido, nunca mais o Rei de AragSo regressou á Península Ibérica, tendo 
falecido cm Nápoles em 27 de Junho de Í45S (Jaime Vicens Vives. Li>s Tnistámaras y Cataliiiia 
(14 10 1479). in Historia de Espana dirigida por Ramon Menendez Ptdal, tomo XV, Madrid, 
1964, p. 742J. 

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mendavâo de sua irmã D. l.tonor. A primeira destinava-se a D. Henrique. Príncipe 
de Castela e das Astúrias: a D. Maria. Rainha do Castela e de Leão; e ao 
Infante D. Henrique de Aragão ( ). Ouanin ;i scyunda. era endereçada aos prin- 
cipais membros da nobrc/a castelhana, a saber : D. Pedro Velasco. Conde d^ 
Haro, D. Diego de Sandoval. Conde de Castro; D. Inijio Lopez de Mendoza, 
Marquês de Santillana; D. Alonso de Pimentel. Conde de Benavente; D. Diego 
Manrique, adiantado de Càstela; D. Pedro de Estuniga. Conde de Plasencia; 
D. Álvaro de Luna, Condestável de Castela; D. Garcia. Arcebispo de Toledo; 
D. Ferrán Alvarez, Conde de Alba; e D. Fadrique. Almirante de Castela O- 

A evolução dos acontecimentos em Castela foi-se tomando desfavorável para 
a rainha portuguesa, sobretudo a partir de Fevereiro de 1444. Deram-se então 
algumas ocorrências que se ligam à perda da hegemonia dos infantes de Aragão, 
com a derrota de D. Henrique na Andaluzia e o triunfo de D. Alvaro de Luna 
e de seus partidários, que subtraíram o soberano de Castela à tutela do Rei de 
Navarra Viu-se D. Leonor de tal modo abandonada, que nâp lhe restou outro 
recurso senão o de se retirar da corte e instalar-sé defintívamente em Toledo. 
Aqui viveu o derradeiro ano da sua atribulada existência, onde, «constrangida 
ja de grandes mjnguoas que a apertavam, soltou quasy toda a jente que tynha. 
encomendando os fylhamentos e vivendas de seus criados a aquelles Senhores de 
Castelia com que cada hiim mostrava ter mais contentamento de viver ("O. 

Na aflitiva situação em que se encontrava, valerani-lhe alguns auxílios mone- 
tários, prodigalizados por pessoas amigas. Assim. D. Maria úc Aragão, atendendo 
à «extrema necessidat e aduersítat» em que vivia sua cunhada, ordenou, por carta 
de 6 de Outubro de 1444, que lhe fossem entregues anualmente 5000 florins de 
ouro aragoneses, provenientes das rendas e direitos do principado da Catalunha 
c dos bailios gerais de Aragão e de Valência C). Como. entretanto, o dinheiro 



í" ) Carta regia de 28 de Março de 1443. Monuinenta Henricim, vol. VIIl, Coimbra. 

1^67, doe. 17. pp. 3S-3y. 

Carla regia de 28 de Março de 1443. Idem. Ibidem, doe. 18, pp. 39-40. 
(^) Ruy de Pina, oh. cit.. cap. LXXXIV, pp. 346-347: Cf. Duarte Nunes de Leão. 
ob. cit., cap. XIII, p l^iív. (iaspar Dias dc l.andim, ob. cit.. livro II. eap. XXIX, p. XVi. 

Acerea da cronolo^:ia Jcsla ocorréneia. v.'ia-^c a eaiia diriyida polo Regente D. Pedro 
ao Me>tre de Alcântara, feita em Évora a 15 de hevcreiro de 1444. (A.N.T. 1., C\>riu> ('iihid- 
lúdico, parte 1.', maço 1, doe. 16; Arlur Moreira dc Sá, .•.(,11115 Jocumvnios rejeniues ou 
Infante D. Pedro, separata da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, tomo XXII. 2.' série, 
a" 1, 1956, pp. 58-60: Monumento Hcnrh ina. vol. Coimbra, 1%7, doe. 81, pp. 135-138). 

Ruy de Pina, ,>h. cit.. cap. LXXXIV. p. 347; Cf. Duarte Nunes dc LeSo. 06. cit,, 
cap. XIII. p. I5f»; Gaspar Dias ue Landim, ob. cit., livro 11. cap. XXIX, p. 138. 

O A.C.A., Canciiicita Rcul. Registro 3038, fols. 41v-42. 

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não lhe chegasse às mãos com a urgência necessária, enviou ;i soberana aragonesa 
um mensageiro, solicitando auxílio imediato. Em resposta, D. Maria dava ins- 
truções urgentes para que fossem remetidos 200(1 florins de ouro do Bispo de 
Lérida. procurador de D. Leonor, o qual faria chegar esta importância pecuniária 
ao seu destino (■"). Obteve, ainda, outras subvenções em dinheiro de alguns pre- 
lados e senhoras viúvas do reino de Castela. Uma delas. D. Maria da Silva, 
que residia na cidade de Toledo, foi extremamente generosa para com a Rainha 
D. Leonor na> dadivas que lhe proporcionou. Tambcni D. 1 ornando de Noronha, 
.segundo Conde de Vila Real. que fora criado pelo Rei D. Duarte - com muyto 
amor», procurou atenuar as aflições da mulher do seu protector, ao manda-la 
«visitar e ajudar com huma bõa soma douro amoedado, de que por sua nobreza 
e bom conhecimento foy de todos cá e lá muy louvado» ("). 

A poucos meses de distância do dia do seu falecimento, «a Raynha sintyndosse 
ja emvergonhada de requerer, e cansada despeiar, vendo os caminhos e remédios 
de sua esperança, com as mudanças de seus Irmaãos de todo çarrados. houvese 
de todo por mal aventurada, e sobretudo per enganos mal aconselhada, e sospi- 
rando ja por Portugal, ao menos pera lhe sua terra comer o corpo, fallou com 
Mossem Gabriel de Lourenço, seu Capelfam Moor. e com suas crenças ynstruçam 
e poder, ho envyou a Albuquerque, donde per meo do Conde d*ArrayoIl08 tratasse 
alguma concórdia com o Yfante Dom Piedro. ao qual Yíante a Raynha com 
palavras e cousas assáz piadosas, envyava ja pedir, ao mais consentymento e 
lugar pera vir a estes Reynos. e nelles morrer nam como Raynha, mas como sua 
Ynnaã menor que se querya poer em suas maãos, de que se contentarya receber 
o que elle quisesse, e lhe parecesse rezam» C'). 

Efectivamente, pertenceu a Mossem Gabriel de Lourenço a tarefa de ccmtectar 
com o Conde de Arraiolos, que se mostrava extremamente receptivo no desem- 
penho do papel de medianeiro. Ao chegar o emissário de D. Leonor a Albuquerque, 
solicitou a autorização do Regente D. Pedro para entrar em Portugal. Tendo-lhe 
a mesma sido concedida. cheB(Hi a Évora, onde se avistou com o Conde de 
Arraiolos, e procedeu depois a entrega da carta da rainha. Dirigiu-se. seguida- 
mente, até junto do Iniante D. Pedro, no que foi acompanhado por Vasco Gil, secrc- 



(™) Cartas tic 23 de Dezembro de 1444 e de 8 de J.ineiro de 1445. A.C.A., CanciUtria 
Real. Registro 3040, fols. 71-71v e 76v-77, respectivamente. 

Ruy de Pina, ob. vil., cap. LXXXIV, p. 347; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit., 
cap. XIII, II. 136; Gaspar Dias de .Landim, ob. cit., livro II, cap. XXIX. pp. 138-139. 

(») Rwy de Pina, ob. cii.. cap. LXXXIV, pp. 347-348; Cf. Duarte Nunes de Leão, 
ob. cit., cap. XIII, pp. 1S6-1S7; Gaspar Dias de Landim, ob» ciL, livro II. cap. XXIX* 
pp. 139-140. 

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tário do Conde de Arraiolos. Ao realizar-se a entrevista, «O governador mostrou 
ouvir este lequeiiiiiento com muito gosto, respondendo a Mosem Gabriel que 
estimava muito ter a Rainha já cabido na razão e estar desenganada no conhe- 
cimento dos errados caminhos que seus conselheiros lhe fizeram seguir, dando 

mostras de vir no que ella pretendia» C). 

Quando tudo parecia indicar uma boa conclusão para as negociações ence- 
tadas visando a sua repatriação, eis que surgiu a notícia do inesperado faleci- 
mento de D. Leonor, na cidade de Toledo, cm data impossível de determinar com 
rigor absoluto, visto que Jerónimo Zurita aponta o dia 18 de Fevereiro de 1445 ('•) 
e iHitros cronistas o dia 19 do mesmo mes e ano( ). Não estão ainda bem escla- 
recidos os motivos da sua súbita morte havendo, no entanto, uma forte suspeição 
de que teria sido envenenada por vontade do Condestávei D. Álvaro de Luna ('"). 



C) Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. li\ro II, cap. XXIX, pp. I4U I4I; Cf. Ruy dc 
Pina, ob. cit., cap. LXXXIV, p. 348; Duarlc Nunes dc Leão, ob. cit.. cap. XIII, pp. 155-157. 

O primeiro dot dtadoi autoiet». oontiàriamente aos dois dltímoi cronistas, levanta a 
au^eiçio de qne o Regeale D. Pedio agiia sempre de má fé em rdaçSo à cunhada, pois, 
apesar de ter usado «boas palavras foram tantas as dilações, que o conde d'Arrayollos houve 
de vir pessoalmente a tratal-o com elle, e cm dares e tomares gastarem alguns dias, sem o 
governador se acabar de resolver, de modo que o conde conheceu que não queria vir em 
nada, e com esta d esc o n fiança se de^ediu ddie, deixando porém na cdrle com seus xeque- 
fimentoe a Mosem Gabriel, sem lhe declarar a desconfiança que levava; mas tanto tempo 
dilatou o governador a resposta e resolução, que sendo passados sete mezes dc requerimentos, 
até que no fim d'elles chegou recado que a Rainha era fallecida em Toledo a 19 de Fevereiro 
de 1445> {Ob. cit., livro U, cap. XXIX, p. 141). 

C*) Segundo O cranÍBla a iag oa es Jerónimo Zurita, a Rainha D. Leonor «Auia falleddo 
a diez y ocbo dd mes áUtíbtuo deste afto [de 1443]» {Aiuães de ta Corona de Amgoh. 
2.* parte, tomo lU, livro 15, Zangosn, 1579, cap. XXXIV, p. 294v). 

Ç') Os cronistas portugueses afirmam que D. Leonor faleceu em 19 de Fevereiro de 
1445. Rui de Pina escreve que «a Raynha Dona Lyanor fallecera na mesma Cidade de 
Tolledo, sesta feira XIX dias de Fevereiro de mil e quatrocentos e quarenta e cincos {Ob. cit.. 
cap. LXXXIV, p. 348). Ontn» tanto exprime Duarte Nunes de Leio, quando dedara ique 
era morta arrebatadamente aos dezanoue de Feuereiro de mil quatrocentos e quarenta e 
cinco* {Ob. cit., cap. XIII, p. 157) c Gaspar Dias de l andim ao dizer «que a Rainha cra 
fallecida em Toledo a 19 de Fevereiro de 144S> (Ob. cit., livro II, cap. XXIX. p. 141). 

C) Interessa conhecer a forma como os cronistas portugueses e espanhóis interpretam 
as causas da morte da vidva de D. Duarte. Assim, Rui de Pina esoreve : tFoy sua morte 
arrebatada, sem ter huma ora d*acordo, pera o que á sua aliua e á ua fazenda compria. 
cm que ouve violenta pre"sunçam, que fora de peçonha, fvirque em lhe lançando huma aiuda. 
que por ser hum pouco achacada requerera, lugo sem entrevaio nem repouso deu alma a 
Deos. E a opiniam dos mais foy, que esta morte lhe ordenara nam ho Yfantc Dom Pedro, 
como muytos malydosos quisseiam &lsamente dixer; mas o Condiestabre Dom Alvaro de 
Luna, por meo de huma mcdber da Vylla d*Ylhescas, que em casa da Raynha tynha grande 

— 171 



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Em todo o caso. devemos notar que a carta enviada por D. Maria de Aragão, em 
10 de Março de 1445. aos poderosos conselheiros de Barcelona anunciando a 



entrada e muyla famylyaridade. Receoso que sc a Raynha vivesse, estando cm a Cydade 
de Tolledo, ordenaria como o Yfantc Dom Anrriqiie seu Irmão tornasse a cila, de que fora 
ja lançado. Porque foy avisado que ella o procurava e concertava ja com Pero I.opez d'Ayala. 
que na Cidade era Alcayde moor, e cavalleiro mais prjncipal. crendo que se o Yfante fosse 
Senhor de tal cidade, o Condestabre o avya por cousa muyto contrayra a seu desejo e pro- 
pósito, que era destruyllo e desterrallo do Rcyno com seus Irmãos, c por argumento disto, 
outro tanto se presumyo do mesmo Condestabre, que ordenara aa Raynha Dona Marya 
molher d'EIRey Dom Joam, que após sua Irmaã. nom durou com vyda mais de XV dias» 
iOh. cil.. cap. LXXXIV, p. 348). Por seu lado, Fernan Perez Guzman relata os aconteci- 
mentos deste modo : «Y estando [João II j alli cn cl F.spinar en este afio de mil c quatrocientos 
c quarenta c cinco, le vino nucva como la Reyna Dona Leonor de Portugal, hermana de Ia 
Reyna Dona Maria su muger, que estaba cn Toledo cn cl Moncstcrio de Santo Domingo cl 
Real, era muerta subitamente, é que muricra dc una ayuda que habia tomado para su salud. 

Destas nuevas pesó mucho al Rey porque esia Reyna era muy noble e virtuosa Senora [ ] 

n dcspues que cl Rey ovo estado algunos dias en cl F-.spinar, vínolc nucv i como I;' Reyna 
Don Maria su muger que estaba en Villacastin aldeã de Segovia, era fallescida, dc que el 
Rey ovo aqusi scntimiento que de razon debia. La qual se crec ser muerta de yervas, tambien 
como la Reyna Dona Leonor, su hermana, porque no estuvo enferma mas dc quarto dias, 
é ningun otro scntimiento hubo salvo dolor de cabeza, é salicronie por todo el cuerpo é 
por los brazos é manos é rostro manchas cárdenas hinchadas como si oviera recebido azotes, 
y estas mesmas ronchas siilicron á la Reyna de Portogal; c por esto sc crec estas dos Sefioras 
Reynas ser muertas de yervas como dicho cs. E aun se afirma que cn el proceso que cl 
Rey Don luan míindó hacer contra el Condestable, se halló quien dió las yervas á las dicha.s 
Seiioras, é por cuyo mandado (Oh. cil.. cap. I, p. 625). Este cronista castelhano formula, mais 
adiante, a versão dc que muitos fidalgos portugueses acusaram o Regente D. Pedro de ins- 
tigador da morte de D. I conor, pois «tovicra mancra que le diescn ycrb.is con que muriesc» 
ilhidem. cap. VIII, p. 666). Semelhante a este. ú o depoimento dc jL-rónimo Zurita, o qual, 
em relação aos falecimentos dc D. Leonor e D. Maria, insinua que •tuuierõ por cierlo Ias 
gcics, que Ics fueron dadas yeruas. y dello huuo muchas senãlcs. y fue inculpado el Côdestablj 
dò Aluaro de Luna, q cõ sabiduria, y conscjo, se aparejo el veneno. tC> íj muricrõ las Reynas. 
y que fue manifiestamôte cntõdido, por la repctina mucrtc dc la Keyna de Portugal, y por 
r.i ccleridad dei veneno cô que murio. y que todos los inJicios, y sinales dei, se vierô cn su 
cuerpo sicdo defunta» {Ob. lii.. cap. XXXIV, pp. 294v-295). Por líltimo. assinalamos a intcrpre 
tiivão que nos c dada por Gaspar Dias dc Landim. «Sua morte foi mui apressada, sem tei 
uma hora para ordenar suas cousas, nem o tocante a sua alma. posto que vivia tão perfeita- 
mente, que se cria estar a todo o tempo aparelhada para o que Deus d'ella ordenasse. Teve-se 
por cousa certa ser dada com veneno, c assim foi averiguado pelos médicos, porque cm sc 
lhe lançando uma medicina ou ajuda em que lhe foi dada, dentro de mui pouco espaço deu 
a alma a Deus; e o que poude investigar foi que fôra traçada pelo Condestavel D. .Alvaro 
dc Luna e sollicitada pelo Infante D. Pedro, seu grande amigo» {Ob. cil., livro II, cap. XXLX. 
pp. 141-142). 

Os historiadores espanhóis Cesar Silió (Don Álvaro de Luna y su ticmpo, Madrid, 1957, 
p 157) c Gregório Marafion (Ensayo bioUmco sobre Enrique IV dc CaMilla y sn liempo, 
Madrid, 1956, p. 42), aceitam a versão da morte por envenenamento da Rainha D. Leonor. 



I 



172 — 



morte dc sua cunhada, mosira-nos que o falecimento de D. Leonor teria sido 
aparenlcmenle natural, na medida cm que «es passada desta prescnt vida cn 
ialira axi com a Catholica c vcrtadera Christiana», o que ate certo ponto deixa 
prever um certo tirau de preparauio í"). É de pressupor, no entanto, que a soberana 
aragonesa não eslivcssc bem iníormadu .sobre as verdadeiras cau.sas do repentino 
passamento. 

* * * 

Inlere-^sa-noN consulerar sepuidanieiue quem foram os partidários ile D. L.eoniir 
que a acompanharam no seu exílio em Castela. I'ma pestjuisa analítica permitiu- 
-nos proceder á identil ica^^ão de prande parte das pessoas que se consagraram 
inteíramenle ao scrvu^o Ucsla senhora, com grande sacrifício de suas vidas e 
fazenda. 

De ciiire os principais, cabe-iios distinguir a fiL-ura de D. Afonso de C ascais, 
que se fe/ acompanhar de sua mulher. D. Mana de Cascais, tendo por tal motivo 
soíridt) a confiscação dc seus bens. conforme já tivemos ocasião de observar (''). 
Também o filho de ambos, D. Fernando de Cascais, .seguiu o caminho do exílio, 
pertencendo-lhc a mesma sorte quanto aos seus haveres (^). Outro dos fiéis que 
seguiu D. Leonor foi o Prior do Crato, D. Nuno Gonçalves de Góis 0< que teve 
junto de sí seus filhos Fernão de Góis e Pedro de Góis, ambos cavaleiros do 
priorado da Ordem de S. João do Hospital ou do Crato ("). Também João Freire 
de Andrade, fidalgo da casa do rei, se homiziou em Castela, levando consigo sua 
mãe, D. Catarina de Sousa. Por morte de D. Fernando de Cascais em Castela, 
casou com sua viúva, D. Isabel de Meneses, que também se encontrava desterrada 
no reino vizinho C-*). Junto da viúva de D. Duarte, esteve ainda o seu escrivão 



(^) I.H.M.B^ Cartas Reates Orighudes. série A-47{1. 

Idêntica carta foi enviada às autoridades do reino de Aragão <A.C.A., Cancillería Retú, 
Registro 3040. foi. 87). 

(■") A.N.T.T.. Chanciíaiia /). .il,>n%o V. livro 27. foi. 46v. 

Sobre ests fidul^o vcjani-sc dados bíográticosi a pp. lOU-iUi. 

A.N.T.T., Chancelaria tte D. Afonso V, livro 24, foi. 77-77v; Livro 10 de Estre- 
madura, foi. II9V'I20. 

Vc|am-se a seu respeito d;ultl^ hici-tiíficos na p. KH 

r) AN.T.I.. Chana l til lo <l< /). il.>ii.\,> V. lisru 24. tol. 92. 

tnconiram-sc dados biográlicoN a seu respeito a pp. 70-72. 

(") A.N.T.T., Chancelaria de D, Afonso V, livro 23, foi. 77-77v: Monumento Henricina, 
vol. IX, Coimbra, 1968, doe. 77. p. 105. 

(•*) A.N.T.T., Chu>u.hn(i de D. Afonso V, livro 24, foL 59v; Pedro de Azevedo, 
ob. eit., vol. 1. doe. CC XXI. pp. :>S-26(). 

Vejam-sc a seu respeito dados biográticos cm apêndice. 

— 173 



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da puridade, João Vaz Marreca Ç^), c o seu vedor da fa/enda. Diogo Gonçalves 
LoboC). Contrariamente ao ciuc sucedeu com Nuno Martins da Silveira, que 
não chegou a homiziar-se. partiram para Castela seus filhos Gonçalo da Silveira 
e Vasco da Silveira, após terem estado no castelo do Crato (' ). Por último, assina- 
laremos o nomo de Vasco de Quadros, moço-fidalgo. que fora criado em casa de 
D. Afonso de Cascais e que. por morte do mesmo em 21amora, passou a ser moço 
da câmara de D. Leonor C). 

Depois de termos passado em revista as principais personalidades que 
seguiram a rainha portuguesa nas suas vicissitudes em Castela procederemos à 
inventariação do pessoal da sua casa. constituído por escudeiros e criados, cuja 
identificação nos foi possível levar a cabo : 



(") A.N.T.T., Clumccííina dc D. Afonso V, livro 24, foi. 39v; Pedro de Azevedo, 
ob. cit^ vol. I, doe CCXXI, pp. 258 260. 

Vejain*ie a aeu respeito dados bíogcáficos em aptodioe. 

A.N.T.T., Chancelaría de D. Afonso V, livro 5, foi. 94v95. 
Vejam-se a seu icapdto dados biográficos em apêndice. 

(•) A.N.T.T., Chaneelarh de D. Afonso V, livro 5. foi. 79v. 

(<") A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 34. foi. 17v; Uvro 3 de Mistkos, 
foi. 103V-104V. 

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noaw 


CiCcfOria watM 


Foote 


Estevão Abrantes 


unaao oe u. Leonor 


A.rN.i.i., c II. lie u. Ajonio r, 
livro 5, foi. 18v 






A.NT.Tji Cli de D Alonaa V 
livro 5, foi. I8v 


Rodrigo Afonso^ 


Criado de D. Leonor 


A.N.T.T.. C/l. de D. Afonso V, 
livro 10. foi. 121-121V 


Diogo Gonçalves (^) 


Criado e servidor de 
D. Leonor 


A.N.T.T.. C/j. de D. Afonso V. 

livro 12, foi. 33-33v; Monu- 
• menta Henricina, vol. XI, 

Coimbra. 1970, doe. 127, 

pp. 154-135 


ÈJtOf/O Jaime y^) 


v^riauo ue u. ixonor 


A.iN.l.l., (_ /I. </e L/. AJOnSO w, 

livro 5, foi. Iv 


loio de Lisboa (") 


Criado e moço de estri- 
beiía de D. Leonor 


AJ<.T.T., C/l. D. /l/oiMO K. 
livrq 25, foi. 78v 



CO D. AtoOM V coocedeu-lhe carta de perdlo. em 23 de Novcnkro de 1454. depoh de o perdoado 

lei iklo diversas questSes com Margarida Afonso, moradora cm A/ambuja, a qii:(l chcyara ao ptrnio de o ter 
doestado com o tratamento de «tredor caMcllaao» por ter iUo para o reino vizinho com U. L«onor (A.N.T.T., 
Chancelaria de D. Alonso V, livro 10. foi. 121-I2lv). Radri||0 Afonso toi nomeado, por caria r<|ia de 2 de 
Feveceiro de escrivio das «In» em Acambuia. cacgo em que substituía an falecido Oomt» LouNOCO, que 

flora aí residente (A.N.T.T.. OMaceMa da D. Alawo V. livro 15. foi. l2Sv). 

(^) Na carta de iMfdIo que lhe fbl outOfaada pelo monarca, cm 14 de Abril de 1452. faz-sc alusSo ao 
papel assumido por este criado de D.Lcoiior. qua nlo se deve confundir com o vedor da fazenda da rainha. 
Dioto Goncalves Lobo. Quando aquda senhora partiu para Castela, ficou Diogo Gonçalves em Celorico da 
Beira, com \ua nuilhcr e filho^: pasiou então a si-r a sua casa o p.into passayeni onde ve hospedavam os 
moços de estribeira que traziam cartas de U. Leonor para o Infante O. Henrique. Aconteceu, porto, que foi 
praso jttJitameme cem um dos referidos mocos de estribeira: imediatamente chamado à presença de Fernando 
Ávidos, ouvidoi dn Infante D. Henrique, foi injuriado como ..trccdor e mocdoiro falsso», que «linha o rrevno 
vendido». Posto a tormento, recebeu cento e oito açoites sendo depois encarcerado; acabou por fugir da prisiio 
e refugiar-ae em Qwtda jtmto de D. Leonor, apenet regrasiando a seguir morte do Intame D. Pedro, iicaado 
a viver no couto de homiziados dn Sah igal (A.N.T.T . Chaaccbria de D. Afons* V, livro 12, fel. 3J>J9v: 
MoaaaMata HsavkuM, vol. XI. Coimbra. 1970. doe. 127. pp. 154-lSS). 

Já se fez reCerineía a seu nspailo, qoando se trasuu da confiscaçlo de bens a r*ftÍ^<fiiTt de 

D. Leimor. 

0*> UCndcas laota aos permitiram aludir a este criado de U. Leonor. 



— 175 



Nome 


Caicgoria social 

Criado e escudeiro de 
D. Leonor 


Fome 


Cristóvão Gonçalves Lobo (*') 


A.N.T.T., C/l. í/e D. Afonso 
livro 24, foi. 59v; Pedro de 
Azevedo, oh. cit., tomo L 
doe. CCXXI. pp. 258-260 


Brás Martins («) 


Escudeiro de D. Leonor 


A.N.T.T.. CV». (U- D. Afonso V. 
livro 25, foi. 54v 


Diogo de Pedrosa (") 


Criado de D. Leonor 


A.N.T.T., Ch. Jc D. Afonso V. 
livro 3fi, foi. 7 


Gonçalo dc Pinharanda (**) 


Criado dc D. Leonor 


A.N.T.T.. Ch. de D. Afonso V. 
livro 25. foi. 62 



Ainda nos surgem, entre os exilados, alguns servidores da Rainha D. Leonor. 
É o caso dc Pero Dias. argenieiro. que se homiziou no reino vizinho. Sabe-se 
a .seu respeito, graças a um contraio de emprazamento feilo com o abade de 
Alcobaça, cm 20 de Agosto dc 1434, que desempenhou as funções de vedor do 



(") Ejte criado de D. I^eonor dc^e ter passado a exercer, ap»)s o afasl,imentn do ijoverno do Infante 
D. Pedro, as funções de contador do rei na comarca e almoxarifado da Guarda. A carta rctiia de K dc Junho 
dr 14.^2 concedia-lhe autorização para rrnccder ao arrendamento das sisas, rendas e direitos do almoxarifado 
(A.N.T T., Chancelaria de D. Af»nsu V, livro 12 foi. !»8v-8Vv). Anos depois, por tuila dc 5 dc Maio dc 145.^. 
foi nomeado contador e arrcnd,idor das sisas e direitos dos almoxarifados de Sintra, Alenquer e das povoações 
vizinhas (A N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 15, foi. 38). 

(92) Na carta dc perdão q'.ic lhe foi outorgada pelo Rebente D. Pedro, em 29 de Mar,<> de 1445, refere-se 
o facto dele ter deixado a rainha e retjressado ao nosso reino «pêra nos serujr tome uerdadciro portuftcs» 
(A.N.T.T.. Ckancelaria de D, Afonso V. livro 25. foi 54v). 

Vejam-se a seu respeito dados biográficos a pp- 136-137. 

(M) Já foi referido, quando se tratou da confiscação de bens am partidários de D. Leonor. 



176 — 



hospital dos men.nos do 1 isboa ( ). Também Pedro Eanes, moço de estribeira 
de D. Leonor, que residia habitualmente em ívora. se conta entre os homiziados. 
Ao impetrar earta de perdão ao Regente D. Pedro, alegava que a sua atitude 
tinha sido ditada pelas obrigações que tinha como «oficiall» da rainha, as quais 
húviam cessado inteiramente por morte desta senhora ('*). Outro dos servidores da 
viúva de D. Duarte que vamos encontrar no reino vizinho foi Afonso Martins, o 
qual desempenhou, até à data do seu falecimento, as funções de cozinheiro-mor ("). 
Mênticas razões deparamos em Diogo de P^rafíta, que exerceu sempre o cargo 
de tesoureiro.da rainha ao longo de seu exílio C0> Para finalizar, cabe ainda apontar 
os nomes de Cide de Sousa, servidor de D. Leonor ("). e de Francisco Manresa, 
que também esteve ao serviço da rainha portugunaC"). 



) Carta do Infante D. Pedro de 4 de Fevereiro de 1441. A.NT.T., Alcobaça 

(S. Berniirdo). maço 17. n." 393. 

Havendo Pedro Dias partido para Castela «cm dcseruiço dcIRcj» c do nosso reino, 
foi escrita unia carta peio Abade de Alcobaça ao Regente D. Pedro, em que se suiicltava 
a confiscação de umas casas que o inculpado trazia empiazadas ao referido mosteiro. Em 
resposta, afirmava o Duque de Coimbra que se devia cumprir a determinação por ele já 
dada em Santarém a 4 de Dezembro de 1440, a uma pergunta idêntica formulada pelo 
abade, na qual ficava cstaÍ>jlecido «açerca dos beens que allgiíus que estani com a 
Senhora Rainha trazem desse moeslciro, ssc elics desse moesteiro sam a ellc dcuem dc 
ficar. E bem poderees tomar a posse como cousa uossa e aRecadar pera o moesleiroi (Idem, 
IhUtem). Supomos tratar-se do mesmo Pedro Dias, criado de D. Leonor, que. cm 2 de 
Novembro dc 1439, foi nomeado por esta senhora, em nome de seu filho, escrivaninha das 
obras c das sisas de Almeirim. Desempenhava tal ofício João Ferreira, que entretanto sc 
tmha ausentado (A.N.r.T., Chancelaria de D. A/ouso V, livro 38, foi. 4). 

(>0 A.N.T.T., Chancelaria 4e D. Aftuo V, livro 2S, foL 88-88v. 

1") A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 25, foi. 88v. 
Vejam-se sobre o mesmo dados biográficos em apêndice. 

(•) A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 34. foi. 2llv-2l2. 

Tivemos ocasião dc aludir a este tesoureiro, quando examinámos as conftscaçOes dc 

bens perpetradas contra os partidários de D. 1 cíuior. 

C^J Munuinenia Henricina, vol. IX, Coimbra, J9õ8, doe. 67, pp. 94-96. 
O supracitado Cide de Sousa era irmão de Ocmçdo de Sousa, comendador da Ordem 
de Cristo (A.N.T.T^ Chancelaria Óã D. Afonso V, livro 13, foL 84v). Esteve em Castela. 

ao serviço de D. Leonor, passando, por morte desta, a trabalhar sob as ordens do soberano 
aragonês Afonso V, conforme sc depreende de algumas cartas escritas pela mulher do 
monarca. Efectivamente, escreveu esta senhora, em 18 uc ij.'/cmbro de 1445, uma carta 
endereçada ao cónego da sé de Vich, Gabriel Cogolls, para que o mesmo entregasse a Cide 
de Sousa, setenta florins de ouro de Acagio, obtidos dos rendimentos da vila de Alcolea 
de Cinca, com o objectivo de ele efectuar uma viagem à Sicília, onde se encontrava a corte 
do Rei de Aragão iMonumenta Henricina, vol. IX, Coimbra. 1968, doe. 67. pp. V4-')í>>. 
Na mesma data, D. Maria escreveu outra carta às autoridades navais de seu reino, reco- 

— 177 

Fl. 23 



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Apresentaremos agora O principal pessoal eclesiástico que esteve ao serviço 
de D. Leonor ; 



mendando o escudeiro pitiiugucs puru a citada viagem {Monumento Henrkina, vol. IX, 
Coimbra, 1968, doe. 68. pp. 96>97).. Encontrava-se em Portugal, pelo menos, em Fevereiro 
dc 1453. Era entuo fidalgo da casa di^ rei c capitão dos navios «que ora mandamos a 
Guincea» fA N.T T , Chuitrclarid tU- D. A/t>nsi> V, livro 3, foi. 20v». Anos ilf''ois. vamos 
encontrá-lo cm Jacn, nu Andaluzia. Em 2 de Setembro de 1456, passa procuração a seu 
írmio, Gonçalo de Sousa, e a seu primo. Ruí de Sousa, para se poder consorciar com Leonor 
Fogaça, filha de Ruí Gonçalves, cavaleiro da Ordem de Santiago e comendador de Canha 
c Cahrcia, c dc V^iolante Fogaça. D. Afonso V confirmou o casamento em 26 de Janeiro 
dc 1457, dcsignaiido-o para fidalgo de sua casa e contador da casa dc D. Joana a Bcltrrinein 
(A.N.I.I., Chaturlaria dv D. Ajonso V. livro 13, foi. 84vj. Realizou ainda uma viagem a 
Castela, recebendo pura o efeito 70 dobras [Jorge Faro, Receitas e despesas do Fazenda Real 
de 1384 a 1481 (Subsídios documentais), Lisboa, 1965. p. 82]. 

Monumento Henricino, vol. IX, Coimbra, 1968. doe 79, pp. 106-108. 

Francisco Manrcsa era natural do reino de Aragão, tendo acompanhado D. Leonor na 
sua vinda a Pordij^al em I42S, por altura do seu casamento. Fxcrceu sempre as funções de 
almoxarife da rainha, seguindo-a fielmente e sofrendo toda a sorte de vicissitudes, quando 
ela fugiu de Portugal e se refugiou cm Castela (Monumento Henricino, vol. IX, Coimbra, 1968, 
doe. 146, pp. 213*214). Deixou sua mulher em Portugal, quando teve de fugir, o que deu azo 
a i)ue D. Maria de AragSo escrevesse, em 19 de Janeiro oc I44í>. uma carta a D. Isabel de 
L igel. instando para que a mesma intercedesse junto do convorlc, no sentido de o autorizar 
a ir «a exj rrcgno, por traher aqua su muger e algunos poços bienes que le han restado* 
(Idem, Ibidem, doc. 79, pp. 106-107). Soislvelmenie um ano depois, em 12 le Janeiro de 1447, 
escrevia a soberana aragonesa a seu marido para que o almoxarife fosse reconduzido no 
cargo de alcaide de Alcolea de Cinca, visto ter prestado relevantes serviços a D. Leonor. 
O pedido era motivado pelo facto de Afonso V de Aracâo ter provido nesse lugar a Ramiro 
de Funes (Idem. íbidiiii, doc, 146, pp. 213-214). Voltou D. Maria a insistir por carta de 1 de 
Março dc 1448, escrevendo agora a seu filho, o Infante D. Fèmando, e a outrot «fibdilM 
aragoneses, para que os mesmos se interessassem junto do marido pdo portador da carta, 
n fim dc que lhe fosse dado um ofício compatível na corte daquele monarca ou no reino 
aragonês (Idem, Ibidem, doc. 173, pp. 272-273). 

178 — 



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»■« - — 


Cateiwia todal , 


Fonte 


Mossem Gabrid LouvençoO*') 

• 


Capelio-mor da Rainha 
D. Leonor 


Ruy de Pina. ob. cit„ capi- 
tulo LXXXIV. p. 347; Duarte 
Nunes de 1 cão. ob. cit.. ca- 
pítulo XIII, p. 156; Gaspar 
Dias de Landim, ob, cit., li- 
vro lU cap. XXiX. pp. 139-141 


Gomes Afonso 


Clérigo de D. Leonor 


A.N.T.T.. C/i. </< D. Afonso V, 
livro 24» íoL 31v 


Alvaro Gonçalves C"*) 


Capelão dc D. Leonor 


A.N.T.r.. Ch. ilf n Afonso V. 
livro 34, foi. 76v; PeJro de Aze- 
vedo, ob. eit.f doe. CXXVlil, 
pp. 596-599 


Gonçalo Eanes 


Capelão de D. Leonor 


A.RT.T.« CA. ile D, Afonso V, 
livro 25, foi. 88v 


Gil VasquesC**) 


Arcediago da Guarda 


A N r T., C7/. Je D. Afonso V. 
livro 27, tol. IU8; Livro 10 ue 
Estnmadura. foi. 262v 


Ffct Felipe Jontto(»'<) 


Capelão de D. Leonor 


Monmnenía Heurkina, voi. X, 
Còimbra. 1969, doe 4, pp. 6-7 



(101) Vcjjni-vc as referencias feitas a «eu respeito no presente capiíutn. Há ainda a auinalar ter sido 
lirfvide |Mli> lUtmi* D. Mm do eart» dc Prior de Santo Miurfii de Sinin, confòrmc ae depreende da cana 
régia de 21 dc Jimbn j, 1441 !-m q : • c fe ita a apresentação dc Lub Pires. capdSo da coroa, para o mencionado 
beneficio (ANTI. Chancelaria dr D. AfMM V. livro 2. foi. 10.^). 

(1^'-) Na curta de iKrdâo q :e lhe foi conccUiUa pelo rcgenie. cm 15 dc Ahril de 1444. tnx-ns mençSo ao 
facto deiUe ckriga ter fuyido de LUboa f»n o Al|pr%c. Irêit meses apcn a partida da rainha para o Cralo. 
Preso no ATparvc. conseguiu cvadir-se. encontrando refÚ|tÍo em Santia|!o dc Comnnsicla. onde residiu. £ muito 
proviist-; i.i > itiihj chi'gjJ<i a cst.ir kimi D. LeonoT mt% suas pciviirina<Au> por Cs»lela (A.N.T.T.. ChM. 

celarb dc U. Afowi« V. livro 24. foi. }lv). 

(teS) D. Afonso V airlbuiu-ihc. cm 5 dr AhrH dc 145.1. a lenva anual dc 13 000 reaK brancos, retribuindo 
assim i's jlios Ncrvivos que prestara a >. .i m.u i \ N T T . Chaacdaria He D. Afnn^o V. livro J, ioi. 46). 

(lui) Já o rcferimoit c|uando tratámos da coníi>cai,ão dc bens a partidários dc II. Leonor. 

(IM>) Era prior de S. Pedro de Lhbon. quando D. Leonor saiu do reino. Exilado em Castela, foi capelio 

desta senhora. l-njo i-m-rcido as mesmas funçfirs api'\ .i mnrti.- jtinio do Infante D. H.nriquc Jc Araeão 

Afonso V. o Magnânimo, endereçou uma caila cm 20 dc Janeiro dc 144'>. ao Infante U. Fernando e ao 
Arcebispo dc Lisboa D. Pedro de Noronha, solicitando a sua rcintegracio no priorado. Desempenhava amio o 
cargo de capelSo^nor da viúva do infante arafonés (Monnmnla Henrician. vol. X. Coimbra. 1989. doe. 4. 
pp. «-T>. 

-179 



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Ainda dentro do pessoal da casa de D. Leonor, cumpre- nos fazer referência 
às damas de companhia desta senhoni, que a seguiram dedicadamente no seu 
deambular pelas terras de Castela : 



Nome 


CklcffiK toeW 
ou pfoOsdo 


Fonte 


Catarina Lourenço ("•) 


Camardra de D. Leonor 


A.N.T.T., CA. ae D. Afonso Y, 
livro 34. foi 106 


Joana Vasques 


Cnada da nmba D. Leo- 
nor. ca<iada COOI DiogO 
Pedrosa 


A.N.T.T., C/i. ae D, Afonso V, 
livro 34, íoK UO 


Beatriz Eanes 


Mulher de Rui Martins, 
escuuciro oo rnor ao 
Crato 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonsu V, 

livro IOI> 93 


Maria Dias 


Covilheira de D. Leonor 


Ruy de Pina, ob. tít, cxp. LXIV, 
p. 309 


fica triz CoreUa 


Dama aragonesa ao ser- 
viço de D. Leonor 


Ruy de Pina, nh. cit.. cap. LXIV. 
p. ^09; Gaspar Dias dc Lan- 
dim, ob, d/., livfo II, cap XI. 
p. 58 



N3o figuram no presente quadro algumas das principais damas, as quais já 
tivemos ocasião de aludir, que se encontravam matrimoniadas ou eram mães de 
determinados fidalgos, homiziados no reino vizinho devido à sua adesão à rainha. 

Segue-se o rol do pessoal de algumas casas da nobreza, que aderiu ou não 
ao partido da soberana portuguesa e encontrou refúgio em Cástela, junto desta 
senhora : 



(US) D. AfoDso V outorgou-lhe. em 25 de Agosto de 1449. a icnç* «njal de 6000 itaii, hrancos a pagar 
cm Lâboa «porque tuoet çeite qu« «Ua viucra com « Senhofa Roiniig minlMi nwdre» (A.N.T.T., ClMmeiMi 
«• D. AféMo V, ttvfo M. M. lOO. 



180 — 



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Nonw 


Oitaioria ««111 


Fontt 


Meem de Afonso (***) 


Escudeiro de D. Sancho 

dc Nori^nh:i 


A.N.T.T.. C/l. de D. Afonso V, 

livro foi -"'-•^■^v 


Pedro de Coimbra O 


Criado de D. Afonso de 

Cascais e ouvidor em 
Castela da Rainha 
D. Leonor 


A.N.T.T., C/l. de D. Afonso V. 
livro 2, foi. 125v; Uvro ÍO de 
Estrenwdura, foi. S2v-53 


Pero Domingues (^°') 


Criado de Diogo Pedrosa 


A.N.T.T.. C/l. de D. Afonso V. 
livro 36, foi. 7v 


João da Fonseca 0**) 


Escudeiro do Prior do 

Crato D. Frei Nuno 
Gonçalves de Góis 


A.N.T.T., Ch. dê D. Afonso V, 
livro 24. foi 92 


Fernão Galvão ("°) 


Criado de João Freire de 
Andrade 


A.N.T.T.. C/i. de D. Afonso V. 
livro 24, foi. 59v; Pedro de 
Azevedo, ob. clt.» tomo I, 
doe. CCXXI« pp. 2S8-260 


Afonso OU(^) 


Servidor cie D. Luís Cou- 
tinho, bispo de Coim- 
bra 


A.N.T.T., C/l. de D. Afonso V. 
livro 25, foi. 25; Monumento 
Henrícina, vol. VIU, Coim- 
hra, 1967, doe 196. pp. 290> 
-291 



(*•) Já se fez menvúo a seu respeito, quando aiuilúámos a confiseaçlo tfe imu a |Mrtidários tie D. Leonor. 
(MV) Já O rcfefl i m w petas mesfUM mothNM enunciados na nota anterior. 

(ic«) >,'a caria dc rfJ-l'^ *iue lhe foi concedidj por D. Afonso V. cm 20 Jc Janeiro de 1459. rcfere-Ne 
o facto (ie ele ter e»(ado em Ca»tcU com Diogo de Pedro»a. cavaleiro da casa do rei. aié ii data da morte de 
D. Leonor (A.N.T.T.. ClHUMeMi «e D. AfMM» V. livra M. fel. 7V). 

(irio) ls'o inslniiiifuto dc perdão que lhe foi oiitorpado pelo Rcgcnie D. Pedro, cm 22 dc Junho dc 1444. 
alude-se a circun&túncid do amnisiúdo ter ido paru Castela na companhia do Prior do Crato, com «tuem esteve 
acmire até A sun morte. Invoca em sua defesa que nunca «di^era mall alcuu de nos nem doa IfaiMcs meus 
mu>to amados Inos. (A N.T.T.. Chaaeeiaria de D. Afoa^o V. livro 24. fnl. 92V 

(ilb) O Regente D. Pedro conccdcu-lhc caria dc perdão cm 20 de Abril de 1444, com a condiv'ão, porem, 
da cmpifr o degrado de 7 anos em Ceuta, viuo sc encontrar inculpado na morte dO tlnidt pequaBO de Beja. 

No ntono tattrumento. alude^se ao (acto de ter estado em Casula com O. Leonor, m csmpwiMB de ido 
Freire iSe Andrade, de quem era criado (A.N.T.T.. CtoaeelarlB de D. Alans» V. livro 34. M. 59*: Fedro de 

Aievedo. ob. ck.. tomo I. doe. CCXXI. pp. 258-260). 

(111) Na carta de perdSo que lhe foi dada pelo Regente D. Pedro, em 2 de Junho de 144S. meocionMe 
ler o Bispe de Coimbra D. Lub Coutinlio afirmado qtie este seu «seruidor viuera cem a rrainha minha matlre, 

cuja alma Deus aja. quando se ela partira pcra o Cr;t)o c se fora com eia a Castelli. a'iv tomo (.c foram 
outros muytos que com ela uiuiam, e que auja dous anus e hia em tres que em este no»o rreino he. sem 
Bunc* nnjt loinar • Castela nem faaer cousa comra noaio aeniico porque mere«ese aehun pena» (A.N.T.T., 
Ckaaceleria de A. Altain V, livfo 2S. fel. 2S; Mannmania MiniliInB. vol. VIU, Colnbfa. IW7, dec IM. 

pp. 290-291). 

— ISl 



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Cateaork tocM 


FOM* 


loSo Gonçalves C*^ 


Criado de Vasco Martins 
de Resende 


A.N.T.T^ CA. de D, Afonso V, 
Uvfo 27, foL I28v 


Lub Martins (1^ 


Colaço de JoSo Freire dc 
Andrade 


A N.T.T., Ch, de D. Afonso V. 
livro 24. foi. 59v; Pedro dc 
Azevedo, ob. cit.. tomo I, 
doe. CCXXI, pp. 258-260 


Rui Martins («O 


Escudeiro do Prior do 
Crato D. Frei Nuno 

Gonçalves dc Gtíis 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonm V, 
livro 25. foi. 8S 


João Paulo 


Escudeiro de Fernfio Gon- 
çalves de Miranda 


A.N.T.T.. Ch. dc D. Afonso V. 
livro 25. foi. 63; Pedro de 
Azevedo, ob. cU., tomo I, 
doe. CCLI. pp. 289-290 


Rui PiltsC») 


Fscudeiro de Joio Freire 
de Andrade 


A.N.T.T.. Ch. dc D. Afonso V. 
livro 24, foi. 59v; Pedro dc 
Azevedo, ob. cit., tomo 1. 
doe. CCXXI. pp. 258'2fiO 


Joio Valente 0») 


Criado de Gonçalo da 
SUveíra 


A.N.T.T.. Ch. de D. Afonso V, 
livro S, foi. 35v 


Gonçalo VasquesO'*) 


Escudeiro do rei 


A.N.T.T., C/í. dc- D. Afonso V. 
livro 24, foi. 59v; Pedro de 
A/e vedo. ob. cit., tomo 1, 
doe. CCXXI. pp. 258-260 



(itS) jj o referimm. quando attordimm a ccmfixeaefA <le htim efectuada contra «k adrfNm de D. Leonor. 

("'') Ohlcvc c.irl.i dc p^-rdjo. cm 20 dc Abril do 1444. com a cnndÍ(Sa dc cuniprir '.cji- ;inn'. dc Ji-yrcJn 
cm CeuU. por ler iMrticirNido no a«.<««Unalo do alcaide pequeno d« Beia. Ao acoitipanhar JoSo Freire de 
Andrade, esteve em CaMela com D. Leonor (A.N.T.T.. CbaaMliria de D. Afamo V. livro 24. fel. 59v: 
Tcdro do A/evedo oli. cil.. lomo I, doe tCWI pp :<ii(-260) 

(■'■) Já o referimos, i{uando aludimo^ ao problema dc coiifÍNcai,'âo dc b«n^ aos piadidjrins dc D. Leonor. 
Ni cMta de prfdSo que lhe foi concedida pelo Reaenie D. Vtáro. em 5 de Main de 1445. fafrae 
11111. 1 brtvc re<.fnha d,i ;itri>iiil;id.i exivlcncia. Jo3o Paulo cm^ou cm Torres V't•dr:l^. ficando com a rainha 

untes c depois do falct.inu-nio dc U. Duarte; quando aquela senhora p-^rtiu para Castela, continuou a residir 
em Ponunal. Foi preso em Lisboa, devido a ter sido acusado par algumas fienoas que lha nlo queriam bea. 
acabando por fugir da cadeia. ChcBOu u região dc En(rc-Dnuro-c-Minhr>, onde se instalou na casa de Pedr» 
Gomes de Abreu em Monc2o: quando o corregedor da cone se dirit:ij r^ra essa localidade, steniiu receio • 
homiziou-sc na Cali/a, na terra de Paio G<imcs «honde ora ainda andava» (A.N.T.T., CkaBCAria 4ê 
D. AfoqM V. livro 25, foi. 63; Pedro de Azevedo, ok. dt.. tomo I. doe. CCLI. pp. 289.290). 

182 — 



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Passaremos, agora, a apreciar todos os casos de indivíduos homiziados em 
Castela que se encontravam ao lado de D. Leonor c cuja identidade, do ponto de 
vista social, não nos foi possível determinar : 



, Nome 


Daviou de ideniiíica^ão 


Fome 


Afonso ("9) 


Ex-morador no Barroso 


A.N.T.T.. C/l. í/f D. Afonso V, 
livro 25, foi. 76v 


Afonso o Moço ('*") 


Natural Jc Olivença 


A.N.T.T.. Ch. <le D. A f ouso V, 
livro 5. foi. 94V-95 


Diogo Alvares ('-') 


Ex-morador no Porto 


A.N.T.T.. Livro 2 dti Beira. 
foi P6v 


Abraão Amigo ('^) 


Judeu portuguC-s 


Monumvnitt Hfitricina. vol. IX. 
Coimbra, 1969. doe. 21. 
pp. 48-49 


Antão ('») 




A.N.T.T.. C/f. Je D. Afonso V. 
livro 24. foi. 59v: Pedro de 
Azevedo, oh, cit., tomo I, 
divc. CCXXI. pp. 258-260 



(116) Segundo a carta de perdão de 20 de Ahril dc N U. Rui Pires fit|tiii án cn iio de Arronche%, onde 
se encontrava homiziado por ter sido acusado do matar um hnniem, para Casichi. Obteve a umnisiia, com a 
condívão dc cumprir o degredo dc quatro anns em Arronches oti em Ceuta (A.N.T.T.. Chancelaria de 
I>. AfoBMi V, livro 24. foi. 59v: Pedro de Azevedo, ob. dl., terno I, d(K. CCXXI. pp. 2.<K-:60), 

(117) Sobre o mesmo, fi/emns referencia 141 ando tratámos da confiscarão de bens a<>\ partidários de 
U. Leonor. 

("*) AcuMdo de assassinar uni clcrii;o, visia hoini/iadn no couto de Arronches. Fuciu daqui para 
Castela. Obteve carta de perdão, eni 20 Abril de 1444. com a conJi.,'ão dc cumprir o dc>;redo cm Arronches 
ou cm Ceuta (A.N.T.T.. Chaocelarb ilc D. Afunso V. litro 24. foi. Vis: Pedro dc A/cscJo, ub. ril., tomo I. 
doe. CCXXI. pp. 258-260). 

(">) Partiu para Castelu com O. Leonor, encontrando-^e a viver na Gali/a cm 26 de Abril de 1445, 
dala em que lhe foi concedido o |x-idão (A.N.T T.. Chaareiaria dc 11. Afunsu V, livro 2.5. foi. 76v). 

(I2U) Na carta de perdão q..e lhe foi otitort'ada cm 25 dc ScU-nibro J.- 1446. aludc-sc ao facto de eh 
viver na companhia de Diogo Gonçalves Lobo. vedor da Rainha I). Leonor, com qi.cm partiu para Castela 
(A.N.T.T., Chanrrlaria dc D. Afonso V, livro 5. foi. 94v.<>5). 

('-') Um documento de 22 de Marco de 1447 faz referencia a CNte indi>id;.o «que ora he cm Casicllaa, 
para onde tinha ido juntamente com a viúva de U. Duarte tA.N.t.T.. Livro 2 Beira. foj. I26v). Tendo 
mais tarde regressado a Portugal, quis o soberano recompensá-lo pelos maiios scrvivos prestados no reino 
vizinho a sua mãe. nomeando-o reccl^cdor da-, renda', dc l oulc. com u It-nva anual dc AHOO reais brancos 
(Carta régia dc 28 de Junho dc 1476. A.N.T.T.. Chancelaria dc D. Afonso V. livro 7. foi .>6v). 

(12^) o supracitado judeu português aparecc-nos recomendado numa cart.i escrita por D. Maria de 
Aragão, em Julho dc 1445, ao príncipe herdeiro de Castela. Nela se alude que, em virtude «de grandes seruivos 
por cl fechos a la rrc>na dc Portugal», foi vítima de «algimas vnbrerias c ^-ratidcs sinra/nnes», que consísiirant 
na prisão de sua mulher c de seus filhos e na confiscação de seus bens (IVfonnMcnIa Henririna, vol. IX. 
Coimbra, 1969, doe. 21. pp. 4«.49). 

Conforme se pode ver na carta dc perdão de 20 Je Abril Ji- 1444. partiu para Castela com Joiio 
Freire dc Andrade (A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 24, foi. 59v: Pedro dc Azevedo, ob. cil., 
tomo I. doe. CCXXI. pp. 258-260). 



— 183 



Nome 


DidM de identificação 


Font* 


Artur (»*) 


Ex^morador em Tones 
Novas 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonso V, 
livro 27. foi. 40v: Uvro 10 de 


Diogo BarraUa&O^J 


Ex-morador em Beja 


A.N.T.T . Ch. de D. Afonso V, 
livro 35, íol. 29 


Gonçalo Barradas 0*) 


Ex-morador em Beja 


A.N.T.Tn CA. de D. Afonso V, 
livro 35, foL 29 


Fernão Pires das Cober* 
turas C**^) 


Ex-morador em Lisboa 


A.N.T.T.. C/l. de D. Afonso V, 
livro 25, foi. 55 


João Cordeiro ('") 


Natural de Olivença 


A.N.TX, Ch. de D. Afonso V, 
livro 23. foi. 53v 


Lofio DiasO") 




A.P. Lopes de Mendonça, Da- 
mião de Coes e a Inquisição 
de Portugal. Estudo Biogra- 
phico, in Annaes das Sdentías 
e Lettrús da Academia de 
Ciências de Lisboa, Lisboa, 
1858, p. 257 


João Domingues O^j 


Ex-morador em Arronches 


A.N.r.r., Ch. de D. Afonso V. 
livro 5. foi. llv 


Fernando 0") 




A.N.T.T., Ch. de D, Afonso V, 
livro 27. foi. 147 


Diogo Alvares OatoO") 


Ex-morador em Alenquer 


A.N T.T.. Ch. dc D. Af,'ii.so V. 
livro 27, foi. 117; Livro 10 de 
Estremadura, foi. 59v-60 



(III) Jé o referimos, quando iin.ilisãmns a cnnfi«c3i,'ãn de beiM % |»rtÍdáriM de D. LcOnor. 

(Ul) O mesmo se observa cm rclaviio a csic miiiviíluo. 

ÇSS^ Irmfo do ulterior, a quem tjmbém ji referimos em condiçfies análoget. 

(1!") De igual modo foi referido, quando abordámos a confiscaçSo de bens a partidários de D. Leonor. 
(128) Na carta de perdão que lhe foi outorgada cm 29 de Março de 1445. salienu-M que esteve em 
Cutela com D. Leonor até ao leu falecimento (AJ>J 1 l . C hw i c ilt ri i de D. AImm» V, livro 2S. foi. S3v). 
WtjuM» refertacias a seu rc«|ieÍio ■ pp. 132.133. 
(M) lá o r efc ri me » a propósito da confiscatfo de bens • ponidário» de D. Lcooor. 

(131) Idem. 
(U^ Idem. 

184 — 



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t 



Nome 


DadM de idemi(kaç9o 


Fonte 




nx-moraflor eni v/iivença 


/N.rN. 1 . 1 ., K 11. Ill u. /tjonto V , . 
livro 27. foi. 120v 


Fernão Lopes 


^.1 n S k E aXX 1 l_n_ Tl 

iNaiurai ue cvora 


A \] T T /■■/. ,1.. n AfnttM V 

livro 5, foi. 79v 


Pero Malpenteado C''^) 


Natural Uc Arronches 


A.N.I.I., C/i. dt P. AJoiíso V, 

livro 27, fd. !S2v 


Gonçalo Vasqoes Mourato 


Ex-moiador em Beja 


A Kl 1**1* -i— W\ A t^m^m.^ 1/ 

A.N.T.T., CA. de D. Afonso V, 
livro 27. foi. 76v 


Joio de Paios C») 


Ex-moiador no Turcifal 


A.N.T.T.. C/i. í/í- D. Alonso V. 
livro 27. lol. ilsv-lly 


Alvaro Pires 0") 


Ex-morador na Amieira 


A.N.r.T.. CVi. de D. Afonso V, 
livro 27, foi. 74; L/Vro ¥ de 
Oaiana, foi. 217v-218 


Fernando Piras C) * 


Ex-n)orador na Amieira 


A.N.T.T.. CA. ífe D. Afonso V, 

iivro 27, lol. 74, LAVrO 4 09 

Odiana, foi. 217v-218. 




c>A moiauor cni wraos 


A NTT /"/; //.' /) AfnitM V 
r\.í^. 1 ■ 1 V-'/. ut /■/. .tJUwlòO V f 

livro 27, foi. 138-138V 


Lu(s VazC") 


Ex-morador em Torres 
Novas 


A.N.T.T., Lli. de D. Afonso V. 
livro 24. foi. 61 



(in> 

0«) Idem. 

(IS") Idem. 

(>36) Idem. 

(UO Idem. 

(W) Idem. 

<I«) Uem. 

(»») Idem. 

A teu respeito vejam-se dados biográficos lu p. 8S. 



— 185 



Fl. 24 



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Cabe agora apresentar a lisla de um pequeno orupo dc pessoas, com menção 
do local onde viviam e da profissão que exerciam tempos antes de se terem 
iiomiziado : 



Nome 


Dados de identiíicatiío 


Fonte 


JtOo de Elvas (>») 


Oleiro, nattml de Elvas 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonso V, 
livro 27, foi. 72v 


Duarte Esteves (><*) 


Oleiro 


A.N.T.T., Ch. de D. Afonao V, 

livro 23. foi. 64v; Livro fi de 

Odiaiui- foi. 12*) 


Pero Gonçalves ('**J 


Azeiteiro, ex-morador em 
Mafra 


A.N.T.T.. Ch. de D. Afonso V, 
livro 27, foi. 139v 



Do conjunto destes dois últimos quadros resulta a seguinte distribuição geo* 
gráfica, relativa a indivíduos provenientes das diversas regiões do País. que se 
exilaram em Cástela: 

Entre-Tejo-e-Ouadiana 12 ... 57 

Estremadura 7 ... 33 

Entre-Douro-e-Minho 1 ... 5 

Trás^os^Montes 1 ... 5 

Total 21 ... 100 



Tal como já observámos, relativamente à proveniência dos indivíduos a quem 
foram confiscados os bens pelo Regente D. Pedro, tornamos a constatar, visto 
tralar-se na maioria dos casos das mesmas pessoas, que estas eram oriundas, na 
sua quase totalidade, das regiões do Alentejo e da Estremadura — Ribatejo, onde a 
rainha possuía os seus domínios. 



Já foi referido « propAsito <b confiscacSo ét bens a partidários de D. Leonor. 

(H") Idfr.i. 
Idem. 

186 — 



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Intcressa-iios agora estabelecer, moclianle uma dislnbuiçrio que tem como 
base a situação social cIon partidários tic D. Leonor exilados em Castela, o quanti- 
tativo dos indivíduos que nos íoi possível determinar : 



Fidalgos e cavaleiros II ... 14 

Damas de D. Leonor ou outras senhoras 8 ... 10 

Cldripos 6 ... 7 

Criados e escudeiros 23 ... 29 

Funcionários 6 ... 7 

Diversos 26 ... 33 



Toial 80 ... 100 



• * * 

A difícil situaçSo em que ficou o pessoal da casa de D. Leonor, após a morle 
desta senhora, ocorrida em 18 ou 19 dc Fevereiro de 1445, vísiumbra-se com 
clareza, sobretudo através da correspondência da caritativa soberana de Aragão. 
D. Maria, que sempre mostrou o maior interesse pela sorte dos mesmos. 

Em 1 1 de Outubro de 1445. escrevia a rainha a seu irmão o Rei dc Castela, 
no sentido de que não se esquecesse da sorte dos servidores de D. Leonor, fossem 
eles homens ou mulheres, c lhes desse pousadas gratuitas (" ). ao mesmo tempo que 
dirigia outra missi\a. com a mesma data. apresentando o seu procurador Ramon 
Cerdan ao alcaide-mor dc Toledo. D. Pero Lopez de Ayala, com a indicação de 
que esse emissário iria tratar de v-^algunas cosas tocantes los portogalesos e porto- 
galesas que eran en seruicio de la jllustrissinia rrcyna dc Portogal. nuestra mu> 
cara e niuy amada hermana. de bucna memoria, e le.s quales son seruicio c honra 
dei dito jllustrissimo rrey de Ca>iiclla* (""). 

Também sabemos, através dum memorando dado por D. Maria de Aragão 
ao seu procurador Ramon Cerdan, com a data das cartas atras citadas, que o 
monarca castelhano tinha encetado diligências junto do Regente D. Pedro, pant 
que o pessoal ao serviço de D. Leonor que tinha fícado em Toledo fosse repatriado. 
Teria entio o governante português enviado uma lista — cujo paradeiro actual* 
mente se desconhece — , na qual mencionava a identidade dos que poderiam 
regressar ao Páfs, a par de outros que ficavam impedidos de o fazer. A resposta 
do Duque de Coimbra teve a consequência de João II de Castela mandar retirar 



C*^) Monuimnta Henricina, vol. IX, Coimbra, 1968, doe. 53, pp 81-82. 
('«J Idem. doe. 54, pp. 82-83. 

— 187 



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as moradias a esses servidurcs. os quais ficaram «en tanto CXtremo dc pobreza» 
que ni son buenos pera curar c menos para partir» ( " ). 

Contra tal estudo de coisas, insurcia-se a bondosa soberana, ao revelar no 
seu memorando o espanto que tudo isto lhe causava. De íaclo. não compreendia 
onde csta\a o mal por eles praticado: pelo contrário, louvava a sua atitude de 
seguirem D. Leonor ven tal liempo e caso». Também lhe custava aceitar que. 
regressando eles a Portugal > pudiessen ha/er al infante don Pedro danyo njn 
deseruicio; e tanto menos lo farian. quanto ell mas liberalmente se houicsse con 
ellos». M.iis desumana se revelava a posição adoptada pelo regente português — 
na opinião da rainha aragonesa , ao de^^crrar c a\rar ducn\as e donzcllas qui 
naiuralmenic no han defension nj pucden ne discorriendo por cl mundo sin gran 
notamente e jnlamja de qui assi las fiziesse yr» ('**). 

Independentemente da supracitada relação, cujo teor se desconhece, vamos 
seguidamente apresentar a lista das cartas de perdão atribuídas pelo Regente 
D. Pedro aos partidários de D. Leonor exilados em Castela. Uma primeira relação 
constará dos perdões outorgados antes da morte da rainha portuguesa, à qual se 
leguirá outra, contendo as amnistias concedidas pelo regente após o falecimento 
da mesma. Num e noutro caso. dispensamo-nos de referir as fontes, visto tratar-se 
de indivíduos devidamente estudados no presente capítulo : 



Nome do amnistiado 


Dado« de identificacio 


Data da carta 


.Vicem lie Afonso 


bscudeiro de D. Sancho de No- 
ronha 


3-VUM442 


Fernando Pires das Coberturas 


Ex-morador em Lisboa 


23-in-1444 


Gomes Afonso 


Clérigo de D. Leonor 


lMV-1444 


João Freire de Andrade 


Cavalei ro-fidalgo 


20-IV-1444 


D. Isabel de Meneses 


Mulher de João Freire de An- 
drade 


20-IV-1444 


D. Catarin.t dc Sími^.i 


M ij Jc li'ni Freire de Ariilnide 


:ii I\ -1444 



l.i ni. doe. 52, pp. 79-81. 
(»♦•) idem. 

188 — 



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Nome do amnistiado 


Dados de idemificaclo 


DaM da caru 


AntSo 




20-IV-I444 


Fernão Galvão 


Cnado de João Freire oe An- 
drade 


20-IV-1444 


Luís Martins 


Colaço de João Frdre de An- 
drade 


20-1V-1444 


Pedro 





20-1V-I444 


Rui Pires 


Escudeiro de João Freire de An- 
drade 


20-IV-1444 


Gonçalo Vasques 


Escudeiro do rei 


20-IV-I444 


JoAo Vaz 


Escrivão da puridade de 
D. Leonor 


20-IV-I444 


João da Fonseca 


Escudeiro do Prior do Crato 


22-VIM444 



Do presente quadro extraiem-se catorze perdões concedidos pelo Lifiante 
D. Pedro em vida de D. Leonor. Vamos agora observar as amnistias por nós 
conhecidas outorgadas depois do falecimento desta senhora. |unda durante o 
governo do regente : 



Nome lio anuiKtiado 


Dados tle identificação 


Data da carta 


Gonçalo Eanes 


Criado do Prior do Crato 


21-IIM445 


Afonso Martins 


Cozinheiro da rainha D. Leonor 


27-111-1445 


Brás Martins 


Escudeiro da rainha D. Leonor 


29-10-1445 


João Cordeiro 


Natural de Olivença 


29-m-1445 


Pedro Eanes 


Moço de estribeira da rainha 
D. Leonor 


30-in-1445 



— 189 



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Nome <U> âmnbUftdo 


DidM de idewtificiçte 


DMa da cnts 


Dioso Jaime 


Criado de D. Leonor 


2I-1V-1445 


Afonso 


Morador no Barroso 


26-IV-1445 


Gonçalo de Plnharanda 

• 


Criado de D. Leonor e ex-almo- 
xarífe em Sintia 


29-IV-144S 


Joio Paulo 


Escudeiro de Fernfto Gonçalves 

de Miranda 


5-V-1445 


João de Lisboa 


Criado e moço de estribeira da 
Rainha D. Leonor 


5-V-1445 


Afonso OU 


Servidor de D. Lub Còutinho, 

Dispo QC VrOlUlDni 


2-VM445 


cSiBVfto ADranies 




i^iu'i imo 






14-IIIol446 


Jofto Valente 


Criado de Gonçalo da SOveiía 


2MV-1446 


Afonso o Moço 


Natural de Olivença 


25-1X-1446 



Neste quadro, siugem-nos dezassete cartas de peidâo, as quais, acrescentadas 
às catorze do anterior, nos dão a totalidade de trinta e uma amnistias. Ao contrário 
do que se verifica no quadro anterior, onde apenas deparamos com um perdão 
concedido a um clérigo de D. Leonor, deparasse neste último quadro com oito 
amnistias aplicadas a servidores da falecida rainha, o que se explica perfeitamente, 
se atendermos ao passamento da mesma. Outro aspecto para o qual queremos 
chamar a atenção : no conjunto de 80 homiziados, por nós identificados, apenas 
31 receberam o perdão do regente. 



190 — 



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CAPITULO V 



Relações entre Portugal, Castela e Aragão 
durante a regência do Infante D. Pedro 



As relações entre Portugal e os reinos de Castela e de Aragão, oeste período, 
processam-se fundamentalmente através do envio de embaixadas e da troca de 
correspondência entre os seus governantes. É necessário também assinalar o 
significado da intervenção militar portuguesa nas contendas travadas em Castela, 
entre os partidários do Condestável D. Alvaro de Luna e os Infantes de Aragão O* 

Fortes razões polftico^inástícas justificam plenamente as ínteifnências recí- 
procas observadas nos reinos peninsulares, durante a rçg^ia do Duque de 
Coimbra. A subida ao poder deste governante causou as maiores apreensões aos 
infantes aragoneses, irmãos de D. Leonor O* 4ue procuraram, por todos os meios 



O Uma anáUtt drcunstanciada dos problemas internos castdhanos enooatia-ie em 
Luís Suáiez Fernandez, Los Tnstàmaras de CastUta y Aragon en d siglo XV ( 1407-1474), 

in Hisióría de Espana, dirigida por Ramon Menendez Pidal, tomo XV. Madrid, 1964. Do 
mesmo historiador, veja-se tamhém Arasón y Pnrtutíal en ht politica de dun Alvaro de 
Luna, in Revista de Arduvos. Bibliotecas y Museos, tomo LIX, Madrid, 1953, pp. 117-134, 
c Relaciones entre Portugal y Castilla en la época dei Infante Don Enrique (1393-1460), 
C.S.I.C., Madrid, 1960. Outros estudos fundamentais para o conhecimento da ambiênda 
interna castelhana são o de César Silió. Don Alvaro </<• Luna y su tiempo. Madrid, 1957, 
e o de EIoy Benito Ruano, /-ot hiftinifs ,!c Aragon, C.S.l.C. Madrid, 1952. 

(-) O Prof. EIoy Benito Ruano olerece-nos a seguinte síntese sobre a ascendência e 
o nascimento dos Infantes aragoneses : 

«Los Infantes de Aragdn fuerao hijos de Don Fernando de Aniequera, el heitnano de 
Enrique III que, a la muerte de Don Martin el Humano, seria proclamado en Caspe Rey 
Jc Aragon por um grupo de compromisarios repr es e n ta nt es de los reinos — CataluAa, Aragito, 
Valencia - que componían su nueva Corona. 

Cuando Fernando 1, tutor y corregente de su sobríno Juan 11 de Castilla, tomó 
poiesidB dd trono a que le Uamaba su mejor deracho, era ya padre de siete vásiagos, tMcidot 
y educados en aquel reino. El orígen y ascendência, por tanto, de los Infantes, es netamente 
Castellano, y si sii!uieron circunstancialmente a su padre a la C orte aragonesa, y si los 
azares de sus respectivas vidas Uevaron a la maypria a vincularse con estrcchos lazos a 

— 193 

B. 25 



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ao seu alcance, pôr em execução um plano político-mililar que se opusesse aos 

desígnios daquele estadista. Como reacção a tal status quo. temos o repente 
português na qualidade de co-artítice duma poderosa aliança com D. AUaro de 
Luna C), edificada de maneira a contrabalançar a coligação araeonesa. Doravante, 
passará a ter o privado de João II de Castela, um precioso apoio por parte do 
dirigente pi^tugucs, sempre disposto a auxiliá-lo em todos o principais transes 
c acontecimentos. 

A partir de que nu)nK'nio se vislumbra com mais clare/a o entendimento entre 
os dois aliados? Por conveniência mútua, logo que O. l eonor. viúva do Rei 
D. Duarte, .se prepara para a.ssumir as funções de rcgcnie do reino. .\ào podia 
convir de modo algum ao político castelhano o triunfo da facção favorável a 
D. Leonor, na medida em que o mesmo iria reforçar o poderio da causa arago- 
nesa. Ccnno bem adverte o Prof. Luís Suárez Fernandez, procuravam os Trasta- 
maras do ramo aragonês, após o desastre naval de Ponza, criar de novo uma 
he^monia familiar sobre a Penfnsula Ibérica ('). Era precisamente isto que con- 



distintos reinos, nunca ae siiitieron* ni fueran conaidendos extrangeros en Castilla, ni extir- 
paron Ias hondas raices que los anudaban a su solar nativo. 

Fl primogénito. Alfonso, sucederia a su progenitor en el trono de Aragon y extender&i 
su reinado a N.i polés con cl titulo de Magnânimo. El segundo. Juan. scri? Rey de Navarra 
por su matrimonio con Blanca — hija de Carlos III cl noble de este reino — y, posteriormente, 
de Aragóii, al suceder a su hermano mayor. Enrique, el tercer hijo, seria desde bien joven 
Maestre de Santiago, y obtendrfo circunstancialmente el ducado de Villena, al casar con su 
prima Catalina, hermana de Juan II de C astilla. El siguiente. Don Sancho, mofiría a los 
dicciiiiete anos, sicndo desde los ticho Maestre dc .Alcântara. Don Pedro, cl último varón. 
siguiò el partido de sus hcrmanos cm Cuslilla y murió en el sitio i Nápoles combatiendo 
por Alfonso V. Y de las hermanas, Maria fué mujer dei Rey Castellano Juan II, y Leonor, 
esposa de Don Duarte de Portugal y madre de Alfonso V el Africano.» (06. e/r., pp. 11*12). 

(*) Além da bibliografia citada, vejam-se ainda os estudos do Prof. Manud Heleno, 
Subsídios para o estudo da n i;i'iiciu de D. Pedro, Duque de Coimbra, Lisboa, 1933; 
Prof. Avelino dc Jesus Costa, Ktlaçôt\ dt' D. Afonso V com Castela e Aragão em 1460, 
Braga, 1952 e Prof. Artur Moreira de Sá, Alguns documentos referentes ao Infante D. Pedro, 
separata da Revista da Faculdade ãt Letras de Lisboa, 1956, tomo XXII, 2.* série, n,® 1. 

O retrato caracterelógico de D. Alvado de Luna é-nos dado pelo cronista Feman Perez 
de Ouzmán, em Ceneraciones y Semblanzas. cd. Espasa Calpe, Madrid. 1941. pp. 131-147. 

(M Luís Suárez Fernandez, Relaciones entre Portugt^ y Castilla en la época dei ín/ante 

Don Enrique, p 

Sobre a batalha naval de Ponza, vejam-se as crónicas dc Pedro Carrillo de Hucte, 
Crónica dei Halconero de Juan li. ed. de Juan de Mata Carriazo, Madrid, 1946, cap. CXC. 
pp. 216-218, e do Bispo Don Lope de Barrientos, Refundiciân de la Crónica dei Halconero, 

ed. de Juan Je Mata Carriazo. Madrid, 1946, cap. CVII. pp. 192-194: Cf. também A, Paz 
y Mélia, Relación tíe la battdla de Ponza, in Revista de Arciuvos, Bibliotecas v Museos. 

194 — 



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vinha evitar e daf a coincidência entre o recomeço das guerras civis em Castela 
e o apoio moral concedido ao Infante D. Pedro na luta travada pelo poder 
em Portugal C). 

Que provas temos do apoio prestado por D. Alvaro de Luna ao Duque de 
Coimbra? Apesar de nos faltarem dados documentais concretos, bastar-nos-á, 
porém, o conhecimento de factos posteriores para compreendermos a atitude de 
gratidão do regente em relação ao privado castelhano. Conforme se lê em Rui de 
Pina, a ligação entre os dois políticos tomou-se mais forte, sobretudo, a partir 
do momento em que D. Leonor, afastada do poder, mantinha relaçdn epistolares 
muito intensas com os seus irmãos. Algumas cartas da rainha, apreendidas em 
Constança, continham mensagens dirigidas aos infantes aragoneses, induzindo^ 
a intimidarem o Infante D..F^ro com cmostrança de guerra». Pelo mesmo motivo, 
o governante português «trabalhou de se liar com o Condestabre Dom Alvaro de 
Luna, e com o meestre d*Alcantara Dom Goterre. que eram ambos liados oontrairos 
aos Yfantes. e tinham ho favor d*EIRey e muyto poder em Cástella» 0> 

A pressão efectuada no sentido da regência do reino ser devolvida a D. Leonor 
— o que aliás ji tivemos ocasião de a.ssínalar — . depreendé^ise do modo insistente 
como foram enviadas ao nosso País algumas embaixadas castelhanas e aragonesas. 
Não deverá causar estranheza que tal acontecesse, se atendermos à conjuntura polí- 
tica dos reinos vizinhos. Na realidade, dura e pertinaz era a luta travada entre os 
infuites aragoneses e o Condestável castelhano. 

Interessa saber concretamente, no entanto, qual a situavão política dc D. Al- 
varo de Luna. no nioniento exacto em que uma embaixada oriunda de Castela, 
chefiada por D. Afonso, filho bastardo do Rei de Navarra, e pelo Bispo de Cória. 



tomo I, Madrid, 1897, pp. 516-518; L Camò» Oibruja. História dramàtíea de una embt^ada 
barcelonesa en luUla, en 1435» separata do Boletim de la Retã Academia de Buenos Letras 

(Ic Barcelona, tomo XXV, 1953: FIoy Benito Ruano, la lihcractôn dc los prisinncro'; dc 
l*oti:a. in revista Hispânia, tomo XXIV, pp. ll-W^ e 2()5-287. Idem, Ponzo : hatalla y conwdietu, 
in Cuadernus de Ilisturia a/iexus du revista Hispânia, CS. l.C, Madrid, 1967, pp. 119-127. 

{^) Luís Suárez Fernandez, ob. cil., p. 53. 

(*) Ruy de Pina, Clironica do Senhor Rey D. Affonso V, In Collêcçào de Livros 
Inéditos de História Portugueza, tomo 1. Lisboa, 1790, cap. LV, pp. 295-296; Cf. Duarte 

Nunes dc Leão, Crónica e vida dcirey I). Affonso o V, tofno II, Lisboa, 1780, cap. IX, p. 129; 
Caspar Dias de Landim, O Infante D. FcJn., livro II, Lisboa. 1X97. cap VIU, pp. 42-43. 

A prova evidente de que D. Alvaro de Luna, afastado do poder pelo acordo «ic Castro- 
DuAo, continuava a mandar, reside no lacto do rei ter escrito em 30 de Otitubn» de 1439, 
a sua soUdtaçio ao oonoelho de Sepúlveda para que o mesmo o recebesse (Emflío Siez, 
Coleeción dramática de Sepúlveda, tomo I, Segóvia, 1956, pp. 525-528). 

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chegava a Santarcm. cm Outubro de 1440 ('). Ora. é do nosso conhecimento que 
o Condestável desse reino se cnconirava momcniânea c aparentemente afastado 
da cena política castelhana, desde o momento exacto cm que. na vila de Castro- 
nuno. foi assinado um compromisso, em 22 de Outubro dc IAM), no qual se 
estatuía que privado de Joào II vsaliese de la Corte, c se cstuviese cn su tierra 
por seis meses, é que en este tiempo no scribiese al Rey. ni tratase cosa alguna 
en dano de) Rey de Navarra ni dei Infante su hcrmano. ni de los otros Caballcros 
de su valia, ni de algunos dellos» O. Na realidade o desterro prolongou-se por 
mais tempo do que o estipulado, apesar de D. Alvaro de Luna continuar a influen- 
ciar, por intermédio dos seus emissários, o débil espírito do monarca. Com efeito, 
conhccc-se a intensa actividade diplomática por ele desenvolvida sobretudo durante 
o Verão e o Outono de 1440 O. 

A ambiguidade do panorama político existente no país vizinho ajuda-nos a 
compreender 6 carácter altamente aleatório da supracitada embaixada. De tal 
modo. que se observa uma estranha duplicidade por parte do Bispo de CÔria, 
pessoa de extrema confiança do seu soberano. Oficialmente, exige em nome de 
Joio II, cujas determinações partiam dos Infantes de Aragão, a devolução a curto 
prazo do regimento do reino à rainha D. Leonor, acrescido da reclamação e pedido 
de indemnização, contra os apresamentos e roubos efectuados «per mar e per terra, 
aos naturaaes de Gastella>; mas, particularmente, comunica ao Regente D. Pedro 
«que esta embaxada em que de vinha, era de comprymento pera a Raynha,. 
e pera os Yfantes 'D*Aragam; mas nom da vcmtade d*ElR^ de Castella. a quem 
pareda bem a maneira que no Regimento do Reino se tevera. e assy nom leixarem 



(^) Ruy dc Pina, oh. cit.. c:ip. l XII. p. 304; Duarte Nunes de l eão, nh. cit., cap. IX. 
p. 132; Gaspar Dias dc Landim, oh. cit., livro II, cap. XV, p. 72; Visconde de Santarém, 
Quadro Elementar, tomo I, Paris, 1842, pp. 329-330. 

(")' Fcffuui Perez de Guzman, Crónka delny Don Juan Segundo, in B.A.E., tomo II. 
Madrid, 1953. cap. XIV, p. 557; Cf. Lufo Suiiez Fernandez, Lo* Tmtíámarús de Castilla 
y Aragon en cl si^lo XV, p. 158. 

Escreve Pedro Carrillo de Huote :i pr«>pi>vnr> dcNt.i conctírdia : "Pcrit non cnvargantc 
esta suplicaciòn, por evitar tun grandes escândalos, uvicrunsc dc concordar que cl cunucsiablc 
saliese de la corte, a lomasen al ney de Nauarra e al ynfante todo lo que les avian tomado 
e repartido, o perfeta equiualençia de todo cIIob {Ob. cit^ cap. CX::XLV1II, p. 299). 

(•) Luís Suárez Fernandez, ob. cit.. p. 163. 

Segundo este historiador, «Ausente, cl condcstable maduraba su rcvancha. Tenia el 
ley decuiididamcntc de su parte y, por voluntad de éste, sus partidários reaparecen en el 
Consejo a partir de enero de 1441. Durante todo d verano y d otofio de 1440 doa Alvaro 
deqileió una sorda labor diplomática que afloia en los documentos hasta ahora conoddot, 
sin duda sélo en una pequena parte. La Iglesia y Portugal son, una vez más, los puntales de 
su apoyo exterior» (Idem, Ibidem). 

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aa desposiçam da Raynha a criaçam d'ElRey pois era molher. porque elle iiicsino 
Rey sentia em sy quanto mal recebera, por em semelhante casi> ser criado em 
poder da Raynha Dona Caleryna sua madre, e que o contrairo nom í>c esperava 
dc taaes Pryncepes como eram os Fylhos d"ElRcy Dom Joham» ("^). 

A artificialidade da primeira missão diplomática enviada por Castela — 
desde que D. Afonso V sucedera a seu pai no trono de Portugal — deve ter trazido 
ao espírito do Infante D. Pedro o maior dos alívios. Isto apesar das pretensões 
oficialmente manifestadas pelos onbaixadores estrangeiros em percorrer o País, 
a fim de estabelecerem contactos com as personalidades mais eminentes da nobreza 
e das autarquias concelhias, no que receberam a mais terminante recusa daquele 
governante. Para ganhar tempo, resolveu o Duque de Coimbra enviar circulares 
por todo o reino, no sentido de auscultar a opinião pública, do que deu conhe- 
conhecimento aos embaixadores. Reunidos os resultados do inquérito, apresentou 
como resposta : «Quanto aas tomadias, que pera justifícaçam delias se posessem 
juízes de huma parte e da outra nos estremos danifycados. E quanto aas cousas 
que tocavam aa Raynha, que ElRey envyaria seus Embaaxadores a ElRey de 
Castella, com tal resposta com que devesse ser satisfeito»; assim sucedeu, ao ser 
incumbido «Lopo Afonso, seu secretário e escrivão da puridade, da chefia duma 
embaixada enviada a Castela O. 



(10) Ruy de Pina, ob. cit., cap. LXll. pp. 305-306; Cf. Duarte Nunes de Leào, ob. cil.. 
cap. DC, pp. 132*133. 

Gaspar Dias de Landim apresenta uma versão diferente da dos anteriores cronistas, 
quando escreve que o regente soube pelo Bispí^ dc ( (■>ria "que o Condestable !). Alvaro 
tomava a privança dc El-Rei e esperava dc o mudar por razão da liga que com elle tinha, 
e com isto desfazer a pertensão da embaixada; o que não tardou muito que não fosse 
visto por obra, porque o Condestable foi crescendo tanto na privança de El-Reí. que por 
sua ordem ss mudaram todas as cou>:is e toda a negociação que havia por parte da Rainhas 
iOh. cit.. livro II. cap. XV. pp. 74-75). A narrativa deste autor é inexacta c fantasista, 
títl resultando sobretudo do desrespeito cronológico pelos factos ocorridos, pois, na altura 
cm que a embaixada castelhana chegou a Santarém, cm Outubro de 144U, permanecia aquele 
pcAíúoo no seu exflio. A prova de que vivia afastado da corte reside no focto de que, 
estando João II na cidade de Valladolid. em 5 de Janeiro de 1441. recebeu unm súplica 
do Condcstável para que lhe enviasse ate Temhio. aldeia tic Avila, alguns dos seus c:»ns2- 
Iheiros «a consultar con cl sobre los negócios e devaies que eran en el rreyno a la ^azón» 
(Pedro Carrillo de Huete, ob. cit., cap. CCLXXXVI. p. 365). 

(") Ruy de Pina, ob. cit., cap. LXII, p. 305; Cf. Duarte Nunes de Lefto, ob, cit„ 
cap. IX, pp. 132-133; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro II, cap. XV, pp. 74-75. 

O Prof. I uís Suárez Fernandez escreve, a propósito da supracitada embaixada, que, 
cm Outubro de 1440, «verificado ya cl solcmne e inútil martimonio dei principc hercdero 
don Enrique con Blanca de Navarra, el Infante don Juan se sentiu en la cumbre de su poder. 

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Manifestaram inquietação os emissários do país vizinho, ao receberem esta 
resposta do regente português. É muito aceitável tal estado psicológico, se aten- 
dermos a que os mesmos, ao regressarem, teriam de prestar contas à facção arago- 
nesa, senhora da fraca vontade do Rei João II. Pelo mesmo motivo, foriaram uma 
caria, cuja autoria atribuíram falsamente ao rei castelhano, em que o mesmo 
ordenava «que sem detreminada resposta de tixiallas cousas, sem outro seu especial 
mandado nom se partissem». A rapidez com que esta foi apresentada apenas 
no espaço de dois dias gerou no mi imo do regente a maior das desconfianças; 
podia muito bem acontecer «que taaes cartas e \nstruções» se compilassem em 
Almeirim, onde vivia D. Leonor, bastando para o efeito que trouxessem de 
Castela «sinaaes d'ElRey em branco e sellos de fora. sobre que poeriam o que 
quisessem». Para se certificar da verdade, o regente enviou à pressa pessoas de 
sua confiança, que se avistaram com D. Alvaro de Luna, no sentido de se escla- 
recerem devidamente; apesar de D. Alvaro se encontrar reclufdo na sua fortaleza 
de Escalona, houve artes para obter uma missiva de João II. em que o monarca 
negava terminantemente ter dado tais instruções aos seus embaixadores. Conhe- 
cedor o Infante D. Pedro da fraude praticada, deu ordens terminantes aos embai- 
xadores estrangeiros para regressarem ao seu país, sem a menor demora ("). 

A partida dos emissários do Rei de Castela, apenas se verificou depois da 
partida de D. Leonor de Almeirim para o Crato. Ora, este último acontecimento 
deu-se na noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro, pelo que se depreende 
que os mesmos apenas o tivessem feito nos primeiros dias de Novembro 

Pouco depois da embaixada ter deixado o nosso país, chegou até nós outra 
missão diplomática, agora oriunda do reino de Aragão, conforme as instruções 
dadas pelo seu soberano, ausente em Itália. Através da conjugação das crónicas e 
dos itinerários do Infante D. Pedro, temos conhecimento de que a sua vinda a 
Santarém se verificou entre o período de estada de D. Leonor no Crato e a partida 



Las Cortes, respaldando una acción revolucionaria, htibían confirmado iiiridicamentc el pro- 
grama de Ia nobleza. Fl bando aragonês decidio completar sii obra con una guerra contra 
Portugal. La deten>Ki de Leonor, pleito familiar, no bastaba. Por eso cn las instrucciones 
que se entregaron a un hijo bastardo dei rey de Navana. Alfonso de Aragon, y ai obispo 
de Coría figunban dos ordenes de quejas: por las violências cometidas sobre Castellanos 
cn tierra y mar y por el despojo de l eonor» (Relaciones entre Portugal y Castith en la 
vpoça dcl liifdiílt' Don Enrique, p. 54). 

('-) Ruy de Pina, ob. ctt., cap. LXIl, pp. 306-307; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cil.. 
cap. IX, pp. 133-134; Gaspar Dias de Landim, ob. elt., livro II, cap. XV, p. 75. 'Este último 
cronista omite a parte relativa & falsificação das cartas, sem contudo infirmar a sua exis- 
tência. (Ibidem). 

(■') Ruy de Pina, ob. cit.. cap. LXU e LXIU, pp. 307 e 309. 

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do regente da vila ribatejana a caminho de Avis. o que se verificou em 26 de 
Dezenibri) de 1440 ( '). Pertencia a sua chefia ao Bispo de Segorbe. v;pessoa cm 
que avia mu\ta doutrina e srande autorydadet ( ). Havia o mesmo recebido um 
memorial de Afonso V de Arasão. escrito em Gaeta a 22 de Fevereiro desse 
ano. segundo o qual lhe cumpria estabelecer contactos com D. Mana. mulher do 
soberano, que permanecia em Aragão; com o.s reis de Castela c de Navarra: 
com o Infante D. Henrique de Aragão; e com a Rainha D. Leonor de Portugal 
e o Regente D. Pedro. A ^rie de entrevistas que lhe pertencia realizar ajuda a 
explicar o motivo por que a sua ch.^pida ao nosso Pafe apenas se deu no aludido 
período ('•). 

Interessa saber quais eram as principais directrizes contidas no memorial 
atinentes a Portugal. Cumpria ao Bispo de Segorbe, antes da sua vinda ao Reino, 
conferenciar com o monarca castelhano e os infantes aragoneses, no' sentido de 
interferirem na concórdia a realizar entre D. Leonor e o Regente D. Pedro, de 
maneira a acabarem de uma vez para sempre com <les dessensions e dístrasies 
«ntre elles sçgujdes». Logo que o prelado entrasse em Portugal, deveria entre> 
vistar-se com a viúva de D. Duarte, manifestando-lhe de viva voz quanto o seu 
iimão desejava que ela e o regente fizessem «concórdia e assossech», para o 
que a referida senhora deveria obedecer às diligências encetadas pelo Rei de 
Navarra e pelo Infante D. Henrique de Aragão. Por último, deveria estar com 
o Duque de Coimbra, procurando alcançar o mesmo objectivo de «bona concórdia 
e vnjo> entre os cunhados desavindos, ao mesmo tempo que lhe faria ver a satis- 
fação que causaria ao soberano aragonês que tal acontecesse, sobretudo em atenção 
ao apreço que lhe devotava 0« 

Este memorial surge acompanhado dc outro com a mesma data, também 
confiado por Afonso V de Aragão ao seu embaixador. O seu conteúdo, de carácter 
altamente secreto, vem reforçar ainda ma's as directrizes contidas na confidencial 
referenciada. Alem das personalidades apontadas, com que o Bispo de Segorbe 
deveria encontrar-se. aparece-nos a indicação dc tjue lhe pertencerá falar na Cata- 
lunha com o Bispo de Lérida. Lm Portugal, junto do infante D. Pedro. íar-lhe-á 



('♦) Idem. Ibidem, cap. LXIX, p. 315; Cf. Duarte Nunes dc Leão. ob. cil.. cap. X, 
pp. 139-140; Gaspar Dias de Landim, ob. ciL, livro II, cap. XVII, pp. 85-86. Veja-se também 
\nscoiide dt Santuém, ob. cit., pp. 332*333 e Humberto Carlos ^quero Moreno, Os itine' 

rários do infante D. Pedro (1438-1448). separata da Revisla de CUneias do Homem da 
Universidade de Lourenço Marques, vol. I, série B, 1968, pp, 9-10. 

(I ) Ruy dc Pina, oh. cil.. cap. I XIX. p. .115. 

l'^) Monununta Henricina, vol. VII, Coimbra, I9í»5, Uoc. 44, pp. 60-63. 
(") Idem, Ibidem. 

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sentir o desgosto do Magnânimo pelas más «noujtats segujdes» ai acontecidas; 
aceita, no entanto, que as mesmas possam ser motivadas *por causa dela dita 
rreyna. la qual. por esser assais joue e por no hauer e saber be los costumes, 
pratiques e leys de aquel! rregne. facilment poria hauer dada occasio c causa a 
fer se noujtat». A solução prevista estaria em o regente português obedecer às 
diligencias das individualidades contactadas, sendo o monarca aragonês do parecer, 
contudo, de que se siga o processo posto em prática por seu pai D. Fernando em 
relação a D. Catarina, rainha de Castela, em análogas circunstâncias; mas se. por 
qualquer motivo, o governante português se mostrasse avesso a qualquer tentativa 
de harmoni/açrio. haveria a vantagem de lhe mostrar que a curto prazo lhe 
escasseariam partidários no País, redundando a contenda em benefício da cunhada. 
As últimas instruções insistiam na necessidade do prelado aragonês manifestar, 
junto do Duque de Coimbra, todo o apreço que lhe devotava o seu soberano, 
sem esquecer, porem, que a dèctivação duma presumível concórdia deveria trazer 
as maiores vantagens para D. Leonor; mas. caso contrário, proconff-se-ia garantir 
a esta senhora a maior liberdade de movimentos, assentando-se na ideia de que 
o jovem rei e 08 restantes filhos permaneceriam na sua companhia Ç*). 

A análise dos dois memoriais, mas cm especial a deste último, vfim revelar 
quão grande era o desconhecimento do Magnânimo — inteiramente absorvido 
pela conquista do reino de Nápoles — relativamente aos problemas portugueses. 
Além disso, a demora sofrida pelo seu emissário itinerante deu origem a que o 
quadro dos sucessos políticos revelasse profunda alteração, na altura em que 
chegou a Portugal. Procurou o Bispo de Segorbe. no entanto, adaptar-se às 
circunstâncias do momento, conforme veremos seguidamente. De maneira a que 
sua actuação fosse facilitada no nosso País. era portador duma carta de apre- 
sentação, outorgada pelo seu soberano, em 23 de Fevereiro de 1440. dirigida a 
várias personalidades portuguesas pertencentes à nobreza c à cidade de Lisboa 

Ao entrar em contacto com o regente na vila de Santarém, procurou o 
Bispo de Segorbe pôr em execução algumas das indicações contidas nos memo. 
riais. Mais do que nunca, importava agora uma conciliação entre os cunhados 
desavindos; porque, se na altura em que eles foram elaborados permanecia 
D. Leonor na sua vila de Alenquer, o certo é que agora se encontrava confinada 
na fortalc/a do Crato. Conhcce-se aproximadamente, a resposta dada pelo Infante 
D. Pedro ao prelado, gradas ;i narrativa de Rui de Pina. Teria afirmado o gover- 
nante português «Que pêra se tomar nelles conclusam bõa e honesta, como espe« 



('•) Idem, Ibidem, doe. 45. pp. 64-68. 
(») Idem, Ibidtm. doe 46, pp. 68-70. 



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rava em Deos que tomaria, era necessário a Raynha ser prescnic. ou ao rneno:» 
em algum lugar de suas terras, com tal repouso e assesscLo que nom parecesse 
fugida. E pera ysso que elle ante de ludi) sc lossc aa Rumiíki. e como com cila 
em cada huma destas maneiras acabasse sua tornada, se tornasse a elle. E que 
sobre ysso se ajuntariam com elle os Ynfantes seus irmaãos, c os do conselho 
d*ElRey nosso Senhor. E pratycariam acerca dos meos apontados, e se concor' 
dariam per seu meo. no que mais honesto e de rezam parecesse. B que se a 
Raynha nom quysesse tornar, que elle d'hy seguysse emboora sua viagem, é 
escusasse sua vinda mais a elle» (^. Na impossibilidade de alcançar uma concórdia, 
acabou o prelado por regressar ao seu reino, depois de se ter entrevistado com 
D. Leonor no Crato. É de supor que o insucesso da missão provocou no íntimo 
do soberano aragonês um profundo ressentimento contra o Duque de Coimbra ("). 

Sensivelmente na altura em que se dava o malogro da embaixada aragonesa, 
procedia Afonso V o Magnftnimo à elaboração de diversas missivas em que 
comunicava o envio a Portugal do seu conselheiro D. Garcia. Bispo de Lérida. 
Foram as mesmas escritas em Cipua. no dia 26 de Dezembro de 1440, tendo 
como destinatários p jovem rei de Portugal C^). sua mãe D. Leonor e os Infantes 
D. Pedro O, D. Henrique e D. João (^). Mal suspeitava então o monarca aragonês 
do que estava a passar-se no reino português e de que sua irmã se preparava 
para se exilar em Castela. É provável, no entanto, que a embaixada não viesse a 



^) Ruy de Pina, ob. eit» cap. LXIX, p. 315; Cf. Duarte Nunes de Leio. oh. eii.. 
cap. X. pp. 139-140; Visconde de Santarém, ob. rít.. pp. 332-333. 

(*') Gaspar Dias de Landim interpreta a conduta do Regente D. Pedro e do Bispo 
de Segorbe em moidc» diferentes dos outros cronistas. Para este autor. <> Vendo o Bispo qut 
se lhe não dava outra resposta, c conhecendo que o governador não estava cm estado dc 
coaoordia. te partiu descontente, mas por lhe nio ficar nada por tentar, por vêr se podia 
effcituar o a que vieca. tentou a Rainha, e com essa tenção se foi ao Crato, e o tratou 
com ella, mas como eslava e desmaginada que no governador tudo eram palavras para 
se escusar com ellas, e que posto que fosse a S.iniareii) não havia de vir em nv.iii ilgum 
que fosse de acceitar, c que sua pretensão era vela outra ve/, debaixo de suas guard.ts e 
vigias, para assim perder parte dos receios que tinha, nfto quiz vir no que elle pedia, e o 
Bispo se tomou a Angio sem outia alguma nsposta de sua embaixada, de que seu Rei nio 
ficou pouco sentido e escandalisado, c andando o tempo s: satisfez bem do governador por 
mão de ElRei D. Affonso seu sobnnhi). a quem por muitas vezes escreveu e persuadiu que 
não ficasse sem castigo as perseguivòes que sua mãe padecwia iOb. cit., livro II, tap. XVII, 
pp. 85-86). 

O*) híonumêtaa Henriebuh vol. VII, Coimbra, 1965, doe. 121, pp. 193-194. 

(») Idem. IhUh-m. doe. 122. pp. 194-195. 
('♦) Idem, Ihulnn. doe. 123, pp. 195-1%. 
l- j Idem, Ibiik-m. doe. 125. pp. 197-198. 

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Fl. » 



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realizar-se. ao chegar ao conhecimento de Afonso V o Magnânimo, talvez por 
intermédio dc sua mulher, o que aconíccera ha\ ia pouco em Portugal f '*). 

Entretanto, em Castela, operavam-se sucessos políticos anunciadores duma 
abertura dc hostilidades entre os infantes aragoneses e D. Álvaro de Luna ( ». o 
que muito deve ter contribuído para facilitar a campanha do Regente D. Pedro 
contra o priorado do Crato, sem o perigo ameaçador duma intervenção estran- 
- geira. De facto, constituía-.se em 21 de Janeiro de 1441. no reino vi/inho. uma 
liga anliluiiista. r.o momento exacto em que o Duque de Coimbra se encontrava 
prestes a terminar o assedio que movera á principal forlale/a do mencionado 
priorado ( ■). Naquela data. dirigiu João II de Castela, que se encontrava em 
Ávila, uma caria-circular para a cidade de Leão, em que se davam a conhecer 
* todos los males e danos e muerte.s e rrobos e escândalos c mobimientos que se 
aviam fecho en sus rreynos los anos pasados de 39 e 40 anos», pelo que se vira 
obrigado «por evitaçión de los dichos escândalos e dafios, apartar de si el con- 
destable don Alvaro de Luna, e al arçobispo de Toledo su hermano, siendo el 
dicho condestable persona de quíen él tanto fiaua. e algunos de los que estauan 
con su merced en Ia vllla de Castronuilo. que Io serufan eif su câmara; lo qual 
fué a soplícación dei rrey don Juan de Nauarra e ynfante don Enrrique, e almi- 
rante. e de los otros caualleros de su liança e opinión» O*). Inteiramente dominado 
pela facção oposta à do Condestável. o rei «envió. dezir a la dicha çibdad que se 
entendia aprouechar de sus vasallos e súbditos de sus rreynos, para la rregistencia 
de los grandes males, daiios e robôs e destruymientos que en sus rreynos se 
fazian por lo suso dicbos. en especial de la gente de la dicha çibdad de León e 
su tierra. confiando de sus lealtades, e en aquello que las leyes de sus rreynos 
mandaban. paiu fazer cerca de todo ello lo que deviese. como Rey e selk^^O"). 

O desenrolar dos aconjtecimentos políticos em Castela irão beneficiar extraor- 
dinariamente os preparativos militares do Regente D. Pedro na sua actuação contra 
o Conde de Barcelos. Livre de qualquer interferência, oriunda do exterior, pôde 



(*'•) A circunstância das crónicas «-ercrn omissas acerca da embaixada do Bispo de 
Lérida leva-nos u admitir a hiputcsc da sua não concretização. 

Lufo Suárez Fernandez, Los Trastámanu dt Castilla y Aragân en el sl^o XV, 
pp. 164-165; idem. Relaciones entre Portugal y Castilla en la epaca dei infante Don Enrique, 
p. 55. 

(2") Idem. Ibidem, p. \U<y. Idem. IhUiem. p. 55. 

O Regente D. Pedro permaneceu no Crato, pelo menos, até 17 dc Janeiro de 1441, 
de onde partiu em direcção a Abrantes. Nesta localidade vamos cncontii-lo desde o dia 21 
desse mês (Humbero Carlos Baquero Moreno, oh. cit.» ^ 10 e 67). 

(^) PcJro Carrillo de Hiietc. oh. cit.. cap. CCXC, p. 373. 
{») idem. Ibidem, cap. CCXC. p. 376. 

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o governante português levar a bom termo os seus desígnios, na altura em que 
saía de Lamego, a caminho de Lisboa, onde chegou cm 31 de Março (^'). davam- 
-se graves acontecimentos no País \i/inho. A siukiçAo era confusa e o equilíbrio 
precário, havendo muitas regiões que não aderiram à nobreza na sua lula com 
a íacvão partidária dc D. AKaro de l.unaí"^). 

Durante os meses de Fevereiro e Março, sofreu o Condestável uma série de 
reveses; mas, a partir de Abril, viu o estado de coisas melhorar sensivelmente. 
Assim, em 5 deste último mês, pôde almejar uma vitória sobre os capitães do 
Infante D. Henrique, próximo da sua vila e castelo de Escalona Idêntico 
êxito foi obtido no dia seguinte por seu irmão D. João de Luna« ^cebispo ide 
Toledo, que conseguiu levar de vencida a hoste do adversário, comandada por 
D. liiigo Lopez de Mendoza A acrescentar a estas esporádicas vitórias, temos 
a do seu aliado D. Gutierre de Sotomayor, mestre de Alcântara, vencedor, em 
10 de Abril, de Afonso Henriques, no Arroyo de Molinos (^). O resultado dos dois 
êxitos iniciais trouxe como consequência que D. Álvaro de Luna fosse chamado 
pelo leí a Avila em 8 de Abril Nesta cidade, conferenciaram secretamente, 
sendo de presumir que tenham traçado um plano táctico de acção. onde. numa 
manobra de diversão, provocariam a concentração do inimigo sobre o rio Tejo. 
enquanto que as suas hostes se encarregariam de atacar o adversário nas cidades 
do curso médio dos rios Douro e Adaja (^). Dando cumprimento ao estabelecido, 
observa-se uma junção em Escalona dos efectivos militares de D. Alvaro de Luna 
e do Arcebispo de Toledo, seu irmão. Daqui iniciam um ataque conjunto sobre 
T<mijos. importante baluarte militar do Infante D. Henrique de Aragão (")■ 

As vicissitudes da guerra civil castelhana deviam trazer o Regente D. Pedro, 
através de um sistema de espionagem bem gizado, num estado de alerta penna- 



(^') Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cii.. pp. II e 69. 

('-) 1 uís Suarez Fernandc/, Los Trostánxaras de Castilla y Aragótt ttt el tígío XV, 

p. 166; Cf. Cesar Silio, oh. cil.. p. 139 c seguinte?. 

{''^) Pcdni Carrillo dc Huetc, ob. cit.. cap. CCC, p. 389. 
(^) Idem. ibiJcm. cap. CCCI. pp. .190-392. 

Idem. Ihiihm. cap C CCH- p. 392. 
( '') Idem. Ibidem, cap. CCC II, p. 392. Cf. 1 uís Suarc/ I ern.mJc^. oh. cit.. p. 168. 

Jaime Vicens Vives, Monarquia y rcvoiíuiun tn la Lspaiia dcl si^lo XV. Juan II 
de Angón, fiarodoiui. 19SS. p. 102; Lufs Suárez Fernandez, ob ciu p. 168. 

(*) Pedro CarrOlo de Huete oontideni que a chegaila do Arcebispo de Toledo a 

Escalona se verificou em 24 de Abril {Qb. cit.. cap. CCCIV, pp. 393-394), enquanto que 
Fcrnan Perez de Guzman antecipa o acontecimento r'""- de Abril de 1441 {Ob. cif., 
cap. XIV, p. 579); Cf. Luís Saárez Fernandez, ob. cii., pp. 168-169. 

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nente. Estando na capital, nos primeiros dias de Abril, deve ter procedido à 

organização dos trabalhos preparatórios com vistas à concretização das cortes de 
l orres Vedras ( ). cuja duração se deve ter venticado entre 22 de Abril e 20 de 
Maio de 1441. em virtude dc ter permanecido ininterruptamente nessa vila 
O tema dommante de tais reuniões deve ter incidido em especial sobre o pano- 
rama político do reino vizinho, visto temer-se uma invasão do nosso território. 
Fundamcntanií^s a suposição na aprovação em cortes da cobrança de um pedido, 
que por certo se deslmava a reforçar a defesa militar do nosso País (")• 



C'^) Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit., pp. 1 1 c 69; Cf. Ruy de Kwi, ob, cU,, 
cap. XII. p. 147; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro II, cap. XXII. pp. 112-113. 

Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit., pp. II e 70-71. 

(*') Iria Gonçalves, Pedidos e empréstimos públicos em Portugal durante a Idade Média. 
Lisboa, 1964, pp. 159-160 e 208. Vcja-sc também o artigo dc Maria Teresa Campos Rodrigues. 
Cortes de Torres Vedras (1441), m Dickmáno de História de Portugal dirigido por Joel 
SerrSo, vol. IV, IJsboa, s/d., pp. 179-180 e a bibliografia aduzida pela autora. 

A análise de alguns capítulos outorgados nas supracitadas cortes revela-nos o estado 
social e político em que se encontrava o nosso País no ano ilc 1441. O problema militar, 
motivado pela crise existente, constituía uma preocupação dommante. Assim, o concelho da 
Guarda solicitava ao regente, de modo a não serem constantemente martirizados pelos 
coudéis, o cumprimento da ordenaçSo aplicada na Estremadura. Entendiam que a obrigação 
de possuírem 24 marcos de prata para serem mobilizados como besteiros a cavalo, ou de 
metade cicssa quantia para o serem como besteiros do ci>nto, nào estava dc acordo com as 
suas possibilidades económicas. O Infante D. Pedro, pelo contrário, era da opinião dc que 
deviam ser abrangidos pelas disposições em uso na cidade de Lamego e seu termo (A.N.T.T., 
Chancelaria de D. Afonso V, livro 2, foi. 89; Livro I da Beira, foi. 259). Outra reclamaçio, 
que se relaciona também com a questão militar, consiste nu petição apresentada pelo con- 
celho de Beja, dc que outrora os «lalardos dos uasallos se faziam em suas casas vijndo hi 
de presente o coudel. E ora Senhor de certos tempos aca sc faz pello contrairo K asy como 
concelhijs vãao com elles fazer os dictos allardos per os canpos e per lugares abomjnauees 
husurpandolhe sua honrra e franqueza que sobre a dieta rrazon teem os uasallos». A tal 
solicitação respcmdía o regente que se «nom vier moor tempo de neoesydade praznos que 
sciam \is(os em ssuas casas», o que aliás deixa adivinhar as preocupações existentes no 
seu ânimo (.A.N.T.T.. Chancelaria de D. .Afonso V. livro 2, foi. 3vl. Ainda outra queixa, 
de igual modo ligada ao foro militar, consiste na declaração dos piucuiadorcs da Guarda 

de que o anadel dos besteiros do conto residia fora dessa cidade, o que acarretava grandes 
inconvenientes; mais a mais acrescidos do facto dele se enctMitrar no txiadâo do cargo há 

dez ou do/e anos, quando a ordenação estipula apenas o máximo de três. Deliberava o 
Duque dc Coimbra a obrigatoriedade dele p-'*'''""' viver na cidade, pois. caso contrário, 
caberia ao concelho eleger um b,:stciro para o lugar, cujo nome deveria ser enviado ao rei 
de modo a ser-lhe concedida carta de ofício. O anadel reincidente voltaria à categoria de 
besteiro (A.N.T.T., Uvro 1 da Beira. foi. 259). Procuravam também os mesmos procuradores 
obter do rei o cumprimento do foral da cidade, o que estatuía que, ao «falecer (o] alcaide 

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Já depois de se terem reunido as supracitadas cortes, deu-se um agravamento 
da situação política e militar em Castela. A luta entre as duas facções parecia 



do Castello, que os boons emlejam alcayde lall que o mereça», no que obtinham a resposta 
de que se respeitasse a tradição (A.N.T.I.. Livro 1 da Beira, foi. 233). Finalmente, dentro 
deste âmbito, aludiremos ao pedido, aliás indeferido, baseado em que o conodho de Pinhel 
tinha noutros tempos ISOO a 2000 homens, restando agora apenas 700, devido às guerras 
e sucessivas epidemias, pelo que o número de 30 besteiros do cooto deveria ser reduzido. 
Compreende-se a decisão do regente, se atendermos às prementes necessidades militares do 
pais (A.N.T.T., Livro 1 da Beira. foi. 255v). 

Vislumbra-se nestas cortes o problema da carência de jusiiçu, o qual, na realidade, 
jtf vinha muito de trás. Os representantes de Lamego manifestavam que a cidade e a regilo 
se encontrava «muito faleçida de justiça, segundo que aquy foi dita ao corregedor da nossa 
crrte quamdo ora o senhor Repente cm esta çidade cstcue«, ao que o fjovernador respondia 
que tinham sido dadas instruções ao corregedor de modo a que possam «iseer guouernados e 
viuer seguramente» (A.N.T.T., Livro 1 da Beira, fols. 255v-2S6). Aproveitavam a circunstância 
para impetrar ao Duque de Coimbra a não designação de Lourenço Eanes — tal como 
algumas pessoas pretendiam — para o cargo de corregedor, pms o Rei D. Duarte se vira já 
obrigado a destituí-lo por incompetência. Tranquilizava-os o regente com a decIaraçSo de 
«que nos daremos a outro este carrego que o bem saiba fazer» fA.N.T.T., Livro I da Beira, 
foi. 236). Para o bom cxcrciciu da justiça, solicitavam os homens bons de Braga, de acordo 
com a legislação vij^te, que «n&hflu alcaide nom prenda, nem solte, nehfla pesoa que sela, 
sem mandado do Corregedor ou Juiz. E o alcaide desta cidade sem embargo da dieta ky e 
hordcnaçom prende os homeens da dieta çidade e seu termo sem mandado da Justiça». 
Retorquia o regente que daria instruções ao correg^xlor Aires Gomes da Silva, para pôr 
cobro à situação (A.N.T.T., Chancelaria dc D. Afonso V, livro 2. foi. 14). 

Contra a prepotência dos nobres, também se queixavam os representantes concelhios 
da nação. Assim, os procuradores de Lamego lamentavam-se de que Rui Dias de Sousa, 
cavaleiro-fidalgo, fazia grande desonra aos moradores da cidade e seu termo, «dormiindo 
com as moças c molhcres casadas c por casar, e tomando aos homens o que tem, e segandolhe 
seus paães, comendolhe seus gaados e galinhas, sem clle pagar nehflua cousa». A resposta 
dada pelo regente a esta questão revda uma certa fragilidade por parte do poder central, 
pois se, por um lado, se diz que o fidalgo foi citado para se «escussar» na presença do rei, 
pelo outro se dedara que tuenhai ele ou «nom ucnha» à corte, deverá ser enviado o com- 
petente rol de «agrauos», para o mesmo ser apreciado ( A N r r.. l ivro 1 da Beira. foi. 257). 
De igual modo. cs homens bons de Viseu qucixavam-se pelo facto de os fidalgos chegarem 
a permanecer na cidade à volta de quatro a cinco meses no ano. quando não mesmo um ou 
dois anos seguidos, sem possufrem «em ella nehOuas Remdas, danamdo com suas bestas os 
paacs, vinhas e ortas que dam frutos, filhamdo os seus a carne e pescado comtra vomtade 
dos almotaçees», pelo que se solicita ao poder régio «mandardes que os fidalgos esteem em 
suas terras homde tem suas Rendas c leixem a cidade aos poboradores delia sob certa pena 
que lhe pêra ello ponhaaes». A sentença formulada pelo regente «evela-se ddbia e evanvm 
ao afirmar que «os fidalgos virem aa çidade he homrra e nobreza delia, nom fiazendo mal 
ou dano», mas, caso prevariquem, deverão os citadinos recorrer aos juízes ou ao corregedor, 
chegando em última instância até à justiça régia (A.N.T.T., Uvro I da Beira, foi. 258). 

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estar iminente. Cada uma das hostes devia possuir um quantitativo de 1300 
homens O Condestávcl D. Alvaro de Luna. acomparhado de seu irmão, o 
Arcebispo de Toledo, entrou, na noite de 8 para 9 de Junho, na importante cidade 
de Medina dei Campo (' ). Ao instalar-sc aí. deparou com uma situação confusa, 
onde lhe escasseavam recursos e uma acção decidida por parte dos conselheiros 
do rei; apenas em 18 de Junho obteve autorização deste, graças ao apoio que 
lhe foi prestado pelo mestre de Alcântara c pelo Conde de Alba. para dar início 
às operações militares (**). São os partidários do Rei de Navarra existentes em 
Medina dei Campo quem. na noite de 2^ para 29 de Junho, abrem as portas da 



Outro género ilc acusações pronunci.ulas em cortes COnnstkl no protesto contra o 
excessivo prolcccioniMiui dispensado pelos nobres aos seus apaniguados. O tjtMicelho de 
Coimbra declara que u seu prelado, os priores de Santa Cruz e de S. Jorge, as abadessas 
de Lorvão e de Semide e ainda outros cavaleiros e fidalgos não enumeradm tsentam os seos 
caseiros da prestação dos cncar^ e serviços concelhios, de tal modo que mom pode seer 
a çídade seniida em suas obras* em virtude da «pouquidade da gemte que fiqua*. Exprimia- 
-se o governador no sentido das justiças velarem pela cxccuç;lo das ordenações dadas em 
cortes pelos Reis D. Joào I c D. Duarte (A.N.T.T., Livru 10 tle Estieiuadura, fols. 49-49v). 
Resposta parecida, tomava a dar, a propósito de uma petição apresentada por Viseu contra 
o» «moradores delia que se acostam aos fidalgos que a ella comarcama. O problema apre* 
seatava-se de tal modo grave que cbieuemente ja nom podem achar quem serua nos encar- 
regos da cidade, nem contribuir nas despcssas delia, a quall nom ha outras Remdas saluo 
todos pagarem nas despesas necesarius como se antigamente soy fazer» (A.N.T.T., Livro 1 
da Beira, fols. 2S7v-2S8). 

Tendo a cidade de Lisboa contribuído dcdsívanienle para o triunfo do Duque de 
Coimbra na luta pelo poder, aproveitou o ensejo para declarar que, no tempo de D. Joáo I, 
os seus moradores e vizinhos estavam isentos de papar em todo o reino, portacem, passagem, 
usagem e costumagem, sempre que importassem ou exportassem mercadorias para transac- 
cionar. Acontece que tais prívilégioc» nem sempre eram respeitados pelos fidalgos e pelos 
mestres das ordens religiosas, o que já dera azo a que o Rei D. Duarte obngasse esses 
infractores a comparecer perante O regedor da Casa do Cível, Pedro Eanes Lobato. Em 
função do pedido, determinou o repente que se desse cumprimento ao estatuído (A.N.T.T., 
Livro 10 de Estremadura, íols. 13-I3v). Por seu lado, os besteiros do conto de Sintra, 
aproveitando-se agora do exflio de D. Leonor, invocaram nunca terem pago jugada ou 
oitavo, quer à Rainha D. Felipa de Lencastre, quer ainda a D. Isabel, Duquesa de Borfonha, 
«saluo de pouco tempo aca que os a rraynha minha madre fez paguar». Foí'Uies confirmada 
essa isenção (A.N.T.T., Livm 10 de Estremadura, fols. 47-481. 

Pedro Carrillo de Huele, ob. ciu, cap. CCCXIV, pp. 409-410; Cf. Luís Suárez 
Fernandez, ob at., p. 170. 

(O) Feman Perez de Guzman, ob. eit„ cap. XXIII, p. SM; Cf. Pedro Carrillo de Huete. 
ob. cil., cap. CCCXIV, p. 411; Luís Suárez Fernandez, oh. cu., p. 170. 

(») Pedro Carrillo de Huete, ob. cU,» cap. CCCXVl, pp. 414-415; Cf. Luis Suárez 
Fernandez, ob. cit., p. 170. 

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cidade a esse soberano e à sua hoste. Tão grande foi o pânico engendrado, que 
resultou impossível ao privado de João II reunir as suas forças e oferecer resis- 
tência; apenas lhe restou na fuga a ptissibilidade de encontrar a sua própria 
salvação. Entretanto, o rei castelhano ficava cm poder dos vencedores (*^). 

Enquanto se dão tão graves acontecimentos no reino de Castela, assiste-se 
a uma relativa paz em Portugal. O Infante D. Pedro, no exercício das suas 
funções governativas, percorre algumas terras da nossa Estremadura, acabando 
por fixar-se em Leiria entre 12 de Junho e o primeiro dia do mês seguinte 
Foi provavelmente quando se encontrava nesta localidade, que recebeu a notfcia 
do desastre sofrido pelo seu amigo D. Álvaro de Luna. A má nova. por certo, 
provocou-lhe uma tremenda angústia, obrigando-o a deslocar-se para a capital 
do seu ducado, onde poderia recrutar homens indispensáveis para qualquer even- 
tualidade. Em Coimbra, demorou-se entre 8 e 18 de Julho O. 

Logo a seguir ao insucesso do Condestável em Medina dei Campo, amsti- 
tuíu«se uma junta composta por D. Maria, mulher de João II de Castela, pdo 
Príncipe herdeiro D. Enrique, pelo Almirante D. Fadrique e pdo Conde de Alba. 
Cumpria à comissão em que o último dos membros assinalados era um antigo 
correlegíonário do privado castelhano, promulgar um veredicto contra o vencido. 
Foi o mesmo proferido em 10 de Julho de 1441. depois duma discussão demo- 
rada (**)• Entre as diversas disposições, salientam-se as seguintes : D. Alvaro de 
Luna é condenado a um exílio com a duração de seis anos, ficando confinado 
às suas vilas de San Martin de Valdeiglesias e de Riaza e aos respectivos termos; 
o sentenciado ficava obrigado a proceder à entrega das suas nove fortalezas, 
incluindo o castelo de Escalona; todos os seus partidários eram compulsivamente 
afastados dos seus cargos, devendo ainda os seus cavaleiros, escudeiros e demais 
pessoal de sua casa deixá-lo. partindo para as suas terras. O assunto de D. Leonor, 
que se vinha protelando sucessivamente desde o seu exílio, seria examinado por 
uma comissão encarregada de sugerir ao monarca as propostas mais conve. 
nientes (**). 



Crónica de Don Alvaro de Luna, ed. de Juan de Mata Canriaio, Madrid, 1940, 

cap. XLVIII, pp. 152-1S4; Cf. Pedro Carrillo de Huete, ob. eii^ cap. CCCXVI, pp. 417-420; 

Luís Suarez Fernandez, ob. cii.. p. 171. 

0'^> Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit., pp. 12 e 72-74. 
O Idem. ibidem, pp. 12 e 74. 

(<*) Feman Perez de Guzman, ob. cit., cap. XXX, p. 598; Cf. Lufs Suilrez Fernandez, 

ob. cit., p. 171, 

(") Pedro Carrillo de Huete, i>h. cit.. cap. CCCXVIII, pp. 421-430; Cf. Feman Perez 
de Guzman, ob. cit., cap. XXX, pp. 598-604. 

r-207 



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Quando o Infante D. Fedro se encontrava em Coimbra, deve ter chegado até 
de o pedido de auxilio do Mestre de Alcftntaia, aliado do G>nde8tável vencido, 
que pretendia .abastecer as suas fortalezas de Magacela e Benqueienda, encra- 
vadas no mestrado de Santiago C*). Deixou o ttgsatt a capital do ducado em 
18 de Julho, tendo chegado à Covilhi em 22, aí se demorando até 1 de Agosto ("). 
A deslocação relaciona-se com o citado pedido, sendo para o efeito convocados a 
comparecer na vila os Infantes D. Henrique e D. João. os GMides de Barcelos, 
Ourém e Arraiolos e «quasi todoUos principaes do con8elhos>. Pertencia-lhes dar 
um parecer sobre a ccmveniència ou inconveniência de introduzir tropas portu- 
guesas em Castela. Unftnimemente. assentaram no princípio de que não se cdevia 
de meter gentes armadas em aqnelles Regnos sem authoridade DelRey de Castella. 
per que seria contra os trautos das pazes» C*), 

Apesar de João II de Castela se encontrar em poder da facção oposta, não 
teve o Mestre de Alcântara a mais pequena dificuldade em encontrar cquem lhe 
falasse e houvesse delle cartas signadas e sdladas, per que rogava ao Infante 
E>om Pedro ccnno a tutor que então era DelRey seu sobrinho e aos outros Infantes, 
que dessem qualquer ajuda ao mestre que elle requeresse, metendo gentes em 
seus regnos com armas, e sem ellas como necessário fosse; ca elle assi o havia por 
seu serviço, porque elle era fora de sua própria liberdade, e nom o podia per si 
defender» (^). 



O Gomes Eannes de Zuian, Chronka do Conde D, Duarte dê Meneus, ia CoUecção 

de Livros Inéditos de História Portiiíiueza. tomo III, Lirixia, 1793, cap. XXVI, p. 86. 

Escreve o cronista que «o mestre Dalcantara era em prande odio daqiielles Princepes, 
[Infantes de Aragão] porque tomara aquelle mestrado a hum seu tio Í.D. João de SotomaiorJ 
delle mesmo per engano, e prendera o Infante Dom Pedro seu Innio, daquelles sentio dle 
que lhe convinha ajuntarse coro o Omdeslabie, per que ambos podesaem achar melhor 
remédio que hum soo. Ca pois ambos jazião de huma doença, a ambos a cura devia ser 
igual, c desi buscarão seus remédios como homens cheos de grande sabor mesturado com 
malícia, mas o principal foi o do infante Dom Pedro, que foi grande azo de seu sostimento, 
atada que ao diante o agndedniento nom corresponde com o beneficio. E seguioue que 
sendo aqudies Princepes lonudos em Castella, e apoderados DelRey, e do mando de seus 
Regnos, mandarão a Dom João dc Soutomayor, a que Dom Gotcrre desapodcrara do 
Senhorio, que fosse guerrear as terras daquelle mestrado dandolhe gentes e dinheiro com 
que o podesse fazer, espicialmente principal authoridade pera se apoderar de muitas Villas 
e Castellot que o Infante Dom Anrrique linha naquella CcMnarca. as qiiaes som do mestrado 
de Santiago, cujo senhorio e governança aquelle Infante entito possuya, a qual houvera cm 
tempo que EIRey Dom FSemando seu padre regia os Regnos de Castella» {Oh. eit^ cap. XXVI, 
pp. 85-86). 

('') Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cif., pp. 12 e 74-75. 
( -) Gomes Eannes de Zurara, ob. cit., cap. XXVI, pp. 86*87. 
O*) Idem, Ibidem» cap. XXVI, p, 87. 

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A rapidez com que chegaram as notícias de Castela, permitiram ao regente 
dar início aos preparativos militares com a maior celeridade. Encontrando-se ainda 
na Covilhã, procurou angariar os fundos indispensáveis para a constituição dum 
pequeno exército. Assim, ordenou a Gonçalo Eanes, almoxarife na Guarda, «que 
ou\esse emprestados quarenta myl rreaacs brancos», os quais se distribuíam do 
seguinte modo : do cabidoo da Guarda dez myl rreaacs e da cumuna dos judeus 
da dieta çidade outros dez myl rreaacs e da cumuna dos judeus de Trancoso 
outros dez myl rreaaes e da cumuna dos judeus de Pinhel outros dez myl rreaaes» 
os quais foram entregues a D. Duarte de Meneses, alferes-mor do conselho régio, 
«pera sua despessa e das jentes que leuaua quando foy Alcantara por nosso 
serviço» ( 

De facto, o comando do corpo expedicionário pertenceu a D. Duarte de 
Meneses, que se fazia acompanhar por quatro capitães. Eram estes Gonçalo Ro- 
drigues de Sousa, cavaleiro da casa do Infante D. Henrique O, Martim de 
Távora, cavaleiro-fidalgo C^, Lopo de Almeida, cavaleiro-fidalgo e vedor da 
fazenda real CO c Gonçalo Rodrigues de Sousa, comendador de DornesO. Ao 
todo. o contingente militar era formado por 2000 homens, combatendo SOO a 
cavalo e ISOO a pé O. Destes, trezentos e vinte pertenciam à casa de D. Duarte 
de Meneses, sendo cento e vinte escudeiros «bem encavalgados e armados» e 
duzentos «homens de pee, e besteiros» 

A pequena hoste deve ter saído de Portugal, pela fronteira da Beira Baixa» na 
primeira quinzena de Agosto do ano de 1441. Ê de presumir que na altura da partida 
do Infante D. Fedro para Coimbra, onde chega a 4 de Agosto, que a mesma já esti- 
vesse então organizada f '). Sabe-se que a digressão dos expedicionários através 
do mestrado de Santiago não encontrou dificuldade de monta, a não ser a reduzida 
oposição que lhe mo\eu D. Diogo Enriquez, alcaide do castelo de Montanchez. 
Foi a mesma vencida, depois de os castelhanos terem sofrido alguns mortos e 
feridos e de o seu alcaide ter escapado de ser preso. Depois do recontro, prooe- 



P) A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 27, foi, I26v. Documento publicado 
na Monumento Henrieina, vol. VIII, Coimbra, 1967, doe. 48, pp. 84>86. 
( ' ) Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(•*) Idem. 
00 Idem. 

(^) B.N.P., Fond Portugais, n.* 9, foi. 210; Gomes &tnncs de Zurara, ob. clt., 
cap. XXVI, p. 87. 

(«•) B.N.P. Fond Portugais, n." 9, foi. 210. 

(••) Gomes Eanne'; de /iirar:i, ob. cit., cap. XXVi, p. 87. 
(^) Humberto Carlo:» Baquero Moreno, ob. cit.. pp. 12 c 75. 

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H. 27 



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den m ao abastecimento dos castelos de Magacela e Benquerencia. partindo a 
seguir para Zalamea de la Serena, que. a pesar de pertencer ao mestrado de 
Alcântara, se revoltara contra D. Gutierre de Soiortiaior. Atingido esie baluarte, 
procederam à ocupação de «hum arravalde que aquella Villa tem. que era abar- 
reirado. c com lossas darredor». para. logo depois, iniciarem o cerco da fortaleza. 
Não tardou muito que os seus defensores se rendessem, sobretudo quando cons- 
tataram que os sitiantes já se encontravam ^dentro em huma das cercas». A vila 
de Zalamea loi saqueada c destruída, não tendo, porém. D. Duarte de Meneses 
— ao contrário do que pretendia o Mestre de Alcântara, ciue se mostrou descon- 
tente consentido que se exercessem represálias sobre os seu.s habitantes. Finda 
u expedição punitiva, regressou o contingente a Portugal (*-). 

A digres.sâo deve ter durado próximo de um mes conforme se comprova pela 
circular enviada por João II em 20 de Setembro de 1441 a todas as cidades do 
seu reino. Nela se afirma que os portugueses «han entrado em mis regnos por 
diversas vezes com gente de armas asy e pic^como a cavallo, con tronpetas e 
pendones e vanderas tendidas, foliando mi tíerra e matando e prendiendo omes 
e forçando mugeres e tomando e robando bestias e ga nados e bíenes de mis 
súbditos e levándolos robados al regno de Portugal, e faziendo e cometiendo em 
mis regnos otras muchas osadias e males e daíios>("). Ê possível que a alusão 
do monarca castelhano à entrada dos portugueses, por diversas vezes, no seu 
reino, se relacione com os movimentos das quatro secções do nosso exército, 
que se encontravam sob o comando dos supracitados capitães. A travessia da 
fronteira, segundo supomos deve ter-se realizado em fases sucessivas. 



a*) Gomes Eannes de Zurara, ob. cit., cap. XXVI, pp. 87 89. 

Se cxceptuarmcis este último cronista, coevo dos acontecimentos (.lescritos, qiic se icfcrc 
com pormenor u expedição, as notícias que nos deixou Rui de Pina são exlremanicntc vagas 
e imprecisu. Escreve este dltímo cronista que o Inftmie D. Pedro «em fauor do meestre 
d*Alcanlara, e contra a tençam do Yfanie Dom Anríque meestre de Santyago. enviou a 

Castella por vezes e tempos, muyta gente abastecer Maga/ella e Bemqueiença fortallezas do 

mestrado crAlcanlara. e assy tomar a Vil.i de Sal.inqiia (Zalamea) que estava pello Yfante 

Dom Anrique» {Ub. cil.. cap. LVI. p. 297». Mais concordante com a realidade dos factos 

nos parece a crónica do século XV que pertenceu à biblioteca do Condestável D. Pedro, em 

que se afirma com precisão que «o Iffamte dom Pedro fez tres ajudas a eirrey dom Joham 

de CastcIIa scu primo. Com hú.i forom quynhcntos dc caiialo a ÇoUornea em fauor do mestre 
d.A!cantara úom Cioterre e forom capitaães dom Duarte de .Meneses e Gonçalo Rroyz dc 

bousa c Lopo dAlmeyda e outros fidalgos. E depoys de tomada a uyia de Colomea 
toroaronsse onrradamente pera Portugah (B.N.P., Fond Poriugais, n.* 9, foi. 210). 

(**) A.M.M., Canas originales de Juan II. n.* 103. Publicado por Luís Suárez Fer- 
nandez. Rei.dones entre Portugal y Castilla en la época dei Infante Don Enrique, doe 66, 
pp. 274-275. 

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A circular de João 11 revela à saciedade como o soberano do país vizinho 
SC encontrava à mercê da vontade do Rei de Navarra. Tinha sido cie o seu inspi- 
rador, pois sabia-sc que. no ituimo. o Rei de Castela professava ideias bem 
diferentes. Isto explica claramente que João de Navarra acalentasse o desejo de 
invadir o nosso território, pois são dadas instruções às cidades castelhanas para 
que os seus moradores estejam preparados com os seus cavalos, armas e lanças, 
logo que sejam convocados para a guerra {'''). 

O Infante D. Pedro devia estar atento ao processar dos acontecimentos. Basta 
dizer que permaneceu no Ducado de Coimbra — precioso alfobre de homens de 
guerra — entre 4 de Agosto e 12 de Novembro de 1441 O. nSo fosse acontecer 
que viesse a coiicretizar<-se a invasão castelhana. Como, entretanto, nada tivesse 
sucedido, deixou as suas terras a caminho de Santarém. Nesta localidade, cuja 
estratégica posição geopolítica convém realçar, demorou-se um perfodo de tempo 
que se estendeu de 13 de Novembro a 22 de Janeiro de 14420* Precisamente 
quando se encontrava na vila ribatejana recebeu a visita de duas embaixadas 
provenientes do reino vizinho, em que eram feitas ameaças de rompimento de 
hostilidades no caso de não serem atendidos os direitos que, segundo eles. perten- 
ciam a D. Leonor (")• 

Conforme já tivemos ocasião de observar no capítulo precedente, nada resultou 
destas missões diplomáticas. Quis o regente, no. entanto, precaver-se contra qual- 
quer eventualidade, reunindo para o efeito em cortes os três Estados da naçãa 
Celebraram-se as mesmas, como já vimos, na cidade de Évora, tendo decorrido 
os trabalhos entre 25 de Janeiro e S de Fevereiro de 1442 ("). Findos os mesmos. 



(*•) Idem, Ibidem. 

(* ) Humberto Carlos Bnqircro Moreno, ob. cit., pp. 12 e 75-81. 
(«) Idem, Ibidem, pp. 12 c í^I-84. 

(«^) Ruy de Pina. ob. cu., cap. LXXVIII, pp. 332-334; Cf. Duarte Nunes de Leio, 
ob. cit» cap. XII, pp. 148-149; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., cap. XXIII, pp. 114-118; 
Visconde de Santarém, oh. cit., pp. 333-334. 

(*•) Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cil.. pp. 12 c 84-85; Cf. Ru\ de Pina, 
ob. cit., cap. I.XXIX, pp r^.S-33(>. Duarte Nunes de Leão. ob. cil.. cap. XII. pp. 148-149; 
Gaspar Dias de Landim, i>h. cit.. livro 11. cap. XXIV. pp. 119-121. Veja-se também o artigo 
do Prof. Joaquim Verfssíino Seriio. Cortes de Évora (1442), in Dicionário de História de 
Fortuiitd dirigido por Joel SerrSo, tomo II, Lisboa, s/d., p. 152 e a bibliografia aduzida por 
este historiador. 

Diversos foram os assuntos trat.uKis n:is ciutCN de rvor.i Je 1442 cabendo destacar, 
cm primeiro lugar, o problema financeiro derivado da intenção de se atender às prementes 
necessidades militares. Rui de Pina afirma que se coutorsaram tres ' pedydos» {Qb. cit., 
cap. LXXIX, p. 336), no que é seguido por Gaspar Dias de Landim (Ob. cit., livro 11, 
cap. XIV, p. 121). Apenas deve ter sido cobrado um pedido e meio. conforme no-lo demonstra 

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regressou o Infente D. P^ro a Santarém, onde permaneceu por largo espaço de 
tempo, entrecortado de vez em quando, por umas idas a Lisboa C^). Ainda 



a Dr.* D. Iria Gonçalves {Ob. cit., pp. 161 e 208). Oulios lemas dignos dc nota são os 
capítulos gerais que m: prendem à justiça e à concessão de privilégios. Em relação à primeiru 
questito, afirmavam os procuradores concelhios que «a justiça he hda das prindpees vertudes 
que som no mundoi, apresentando-se, no entanto, tão corrupta que a maior parte dos crimes 
ficavam impunes. Tal impunidade devia-se sobretudo ao facto dos autores dos delitos se 
colocarem à sombra dos poderosos. Ao serem solicitadas providências, respondia o regente, 
em nome do seu régio sobrinho, que ao povo pertencia guardar três preceitos: ]." deviam 
auxiliar os corr^edores e os jutiies no cumprimento das suas tarefas judídait; 2.** nio deviam 
dar guarida ou qualquer espécie de proteção aos malfeitores; em tudo deviam ser 
obedientes aos representantes da justiça, realizando as suas acções com exemplaridade (.A.C.L., 
Colecção de Cortes, tomo VIII, pp. 53-54v. ( f. ().\ periiaminhos Ja vnnuirti dc Ponlr dr 
Lima, in O Anjiuóhgo Fortunuês, vol. XV, Lisboa. 1910, p. 11). No respeitante aos privi- 
légios, declaravam que lElReJ dom Joham E os Reis que ante elle forom derom priujiegios 
aos fidalgos e uasallos que seus caseiros e launidores e moordomos e amos e pamnjgados 
fossem príujligiados E escusados de seruirem em ncnhOus encarregos, nem com outros 
ncnhQus Senhores, sse nom com cllcs F dos primeiros homeens que ora foram constrangidos 
pera estes trabalhos que ora ouuestes, assy foram os sobredictos, o que nos parece grande 
agrauo seruirem com outmn, saluo com sseus amos quando aerujrem. Porque uos pedimos 
por mercee que tall costrangimento sse nom faça, que se os sobredictos forem costrangidos 
ficarom as qujntaas e herdades por laurar E elles nom teeram com que uos serub, que ja 
nom teem outra contya soomente esta». Em resposta, dizia o Infante D. Pedro que era seu 
desejo respeitar os privilégios constituídos, oferecendo garantias para que os n>esmos fossem 
sempre guardados (A.M.C., Pergaminho avulso, n.* 68. Veja-se também na A.C.L., CoiU-cçào 
de Cortes, forno VIII, pp. 55-56). 

Alguns capítulos especiais lígam-se ao problema militar. Queixavam-se ot representantes 
de Tavira de que «per ho vosso coudell he mandado aos comtíosos que pareçam com cauallos 
c armas a çcrto tempo sob penna de scerem degradados». Ora este estado dc coisas não se 
podia manter, porque aelles nom podem leer taaes cauallos, nem os soportar, nem roanteer, 
por a terra nom seer de condíçom pera os poder manteer. Que em ella nom ha palhas, 
nem çeuadas, nem pastos dheruas, nem almargeens, pera poderem soportar, nem manteer 
taaes cauallos; que he em ssy tam estreita e Iam pouorada dc hcrd i -s per que todos viuem, 
que nom he de comdiçom de rriba dOdiana, nem de Estremadura, homde ha gramdes 
lauranças e pastos pera manteerem taaes cauallosi. Solicitavam ao regente, tal como se fazia 
aos môradores de Lisboa e do Porto, cque mandees que o caualleyro oontioso cm cauallo 
e armas tenha dois arneses. E o caualleyro de cauallo rraso lenha hflu ames. E elles terram 
cuydado aver e screes delles seruido. F doutra guisa numca ho serees. porque breucmente 
numca podem manteer taaes cauallos p<>r penas que lhes ponham». Atendia o governador ao 
pedido, determinando uque o que tor comtioso em cauallo c armas, tenha o dito cauallo 
e armas pera nosso seruiço como lhe he mandado. E o que for em cauallo rraso queremos 
que este tenha beesla de garrucha e arnês comprido. E do cauallo seia escuso» (A.N.T.T., 
Livro 6 de Odiana, foi, 131). Também reclamava o concelho de Lamego pelo facto do seu 
nsno coudel Rodrigo Fanes, e>-cudeiro do ( onde de Marialva, querer «bolir connosco e nos 
aconliar outra vez de nouo>. hm sua deicsa, deciaiavain que, uu tempo cm que Lopo Dias 

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durante o ano de 1442, depan-se-nos a vinda de outra embaixada castelhana 
que visita o regente no Porto, no período compreendido entre 18 e 31 de Agosto Ch 



foi coudel da cidude. «pos cadu húuu pessoa nuqucllas urinas que cada húu merecia. H ajnda 
que nos em ello fazia algOu tanto dagrauo, porque entendjamos que nossos Regnos nom 
erom em boa ooncordja, fomos contentes de tcermos por nosso seruiço aquelles armas que 

nos per elle forom deytadasi. O regente dava-lhcs parcialmente razão ao ordenar que nSo 
voltassem a ser acontiados os que não tivessem bens ou ofícios; mas sc-lo-iam cm caso 
contrário. (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 23, foi. 54v; Cf. Livro 2 tia Biiia, 
fols. 98V-99). 

O despovoamento de algumas localidades (ambém tinha os seus reflexos em matéria 
de guerra. Reclamavam os representantes bracarenses, porque nSo podiam manter o número 

dc cinquenta besteiros do conto consignados pela ordenarão, pois era «a çidadc muy mintrunda 
de gentes» c «os homccns mançebos que hi ha pcra fazerem besteiros sam muyto poucos», 
acrescido ainda do facto de tsam tam pobres que nom teem de seu per que possam comprar 
hOiM besta posto que os beesteiros façom». Acedia o regente a que o seu quantitativo fosse 
reduzido para trinta c cinco, mas apenas por um período dc cinco ano» (A.N.T.T., CluincHaría 
<lc D. Afonso V. ii\ro 23. foi. 54). Idêntica era a linguai'.em dos procuradores de Monlcmor- 
-o-Novo, ao pedirem a redução dos besteiros do conto de trinta para vinte. Desta feita, o 
regente concordava que a mesma se fizesse, mas apenas por um período de quatro anos, 
por ser um lugar «m^guado de gentei (A.N.T.T., Chancelaria de D, Afonso V, livro 23, 
foi. S3v: Cf. Livro 6 de Odiana, fols. 128-I28v). 

A isenção de cumprimento das tarefas concelhias tornava a suscitar um coro dc pro- 
tcsti>s. Os procuradores da Guarda, Gonçalo Fanes, alnioxaiifc nessa cidade, e João Afonso 
da Vela, lamentavam-se de que muitos «homeens mançebos» que «tem bem de comer e 
ssam boons offiçíaaes» se fiuíam «fraives da terceira hordemi para se eximirem aos «emcar* 
regos do concelho, seemdo homeens que merecem ser acontiados em cauallos ou em armas 
ou em beestu de garrucha». Dava-lhes razão o governador, ao estipular que «seruam em 
todollos encarregos como os outros casados^ (A.N.T.T., Chancclana <lc D. Afonsi) V. livro 23. 
foi. 13v; Cf. Livro 2 da Beira. foi. 96). O concelho de Viseu, através dos seus cidadãos 
Pero da Costa, escudeiro, e Antfio Gonçalves, escrivão, protestava contra aqueles que se 
«achegam aos fidallgosi para se «scusarem de pagarem» as fintas e talhas obrigatórias, 
ao que o regente dava provimenio, mediante uma carta escrita ao corregedor paia que 
penhorasse os refractários «cm dobro daquello que lhe montar ni dita fimta c talha» 
(A.N.T.T., Livro l da Beira, fols. 99v-IO()(. Em idênticos termos reclamavam os de Lamego, 
acresoentamto a alinSo ao Cacto de que esses privilégios tinham sido outorgados pelo Rei 
D. Duarte e pelo Bispo da diocese. Desta vez, o regente mostra va-se evasivo ao responder : 
«Jumtense todos em rrolaçom e hordencm hi1ua bolsa em que todos paguem se virem que 
lie seu provcyto» (A.N.T.T.. I.ivm 2 da Ih im. foi. 102). 

Ainda nestas cortes foram concedidos alguns privilégios .'i cidade de Lisboa. Dcstacam- 
-se entre eles a autorização dada aos seus cidadãos para «que possam trazer espadas 
danballas maãos ssem enbarguo da nossa defesa», o que, no entanto, foi negado «aos vassallos 
delia c de sscu thermo" (A.H.C.M.L.. Livro 2: dc D Dicnte c D. Afonso V, Sol. 26; 
Cf. A.N T. r., Livnt 10 ,/, Ksín nuiduta. foi. 14\i, \ islimihr.i-se nesta atitude um sinal de 
reconhecimento do Infante D. Pedro relativamente aos serviços que lhe tinham sido prestados, 
aquando das lutas pela posse da regência, pelos burgueses da capital. Também acerca do 

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à qual este responde com uma missão diplomática enviada a Castela no mês de 
Setembro f ')• as quais aliás mereceram a nossa circunstanciada atenção ao anali- 
sarmos as diversas fases do exílio de D. Leonor no pafe vizinho. 

O triunfo dos Infantes de Aragão revelava-se extraordinàríamente efémero, 
dada a incapacidade manifesta de dotarem o reino castelhano com uma conve- 
niente estrutura política. Alguns indícios de renascimento lunista vão-se tomando 
cada vez mais evidentes. Um dos sintomas surge-nos a propósito da reintegração 
no conselho do rei. com o consentimento do Rei de Navarra e do Infante D. Hen- 
rique de Aragão, do Doutor Pedro Yanez e de Alonso Perez dc Vi vero. De igual 
modo. voltaram para a corte «alanos de los servidores dei Condestable» ("). 
A acrescentar a tal sinal de fraqueza, temos que, em Í5 de Outubro de 1442, os 
infantes, a rainha e o príncipe herdeiro deram autorização a João de Luna para 
que se juntasse ao pai. o qual continuava a residir no seu castelo dc Escalonai'^). 

Entre 5 de Setembro c 15 de Novembro dc 1442. dcmorou-sc o regente nas 
suas terras do Ducado de Coimbra, talvez na expectativa do que pudesse de pior 
vir a acontecer, após o envio da rcíerida embaixada ao reino vizinho! '). Foi. 
precisamente, nos últimos dias dc Outubro, quando permanecia na capital do 
seu ducado, que recebeu a triste notícia do falecimento dc seu irmão, o Infante 
D. João. que de há muito se encontrava doente em Alcácer do Sal. Consciente o 
Duque de Coimbra da perda que significava o prematuro desaparecimento do 
amado irniao. seu muito prccio.so esteio politico, não resistiu ao tremendo Uesgoslu 



pedido «que nos espacemos a diuedu que nos essa cidade deue da Sisa do pam que teue 
arieindada. porque se penico em ella. E que paguarecs loguo o que sse achar polo liuro que 
a dieta Sisa Rendeoi, respondia o regente que daria tsobrello nosso graçioso desembarguo» 

(A.H.C.M.L., Livro 2." ihs reis D. Duarte e D. Alonso V. foi. 26v; Cf. A N.T.T., Livro 10 de 
Estremadura, foi. I5i Foi .sinda outorgado «que lodos os que aRenJarem ;i rrenda da 
enpossiçom de Biilu Noua ajam os priuillegíjus que ham os Rendeiros dclRcy» (Idem, 
Ibidem) e que fossem «escusados dons homeens que continoadamente seruem «n a camaia 
dessa çídade assy como o he o porteiro dela» (Idem, Ibidem). 

(*') Humt>erto Carlos Baquero Moreno, ol). cii.. pp. 12 c S.^^-SÇ. 

("") Idem. Ibidem, pp. 13 e 92-93; Cf. Ruy dc Pina. oh. cil.. cip I XXX. p. 337; 
Du.irie Nunes dc Leão. ob. cil., cap. XIII, p. 151; Gaspar Dias de Landim, livro 11, ob. cil., 
cap. XXV. pp. J 22-123. 

(") Ruy de Pina, ob. cit., cap. LXXX, pp. 338-340: Duarte Nunes de Leão, ob. eit.. 
cap. XIII, pp. 151-133; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro II. caps. XXV e XXVI, 
pp. 123-1.30. 

(•-) Fcrnan Perez de Guzman, ob. cil., cap. VII. p. 609. Veja-se lambem Luis Suárc/ 
Fernandez, Los Trastúiuaras de Castilla y Aragon en el sigi.- XV, p. 173. 
Luís Suárez Fernandez, ob. cit., p. 173. 
{^) Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit.. pp. 13 e 93-97. 

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e «cahio de verdadeiro nojo em cama haa mortc^^ (" ). Mal se recompôs, partiu 
para Évora, onde chegou a 19 de Novembro desse ano. Aí permaneceu até 17 de 
Fevereiro de 1443. deixando nessa data a cidade alentejana e seguindo para 
Lisboa. Ka capital, demorou-se até ao dia 13 de Julho, alternando a sua estada 
com esporádicas deslocações a algumas localidades próximas. Seguidamente, visitou 
algumas vilas da Estremadura, voltando novamenie a percorrer as suas terras 
ducais, entre 4 de Setembro e 24 de Outubro dc 1443 ("'). 

Enquanto o ano de 1443 decorre relativamente calmo no nosso território, 
graves acontecimentos ir&o eclodir em Castela. O rastilho das discórdias parece 
ter começado quando, no mês de Março, o Rei Mo II foi a Escalona. Durante 
o espaço de tempo cm que aí esteve, nasceu uma filha a D. Alvaro de Luna. 
que foi apadrinhada no acto de baptismo por João II e por sua mulher. A neófita 
recebeu o nome de Joana, tendo sido comemorada a cerimónia com brilhantes 
festejos CO. É de presumir que tal prova de estima do Rei de Castela pelo seu 
antigo privado tivesse despertado o ressentimento do Rei de Navarra. De tal 
forma que. encontrando«se a corte na pequena povoação de Rámaga, foi orde- 
nada por aquele soberano a detenção de Alonso Perez de Vivero e do Doutor P^ro 
Yanez, medida acrescida ainda com a expulsão dos partidários de D. Alvaro de 
LunaO> A pessoa do Rei de Castela foi objecto duma vigilância constante. 



C') Ruy de Pina, ob. cil.. cap. LXXXI. p. 34!; Cl. Duarte Nunes Jc l eão, oh. cii.. 
cap. XllI, pp. 153-154; Gaspar Dias de Landim, ob. cil.. livro II. c.ip. .XXVII, pp. I3I-I32. 

Conforme já tivemos ocasião de assinalar num estudo per nós publicado, ests último 
cronbta escreve erradamente que o Infante D. Joio, pai de D. Diogo, faleceu em fins de 1443 
(Algumas mercês concedidas pelo CoiuUmúvcI I). Ptdro. ni da Catalunha, a súhilítos por- 
/»V/«vw, separata «.la Revista de Ciências do llintuni l niversidade de Lourenço Marques, 
vol. 111. série A, 1970, p. 6). Ocupou o seu lilho o cargo de Condeslável por pouco mais 
de dois meses, pois foi surpreendido pela morie em princípios de Juneiro de 1443. O regente 
«proveo logo do Officio de Condestabre a Dom Pedro seu Pilho mayor» (Ruy de Pino, 
oh. ciU, cap. LXXXII, p. 343), o que na realidade se verificava já em 7 de Juneiro desse ano, 
conforme nos testemunha um dociinicntu (D. Antiinio Caetano de Sou>>a. Provas da História 
Cenealt'>i;ica da Casa Real FortaiLiuesa, tomo 1. livro III. C oinibr.i, l'M7, p. 12oi. \-Ma nomea 
vão deu origem a um tão forte «descontentamento c agravo» por parle do Conde de Our«ím 
— O qual invocara, ao solicitar o cargo, ser neto vario do falecido Condestável D. Nuno 
Alvares Pereira — que «nunca despois quys mais vir ú su.i casa. e menos aa Corte d*EIRey 
cm quanto cllc regeo» (Ruy dc Pina. <</). cit.. cap. LXXXII. pp. M2-343). 

("*) Humberto Carlos Baquero Moreno. <»/». cit.. pp. 13-14 e 97-114. 

(") Fernan Fere/ de Guzman, ob. cit., cap. IV, p. 613. Vcja-se Luís Suárez F\:rnandez, 
ob. cit., p. 176. 

C*) Fedro Carrillo de Huete, ob. cit., cap. CCCXXI, pp. 435-439; Cf. Fcman Peicz 

dc Guzman, oh. cit.. cap. \, p. 614. Vejam-se Luís Suárez Fernandez, ob, cit., p. 176; Cesar 
Silíó, ob. cit., pp. 149-150; J. Vicens Vives, ob. cit., p. 112. 

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diurna e nocturna, por parte dc Rui Diaz de Mendoza, mordomo-mor e Henrique 
Enriquez, irmão do almirante ("-). Encontrava-se assim na posição de prisioneiro. 

Ao chegar ao conhec mento do Infante D. Pedro o golpe de estado de Rámaga, 
deve ter sido profunda a sua perturbação. F.sta manifcsta-sc sobretudo quando se 
dirige aos conselheiros de Barcelona, em 12 de Novembro de 1443. São bem signifi- 
cativas as suas palavras, ao afirmar que em hilua tam notauel E tam nobre çidade. 
como he essa vossa, nom auera todos o> conisseiheiros tam mamçebos que alguus Se 
nom acordem como o Senhor Rey de C astella des o tempo que começou Reynar foy 
tiauclado per alguus de sseus paremtes E naturaaes. E creo que Deus uos fez 
Iam uiriuosos e emtemdidos que nom poderees auer a maneira que com elle 
teuerom Se nom por mu> maa. E nom cmbargaiuin c|iie ui! losseni as dos tempos 
pa.ssados. creçemdo as cousas de mal em pior Agora he ua/ido a tal estado que 
bem pode dizer que he preso». Exortava-os o regente a que trabalhassem no 
sentido «de lhe sseer dada aquella fnunqueza e liberdade que sse deue de dar a 
hflii Rey dc perfeícta htdade tam uirtuoso E de tamta descri pçom que bem he 
pera Rejer per ssi seus Rcgnos» C). 

Entretanto, em Castela, assiste-se a um reacender da guerra civil, na medida 
em que a atitude de João de Navarra contribuiu ainda mais para uma divisão no 
seio da nobreza. No norte. forma*se um núcleo de resistência, constituído pelo 
Conde de Haro e Pedro Alvarez Osorio, ao qual se irá juntar em Burgos o 
Conde de Plasencia ("). D. Alvaro de Luna. na expectativa, deixa a sua fortaleza 
de Escalona e parte para a sua vila de Andrada O Infante D. Henrique, que 
recebera a incumbência de pacificar a Andaluzia, onde existiam graves dissídios 
internos na Ordem de Calatrava, resolve ocupar gradualmente todos os territórios 
da mesma, impondo a sua hegemonia aos nobres andaluzes. A sua demora nas 
terras do sul da Espanha apenas contribuiu para enfraquecer as forças dos Infantes 
de Ara^o, dada a sua dispersão 

Toda a agitação politica reinante em Castela deve ter suscitado a maior 
atenção por parte do Infame D. Pedro, o qual deixa o Ducado de Coimbra em 



(^) Feman Perez de Guzman, ob, cit., cap. V, p. 613. Veja-se Luís Suárez Fernandez, 
ob, cit., p. 112. 

(*) Humberto Carlos Baquero Moreno, Cartas do Infante D. Pedro aos Comdhviros 
de Barcelona, in Arquivi^s Ctutro Cultural Portiií:uê.<!. vol. !V, Paris. 1^72. pp. 

(*0 Pedro Carrillo de Hucte, ob. cil., cap, CCCXXIV, p, 445. Vejam-se Luis Suárez 
Fernandez, ob. ciu p. 177; Cesar Siliò, ob. cit» p. 151. 

(**) Feman Perez de Guzman, ob. cit.. cap. I, p. 614. Veja*se Luís Suárez Fernandez. 
ob, cit.. p. 177. 

Luís Suárez Fernandez, ob. cit., pp. 176-177. 

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24 de Outubro de 1443. indo nós encontrá-lo em Leiria de 27 a 6 de Novembro, 
e em Santarém de 10 a 15 deste último mês. Passa pela capital, em 17 de Novem- 
bro, a caminho de Évora, que alcança a 18. Se exceptuarmos uma estada em 
Monlemor-o-Novo. de 26 a 30 de Novembro, verificamos que irá permanecer na 
capital alentejana até 28 de Abril de 1444 (**). Tão larga demora em Évora está 
em relação directa com os principais eventos políticos no reino vizinho, que irão 
origiiiar a segunda intervenção militar portuguesa. Há ainda a assinalar que se 
reuniram cortes nessa ddade. em período cronológico difícil de determiaar: 
mas que supomos terem funcionado no mês de Fevereiro (^). 



C^) Humberto Carios Ba<|oero Mora», Om ItíiterMos do Infante D. Pedro, pp. 14 

e 114-123. 

(^) A celebração das cortes de Évora de 1444 liga-se fundamentalmente à intervenção 
miltei portuguesa n» An<h1itThi. A organização do nono corpo expedidonário apenas eia 
viável caio se dispusesse do indispensável apoio financeiro. Sabe-se que» diuaale a nunflo 
das mesmas, obteve o regente aprovação paia pcooeder à cobrança de dois pedidos. Conforme 

assevera a Dr.' Iria Gonçalves. «As despesas surgiam de todos os lados, as necessidades de 
dinheiro renovavam-se continuamente : logo nas cortes de Évora de 1444 diziam os pro- 
curadores da vila de Castelo Rodrigo que «he fecto e deuulgado que a uossa merçee com 
acofdo do uosso poboo manda lançar pedidoa. E» com efeito» em 27 de Feveniio deaie 
ano. escrevia o legente, em nome de seu sobrinho, ao concelho e homens bons de Ooimbia, 
contando como os seus mensageiros, vindos naquele ano às cortes ao serem por ele requeridos 
e vendo suas grandes necessidades, lhe outorgaram dois pedidos em nome dos seus repre- 
sentados. Tais necessidades eram muito prementes, dizia o infante, mas, tomando em consi- 
deiaçio as do povo e lerabrando-se talvez de todas as imposições lançadas^ nos anos ante- 
riores, concedeu que, para se fazer com menos agravo dos contribuintes, se tirasse naquela 
aUur:i apenas um pedido. Mas a sua cobrança devia ser feita o mais ràpidamente possível, 
porquanto o dinheiro lhe era muito necessário para o socorro que havia determinado mandar 
à cidade de Sevilha» (Ob. cií.. p. 161). 

No conjunto das petiçOes formuladas pelos concelhos nas cortes de Évora» avulta uma 
queixa apresentada pelos procuradores de Lisboa» nos seguintes termos : cSenhor» hflu grande 
agrauo rrcçebe o poboo dos jfantes e duque, uossos tijos e dos condes e outros ssenhores 
de uossos rregnos, o quall he que as justiças de suas terras nom querem conprir as cartas 
e rrogos das uossas, nem outrosy querem hobedeçer aas uossas cartas seelladas dos uossos 
sseeUos» saluo e leinrem aluara dos sseus ouuydcnes» o que pareçe sseer teyo e ao poboo 
oudyosio» e ja asy fezeiom em lenpo deliey uoeo padie, e éUe mandou nas corlsa que fez 
em Ldina que todos hobedecessem a suas cartas. Porem ssenhor, o uosso poboo uos pede 
por merçee que hordenecs com os dictos ssenhores que sse guarde aquello que uosso padre 
mandou. Ca per dereito toda a jurdiçom he tehuda de í;:7er o rrogo da outra. E asy 
bobedeçem as de CasteUa aas cartas que lhe de ca vaam, que nom teem tanta rrazom como 
os que ssom uossos e da uossa jurdiçom, e fazerlhees em ello grande merçeB. O regente deu 
pleno assentimento à petição (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 24. foi. 55; 
Livro 10 de Estremadura, foi. 114v. A primeira fonte acha-se publicada na Monumenta 
Henricina, vol. VIU, Coimbra, 1967. doe. 79, pp. 133-134). 

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Entretanto, cm Castela, no espaço de tempo que se estende de Setembro de 
1443 e Março de 1444, vào decorrer largas negociações entre o Bispo de Ávila 



o concelho cic Aveiro, por seu lado. reclariiava, através dos seus representantes Alvaro 
Gonçalves e João Martins, que era tão grande o número de privilegiadas no termo dessa 
vila, qae resultava impossível encontrar indivíduos que pudessem vir a desempenhar as funções 
de jurados e ouvidores. O problema agravava-se ainda pelo facto dos lavradores pertencerem 
na sua quase totalidade ao mosteiro de Santa Cruz dc Coimbra, pelo que se tomava muito 
difícil cnct)ntrar quem assumisse as tarefas conc.lhias. Embaraçado, o regente respondia que 
fos.sem obrigados os que não possuíssem privilégios; na falta destas, seriam compelidos os 
que tivessem menores isenções (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 24, foi. 55v; 
Livro 10 de Estremadura, foi. 115v-116). Idêntica era a linguagem por eles apresentada em 
relação aos privilégios da coroa c do Infante D. Henrique, o que provocava a mesma 
resposta do Duque tic (Oi.nbr.i (A N.T.T , ( littncflaria de D. Afoiwi» V. livro 24. foi. 55v. 
Livro lU lie Estnmiultmi, foi. 116. A primeira fonte encontra-se publicada na Moimmenta 
llenricina. vol. VIII, Coimbra, 1967, doe. 80, pp. 134-135). 

O bom cumprimento da justiça merecia a atençfto da vila de Faro, quando reclamavam 
os seus representantes contra o facto do corregedop e dos seus oficiais não respeitarem a 
Ordenação que determina «nom cstom mais de quinze dias atee vijnte em cada buu lugar, 
por ssc noni alciçoarem com os poderossos da terra, nem estragarem as noupas aos pobres 
c aas poussadas que elics per sy tomam*. Fazendo omissão do legislado, residiam todo o ano 
em Faro, apenas se deslocando, quando muito, uni m6s por todó o Algarve. Os inconve* 
nientes eram de tal ordem «que mujios judeus vendem o que teem e sse vaam pera Castella>, 
enquanto que a «gente ineu.la» sofre com os abusos por eles praticados. Aceitava o regente 
o protesto, ordenando que não pudessem csuir mais dc um mês ness4i vila, sob pena de 
uque lhe nom sejam dadas pousadas» para alem desse prazo (A.N.T.T., Chancelaria de 
D. Alonso V, livro 24, foi. 53; Uvro 4 de Odiana, fols. 242v-243. A primeira fonte encontra- 
•se publicada por Pedro de Azevedo, Documentos das Chancelarias Reais anu-riy>res a 1531 
relativos a Mtirnmis. vol. I, Lisboa. I*>i5. doe. XCVII, pp. 563-564 lo.io Martins da Silva 
'víari|iies, Di \ci>i^i mu iitt>s l\>riiií;iií M S. vol. I, Lisboa. 1944, doe. 342. pp. 4.18-439; Monumentn 
IJiiincina, vol. VIII, Coiínbr.i, 1%7, doe. 78, pp. 131-132). A situação militar con.sUtuía 
também matéria de reparos. Queixavam-se os procuradores que o ooudel da vila de Faro 
contraditava os avaliadores que estimavam os bens móveis e de raiz de cada indivíduo para 
efeito de acontiamento. Tal atitude era apenas ditada para provocar «fadiga aos pobres». 
Ameaçava o temente dar «escarmenton ao coudel prevaricador, na hipótese de continuar a 
proceder irregulannenie t.A.N.r.r.. L liaiutlaiia de D. Ajonso V, livro 24, foi. 53; Livto 4 de 
Odiana, fols. 242-242v). 

A cidade de Silves sentia-se agravada pela forma como o fronteiro do Algarve recru- 
tava gente para Ceuta, pois, «em logar dhomeens darmas Costrange os dictos vassallos que 
vãao seruir como acontiados» Deseiavam que. a exemplo do que se usava outrora «os dictos 
vassallos» fossem requeridos por cartas régias e nào por adua; pois «em caso de neçessidade 
elles som prestes, como senpre forom». Esquivava-se o regente com a desculpa de que 
«Nos nom uos podemos assi escrepuer cada vez que jemte mandamos hir a Çepta, porque 
sabeea bem que se acerta vijrem Recado tam trigoso que nom da lugar pera podermos 
escrepuer. Ca bem nos prazeria Conprir nosso Reijucriinento se sse podesse fazer. Mas nos 

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D. Lopo Barrientos c o Condcstável D. Alvaro de Luna C ). Foram árduas as 
diligências efectuadas pelo prelado, que linha em vista a consiiiui(,rio duma Liga 
contra os Infantes de Aragão. A sua volta, conseguiu reunir o^ Gmdes de Haro. 
Plasencia. Castaneda c Alba C'). obtendo icualmcnte a adesão de D. Inigo Lopez 
de Mendoza, a uxko da promessa do líiulo dj Marques de Sanl'llana C^). No lado 
oposto, deparamos com a campanha miliiai cncelada pelo Infante D. Henrique, 
auxiliado pelo Conde de Arcos, na Andaluzia. Depois de se ter apoderado de 
Carmona. Córdoba c Alcalá de Guadaira. preparou-sc para atacar Sevilha, defen- 
dida pelo Conde de Niebla ("). 

Foi, precisamente, esta campanha militar do Infante D. Henrique de Aragão 
que deu origem à segunda intervenção militar portuguesa no reino vizinho. 
Estando o Regente D. Pedro em Évora, veio a esta cidade o Mestre de Alcântara 
D. Gutierre de Sotomaior, em demanda de auxílio (*). Devemos atribuir ao fidalgo 
castelhano a inspiração do memorando de 13 de Fevereiro de 1444. entregue pelo 
Duque de Coimbra a Afonso Velasco, cm que eram estabelecidas pelo regente 
as condições postas à cidade de Sevilha para receber o auxílio solicitado. Agindo 
o ^vemante português com toda a prudência, pois tinha sempre em mente a 
observância da trégtu de paz. indicava ao seu emissário que comunicasse ao 
Conde de NíeUa, D. João de Guzman, ao Adianuido maior da Andaluzia. Perafán 
de Ribera, ao alcaide-mor de Sevilha. D. .Pbdro de Guznuin. e ainda aos fidalgos. 



confiamos tanto de uossos boos coraçfiocs e lealdades que qualquer guisa que fordes requc* 
ridos obrarees assi bem açerca de nosso scruiço c iioss,')<; honmis como senprc fc/.-sics E c-om>> 
fc7erom nossos padres F. auoos» (A.N.T.T., Míiço 4 do Siip!eim-iilo th- Ciirit\, doe. 12. 
Publicado na Monumciua l/íniiciiia, vol, VIII, Coimbra, 1967, doe. 89, pp. 146-147). lambem 
reclamavam contra o fado de os frqnteircs, em vez de apurarem «aquelles que som piãues 
9 beesteiros e homeens darmas E outras pessoas em que cabe Uil constrangimento os escusam 
por os Senhores com que viuem E os Releuam E costrangom os lauradores c criadoras da 
dieta cidade c seus termos E pastores de gaados». Dava-llics ra/ão o Infante D. Pcttro. 
adoptando as medidas necessárias (Idem, Ibitifnr, Idem, Ihufeiti). I)c ii!u:il modo, a adminis 
tração da juittiça merecia reparos. Invocavam os privilégios confirmados pelo regente, em 
nome do rei, que «os Corregedores nom tomem conheçinnentos de nenhflus feictos duijs 
nem crimes, de que os Juizes da dieta cidade discrcm que farom djreito. E aem cnburgo dcllo 
tomam de taacs foros conheçimento>. Pedem providências, no que o regente lhes dá plena 
aprovação (Idem, Ihiítt-ni). 

(") Luís Suarez Fernandez, <*6. cu.. •■«. 178. 

(") Idem, Ibidem. 

(") F. Layna Serrano, Historia de Guadalajara y de sus \í- nJozas en los siglos XV 
y XVI, vol. I. Madrid. I')42. p. 212: Cf l uís Suárez Fernandez, ob. ci/., p. 178. 

Luís Suárez Fernandez, oh. cit.. p. 178. 
D B.N.P., Forni Poriuí:ais, n. 9. foi. 210. 

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cavaleiros e homens bons dessa cidade andaluza, «que esta minha entrada he a 
seu requerimento, por seruiço e liuramento do dicto senhor rei [João II] e bem 
e defenssom de todos os que som a seu seruiço» ("). 

Ressaltam, entre as principais condições postas aos sevilhanos, o dever de 
lealdade absoluta ao seu soberano e a prestação do máximo apoio aos expedicio- 
nários portugueses, mas interpõe, em especial, a obrigação dos mesmos ^. se algúus 
recados ou cartas ouuerem. asy do senhor rei de Castella como doutro qualquer 
senhor, a clles ou algOu delles. que logo prestesmente. sem nênhuu interuallo ou 
dillaçom, taaes cartas, tractos ou mandados me notificarem e acerca dello nêhua 
cousa nom determinaram nem faram sem meu mandado e ordenaçom». Previa-se 
assim a possibilidade duma reviravolta que pusesse em perigo o corpo expedicio- 
nário português, visto que se conhecia a ausência de liberdade do rei. que, mane- 
jado pelo soberano de Navarra, era levado, por vezes, a assumir e a ditar deter- 
minações oontiaditórias. Outio ponto merecia a maior atenção do Infante D. Pedro : 
o pagamento pontual dos vencimentos ao exército português; de tal modo que. 
«quando w entrar em esses legnos que tenhom prestes : soldo pera pagar logo 
juntamente de hilu mes pen bC homes dannas e beesteiros de cauaUo armados e 
mjl ginetes e x. beesteiíos e xlilj homens de pee, a saber, a homem darmas, por 
dia» XX maravediz e ao ginite xb. marauidis e aos beesteiros e homens de pee, 
lançeiíos e scudados x. manuidiz. s^undo ei enformaçom que razoadamente se 
acostuma pagar o soldo em esses regnos». Efectuada a revista dos soldados na 
fronteira, pagar-se-ia af a sua soldada, a qual tomaria a ser satisfeita, deconido 
um mês de pomantocia na Andaluzia. Estabelecia, ainda, com toda a m^icu- 
losidade, «que do dia que eu entrar em Cástella, me tenhnn prestes, asy no 
estremo oomo pw os outros lugares per onde eu ouuer de jr. mantijmentos em 
abastança por meus dinheiros pera r! pessoas e xb bestas, dandoos por aquelles 
preços que detreminarem aquelles que, por minha parte e por parte de Seuilla, 
forem deputados». Também noutro aspecto, deqxmta o maior cuidado e critério 
postos pelo regente na boa efectivação da empresa : «Item. se for compridoiro 
de eu. por seruiço do dicto senhor rei. conbater alguus luj n^-es ou castellos. elles 
me hiram prestes, aas suas próprias despesas, os emgenhos e iodos os outros 
arteíicios que forem compridoiros pera conbater na maneira que eu diuisar e esso 
meesmo me daram os almazeens e todas as outras cousas que pera esto forem 
compridoiras. aquellas que bem poderem auer» i"^). 

Era ainda portador Afonso de Velasco de outro memorando, elaborado pelo 
Infante D. Pedro, dois dias depois, isto é, datado de 15 de Fevereiro de 1444. 



f") A.N.T T . Corpo Cronológico. 2 * parte, maço 239, doe. 12. Documento publicado 
na Monumento Henricina, voi. VIII, Coimbra. 1967, doe 77, pp. 126-130. 

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Cabia ao seu enviado a missão de se entrevistar com o Infante D. Henrique de 
Aragão, caso estivesse ainda em Sevilha, levando-lhe uma carta escrita pelo 
regente português, «per que lhe enuio pidir o saluo conduto pera uos». Na hipótese 
de lhe ser concedida a autorização, deveria dizer pessoalmente ao infante «como 
sabe bem o gramde djucdo c amizade que elrrey meu senhor e eu auemos com o 
muy alto e muy eixelente prinçipe e senhor o ssenhor rrei de Castela e com 
seus rregnos; polia qual rrazoRi eu deuo deseiar e procurar todo bem e homrra 
e exalçamento de sna pessoa, e rregnos» (**)• 

A forma como se encontra redigido o presente memorial levda todo o 
cuidado e mindcia posto pelo regente na intervenção portuguesa. Gonstitai o 
mesmo um libelo cootia os infantes de AragSo. pela maneira como o soberano de 
Castela «be rretheudo e maltcautado em poder delrrey de Nauarra9 e ainda pdo 
modo como o Infante D. Henrique se apoderou «das mjUiOfes çidades e tenas 
do dicto senhor, assy como fez de Toledo, Coidoua e agoca se queie apoderar 
de Seuilha, a quall sta por elrrey e se encomendou a mym, lequerendome e 
sopricando que eu a ajude a defemder do dicto jfamte e lhe de tal socorro que 
el se nom apodere delia, antes a leixe estar a semiço debiey seu senhor como 
sta e entemde estar e se uaa em boa ora pera suas terras e nom a tome». Nas Ins- 
truções contidas no memorando, davam-se indicações precisas sobie o processo de 
como se havia de procurar trazer o Infante D. Henrique à boa razlo; mas. admi- 
tindo a hipótese de que o mesmo nflo quisesse condescender, outorgando o salvo* 
conduto indispensável para a realização de negociações, deveriam ser afixadas em 
Sevilha três cartas do Infante D. Pedro, que o portador trazia consigo 0> 



(*-) Idem, Ibidem. 

Apesar de toda a minúcia e cuidado postos pelo regente D. Pedro na preparaçfto da 
expediçSo e na obrigatoriedade do pagamento do enército portugnês pelas antoffdadei anda- 
luzas, deve ter ficado este último ponto por resolver. Refere-se ao facto Duarte Nunes de 
Leão. quando escreve que o Rei de Castela «devia a el Rey de Portugal muito dinheiro do 
soldo da gente, que lhe mandara em soccorro, quando o Infante D. Henrique se queria 
apoderar de Sevilha» (Ob. cit., cap. XiV, pp. 160-161). 

(**) A.N.T.T.. Corpo Cronológieo, ].* parte, maço 1, doe. 16. Documento puUieado 

por Artur Moreira dc Sá, ob. cit.. pp. 58-60 e na Monumenta Henricina, vol. Vin, Coimbra, 

1967. doe 81. pp. 135- 138. Sumariado pelo Visconde de Santarém, ob, ctt.» tomo I. p. 340. 

(") Idem, Ibidem. 

£ muito rigorosa a forma como Rui de Pina descreve a evoiuç&o dos acontecimentos 
tm Castda, no decurso do ano de 1444^ Escreve o cronista : iNo ano de myl e quatroesBtOi 

e quarenta e quatro, vendosse BXRty de Castella em poder dos Yfantes d^Aiagam teiii 

Cunhados, roubado da liberdade e Senhoryo, que aa sua dinidade Real pertencya, tynha a 
ellcs grande odio e desamor, c pera se em alguma maneyra deles ysentar. ordenou por 
conselhos e modos do Condestabre Dom Alvaro de Luna, de mandar como mandou por 

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A inviabilidade do acordo pievisto pelo Duque de Coimbra foce ao antafo. 
nismo existente originou o rompimento das hostilidade^;. Assim, não tardou 
muito que a cidade de Sevilha se visse seriamente ameaçada pelo assédio que 
lhe foi movido pelo infante aragonês. De Évora partiu uma expedição de auxilio, 
constituída por seiscentos cavaleiros, comandada pelo Mestre de Alcântara 
D. Gutierre de Sotomaior. A intervenção portuguesa foi decisiva para o levanta- 
mento do cerco, pois «O IfEante dom Emrrique sabida a ajuda dos portugueses * 
a descerçou». Vencida a primeira dificuldade, tendo para tanto bastado o conhe- 
cimento da presença portuguesa, deu-se a junção dos efectivos portugueses com 
os sevilhanos. Unidas as forças, procedeu-se ao ataque de Carmona e de Alcalá 
de Guadaira, que não tardaram muito em cair em poder dos assaltantes. Recupe- 
radas essas localidades, que vinham assim beneficiar a causa do Rei de Castela, 
deu-se o regresso do nosso contingente ao território português. Antes, porân, do 
mesmo se concretizar, processaram-se «algúas pequenas pelejas com algOas gentes 
do Iffante [D. Henrique], sem dano e morte dos portugueses» C')- 

Constata-se ter sido decisiva a nossa intervenção na Andaluzia. Nunca mais 
os aragoneses conseguiram levar a melhor. Um dos grandes beneficiários do 
auxílio português vai ser o Conde de Niebla, a quem o Rei de Castela concedeu. 



Vyaoney aa Comaica d*Aandaluzia ao Yfante Dom Anrryque, provendo^) pen ysso de 

poderes fyngydos com fundamentOK falsos, dando-lhc a entender que nssy comprya pcra sua 
mays honrra e moor segurança, onde per engenho do dito Condestabre c Meestrcs d'Alcantara 
e Callutrava seus contrairos, e com gente dc Ssvylha e outra muyta, que o Yfante Dom Pedro 
destes Reinos lá mandou, foy em todo desobedecydo, e em desbaiaios que Ottve muy mal 
tratado, e desta vez se tomou Carmona, e em tanto se confonnou ho Condestabre com outros 
grandes Senhores daqudle Rc\no, que pcra ysso se ajuntaram per força d*arma8, e tiraram 
EIRey do poder c sobgciçam d'ElRe> dc Navarra, que segundo o que se via nom o tratava, 
nem acatava como a Rey superior se aevia» {Ob. cit.. cap. LXXXIV, pp. 346-347); Cf. Luís 
Suárcz Fernandez, ob. cit., pp. 176 e 178-179, que não atentou na importância deste texto 
para o devido esdarecimento do significado da intervençfto portuguesa na Andaluzia. 

(») B.N.P., Fond Portugais, n." 9, foi. 210: Cf. Ruy de Pina, ob. cit., cap. LVÍ, 
pp. 297-298; Duarte Nimes de Leão, ob. cit.. cap. XIV. pp. 160-161. 

de lamentar que a citada crónica dc (iomcs Banes dc Zurara se encontre truncada 
precisamente no capítulo parcialmente consagrado a esta expedição. Escreve o cronista : 
«Quasi dez annos esteve o Regno de Portugal sob a obediência do Infante Dom Pedro, 
havendo entre huns, e os outros vontades odiosas sem rompimento, porque, afora os Irmãos 
da Rainha Donna Leanor, o Regente nom tinha dc quem tomar grande rcceo. e as« era todo 
seu cuidado buscar maneira como os fizesse lançar fora daquc!les Rctinos. enfrnquentando 
seu poder o mais que podesse. E por cl lo mandou as gentes deste Regno a Castella aa parte 
Dandaluzia juntamente com os Mestres Dalcantara, e de Calatrava, e com o Conde de 
Neura, e com o pendão de Sevilha, e foram sobre...» (Qb. cit., cap. XXVII, p. 89). 

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cm 17 de Fevereiro de 1445. o título de Duque de Medina-Sidónia C*). Este 
fidalgo irá juntar ao seu senhorio a actual região de Huelva, que usurpou ao SCU 
tio Alonso Pérez de Guzman, senhor de Ayamonte ( ''). 

O bom êxito da acção militar portuguesa na Andaluzia deve ter trazido o 
maior alívio ao Infante D. Pedro. Completamente resolvido o problema que o 
devia preocupar imensamente, deixou a cidade de Évora em 28 de Abril de 1444. 
O mes de Maio caracteriza-se por várias andanças, estando em Coimbra de 23 
a 27, para tornar outra vez a percorrer diversas localidades na Estremadura portu- 
guesa. Vai. no entanto, fixar-se em Lisboa, com uma certa regularidade, de 8 de 
Junho a 4 de Setembro, sem que. porém, tenha deixado de efectuar algumas visitas 
alternada^ a localidades não muito distantes da capital. Novo período de deslo- 
cações vai suceder-se, tendo como início uma estada em Coimbra de 16 a 21 de 
Setembro. Depois de percorrer algumas cidades e vilas, chega a Beja. Nesta vila 
alentejana, vai demorar-se de 8 de Novembro a 22 de Janeiro de 1445. Observa-se 
uma certa tendência, por parte do regente, para pflssar o Inverno no Alentejo, 
o que poderá atribuir-se, se excluirmos alguns factores políticos e económicos, 
à secura do clima, em contraste com a humidade do litoral. Novo período de 
andança se iiá verificar pelo sul e pelo centro do País, até que chega à capital 
do seu ducado, em 3 de Abril do mesmo ano 



C) Diego Ortiz de Zuniga. Anala cch sid^iicos y seculares dv la eiudttd de SevUia, 
Madrid. 1677, pp. 328-329; Cf. [ uín Suarez Fernandez, ob cit» p. 179. 
(^0 Idem, Ibidem; Idem. Ibidem. 

{^) Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit., pp. 14-15 e 123-136. 
Existe um problema cronológico, relativamente sk determínaçSo do mês em que se deu 
a expediçSo poriugucsa à Andai u/i a. Supomos, no entanto, que n mesma apenas se verificou 

por todo o mes de Março de 1444, devendo iá enconlrar-se concluída em 28 dc Abril desse 
ano. qu.indo o icgcnic deixou a cidade de Cvora. Hxclui-se a hipótese «.luma intervenção 
portuguesa na segunda quinzena de Fevereiro, cm virtude do Infante D. Pedro ter escrito cm 
27 desse m£s para a Cftmara de Coimbra, a comunicar a máxima urgência em obter o pedido 
que lhe foi outorgado nas cortes de Évora. Dcstinava-se tal importância à organização dos 
preparativos militares, para se proceder ao auxílio à cidade dc Sevilha (B.A.C.I.., CoUecção 
(!f Cortes, vol. V. pp. 179-180; Cf. Iria (ionç.ilvcs, <>h. cit.. p. \(A). O projecto da nossa 
intervenção, elaborado pelo Duque dc Coimbra deve ter chegado um pouco tardiamente ao 
conhecúnento de Afonso V o Magnânimo. Estando o rei em Nipoles, em 24 de Maiço de 
1444, escreveu uma carta a sua mulher, D. Maria dc Aragfto, dando-Ibe instraçOcs para que 
levantasse a proibição — no caso dc ela ser verdadeira - aos súbditos aragoneses, de modo 
a que pudessem de no\o entrar em Cistcla e aí ser\ir por soldo ou de qualquer outro modo. 
Dá a conhecer que se encontra intormado dos preparativos duma futura «entrada dei jntanl 
don Pedro de Portugal en lo dit negne de Castella, la qual se spera produhir nouitats e 
scandels, no solament al illustrtssimo rrey de Castella, mas encara al dit rrey dc Nauarra 
c jnfant don Enrique, nostres fr.ires, e a Inrs stats. si donchs nos traben f(irts e bcn fornits 
de gent durrnes» (Monumentu Uenricina, vol. VIII, Coimbra. 1967, doe. 90, pp. 148-149). 

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Vencido o Infante D. Henrique na Andaluzia, encontravam-se dispersas as 
forças aragonesas. Novos focos de reacção anti-aragoneses vão surgir na meseta 
castelhana, tendo como base principal a cidade de Avila. Aqui se vão reunir os 
contingentes de D. Alvaro de Luna e do Conde de Alba. que. à frente de 1500 
homens, se dirigirão para Burgos. Sentindo a ameaça, o Rei de Navarra procedeu 
à trasladação de João II para o castelo de Portillo, ao mesmo tempo que. em 
Junho de 1444. tomava posições em Pampliega. com um exército constituído por 
2000 combatentes. Frovàvelmente, a fuga de Joio IL ocofrida em 15 desse mesmo 
m£s. deu origem à retíiada. do Rei de Navarra, uns dois dias dq»ois, para 
Palenzuèla. Unidas agora as forças do monarca, do príncipe herdeiro e do oon- 
destável, assistir-se-á a uma rápida desintegração das posições aragonesas. No 
Outono desse ano, as tropas reais ocupavam os principais pontos estrat^oos da 
mescla castdhaiuiC). 

Assim, nlo tardou muito que o Rei de Navarra acedesse a abandonar o sdo 
castelhano, o que veio a verificar-se em 4 de Setembro de 1444. João n aproveitou 
o ensejo para propor unn tr^ua de cinco meses, com inicio no dia 25 do citado 
mês, o que foi aceite pelo soberano navarro, posslvehnente na esperança de poder 
vir a obter auxílio de Afonso V de Aragão. A ideia do Rei de Castela visava 
essencialmente reorganizar as suas foiças. For outro lado, era indispensável obter 
os fundos necessários para a continuação das opjBrações. Convocadas as cortes 
de Burgos, em meados de Outubro, fez o monarca um pedido de 7 SOO 000 mara- 
vedis. Os procuradoces mostraram-se receptivos, apenas impondo como condição 
o estabelecimento de garantias na forma de cobrança. Quanto aos bens confis- 
cados aos infantes aragoneses, deveriam ser incorporados na coroa e não distri- 
buídos entre a nobreza vencedora ("*). 

Anles da trégua expirar, em 25 de Fevereiro de 1445, deu-be o falecimento 
em Toledo da Rainha D. Leonor. É muito provável que. ao ter sido tcita a comu- 
nicação do óbito ao Duque de Coimbra, se lhe fizesse ver as graves diíiculdades 
que iria atravessar dentro em pouco o reino de Castela. De facto, a mvasão 
aragonesa aguarda va-se a todo o momento, .sendo de recear uma junção entre 
as hostes do Rei de Navarra e do Infante D. Henrique, que se encontrava em 
Lorca. Na aldeia do Campo, próximo de Alcalá de Henares, veríficou-se o 
encontro entre os dois irmãos, que assim gizaram os seus planos para o ataque ('"). 

O Rd de Navarra e o Infonte D. Henrique acabaram por abandonar a men- 
cionada localidade, tendo-se dirigido-:- sempre à vista de João n e dos seus 



(**) Luís Suárez Feraandez, ob, cit, pp. 17S>-180. 

("») Idem, Ibidem, p. 181. 

0*^) CrÓÊiica de Dim Âbtúfo de Lêuuí, cap. XLIX. p. 1S6. 
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partidários — para a vila de Olmedo. A entrada dos Infantes de Aragão nesta 
vila fez-se em 24 de Março de 1445, com uma certa dificuldade, devido à oposição 
que lhe foi movida por alguns ca\alciros que aí se encontravam, os quais acabaram 
por ser presos e degolados. Entreiantc\ o Rei de Castela instalou-se em Arevalo, 
onde reuniu à sua volta as hostes pertencentes ao príncipe herdeiro D. Henrique 
e ao Condeslável D. Álvaro de Luna. Juntavam-se aos mesmos os Condes dc 
Alba e de Haro. o Marquês de Sanlilhana, D. Joào Pacheco c D. Lopo dc 
Barrientos, antigo Bispo de Avila e actual prelado da diocese de Cuenca. Os efec- 
tivos andavam à volta de dois mil cavaleiros, acrescidos de um número seme- 
lhante de peonagem 

Estando o Rei de Castela em Arévalo, no dia 31 de Março, mandou pro- 
ceder à elaboração de um instrumento, no qual solicitava o auxílio militar do 
regente português. Assínavam-no. como testemunhas* D. Alvaro de Luna, o 
Bispo D. Lopo de Barrientos e Pedro da Cunha, guarda-mor real. Era encarregado 
de o fazer chegar às mãos do Duque de Coimbra, o Deão de ^vilha D. Afonso 
Segura, que. para o efeito, foi nomeado embaixador à corte portuguesa. O pro- 
pósito fiindamental. desta missão diplomática consistia em obter a comparticipação 
portuguesa de «mil homens a pé e bésteiros e lanceiros». Renovava-se assim um 
pedido que já anteriormente tinha sido feito. A parte interessada assumia o com- 
promisso de pagar «ao capitão ou capitães que com a dita gente vierem, ou à dita 
gente, ou a qualquer deles, todo o soldo que houverem de haver des que partirem 
de suas casas para vir em nosso serviço, e do tempo que em eles estiverem, e do 
que durarem em se tomar às suas terras e casas». Comà no entanto. João II de 
Castela não dispunha das verbas necessárias, requeria ao Duque de Coimbra que 
procedesse ao pagamento adiantado das despesas, no que seria reembolsado no 
devido tempo, conforme os «termos devisados». Eram ainda conferidos ao embai- 
xador plenos poderes para outorgar o que entendesse necessário (""). 



Feman Perez dc Gu/rnan. ob, cit., cap. Ill, p. 626. Veja-se também Luís Suárez 
Feraandez, oh. cit.. pp. 182-1S3. 

('^} Artur de Magalhães Busto, A expedição a Castela do Condesuhcl D. Pedro 
mm 1445, tn Ocidente, vol. I, Lisboa, 1938, pp. S7-S8. 

O pedido de auxilio do Rei de Castela suscilou algumas divergiiicias no seio do seu 
conselho. Diz-nos Feman Perez de Guzman que «El Rey de Castilla por consejo dcl Con- 
destable Don Alvaro de l una, al tiempo que sc hi/o cl a>ui.' miento dc la pente de Avila, 
dió por consejo ul Rey que escribiese al Infante Don Pedro, Regente dc Fur togai, que le 
embiase alguna gente es socorro, creyendo que por «ventara el Rey de Aragon dexaiia Ia 
compiisia de Napol. é vemia á ayudar a sus hermanos. ó á Io menos les embiaria alguna 
gente; de Io qual sin dubda desplugn á machos de los qucl servicio dei Rey deseaban, espe- 
eialmeate á Don Pero Feniandez de Velasco. Conde de Haro. el qual sicrapie contiradixo 

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H. 29 



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o Deão de Sevilha deve ter chegado a G>imbra em meados de Abril. Bor 
ootro lada a vioda do Regente D. Fedro à capital do seu ducado verificada em 
3 desse mês. parece estar relacionada com essa missio diplomática (^). De focto, 

o governante português encontiava-se nos seus Paços dessa cidade, quando aí 
chegou o Dr. Afonso Segura. Em atenção ao pedido de auxilio que lhe foi solici- 
tado, deliberou proceder à convocação do seu conselho, que reuniu para o efeito 
na vila de Tentúgal ('°^'). Uma aproximação cronológica permite-nos determinar 
que o. mesmo deve ter tido lugar no dia 25 de Abril de 144S("*). Aprovada a 
proposta de auxílio, procedeu-se seguidamente u elaboração do convénio, que 
nos aparece datado de 28 desse mês na cidade de Coimbra C'). 

No preâmbulo do citado instrumonio de obrigação, contraído entre as duas 
partes, dá-se a conhecer ser verdade que o Deão de Sevilha s<era vijndo com 
enbaixada do dicto ssenhor rrej de Castella aos dictos ssenhorcs rrcj dc Portugali 
e rregentc pêra auer dauer sobcorro aa gram neçcsidadc e trabalhos em que era 
posto, per aa/o do rrej de Nauarra e jfante dom Enrrique dAragom. segundo 
de todo o dicto ssenhor rregente era em verdadeiro conhoçimento e certidõe 



este consejo, porque Ic parescia ser en gran mengiia dei Rey dei Reyno. F como el Condestable 
govemasc entenimcnte á mi querer estos Rcynos, quiso todavia que este socorro en Portugal 
se demandase, é á esta causa el infante Regente en Portugal acordo de embtar como embió 
al Condc«taUe de Poitug»! su híjo'oon asaz geale. oomo adetante se dirt» {Ob. c/l., cap. X, 
p. 630). Também Duafle Nunes de Leão faz eco desta oposição, no que peieoe teguir muito 
tk> perto o cronista castelhano, quando afirma : — «Esta ajuda, que se pedio a Portugal, 
contradisserão muitos a cl Rey. especialmente D. Pedro Fernandez de Vellasco. Conde de 
Haro, porque lhes parecia abatimento dei Rey, e do Reyno para guerra domestica, pedir 
socorro a d Rey de Poitugal* (Çb. eit., cap. XIV. p. 158). 

O") Homlierto Carios Baquero Moreno, ob. clt., pp. 1 5 e 1 36. 

(><>^) Ruy de Pina, ob. cit.. cap. LXXXV, p. 349; Cf. Gaspar Dias de Landim, ob. c/f.. 
Uvro II, cap. XXX. pp. 144 145 

('*) Humberto Carlos Baquero Moreno, ub. cit., pp. 15 e 137. 

0*0 Ruy de Pina. ob. eit., cap. LXXXV, p. 349. 
Oaspar Dias de Landiín manifesta a ideia de que houve giande oposiçio. por pule 
do conselho reunido em Tentúgal, ao envio da expediçio de socorro, ao afirmar que «houve 
muitos fidalgos e pessoas de gran qualidade que reprovaram dar-se tal socorro, assim por 
essa razão, como por ser contra os Infantes tios d'El-Rei seu senhor, contra os quaes não 
havia outn nizio de guena mais que o odio do Oondestavd D. Alvaro de Luna e do 
governador, nem estes letnos tinham recebido d^dles nos negodos da Rafaiha aggravos alguns, 
porque posto que com embaixadas e requerimentos pcrtcndessem que fosse restituída ao 
governo c cousas que pertendia, tinham obrigação de o fazer como irmãos, mas que nunca 
inquietaram o reino com guerras; que se o Condestavel tinha guerras com eiles, e os queria 
destruir; nSo fosse com poder e armas d*BI-Rei seu sobrinho^ antes era mais justo qoe te 
lhe dnse ajuda para se livrar de seu poder» {Ob. cit., livro n. cap. XXX, p. 145). 

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per as leteras da creença que lhe ja presentara por parle do dicto sscnhor rrcj 
de Caslella». De acordo com o solicitado, cncarregava-se o Infante D. Pedro de 
enviar um contingente ' Corn mjll homeens darnias e mjll besteiros e homeens 
de pee». os quais receberiam um vencimento adiantado de dois meses. Compro- 
metia-se o representante do Rei de Castela a pagar, no prazo de oito meses, a 
importância dispendida, a qual deveria ser satisíeita em Évora, ou na Guarda, ou 
ainda cm Coimbra. Punha-se lambem a hipótese de que, além dos dois mil homens 
previstos, poderiam ir muitos outros homens de armas. Em todo o caso. estabe- 
lecia-se que tal número não poderia ultrapassar os 250 ginetes ou besteiros a 
cavalo e outros tantos peões ou besteiros do conto. Em suma. o quantitativo de 
a>mbatentes não deveria ir além dos 2500 homens. Previam-se, de igual modo. 
os soldos estipulados no contrato assinado entre ambas partes Ç"). 

Algumas garantias eram dadas pelo Dr. Afonso Segura na execução do 
processo contratual Invocava, para o efeito, que «oblígaua o dicto ssenhor ney 
de Castella e todos os seus beens, mouees e rraiz, rregnos e ssenhoiio» ao escru- 
puloso' dever de satisfazer as dívidas contraídas. Dava ainda como palavra de 
honra que. após trinta dias da feitura do presente contrato, receberia o regente 
uma carta do Rei de Castela em que o mesmo se comprometia a cumprir inte- 
gralmente as cláusulas do contrato ("^). 

Levado de um certo entusiasmo — um tanto irreflectido, mas, em certa 
medida, justificado pela sua amizade por D. Alvaro de Luna — propôs-se o 
Regente D. Fedro dirigir em pessoa a expedição militar. A temerária ideia encon- 
trou mau acolhimento por parte do conselho reunido em Tentúgal. Dissuadido do 
seu propósito, lembrou-se então o governador do reino de entregar o comando do 
exército português a seu filho mais velho — o Condestável D. Pedro (""). Não o 
quis fazer, porém, sem primeiro o investir nas funções de cavaleiro, pelo que 



C*) A.GÍL, Patronato Real, leg. 49. foi. 28. Documento pubhcado por Artur Moreira 
de Sá, ob. cit., pp. 6(H»3; Luis Suárez Fernandez, Relaciones entre Portugal y Castilla en 

la época dei Injuiite Don Enrique, doe 67. pp. 275-277; Monumento Henficina, vol. VIU, 
Coimbra. 1967. does. 189 e 190, pp. 281-285. Veja-se Uimbém Artur de Magalhães Basto. 
ttb. cit., pp. 58-59. 

('«) Idem. Ibidem. 

(ito) Ruy de Pina. ob. cit., cap. LXXXV. p. 349. 

Gaspar Dias de Landim censura o comportamento do infante D. Pedro do seguinte 
modo : «Tanto que o governadoi teve este recado mandou aiiintar os do Conselho e outros 
fidalgos em a Villa dc Tentúgal, onde estava com El-Rci, c .sendo juntos antes de lhe 
pedir conselho, depois de ter dado conta do que El-Rei e o Condestável pediam, lhe propoz 
e affírmou que em pessoa os havia de ir ajudar com tanto poder de gentes como se devia, 
sendo etie o que levava o soccorro, mostrando tanto gosto e alvoroço para aquella ida. 
quanto era o odio que tinha aos Infantes, o que lhe fo\ de muitos mal julgado». Acrescenta 
o cronista, no entanto, que «os mais tratavam de contentar o governador, e o viam tão 

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fez vir propositadamente do Algarve (Paços de Lagos) seu irmão, o Infante 
D. Henrique. Pertenceu ao Navegador a honrosa incumbência de apadrinhar o 
acto. no mosteiro de S. Jorge, o que, na realidade, vem provar as boas relações 
existentes entre os filhos de D. João I c de D. Felipa de Lencastre que continuavam 
vivos ('•'). Tudo indica tcr-se realizado tal cerimónia nos primeiros dias de Maio 
de 1445. quando o filho do Duque de Coimbra tinha a idade de quinze anos ("-). 



determinado para dar ajuda ao Condestavel» que eram da opinião de cque se désse, pois 
El-Rel D. João e o Condestavel o pediam, mas que não era licito que fosse elle mesmo em 

pe<;so:i como dizia, pois tinha as vezes dc Rei, que lhe não convinha a elle, nem à honra 
do reino passar a dar soccorro cm reinos estranhos, não scnJo contra inimigos da fé, c não 
para destruir príncipes chrístãos, que podia ir com eilc um de muitos cavalleiros, de muitos 
que no reino havia* sábios e experimentados; e finalmente se resolveram que o soccorro 
fosse n*esla forma, o qual quiz o governador mandar tal que correspondesse com a vontade 
que tinha de o dar, o qual se fez logo preparar, querendo satisfazer todos o seu deseio, 
mas ja que não havia de ir em pessoa, quiz que fosse por general dcllc seu filho D. Pedro, 
Condestavel d'estes reinost. {Ob. cit., livro II, cap. XXX, pp. 145 Í4b). 

Gomes Eannes de Zurara, Crónica dos Feitos de Guiné» ed. Agftncia Geral das 
Colónias, vol. II. Lisboa, 1949, cap. Li. pp. 220-221; Cf. Ruy de Pina. oh. cit.. cap. LXXXV, 
p. 350; Gaspar Dias de Landim, ob. cil., livro II. cap. XXX, pp. 146-147. Acerca das 
andanças do Infante D. Henrique no Algarve vcja-se o estudo de Alberto Iria, itinerário do 
infante D. Henrique ho Algarve, Faro, 1960. 

O primeiro dos cronistas citados, coevo de tais acontecimentos, descreve assim os 
factos : «Seguyusse que neeste assejo foe diamado o Iffante dom Henrique, da parte de seu 
írmaão o Iffante dom Pedro, que era Regente do Regno em nome delRey, como ja teemos 
script<\ que fosse a Coimbra, pera fazer cavalleiro dom Pedro de Portugal, filho primeiro 
do dicto Regente, que entom era Condestabre destes Rcgnos, o qual estava ordenado de ir 
a Castella, como de feito foe, e esto porquanto eIRey dom Joham o segundo, que entom 
era Rey daquellcs Regnos, estava em trabalho com seus primos eIRey de Navanra, e o 
Iffante dom Henrique, meestre que era de Santyago, e outros grandes daquelles R^nos que 
eram com elles. por causa de grandes imiizadcs, que se geerarom antrc o dicto Rey e aquelles 
senhores, por aa/u do Condestabre dom Alvaro de Luna, o qual seendo homem de pequena 
maneira, per sobegidom de fortuna, ou per alguO outro calado segredo, veo a- seer em tal 
posse, que fitzya.no regno o que lhe pra^a, entanto que per suu causa, forom mortos e 
destroydos os prindpaaes de Castdla, segundo todo esto mais largamente poderees saber 
na crónica geeral do Regno, porque de necessidade se devem os dictos feitos ally de tocar. 
Bem deu ally o Iffamte dom Pedro a entender ao mundo a grande dignidade que conhecya 
em seu ixmaão, ca por mais hmua leve de seu fílho receber «ivallarya da maão de seu tyo, 
que de nhOu outro Príncipe dEspanha. E antre as razoôes que ouvy dizer que o Ifisnte 
dissera a aquelle seu filho, ao tempo que se ddle partyu, foe que lhe encomendava que se 
nembrassc da Ordem da cavaltarya que tiinha recebida, e principalmente de cuja maão a 
recebera, aqual cousa lhe nom era pequeno encarrego» (Ob. cit., cap. LL PP- 220-221). 

O Condcstável D. Pedro nasceu em Lisboa, no mês de Outubro de 1429 [B.N.L.. 
Fundo Gertd 3390 (Reservados), p. 134]. Veja^se a seu respeito o nosso estudo Algumas 
mercês concedidas pelo Condeslávei D. Pedro, rei da Catalunha, o súbditos portugueses, 
em que são fornecidos alguns dos seus principais dados biográficos. 

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paralelamente ao acto realizado — que conferia um especial luzimentò à 
empresa — preocupava-se o regente com o problema financeiro. A urgência em 
conseguir os recursos monetários indispensáveis à organização do contingente 
deve ter obstado à convocação das cortes, cuja preparação implicava uma certa 
demora. Apesar do Pâís se encontrar duramente castigado com sucessivos pedidos 
e empréstimos públicos, resultantes da crise politica intensamente vivida, nada 
obstou a que o regente tivesse de recorrer novamente & cobrança um tanto arbi- 
trária de um pedido e meio. ProçedÍa-se no mesmo ano à arrecadação de outio 
pedido, inserido nos dois pedidos outorgados nas cortes de Évora de 1444, cuja 
cobrança se convenciònara ao longo de dois anos ("'). 

Pôde, assim, o Infante D. Pedro organizar os efectivos necessários para a 
expedição, cujo mando confiou ao seu filho mais velho, e na qual tomuvam parte 
alguns dos mais importantes fidalgos do País. Apuram-se. através das crónicas ('"), 
OS nomes dc I). Álvaro de Castro (" ). Lopo de Almeida C"^). D. Duarte de Me- 
neses ("*). Diogo Soares de Albergaria ( " ), Fernão Coutinho ('"). João de Gou- 
veia ('*"). D. Fradique de Castro ('-'). Rui Gomes da Silva (""), Fernão Gomes 



(<») AN.T.T.. Chancelaria de D, Afonso V, livro II. fols. S3v-34; Cf. Iria Gonçalves, 
oh. cit., p. 162. : 

Uma imagem real Ja difícil situação económica qu* atravessou o reino no decurso da 
regência do Infante D. Pedro é-nos dada pelos procuradores de Bra^a às cortes de Santarém 
dc 1451, Brás Afonso c Rodrigo Eunes, os quais afirmavam que o antigo regente «lançou 
mujtos pedidos aos vossos poboos E pasarom mujta tribulaçom E angustia, asy em pagarem 
os dictos pedidos, como em pagarem pera a çídade de Çepta cadhflu ano. E em outros 
mujtos encarregos que lhe som lançados pera este concelho. Em pagarem pera as hohras 
dos muros dc-^ta vida^J*^- Esso meesmo as pensoccs aos senhorios dos cassaees cm que 
viuenii. (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro II, foi. 53v: Cf. Iria Gonçalves. 
ob. cit., p. 162). A carência de dinheiro era de tal ordem que esses mesmos procuradores 
declaravam que, no tempo em que o Infante D. Pedro «lançou os dictos pídidos», os «comta- 
doies fezerom pagar poUos mortos, velhos E pobres. E por os fogidov da terra que nom 
achauam. E pellos cmprccgados que jaziam nas aluergarias.i (A.N.T.T.. Chancelaria </e 
D. Afonso V. livro II, fols. 53v-54; Cf. Iria Cionçalves. oh. ci!.. p. 52). 

Coligimos a identidade dos participantes nessa ida a Castela, nas citadas crónicas 
de Feman Perez de Guzman (cap. XV. p. 633). Ruí de Pina (cap. LXXXV. pp. 349-350). 
Duarte Nunes de Leão (cap. XIV, pp. 158-1S9) e Gaspar Dias do Landim (livro 11, cap. XXX, 
p. 146). 

(" ) Veja-se a sua biografia em apêndice. 

('"í) Idem. 

("O Idem. 

(<») Idem. 

(>") Idem. 

('») Idem. 

(i->) Idem. 

(>") Idem. 

—229 



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de Lemos ('^). Leonel de Lima D. Fernando de Meneses C^), João de Me- 
neses Diogo Cionçalves de Travassos ("0. entre muitos outros cuja identifi- 
cação não nos foi possível efectivar. 

Quanto ao quantitativo dos efectivos do corpo expedicionário, não é fácil 
estabelecer um número exacto. De facto, não existe concordância entre os cro- 
nistas mais próximos dos acontecimentos. Assim, enquanto Fernan Perez de 
Guzman aíirma iratar-se de 1200 homens de armas. 1000 peões e entre c 400 
cavaleiros ('^). o anónimo cronista do século xv fala em 3000 peões e 1^)0 cava- 
leiros ('-''). Mais exageradas são ainda as cifras fc^rnecidas por Rui de Pina. 
cronista tardio destes sucessos, que considera a participação na empresa dc 



0^) Não ooiueguimos identificar este fidalgo. Pode até tratar-se de um lapso de Feman 
Perez tic Ciuzman c Duarte Nunes dc I.cão, os únicos cronistas que referem o seu nome. 
Vaticinamos a suposição de poder ser antes Gomes Martins de Lemos, cujos dados biográficos 
se encontram em apêndice. 

(>*> Veja*ie a soa biografia em apêndice. 

(<») Idem. 

(<*) Deve lratar*se do fidalgo que acompanhou o Cpndeslável D. Pedro no seu exflin.. 
para Castela. 

(*^) Desempenhava as funções de conselheiro do Infante D. Pedro, de cujas terras 
era regedor (Cartas de 21 dc Outubro Jc 1442 (AN. 1.1".. Chancelaria dc D. Afonso V, 
livro 23, foi. 79) e de 3 de Março de 1446 (A.N.I.i., Ordem de Avis, n." 704, foi. 2)]. 
Veja-se sobre o mesmo o nosso estudo Quatro cartas de D. tsahel de Urgel, Duquesa de 
Coimbra, separata da Revista de Ciências do Homem da Universidade de Lourenço Marques, 
vol. Ill, série A. 1970. pp. 10-11). Possuía o senhorio do morgado de Seira, no termo de 
Coimbra (A N T T.. Cluinahirin dc D. Afonso 1'. livro 34, foi. 108; Livro 8 de Estremadura, 
foi. 174). Do pouco que sabemos a seu respeito temos conhecimento dc que tomou parte 
na conquista de Ceuta, em cuja cidade foi armado cavaleiro pelo Duque de Coimbra (Gomes 
Eannes de Zurara. Crótúca da tomada de Ceuta, ed. Aeademia das Oêncías de Udxwt 1915, 
cap. XCVI, p. 257). De novo nos aparece, decorridos trinta anos. ao assinar o instrumento 
de 28 de Abril de 1445 do qual resultou a expedição a Castela chefiada pelo ConJestável 
D. Pedro (A.G.S.. Patronato Real. leu. 49, foi. 28. Publicado por A. Moreira de Sá. ob. cif.. 
pp. 60-63; Luís Suárez Fernandez, ob. cii.. doe. 67, pp. 275-277; Monumento Henricina, 
vol. VIII. Coimbra. 1967, doe. 189, pp. 281-284). Ê de presumir que ji nio fosse vivo, ou 
cntio muito idoso quando se deu a batalha de Alfarrobeira. Na realidade, um documento 
de 1 de Fe\ereíro de 1450. alguns meses posterior ao conflito, revela-nos ser já falecido. 
Como não tmhii tillios. c seu moriiuio de Seira era doado, a pedido da Rainha D. Isabel, 
com suas rendas e direitos, em benchcio de Francisco Eanes de Torres, cavaleiro da casa 
dessa senhora (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 34, foi. 108; Uvro 8 de Estre- 
madura, foi. 274). 

Feman Perez de Guzman, ob, cit„ cap. XV, p. 633. 

(<») B.N.P., Fond Portugais, n.» 9, foi. 210v. 

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2000 cavaleiros e 4000 peões ("). De uxlos eles. o que se encontra mais próximo 
dos números convencionados no instrumento de obrigação de 28 de Abril de 
1445, é o quantitativo dado por l ernan Perc/ de Gu/man. apesar do efectivo dos 
cavaleiros por ele apresentado estar muno abaixo das cláusulas do contrato. 
Perfilhamos as cifras apresentadas pelo cronista anónimo do século xv. cuja 
obra pertencia à própria biblioteca do Condcstável D. Pedro, a quem coube 
dirigir a expedição ('^'). 

Outro problema se levanta : quando é que o contingente abandonou Portugal ? 
Partimos da suposição de que tal se verificou por volta do dia 15 de Maio de 1445. 
pois o corpo expedicionário achava-se em Ciudad Rodrico. junto á fronteira, 
quando se desferiu a batalha de Olmedo, em 19 desse mês(''-). Scntimo-nos. 
contudo, embaraçados, pelo facto do autor anónimo do século xv afirmar que 
«Ante que o condeestabrc partysse de Portugal. Elrrey de Nauarra e o Iffante 
dom Emrrique com outros caualeyros de Castela que estauam na vila de VImcdo, 
. áaom batalha a elrrey de Castella e forom vencidos», o que, neste caso, nos leva a 
acreditar que a sua saída do nosso reino apenas se verificou depois da data do 
^desfedio daquela batalha ("O* Tratando^ de duas fontes importantes para o 
conhecimento dos acontecimentos, toma-se dificil emitir um juízo apodíctico, 
muito embora nos inclinemos a &vor da primeira das citadas versões O**)* 

No momento exacto em que se davam os preparativos militares no nosso 
PSafs para a partida do contingente, ocorriam graves sucessos no Reino de Cas- 
tela. Vendo-se o Rei de Navarra em situação difícil, procurou aliciar alguns dos 
partidários de João II que se mostravam indecisos i^). Não lhe foi possível, con- 
tudo, levar avante os seus propósitos, porque D. Alvaro de Luna. procurando 
ganhar a partida, fez jurar aos procuradores das cidades castelhanas, reunidos 



C*) Ruy de Pina, ob. eit» cap. LXXV. p. 349. Este autor é seguiido nas suas cifras 

por Duarte Nunes de Leão, ob. cit., cap. XIV. p^ 158 e por Oaspar Dias de LiUldíin, ob, tíu, 
livro II. cap. XXX, p. 146. 

('^^) D. Carolina Michaeiis de Vasconcelui», na introdiiçSo u Irasédia de la insigne 
reina Doha laabei, Cdmbra, 1922. p. 34. 

(U>) Kuy ^ pínm f/f., cap, LXXXV. p. 351; Cf. Duarte Nunes de Leio. ob, cit., 
cap. XIV, p. 159; Gaspar Dias de Landim. <>h. cit., livro 11. cap. XXX. p. 147. 

("I B.N.P., F,>ml Fortin;ois. n." 9. lol. ZIOv. 

(}^*) Pode ainda dar-se o caso da batalha de Olmedo sc ter verificado na altura precisa 
cm que as tropas portuguesas, situadas no nosso território, se encamtnhavain para « fronteira. 
Ê possível, entio, que apenas tivessem conhecimento do sucesso quando chegaram a Ciudad 
Rodrigo. 

('^) Alfonso de Paicncia. Crónica ilf F.nriquc IV. ed. Pay y Meli.-i. tomo I. Madrid. 
1904. p. 57; Cf. Luís Suárez Fernandez, Los 7 ntsiúinarus de Cusiilla y Aranon en el 
siglo XV. p. 183. 

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na planície junto aos muros de Olmedo, em 15 de Maio, a Lei XXV das Partidas 
sobre a autoridade real ('**). Quatro dias depois, deu-se a batalha* em que prati- 
camente lutaram apenas as duas vanguardas. Vencidos os infontes aragoneses, 
num combate em que os nobres que os apoiavam deram mostras de profunda 
fraqueza, sentia-se pela primeira vez D. Álvaro de Luna verdadeiro senhor do 
poder {'^'). Uma das vítimas da refrega foi o Infante D. Henrique de Aragão, que, 
«ferido de húua espada na mãao>, acabou por falecer na vila aragonesa de 
Calatayud n 

Chegada a expedição poriugucsa a Ciudad Rodrigo, por altura destas ocor- 
rências, foram enviadas mensagens ao Rei de Castela! lornava-se necessário 
decidir se continuar viagem ou regressar a Portugal. Etectivamente, reunido o 
conselho, «acordaram que deviam icxlavia proseguir sua viagem como fy/eram. 
e que do caso acontecido av vsassem logo EIRey seu Senhor, e a EIRey de Castella 
notefycassem sua yda» ('" ). l-iiiicianío, cm Ciudad Rodrigo, aguardaram o envio de 
reforços, antes de prosseguirem no seu itinerário. Daqui seguiram para I oro. onde 
receberam a resposta positiva de Joào II(" ). O soberano de Castela fe/ hyr o 
Condestabre com toda a gente que leuaua por assessegar seu rrevno c a mostrar a 
parte que tijnha em Portugal» ( ' ). Ficou assente que o ponto de encontro seria na 
vila de Mayorga ('"). 



C^) Lu(s Suárez Fernandez, ob. cit., p. 1S3. 

C) Idem, Ibulfm. 

Sobre a batalha dc Olmedo vc)am-se n% crónicas dos autores castelhanos desse perfoda 

(>») B.N.P., Fond Purtu^ais, n: 9, foi. 2IOv. 

(■^) Feman Perez de Oiizman, oh, cii., cup. X, p, 630. 

Escreve este cronista : lE como el Rey supiese por cartas dei dicho CondestaUe de 

Portugal que él era entrado en los Reynos de Castilla, embiò lu^o mandar á todas las 

cibdades é villas y lugares de sus Reynos por donde qiiiera que viniese que fuesc bicn 
rescebido é aposentado, é su moncda fuese rescebida en el prccio que em Portugal valia; 
c asimesmo entbió mandar á sus recabdadores y arrendadores que las rescibiesen; de lo qual 
se síguleron en estos Reynos muchos escândalos é ruídos, é fueron muertos asaz de los 
Portugueses c algunos de los Castellanos» ^Ob. cit» cap. X. p. 630). Também refere a crónica 
anónima do século XV que "Fm esta yda valco a moeda de Portugal cm Castela, assy como 
valya cm Portugal. Nom embargante que dclo aos castelaâos pesasse. Nom o mostrando 
porem na onrra e rreçebymento que fazyam ao Condestabre e aos que com ele hyam» 
(B.N.P., Fond Portugas, n." 9, foi. 2IOv). 

0^) Ruy de Pina. ob. cU» cap. LXXXV, p. 351; Cf. Gaspar Dias de Landim, ob, tít^ 
livro II, cap. XXX. p. 147 

('") Idem, Ibidem; Idem, Ibidem. 

( B.N.P., Fond Poriiigais. n: 9. foi. 210v. 

(1^) Feman Perez de Guzman, ob. eit., cap. XV, p. 633; B.N.P., Fond PortÊigais» 
n." 9, foi. 2IOv; Ruy de Pina, ob. cit., cap. LXXXV, p. 35 1; Duarte Nunes de Leão, ob. eit.» 
cap. XIV, p. 1S9; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro II, cap. XXX, p. 148. 

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Quando o Condestável D. Pedro chegou a meia légua da mencionada loca- 
lidade, foi recebido pelo Rei de Casiela. que .se ía/ia acompanhar por D. Álvaro 
de Luna. pelo C onde de Haro e pelo Mestre de Alcântara, entre outros fidalgos 
e senhores desse reino. A escolta roa! era consnuiida por mil cavaleiros, «vestidos 
lo mas á punlo que pudieron?/. cujas montadas se encontravam devidamente 
ajaezadas ("'). O encontro entre João II e D. Pedro decorreu da forma mais 
cordial, observando-se um clima de boa confraternização entre os cavaleiros e 
fidalgos portugueses e castelhanos. Anote«se. contudo, que o chefe do nosso con- 
tingente não quis aposentar-se em Mayorga, preferindo fazê-lo no seu acampa- 
mento. Havia nele a preocupação de sc encontrar sempre junto dos seus soldados, 
talvez devido ao receio provocado pelas bruscas mutações na política castelhana. 
Depois de uns cinco ou seis dias de festejos, acompanhados de algumas rixas 
entre a peonagem das duas nações ("^), foram despedidos os expedicionários 
sob a alegação de «Que pois seu servyço lhe nom era necessaryo. que se poderia 
tomar para Portugal» O*^» Libertava-se assim o rei castelhano da incómoda pre- 
sença dos portugueses, apesar da reiterada insistência do nosso Condestável 
«pera fycar e ho servir; como d*ElRey seii Senhor, e do Yfante seu Padre trazia 
hordenado». Em contraproposta, o monarca sugeria a D. Pedro que ficasse «com 
a gente soomente que pera o servyr fosse necessária», ideia que não se concretizou, 
porque aos fidalgos «que com die hiam nom poreceo rezam leyxallo assy, sem 
prazer do Regente» Em sinal de agradecimento, não quis João II deixar 
partir o Condestável sem lhe «Merecer um colar de ouro no valor de dez mil florins, 
de igual modo presenteando os principais fidalgos com jóias, montadas, etc. 

Estava terminada a expedição militar portuguesa, sem que a mesma tivesse 
tido a mínima oportunidade de combater. Desta missão havia resultado, no entanto, 
um grande dispêndio em fundos monetários, cujo pagamento por Castela se 



Feman Perez de Gu/man, ob. cif., cap. XV. p. 633; Cf. Duarte Nunes de Leio, 
ob, cit.. cap. XIV. pp. 159-160. 

('*"•) Idem, Ibidem; Idem. Ibidem. 

('") Ruy de Pina. ob. cit., cap. LXXXV, p. 351. 

('♦') Idem, Ibidem. 

(■***) Fernan Perez de Guzman, ob. cit., cap. XV, p. 633; Cf. Duarte Nunes de Leão, 
ob. cit., cap. XIV, p. !60l 

Convém attinalar que Duarte Nunes de Le9o, ao redigir o citado capítulo, se serviu de 
duas fontes — Rui de Pina e Fernan Perez de Guzman — combinadas entre si. Por lapso. 

indicou que o colar oferecido ao Condestável valia ZOtXl florins, quando o último dos men- 
cionados cronistas indica a quantia de 10 (KX) tiorms. Inadvertidamente, Duarte Nunes de 
Leão tomou dez mil por dois mil, o que na realidade é susceptível de gerar confusões. 

— 233 

FL 3» 



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achava {.'ravcmcnic conipromctulo ( "). A caminho do nosso País. entraram pela 
fronteira dc Bragança, onde. depois de \árias jornadas, chegaram a Aveiro. Nesta 
vila. achava-se aposentado o lutante D- Pedro, que os recebeu ( ' ). Sabemos, 
através d(is seus itinerários, que D. Pedro se demorou nesta localidade entre 14 dc 
Julho e IS de Ayosio de 1445 ( ). Foi neste espaço de tempo que regressou ao 
seu destino o no^so corpo expedicionário, cuja digressão deve ter durado pouco 
mais de dois meses. Cumprida a sua obrigação, partiram os fidalgos, acompa- 
nhados pela sua gente, em direcção as suas terras (' ). 

Triunfante í). Aharo de 1 una nas suas comendas com os Infantes de Aragão, 
tornava-se desnecessária qualquer outra intervenção portuguesa no Reino de 
Castela. O clima de tranquilidade existente nas relações entre os dois países fica 
claramente denunciado po capítulo geral de 1 de Fevereiro de 1446. que fora 
apresentado nas cortes de Lisboa do mês anterior pelos procuradores da Nação. 
São bem expressivas as palavras dos mesmos, quando afirmam : «Senhor : pois ao 
Senhor Deus prouue que per vosso boo rregimento e gouernança, estes rregnos 
ssom postos em paz e em boo assessego com os rregnos de Castella. E p<Mr sse 
miihor manteerem os trautos das pazes, nos pareçe que he majto vosso seniiço 
as frontarias ao presente seerem de todo fora. e os fidalgos cujos ssom os castellos 
leíxem em ellos tal escudeiro ou pessoa que de dello conto e o guarde, como 
compre a uosso seruiço e rreguardo da honrra do dicto fidalgo. Porque ssenhor. 
emquamto os dictos fidalgos esteuerem nas dietas fortelezas. he forçado de teerem 
jentes de toda naçom. dos quaaes deles som omeziados em graues mallefiçios e 
outros trauctam de mercadarias de gados e com fauor.dos dictos àkaàães e 
fronteiros, os passom destes rregnos c os uãao vender aos rregnos de Cástella. 
E por sse todo esto escusar e roubos dhuus rregnos n outros que por este aaax) 
iieem. do que a uos sse rrecreçc gramde desseruiço. Pedem ssenhor aa uossa 
senhoria, que tirees todollos os dictos fronteiros». Em resposta, o Infante D. Pedro 
declarava, em nome do rei : «Praznos quamto aas frontarias que çessem por agora. 



(■«•) Na realidade, conforme sublintiou o Dr. Magalhães Basto, a dívida conuaida por 
Castela foi iransforAiada no dote de D. Isatwl, filha do Infante D. Joio, que se matrimoniou 
com o soberano Jessé país. Por tal prooesso, acabaram os castelhanos por nSo desembolsar 

um único maravcili {Oh. cii.. p. f^O e segs.). 

(' Ruy de Pina, nh. cil.. cap. LXXXV, p. 352; Cf. Gaspar Dias de Landim, ob. cit., 
livro II. cap. XXX, p. 148. 

(*■''') Humberto Carlos Baquero Moreno, Os flhtfrârios do Infante D. Pedro, pp. IS 
e 141-142. 

(' ) R,i\ de Pina. oh. cit.. cap. LXXXV, p. 352: Cf. Gaspar Dias de Landim, ob. cit., 
livro II. cap. XXX, p. 148. 

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segundo ssc sempre cosiumoii no tempo dos ssenhores rreis meu padre e auoo, 
cujas almas Deus aja. pois que per crava de Deus honson rregnos som em assesseco 
com nossos vc/inhos. F. quamdt> aluuu eaNO wer per que sejam eonipridi>iro^. nos 
os hordenarenios sobrello em aquella maneira que \ irmos que he eonipridoinv 
L quamlo aos aleaides, mais lhe deuemos teer em serui^o de nos easlellos viuercm. 
de que os lei.xarem por hircm morar a outras partes^ ( 

Oferece também particular relevo a autoridade outorgada por Afonso V de 
Aragão, em 10 de Junho de 1446, a seu irmão D. João. Ret de Navarra, para 
que ele o representasse junto do rei e do regente de Portugal, no sentido de se 
proceder à renovação e ratificação do tratado dc paz celebrado pelos infantes 
aragoneses com D. João I e o Príncipe herdeiro D. Duarte ('''). Aludia-se. por 
certo, nestas instruções, ao acordo celebrado pelos dois países em Torres Novas, 
no dia 11 de Agosto de 1432 C''^). A iniciativa do soberano aragonês apresenta-se 
sintomática, se nos lembrarmos de que. um ano antes, se dera a intervenção portu- 
guesa contra os seus irmãos, em apoio da política de D. Álvaro de Luna. Poder- 
-se-á interpretar a mesma como um sinal momentâneo de renúncia à imposição 
da he^monia aragonesa sobre toda a Península Ibérica. Aliás, justífica-se plena- 
mente tal atitude, em função da maneira como o Magnânimo se ia deixando 
absorver cada vez mais pelos assuntos italianos ('^). 

Dois problemas ainda merecem a nossa atenção, no que respeita às relações 
havidas entre Portugal e os Estados peninsulares, durante u regência do Infante 
D. Pedro. O casamento dc D. Isabel com o Rei de Castela João II* e o problema 
da situação dos_ servidores da falecida Rainha D. Leonor que se encontravam 
exilados no reinO vizinho. 

Viúvo o Rei dc Casiela toram entabuladas negociares secretas entre r. 
Regente D. Pedro e D. Álvaro de Luna — sem que o interessado tivesse disso < 
menor conhecimento— para a efectivação do seu casamento com a lilha do 
falecido Infante D. João, que fora o irmão dilecto e principal conselheiro do 



('■^) A.N.T.T.. Supirnu nio dc Cortes, maço 4, n." 43. Publicado na Mominwntu llcn- 
nciiití. vol. IX, Coimbra, 1968, doe. 91, pp. M7-N8. 

hionunwHta Henrícina. vol. IX, Coimbra. 1968. doe. 127. pp. 171-174. 

('^) A.N.T.T., Gaveta XVIII, maço 4, n." 19. Documento publicado cm As íiuvehts 
da Torre do Tombo. vol. \'\\\. Lisboa. 1970, pp. 442-458, c na Mottumeiita Uenricina, 
vol. IV, Coimbra. I<Jr,:, «loc. 33. pp. 1 14-154. 

('■*) Vcjam-se, a propósito da politica italiana de Afonso V dc Aragão, as obras dc 
Jaime Vicens Vives, Los Trastdmaras y CataluHa (1410-1479). in Historia de Exporia dc 
Ramon Menendez Pidal (pp. 59S-793), tomo XV, Madrid. 1964, pp. 626 e seguintes, e dc 
Mário dei Treppo, Vespansionc caUilaw)'araí;oncsv ncl Mediterrâneo, in Nuove Questione 
di Storia Medioevale (pp. 2Í9-300), Milão, 1964, pp. 279 e seguintes. 

— 235 



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líovcrnanic porlugucs. As mesmas arras(aram-se no mais absoluto sigilo, apenas 
vindo a ser definilivamentc concreií/adas com a chegada do Condestávcl D. Pedro 
u Castela, em Maio de 1445. Sabc-se t|ue esic projecto causou vivo desgosto ao 
soberano castelhano, o qual pretendia matrimoniar-se com uma filha do Rei de 
f rança mas. apesar da resislência inicial, acabou por ser vencido pelos argumentos 
do seu privado (' "). 

A bula de dispensa de impedimento do terceiro grau de consanguinidade 
entre João II e D. Isabel, para a concretizavão do casamento, foi outorgada pelo 
Papa Fugciiio IV. em 5 de Novembro de 1445 ('*). Resolvida a questão, foi 
passada procuravão em Ávila, no dia 2 de Abril de 1446. a Garcia Sanchez de 
Valladolid. para que tratasse do casamento, em nome do rei. e recebesse a 
noiva ('•*). Fruto dc tais diligencias, resultou a celebravão do enlace matrimonial. 



<' •) Fcrnan Perez de Guzman, oh. cif., cap. XVI. pp. 633-634; Cf. Duarte Nunes de 
l^uo, t>b. cit., cap. XiV, p. lõU, que segue a versão do primeiro cronista. 

Escreve Feman Pterez de Guzman que aBíen habia diwo meses que la Reyna DoAa Maria, 
muger dei Rey Don Juan de Castilla en failescida, y d C<mdestable secretanMnte, é aun sin 
sabiduria dcl Rey, tenia acordado con d I; ' ntc Don Pedro, Regente dc Portugal, que el Rey 
Don Juan casaso con la Infante Dona iN.ibcl. hiia dcl Infante Don Juan dc Portucal. E como 
quiera que desto despi ugo mucho ai Kcy Don Juan quando lo supo, porque dcseaba mucho 
casar com madama Ragunda. hija dei Rey de Franda, como el Condestable goveraase 
enteramente al Rey, el Rey no pudo escusar de haoer lo que queria; é asi se concluyó este 
casamiento cn la venida deste Condestable de Portugal. E como quiera que es cierto que 
habia grandes dias qucl Rey dcsamiiha al Condestable, é lo encubria con gran Sftgacidnd, 
dcspues desto lo desamo mucho mas enteramente; c como ei Rey tuviese cerca de si todos 
los dei Condestable con quien él ninguna cosa oaaba haUar de su volimiad, â estaba 
atónito, de tal manera que no osaba otra cosa hacer, salvo todo lo que el Condestable 
queria, é asi el casamiento se concluyó, y el Rey guardó el tiempo pam «ecutar lo que «i 
voluntad lenia contra el CondL-viabie, para quando disposicion tuvicsc. como parescerá en 
lo que adelante sc siguio. segun en su lugar se escribirá: que entre muchas cosas que el 
Condestable dixo al Rey para lo atraer á este casamiento, fueron dos principales: la una 
que temia aqud Reyno de Portugal muy presto para todas sus n.cesidadex, en Ias quales 
cada dia sus súbditos é naturales le ponian; segunda, que b cn sabia Su merced que debia 
al Rey de Portugal bien doce ó trecc cucntos de sucido de la gente que habia enibiado cn 
Castilla al licmpo que cl Infante Don Enrique se quisiera apoderar de Sevilla, y de la gente 
qucl Condestable de Portugal habia traido á Mayorga, lo qual todo ss le dexaria; é con 
todas estas cosas el Rey se mostró que le piada d casamiento, é asi el Condestable de 
Portugal llevÓ este conderto» [Qb. cit.. cap. XVI. pp. 633-634). 

('*) Mnntiiuctiiii Hcnriciiia. vol. IX. Coimbra, 1968. doe. 62. pp. 8')-9(). 

(' ') A.N.T.T., Livro I de Ktis. fols. 52-53. Documento publicado por D. António 
Caetano de Sousa, Provas da História Gciwalõaica da Casa Real Portuguesa, tomo I, 
livro III, Coímbn, 1947, pp. 189*192, sobre o original em pergaminho do Cartório da Casa 
de Bragança. A primeira fonte está publicada na hãonumenta Henrteino, vol. IX, Coimbra, 
1968, doe. Ill, pp. 13S-138. 

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efectuado em Évora a 9 de Outubro do mesmo ano. Estipulava-se no contrato 
que a noiva receberia de dote «quoremta e çlmquo mil floríjs douro do cunho 
dAragom, que momtauam em todo o solido e rreguardo do que ouueram dauer 
todallas jemtes, assy de cauallo como de pee» que per nosso mamdado forom em 
companha do comdestabie de Portugall» Também na referida cidade, em 27 
de Outubro, passou o regente uma carta de quitação ao monarca castelhano, em 
que se fazia a garantia do mencionado dote 0"). 

Na cidade dc Lisboa, com a presença da corte portuguesa, celebraram-se 
grandes festejos no mês de Maio de 1447. em homenagem da Infanta D. Isabel, 
que se havia consorciado com o rei de Castela ("^). Os itinerários do Infonte 
D. Pedro comprovam a presença deste governante na capital, durante o referido 
mêsC**). Terminadas as comemorações, coube ao regente do reino o encargo de 
acompanhar a jovem rainha até à vila de Pinhel, que se encontra relativamente 
próxima da fronteira. Contràriamente ao que fora combinado, não veio João II 
até essa localidade portuguesa, mas enviou até ela alguns «Senhores e grandes de 
seu Reyno. a que a Raynha coro seu poder e autorydade foy entregue» 



Estancio o Infante D. Pedro em Coimbra no dia 28 de Setembro de 1445. celebrou 
um acordo com o Duque de Branpaça. íio qual deram o seu consentimento o Infante D. Hen- 
rique e ã Infanta D. Isabel, mãe da noiva, para que sc realizasse o casamento dc D. Isabel 
com João II de Castela (Carla régia dc confirmação de 10 Outubro dc 1446. A.N.T.T., Livro 1 
de Místicos, fols. 47v-48v). 

A.N.T.T., Livro l de Reis, fob. 33-57. Publicado na Monumento Henricina, 
vol. IX. C'o!;iibra, 1968. doe. 138, pp. 191-201. O original em pergaminho, que existia no 
Cartório da Casa de Bragança, foi publicado por D. António Caetano de Sousa, ob. cit., 
tomo I, livro III, Coimbra, 1947, pp. 193-204. 

(■*>) A.N.T.T.. Livro l de Reis, fols. 58-S9. Documento publicado na Momimenta 
Henrkina, vol. IX, Coimbra, 1968, doe. 141, pp. 204-206. Artur de Magalhftes Basto procedeu 
à publicação do manuscrito 180 existente na Biblioteca Municipal do Porto, o qual contém 

a referida carta dc quitação {Ob. cií.. pp. 6l-65>. 

Rui de Fma escreve que «no começo do ano dc mil e quatrocentos e quarenta c sete, 
ho Yfonte Dom Pedro se partio com ElRey da Cidade d*Êvora pera o lugar das Alcáçovas», 
onde se celebrou o casamento de D. Isabel com João II de Castela e se outorgou o dote 
de 100 000 florins de ouro (Ob. cit.. cap. LXXXVII, 355-356). Por seu lado, Oaspoi Dias 
de Landim situa a cronologia do acontecimento em princípios de 1448. (Oh. cit.. livro li, 
cap. XXXII, p. 153). Enquanto, no primeiro autor, se observa um lapso na indicação do 
dote (100.000 por 45 000 florins), vertfíca-se no segundo a distorção de um ano (1448 por 1447). 

(US) Ruy de Pina. ob. cit.. cap. LXXXVII, p. 356; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. eit., 
cap. XV, p. 162: Gaspar Dias de l andim, ob. cit., livro 11, cap. XXXII, p. 154. 
Humberto Carlos Baquero Moreno, oh. cit.. pp. 18 e 163. 

0«) Ruy de Pina. ob. cit.. cap. LXXXVII. p. 356: Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit., 
cap. XV, pl 162; Gaspar IXas de Landim, ob. eit., livro 11. cap. XXXll, p. 154. 

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o acontecimento deve ter-se verificado em princípios de Julho, pois vamos encon- 
trar o Duque de Coimbra, já de volta, em Vouzela, próximo de Viseu, em 17 de 
Julho de 1447 ('"). 

De Pinhel, seguiu D Kabel. acompanhada pela sua comitiva, até Madrigal 
de las Altas Torres, onde deve ter chegado em meados de Julho ('**). Nesta vila. 
procedeu-se, em 22 de Julho de 1447. à elaboração da acta de matrimónio entre 
os nubentes. A cerimónia nupcial foi reali/ada pelo Bispo dc Falência. D. Pedro 
de Castilla, tio do monarca. Hstivcram prcscnics ao acto. cnirc outros, o Bispo 
dc Coimbra. D. Luís (^lutinho. o Bispo de Évora, D. Vasco Perdigão, o Condes- 
tável de Castela e Mestre de Santiago. D. Álvaro de I una. o Marques dc San- 
tillana. D. Iriigo Lopez de Mendo/a, o Mestre dc Alcântara. D. Guticrre de Soto- 
mayor, e o notário-mor de Castela. Dr. I ornando Dia/ de Toledo ("'). Alguns dias 
decorriilos ap(ís o casamento. D. Isabel lomou posse da vila de Madrigal ( "). o 
niesnm \indo a suceder, um pouco niais tarde, em relação à cidade dc Sória. 
para cujo efeito se le/ representar pelos seus prt>Luradc>res ( ). 

Mostrava-se candente a situação deis emigrados portugueses em Castela c 
Aragão. A prova de tal situação reside na carta escrita, em 4 de Janeiro de 1447. 
por Afonso V o Magnânimo ao Duque de Borgonha. I clipe o Bom. que se 
oferecera para harmonizar as relações entre o regente português e o soberano 
aragonês. Punha este líltimo como condição, para o estabeleciinento duma plata- 
forma de entendimento, que todos os .servidores de D. Leonor pudessem regressar 
ao seu País e .ser reintegrados nos seus bens e ofícios. Deviam os haveres perten- 
centes à falecida senhora, ser entregues a ele próprio, para assim poder auxiliar 
05 exilados portugueses e satisCazer os encargos deixados pela viúva de D. Duarte. 



O") Humberto Cailos Baquero Moieno. ob. c/f., pp. 18 e 164. 
("*) Feman Perez de Guzman, ob, cit., eap. III, p. 654. 

Gaspar Dias de Landim escreve que D. Isabel foi levada «á cidade de Touro, onde 

El-Rci a estava esperando, c d'ahí foi com elh para Valladolid, onde se fizeram muitas 
festas por seu casamento» {(>!>. cit.. livro li. cap. XXXII, p. IS4). Não é de aceitar tal 
venSo, Unto no que concerne ao itinerário, como no respeitante ao local da boda, que se 
celebrou em Madrisal de las Alias Tones. 

O") A.G.S., Patronato Rea!, Legajo 49-29. Publicado por Luís Suárez Fernandez, 
ReíatíonêS entre Portugal y dtstiUa en la época dei Infante Di»i rnriqiu-. doc. 69, pp. 278-281; 
Monumenta Henricina, vol. IX, Coimbra. 1968, doc. 164, pp 254-258. 

('«•) Carta de 2 de Agosto de 1446, A G S . Patronato Ri al. Legajo 49-30. 

(^) Carut de 9 de Setembro de 1446. A.C.S., Patronato Real, Legajo 49-31. 

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Solicitava, por último, que lhe íossc coiiliada a tutela da Infanta D. Joana, a 
quem, no futuro, poderia proporcionar uni matrimónio conveniente ( ). 

O problema dos emigrados apenas veio a si>lueionar-se com o termo da 
regência de D. Pedro. O seu regresso contribuiu ainda mais para agravar a i>nda 
de rcsscntunento cni relação ao antigo govcrnanle. cuja atitude de dure/a contra 
eles assumida ajudou a precipitar os acontecimentos. Não há dúvida de que cies 
con&tituiram uma força poderosa na rcacvuo suscitada contra o Duque de Coimbra. 



("•) Moniunenta Henricina, voL IX« CoiíAbra, 1968» doe. 145. pp. 212-213. 

Sob» FcUpe o Bom, Duque de Borgonha, veja-se a obra de Joseph Calmette, Let Gnmds 
Ducs de Bourgogue, Paiis, 1949. pp. 177-230. Rehitivamente à Infanta D. lotl», filha do 
Rei D. Duarte e de D. Leonor, consulte-se a documentação publicada nos volunnes VUl 

e IX da Monumenia Henricina. 



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CAPÍTULO VI 



Da primeira entrega do regimento pelo Infante D. Pedro nas cortes 

de Lisboa de 1446, à carta de louvor de 11 de Julho de 1448. 
Alguns aspectos da administração pública postos 
em execuçSo durante a reg6ncla. 



Fl. 31 



D. Afonst.) V ccmiplelDu 14 anos cm 15 dc Janeiro de 1446. Nascera na vila 
dc Sintra, no ano de 1432. numa lerça-tcira ( ). í dc presumir que no dia do seu 
décimo-quarto aniversário natalício tenham tido início as cortes, as quais haviam 
sido convocadas pelo regente para a capital do reino. O itinerário deste gover- 
nante revela-nos que se encontrava na vila dc Santarém em 9 dc Janeiro de 1446, 
faltando-iios dados precisos para determinar o dia exacto em que chegou a 
Lisboa, onde o vamos encontrar, ao certo, graças a* uma carta por ele outorgada, 
em 13 do citado mês O- Não repugna, pois. aceitar que o Infante D. Pedro tenha 
feito questão em inaugurar as cortes de Lisboa nessa data tão significativa, em 
que. segundo o estipulado nas anteriores cortes de Torres Novas, lhe pertencia 
fazer a entrega do regimento, visto o rei atingir a maioridade O- 

Segundo Rui de Pina. o objectivo do Infante D. P^ro, ao proceder à reunião 
dos três estados, seria o de dar cumprimento^ao estabelecido pelo direito público 
que vigorava nos reinos cristãos da Península Ibérica (*). no que é corroborado e 
seguido por Duarte Nunes de Leão(''). O priSprio regente, na carta escrita ao 
Cooát de Arraiolos, em 30 de Dezembro de 1448, deixa antever essa ideia, 
ao escrever: <E porque ao tempo que elrrey meu senhor comprio os quatorze 



0) B.N.L., Fundo Cerai (Reservados), n." 3390, p. 134; Cf. Cardeal Saraiva, Obra^ 
Completas, tomo IV, Lisboa. 1875, p. 75. 

(-) Humberto Carlos Baquero Moreno. ()\ Itint-niriox do lufanlr D. Pedro (1438-144H). 
separata du Revista de Ciências do Homem da Universidade dc Lourenço Marques, vol. 1. 
série B, 1968, p. 147. 

(') A.N.T.T., Colecção de S. Lourenço, vol. I. foi. S. Publicado por A. Moreira de Sá, 

As actas das cortes de 14J8. separata da Revista da Facnldadt c/. Letras de Lisboa, tomo XXII, 
2.' série, n." 2, 1956. p. 13: Montimettta Ifcnriciiui. \o]. VI. Coimbra. I%4, Joc. %. p. 272. 

(*) Ruy de Pina, Chroiiica do Seiíhot Key I). Affonsu V, in Coliecção de Livros 
Inéditos de História Portugueza, vol. I, Lisboa, 1790, cap. LXXXVL p. 352. 

(') Duarte Nunes de Leão, Cronka e vida delrey D. Alfonso V, voL II, Lisboa, 1780, 
cap. XV, p. 161. 

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anos e lhe cu cmtreguey nas cortes de 1 isboa seu regimento (') Acontece, 
porém, que Gaspar Dias de Landim põe cm dúvida a recta intenção do regente, 
indo ao ponto de afirmar que se tratava duma farsa por ele urdida, com a cola- 
boração do Doutor Diogo Afonso Mangancha ("). Também a carta de crença 
enviada por D. Afonso V ao Rei de Castela João II, apos a tragédia de Alfarro- 
beira, manifesta um critério semelhante ao deste último autor : vF. porque jurou 
de nos leixar e entregar nossos rrejnos, como cheguasccmos a idade de quatorze 
anos, ascj e tam compridamente como o tinham os uirtuosos rrcis meu auoo e 
padre, que Deus haja em sua groria. tendo elle uontade de perpetuar este seruiço 
per algua honesta mostrança. nom podendo auer dcspensação do dito juramento, 
teue tal pratica e maneira, mostrando que o fazia per Nosso Senhor, que em 
hum dia nos leixasce o dito rregimento e loguo no seguinte dia lho tornasemos» (^). 

Resulta muito difícil pronunciarmo-nos a favor de um ou doutro parecer, mas 
não há dúvida de que» a acéitannos a autenticidade das declaiações contidas no 
último documento, teria havido da parle do Infante D. Pedro uma forte e deli- 
berada intençio de cratinuar à frente dos destinos do Pafs. talvra porque temesse 
as terríveis consequências que poderiam advir do seu afastamento político. De 
facto» conjugavam-se os velhos ódios — justificados alguns e injustificados muitos 
outros — com o receio de que a sua laboriosa obra de centralização do poder 
fosse destruída pelas ambições da nobreza, ávida de benesses e apta a manejar 
torpemente a inexperiência do jovem rei 0> 

Interessa, contudo, acompanharmos de perto as principais fases das cortes de 
Lisboa de 1446 ("). Assim, inicialmente, vemos o Doutor Diogo Afonso Man- 
gancha O*) explanar, em nome do Infante D. Pedro, uma série de considerações 
sobre os motivos que o levavam a proceder à entrega do regimento. Rui de Pina 
dá-nos em «sustancya» uma imagem dessa oração, constituída por quatro partes. 



(*) Artur Moleira de Sá, O Infante D. Pedro e a critíca histórica, separata da Revista 

da Faculdade de Letras de Lisboa, tomo XVI, 2.* série, n.* 3, 1950, p. 17; Monianenta 
Henricina. vol. IX, Coimbra, 1968. doe. 211. p. 349. 

O Gaspar Dias de Landim. O Infunte D. Pedro, livro 11. Lisboa, 1893, cap. XXXI, 
p. 152. 

O B.N.L., Cokcçâo Pombalina (Reservados), códice 443, foto. 85-89v. PuUicado por 
Manael Heleno, Subsídios para o estudo da regência de D. Pedro, Duque de Coimbra. 
Lisboa, 19.13. pp. 31-39; Monumento Henricina. vo!. X. Coimbra, 1969, doe. 49. pp. 71-79. 

(*) Humberto Baquero Moreno, O Infante D. Henrique e Alíarrobeira, in Arquivos do 
Centro Cultural Português, vol. 1, Paris, 1969, p. 57. 

O*) Sobre estas cortes, veja-se o artiao do Prof. Joaquim Verininio Senio, Cotrtes de 
Lisboa, (1446). in Dkionárío de História de Portugal, dirigido por loel Serrio, voL II, 
Lisboa. 8/d., pp. 767-768. 

(") Vejaxn-se a seu respeito dados biográficos a pp. 38-41. 

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Segundo o cronista. - A primeira aprcscnlar e enfrciíar ally HIRcy cm tal despo- 
syçam de sua pessoa, siso e entender manhas e virtudes, como de sua ydade nom 
cria que no mundo outro tal ouvcssc; porque dava e dessem todos muytas graças 
a Deos. A segunda que no Regimento do Reyno que todos lhe deram, como 
quer que pera o bem fazer, clle com todas suas forças, entender, e dilligcncia 
fyzera muito a aliem do que poderá, porém, que pollo grande trabalho, que em 
nome d'outrem era reger, especialmente em tempos de tantos desvaires c balanços 
como no seu se seguiram, elle confessava tcio feyto muyto aaquem do que devia, 
de que pedia perdam. A terceira eni í*'\r agardecymentos aaquelles. que no tal 
caso bem e lealmente servyram e ajudaram, guardando nas pallavras o acatamento, 
mais e menos, segundo cabia nas callydades das pessoas e Estados do Reino que 
eram presentes. A quarta condusam foy que em caso que nom fora dereyto. 
nem custume aos Pryncepes de tam pequena ydade. como era a quatorze anos 
darse livre poder de persy regerem Reynos e Senhorios, que a ElRey seu Senhor 
vfsta em todo sua perfeiçam, per graça especial lhe devia ser dado. como a 
outro que fosse de muytos mays dias. E que pera ysso lhe entregava ally mui 
lyvremente. e sem cautella seu Regimento» ('-)• 

A apreciação analítica do discurso — mesmo tendo em linha de conta o 
carácter artificioso da sua reconstituição — revela a autenticidade abscrfuta da 
segunda proposição, mas suscita fortes dúvidas quanto à sinceridade da primeira 
e da quarta, se atendermos a que o regente estaria apostado em continuar à frente 
do governo de Portugal O. Convém, no entanto, sublinhar que o Infante D. Pedro 
entregou a vara da justiça ao rei, postando-se de joelhos e beijando-lhe respei- 
tosamente as mãos, em sinal de obediência e inteira submissão ("). Para todos os 
efeitos, encontrava-se realizado O acto que simbolizava a transmissão do poder, 
mesmo aceitando que existisse no fundo uma dcse muito acentuada de artifício. 

Rui de Pina. diz-nos que. imediatamente após a cerimónia inaugural, veri- 
ficott>se a retirada de D. Afonso V para a sua câmara, onde o jovem rei se 
encontrou com os seus tios, os Infantes D. Pedro e D. Henrique, e com seu 
irmão D. Fernando. Acentua, no entanto, que. depois do soberano ter discutido 
com o regente o modo como havia de continuar a governar o País. lhe solicitou 



('-) Ruy de Pina, ob. cil.. cap. LXXXVl, p. 3^3; Cf. Guspar Dias de Landim, ob. cil» 
cap. XXXI, pp. 149-150. 

('^) Humberto Carlos Baquero Moreno. A caria de louvor ao Infante D, Pedro de 
15 de Janeiro de 1446, separata da Revista de Ciências do Homem da Universidade de Lou- 
lenço Marques, vol. II. serie A, 1969, p. 7. 

('♦) Ruy de Pina. ob. cit.. cap. I. XXXVI. p. 353: C f. Duarte Nunes de Leão, ob. cil.. 
cap. XV, p. 161; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro II, cap. XXXI, p. ISO. 

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auxílio e a sua permanência à frente da regência C*'). Tal versão é corroborada 
por Duarte Nunes de Leio ("). que, aliás, segue sempre de perto a narrativa do 
cronista, mas apresenta-se modificada em Gaspar Dias de Landim, que aftrma 
ter-sé recolhido o rei <á sua camará, acompanhado do Infante D. Henrique, que 
o ia instruindo do modo que havia de governar seus reinos, aconselhando-lhe 
que devia ter sempre comsigo uma pessoa da casa real que fosse bem vista e 
pratica em matérias de governo, que o ajudasse a levar o peso d*elle; e depois de 
El-Rei o ter ouvido por algum espaço lhe respondeu que n9o deixasse o Infante 
D. Pedro de governar em seu nome como até ali fizera, dando-lhe comtudo conta 
dos negócios de importância, porque receava que elle por si não poderia com tâo 
grande cargo» ("). Tal como já observámos noutro estudo ("). não deixa de causar 
uma certa estranheza o modo como este autor coloca o Navegador perante o rei, 
sem a presença de mais ninguém, atribuindo«lhe conselhos que. segundo Rui de 
Pina, teriam sido dados peio infante D Pedro. Poderá até acontecer que esse 
exclusivismo resulte da preocupação de Landim em mostrar as boas relações 
existentes entre os irmãos, as quais apenas sofreram uma relativa quebra nas 
vésperas de Alfarrobeira. 

Data também de 15 de Janeiro de 1446 a carta de louvor outorgada pelo 
monarca a seu tio D. Pedro {"). Aliás, este refcrc-sc a cia. na missiva remetida 
ao Conde de Arraiolos, quando declara que. no dia do aniversário de D. Afonso V. 
v<elle me deu hua carta per que aprouava to<lo ho que cu por elle e em seu nome 
fizera em seus Regnos» ( ' ). Com base neste excerto, advertiu o Prof. Moreira 
de Sá. com inteira propriedade, uma primeira concessão de instrumento de louvor, 
anterior à «carta doutorga e aprovação» já conhecida, de 1 1 de Julho de 1448 (-'). 

Assim, no instrumento dc louvor dado em Lisboa a 15 de Janeiro de 1446 
ao Infante D. Pedro o rei rego/ija-se pelo facto de seu tio ter revelado o máximo 
cuidado e critério na sua educação e na de seu irmão, pondo igualmente cm 
execução uma política de concórdia e harmonia entre os súbditos. Congratula-se. 
ainda, pela boa administração por ele realizada no governo do País, tendo sobre- 



('•) Ruy dc Pm... oh. cit.. c;ip. LXXXVI. pp. 353-3.^4. 

('•) Duarte Nunes de I cão. t>h. cit.. eap. XV. p. 161. 

('') Gaspar Dias de Landim, oh. cit.. livro II, cap. XXXi. pp. 150-151. 

('") Humberto Baquero Moreno, Q Infanie D. Henrique e Alfarrobeira, p. 56. 

(") Humberto Carlos Baquero Moreno, A carta de louvor ao Infante D. Pedro de 
15 de Janeiro de 1446, pp. 11-16. 

(-") Artur Moreira de Sá, ob. cit» p. 17; Moninnenia Henricina, voL IX, Coimbra. 
1968, doe. 211, p. 349. 

(-') Artur Moreira de Sá, Alguns documentos referentes ao Infante D. Pedro, separata 
da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, tomo XXII, 2." série, n.» 1, 1956, p. 19. 

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tudo em conta as graves dificuldades resultantes das amea^ vindas do exterior. 
Eram objecto de aprovação também «todallas cousas feitas per o dito Iffante em 
nosso nome. assi doações de terras, officios, dignidadies, beneficies, quitações, 
como outras quoaesquer mercês assi perpetuas como temporães de qualquer 
quantidade, quallidade e condição que seião». o mesmo acontecendo em relação 
a «todas as penas, assi oorporaes, degredos, confiscações de bens e doações delles». 
a quem quer que fossem aplicadas. Garantia-se. por fim. ao Infante D. Pedro 
e a seus herdeiros, que não «seiam teudos de dar cousa algQa que per nos e em 
nosso nome administrasse. Reçchcssc. desse, doasse, despendesse, por si ou per 
nos.sos offiçiaes ou per ouira qualquer ^ui/a que seia : porque nos o uucmos por 
bem feito, firme e estaucl todo como dito hc. 11 damos o dito lífante e todos seus 
herdeiros e sucessores, terras e logares, bens e cousas, por quites e livres pera 
todo sempre e prometemos cm nossa fee Real que nunqua demandemos o dito 
Iftante. nem seus herdeiros e sucessores cm juizo, nem fora delle por o que dito he. 
nem consentiremos que sobrello seiào molestados nem inquietados» ( '•). A carta de 
louvor passava a constituir, além de uma aprovação dos actos políticos e admi- 
nistrativos do regente, uma forma de salvaguarda e garantia em relação ao 
período posterior à regência, não fosse acontecer que o Infante D. Pedro e os 
seus herdeiros viessem a sofrer algumas con.sequências desagradáveis... Este ins- 
trumento, porém, não obstou a que tal se verificasse. 

Interrompidas as cortes pelo espaço de três dias, assistiu-se à sua reabertura 
em 18 de Janeiro. Desta vez. o Doutor Diogo Afonso Mangancha falava em nome 
do soberano e requeria ao Duque de Coimbra que continuasse no exercfcio do 
cargo de regente do reino. Rui de Pina pretende dar uma síntese do discurso 
proferido, reproduzindo-o «sustanciatmente» : «Oue avya por recebydo em sy do 
Yfante Dom Pedro seu Tyo e Padre o ynteyro Regimento de seu* Reino, dando-lhe 
por ysso com largio recontamento de seus muytos seruyços e merecimentos, grandes 
agardecimentos com muytos seus louvores, outorgando-lhe nom soomente autori- 
zadas quitaçoões de todo o tempo de sua governança; mas aynda por mayor sua 
honrra, que fycasse em Registo por verdadeiro e claro testemunho, da obrigaçam 
em que por ysso fycava a elle e a seus fylhos. com todolos que delles decendessem: 
porque conhecia e declarava que nunca algiun Pryncepe fora no mundo com 
tanto amor e em tanta perfeiçam criado, nem em manhas e custumes Rcacs 
também ensynado. nem com tanta lealdade e obedyencia servydo e tratado, como 
elle sempre fora do Yfante Dom Pedro, seu Tio e Padre; porém porque elle 
aynda nom tynha idade, pera persy soo reger sem perigo de sy mesmo e das 



A.D.B., Rerum memorahitium aã iurisdictionem Ecelesia Braatrentís, tomo II, 
foK 88v*89v. Publicado por Humtwrto Carlos Baquero Moreno, ob. nV.. pp. 11-16. 

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cousas que regesse, nem tivera a pratyca e esperyencia delas como pêra Rey 
compria. e era por ysso necessário tomar alguma pessoa que no Regimento ho 
ensynasse c ajudasse, e por todos respeitos, causas e rezoóes, nom avya em todos 
seus Reynos outro pcra ysso mais pertencente, que o mesmo Yfantc Dom Pedro, 
que elle de seu próprio moto. sem lembrança nem rcquerymento d'alguem o 
escolhia pera ysso, e avya por seu servyço c por bem de seus Reynos. que elle 
Yfantc tornasse com elle a reger c governar seus Reynos. assy como dantes fazia, 
atce elle se sentir em desposyçam pcra per sy soo o poder fazer, mandando que 
a obcdyencia que em regendo sempre lhe guardaram, essa d'hi em dyante lhe 
guardasem muyto mais inteiramente» (-^). 

Três partes fundamentais caracterizam a exposição oral efectuada em repre- 
sentação do soberano. A aprovação dos actos realizados pelo regente durante o 
período do seu governo, aliás testemunhada na mencionada carta de louvor; 
o agradecimento pela forma eficaz e exemplar como fora providenciada e executada 
a educa^ do rei. de igual modo consignada nessa carta: finalmente a solidtaçio 
feita ao Duque de Ccrimbra para que continuasse à frente do governo, numa 
demonstração de plena confiança e total apreço. 

Esta série de sequências, mais ou menos urdidas e pré-estabelecídas. causaram 
o maior desagrado e ressentimento junto dos principais mentores da nobreza, 
desejosos de que o afastamento do regente se desse o mais ràpidamente possível. 
Testemunho bem frisante e elucidativo, temo-lo na carta de 3 de Janeiro de 1446. 
remetida pelo Duque de Bragança ao régio sobrinho, dos seus Paços do castelo 
de Chaves, a qual se destinava a ser lida nas cortes de Lisboa. Nio tendo querido 
ou podido deslocar-se. D. Afonso fazia-se representar por Gonçalo PbreiraO. 



(-^) Ruy de Pina, ob. cit.. cap. LXXXVI, pp. 354-355; Cf. Caspar Dias de Landim, 
ob. cit., livro II. cap. XXXI, pp. 151-152. 

(*) Vejftnv4e a seu respeito dados biogiáficos em apfindioe. 

Rui de Pina diz-oos que o iDuque [de Bragança] publycamente per Gonçalo Pereira. 

que se dizia das armas o contrariou nas Cortes per huns apontamentos, que a ellas enviou. 
Mas nam foy cntam ouvydo; porque o coraçam d'EIRey aynda nom era de falsos teste 
munhos corrompido, nem cheo das erradas suspeitas contra o Yfante, como ao diante foy> 
(Ob. ci/.. cap. LXXXVII!, p. 356). Com bastante imprecísio oonológica, escreve Gaspar 
Dias de Landim que o Duque de Bragança, ao tomar conhecimento que o Infante D. Pedro 
«não queria largar o governo a Fl Rei seu sobrinho», se dirigiu ao monarca por intermédio 
de Gonçalo PcrLint c «lhe mandou uns apontamentos em forma de conselho em que o 
persuadia que governasse seus reinos, e nào andasse sujeito ao Infante D. Pedro, pois lhe 
dem Deus tSo perfeito jufíEo e entendimento, que podia governar outros estados muito 
maiores» (Ob. cit., livro III. Lisboa» 1894, cap. I, pp. 5-6). Desconhece este motor que a carta 
tem a data de 3 de Janeiro de 1446, quando a renovaçSo do regimento se deu em 18 desse 
roés e ano. 

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cavaleiro da sua casa. que pertencia ao conselho do rei. Salicntava-se na missiva 
o rcgo/ijo pela circunstância do soberano atingir os cator/e anos e se encontrar 
apto para começar a governar o seu reino, ao mesmo tempo que se punha a 
tónica na necessidade duma efectiva c autentica entrega do reeimento. Como 
comprovativo, basta atentar nestas palavras : «Ouc elle [D. Afonso V] os aja 
rrealmente com efecto. ssem condiçam nem cautella. asy como se elle fosse dhidade 
de trinta annos. E que todallas coussas de justiça e de fazenda e o que delias 
depender, asy da emmenta e passe como de quaeesquer outras que os rreis 
passados ssohiam de dessenbargar que elle ho faça. E que elle de todollos djnheiros 
das rrendas que deue daucr dos dictos sscus rregnos c ssenhorio. faça como 
lhe prouuer e asy das vilas c castellos. terras e tecnças e ofícios, beneficios e 
dgnjdades (sic) e todas as outras coussas» ( ' ). Mais elucidativo não pixlia ser o 
Duque de Bragança no seu forte desejo de remover o grande obstáculo que se 
opunha à cobiça desenfreada de mercês e de rique/as. À medida que a corrente 
que encabeçava ia engrossando, mais precária se tornava a estabilidade política 
do regente. 

Resolvido o problema da continuidade da regência, processaram-se seguida- 
mente os trabalhos habituais nas cortes de Lisboa. No conjunto, a sua duração 
não deve ter ultrapassado os dezoito dias. pois em 3 de Fevereiro de 1446 já 
vamos encontrar o Infante D. Pedro em Santo Amónio do Tojal {^). Entre os 
assuntos mais importantes aí tratados, avulta a ratificação do matrimónio entre 
D. Isabel e D. Afonso V ( ' ). cujo contrato nupcial se veio a rcali/ar na capital, 
em 6 de Maio de 1447 (*"). 

Um capítulo especial de Lisboa testemunha o descontentamento da sua gente 
contra certas arbitrariedades. Afirmavam que «per vos he determinado, que os 
vo.ssos direitos Reaecs se tirem c Rccadem per a guisa que sempre foi custume 
e nom se faça em ello emnouaçam algúua. E hora o Conde dOurem. vosso 



(-') A.N.T.T., Choncehiriíi </i- D. Afonso V. livro 5, foN. 5-5v; Livro I ile Extras, 
foh. 180V-I82. A primeira fonte encontra-se publicada na Monununta Hcnricina. vol. IX, 
Coimbra, I9íi8, doe. 72 c 73, pp. 99-102. tendo a segunda sido editada por D. António Caetano 
de Sousa. Provas da História Genealói-ica da Casa Real Portasiwsa, tomo III. 2.* parte. 
Coimbra. 1949, pp. 78-82. 

( Humberto Carlos Baquero Moreno. Os Itinerários do fnfantt- D. Peilro ( 14J8-1448). 
pp. 16 e 148. 

Ruy de Pina. oh. cii.. cap. LXXXVI. p. i55\ Cf. Dua te Nunes de Leão, ob. cil.. 
cap. XV. p. 162; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro II, cap. XXX.. p. 152. 

A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 34, foi; 5v; Livro 2 de Místicos. 
foi. 16; Livn) l de Reis. foi. 33v. A primeira fonte encontra-se publicada na Mt»niiimitia 
Henricina, vol. IX, Coimbra, 1968, doe. 159, pp. 243-247 e a segunda foi editaii i por 
D. António Caetano de Sousa, ob. cit.. tomo 11, I.'^ parte. Coimbra, 1947, pp. 57-01. 

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Fl. 32 



sobrinho, passa cm esto vossa dcterminaçom. demandando algúuas cousas noua- 
mcnte que o poboo nuncii pagou, nom mostrando dello foral, nem outra cousa 
per que o dcua dauer. t poro a cidade se quer poer alguuas vezes c dcffcndor 
ilcniandas que sobresto som feitas a pessoas simprezcs. porque passando cni eou^a 
julgada per mingoa de o a> taaes pessoas nom saberem deffencler. o poboo fica 
cm ello tributário. O Corregedor a nom quer Receber a tal demanda, dizendo 
que tem sobrcllo \ossa deffesa. Porem .Senhor esta cidade vos pede de mercee 
que lhe dees luL'ar que quando se taaes demandas fe/ercm. de c|ue a cila Jeralmentc 
possa Mir tal perda; as possa defíender com seus priuillegios e hberdades e sela 
a clkis Recebida e la/erihe.sees em ello grande mercee. Ca cm outra maneira 
pereeenani per este aa/o seus tiereilos e boons cusiunies». Fm resposta declarava 
o Inlanle D. Pedro, v-quc qi'ando sc .semclharites denumdas fe/ercm contra alyuua ou 
aigúas pessoas, que soomenic pertccnça a ellas. que a v'dade nom ha porque -«e apoci 
aas deffcndcr por .sua parte; mas sc taaes demandas tocarem comtra a jurdiçom 
ou direitos da cidade, a nos praz que ella se possa apoer a ello e assi lhe damos 
lugar que O façam» (^). LemtHiiivam igualmente ao regente que ele «tem mandadc 
que sse aa çidade for feito algQu agrauo sobre sseus priuilegios ou ssobre outra^ 
coussas que sse Recorra aa uossa Rellaçom.. de si a vos. E aconteçe que essa 
Rellaçom nom lhe proveendo de Remédio segundo perteençer, pedem cartas teste- 
munhauees pera vos E nom lhas querem mandar dar. Seja uossa merçee que 
mandees a Aires Gomez e asy aos outros da Rellaçom. que quando em nome 
da çidade lhes for pedida algOua carta testemunhauell pera a uossa merçe. que 
lhe mandem dar ssem outra Reposta com ssua rreposta. Porque em outra guissa 
a uossa merçee nom poderá sseer çerta do casso ssobre que a duvjda he, nem dar 
em ello camjnhauell Remedeo». O caminho a seguir era indicado pelo governador 
do reino : «Quando uos sentirdes asy agrauados vos fazee ssobresto uossa Enfor- 
maçom E a daae na Rellaçom a Aires Gomez da Silua ou a outro quallquer 
que tal! carrego teuer. E elle \os Iara ssobrcllo proueer. Ao quall mandamos que 
a haja E uos de nas costaii delia o dessembargo sijnado per elle. E sse vos vtjrdes 
que proueem em ello o que for neçessario. nom conpram outra prouissom. 
E quando .sentirdes em ello agrauo, íazecnollo s.saber Enujandonos o dicto dessen- 
bargo E prazendo a Deus nos tornaremos a ello como ssentirmos que be rrezom 
e djreiío» (*). 

Mais mal sucedidos foram os procuradores do concelho de Tavira, quando 
declararam que pelo regente fi>ra ordenado ^que na coniaiva do com^elho em 
vereaçom nam estiue&em senam os vereadores e procuradores do pouo meudo 



A.N.TX, Livro II âe Estremadura, fols. l9v-20. 
(») A.N.T.T., Chaitcelaria de D, Afim»} V, livro 5, fd. 68v. 



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c dos iiieslerej» que sain dous homecns c tros ucrcadorcs c huu procurador, c sam 
seis. E priuasles os boons da terra que nani eslcni as \ercaçõees como damtigua- 
mciiic csicucram. E per olc a/o a terra nam hc imlhor Rceida. anites ho hc psor 
porque as vezes saeem por vereadores honioiiN n<nios e simpre/es que nain hani 
dc saber o Regimento da terra; e ajnida qii, qiieirar 'iam o sabem fa/cr. 
E quamdo os boons amtiguos estam em camará sabem ho Regimento da terra 
e prouem o Regimento e fazem o que dcuem como dantiguamente fezeram e 
seede çerto Sennhor que desto se segue a terra mais dano que proueito», ao que 
aquele governante respondia que «auemos por booa» a ordenação feita. <e nam 
auemos por nosso seruiço. nem bem c proueito da terra de fazermos sobfe «lio 
outra mudamça» 



(»«) A.N.T.T., Lit ro 4 de Odhma, foi». 7«v-7l. 

Num regimenlo acordado pela câmara dc Lisboa apresenlado k* ctirlcii «le 1439, para 
■gecruU proueyto e assessegOB da cidade, tendo em vixia «que os uu/os Uos xcamUalloií c 

allcu;intamentos fossem afastados e nom omtcsscni lugar", for.tni sitlicitailas a-. Nct:iiintcs 
condições: I." — Nos dias cm que houvesse vciViíeiH-s. apcnus deviam estar presentes três 
vereadores, o procurador, o escrivão da câmara c quatrti homens bons dos mesteres; 2. ' Na 
hipótese dos representantes camarários necessitarem de se aconselhar com determinadat 
pessoas, deveriam mandar chamá-las; 3.' -- Se alguém pretcnUes.se forçar a entrada nos tra- 
balhos das sessões sujeitar se-ia às seguintes sentenças pecunidrias : um fidalyo ou um cava- 
leiro pagaria de multa (tlKX) reais brincos: um ciiUidão honrado 3(HK) reais br.ineos: um 
mesteiral, lOUO reais brancos c um homem de pe. 500 reais brancos e uma semana de piisào. 

O regente aprovou o presente regNncnlo cm 14 de Maio de 1440, estabelecendo, no 
entanto, algumas normas que visavam o bom funcionamento das vereações e contrariavam a 
aglomeração dos vizinhos do concelho para deliberar sobre problemas considerados dc certa 
isravidade. Vale a pena atentar ni> profundo sienificado das suas p.ilavi ts : n\- quamto hc ao que 
dizees em outro capitólio do ajumtamento do poboo, se taça segundo sse amle custumaua : tall 
custume foy muy desuayrado porque em algflus tempos nom sse fazia senam por cousas muy 
ncçessarías. E em outros se faziam açerqua cada somana, por cousas que nom crom neçe!»arias. 
F. sobresto nos vos mandamos que taaes jumuunenlos nom os façaaes saluo por cousas de gramdes 
necessidades, porque deites se seguem pramdes empachos c toruacoões, e aimda perda aos mcr 
cadores c mcsteyraaes. Os quaaes estamdo cm suas casus acrcçcmt.im em suas ia/.cndasc rrique- 
zas, o que nom podem fazer amuando em taaes Juntamentos. E tccmde sobresto avisamento que 
quamdo o pobo assy for todo Jumto sse nom for cousa de granule trigamça, que numca :issy 
dees finall determínaçom no feito, porque o isvy iJumiardes mas de cada hflu estado, sciam 
estremados çertos que sciam cmtemdidos e bi ons. At s qiKiaes daae emcarrepo determinar 
aquello porque o poboo for Jumto. t per esta guysa scram Vv >os feitos miiys discretamente 
e milhor emcaminhados» (A.N.T.T., Uvro 10 dí' Estremadura, fols. 12-13. Parcialmente 
publicado no Uvro de Posturas, foi. 71, existente no A.H.C.M.L. Encontrasse, ainda, parcial* 
mente truncado, na Chancelaria de D. Afonso V, livro 23. foi. 16; Cf. Maria Teresa Campos 
Rodrigues, Aspectos da administração mtmicipal de Lisboa no século XV, Lisboa, 1968. 
pp. 40-41). 

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No período que decorre de 4 a 24 de Fevereiro de 1446. deparamos com 
uma «série de andanças do Infante D. Pedro, o qual visita a capitai. Santarém, 
jorres Novas c Almeirim. Acabara por fixar-se na capital do Ribatcio por largo 
espaço de tempo, entre 25 do referido mes e 2S de Maio. Tal estada apenas será 
mterrompida por breves visitas ao I avradio. f orres Vedras. Muge e Almeirim ( -). 
f oi precisamente quando estava em Santarém, no dia S de Março, que concedeu 
uma > graça e merçee» á cidade de Lisboa. Assim, ficitu estabelecido que huu 
homem que for porteiro da camará delia. E outro que for sacador das '^uas 
Rendas. I- dous que scruirem a dieta camará. Em guisa que seiam per lodos 
quatro e mais nom. Seiam daqui en diante escusados de pagar em nossos 

pedidos ( ). 

Entre 3 c U) dc Junho de 1446. vemos o regente alternar a sua presença cm 
Abrantes e no Sardoal. Chega a Torres Novas cm 18 de Junho, para pouco 
depois se detectar a sua presença em Penela, nos dias 27 de Junho e 28 de Julho. 
Em Coimbra, capital do seu ducado, vai-nos aparecer em 5 e 6 de lulho, mas. 
nos dias 12 e 13 deste mês, já o localizamos em Abrantes, a caminho de Estremoz. 
Em Estremoz vai demorar-se por largo espaço de tempo, de IS de Julho ao 
primeiro dia de Outubro. Maior será ainda a sua permanência em Évora, a qual 
durará de 5 de Outubro até 25 de Março de 1447 

Foi precisamente em Março que af se realizaram as cortes de Évora de 1447. 
cuja duração não nos foi possível determinar, apesar de conhecermos alguns 
capítulos, outorgados nos dias 22. 23. 24 e 25 de Março. O motivo principal da 
sua convocação obedecia à necessidade de se obterem os fundos indispensáveis 
à realização das festas de casamento entre o rei e a filha do Infante D. Pedro. 
Para esse efeito, foram aí outorgados dois pedidos e meio. além das dízimas (*). 

Nestas cortes, repetiam-se as queixas tradicionais. Os procuradores de Alcácer 
do Sal, Rui Lopes de Almez e Lopo Soares, lamentavam-se de que «algQus 



Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cii.. pp. 16 e 14 .53. 

(") A.H.C.M.L., Livro 1 de Provitmiiío tfc Ofícios; foi. 16; Livro (h>s Pregos, foi. 255. 
("t. Iria (joni,al\cs. Pedidos e empréstimos públicos em Porlunal durante a Idade Média, 
Lisboa. 1964. p. 118. 

^) Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cii.. pp. 16*17 e 153*162. 
Iria Gonçalves, ob. cit., p. 208. 

Segundo esta historiadora, «Neste liltimo ano [1447] celebroii-sc o casamento dc 
D, Afonso V e. para as suas festas, o reino contribuiu com dois pedidos e mcio. C om efeito 
em 1448 estava-&e cobrando no almoxaníado dc Torre de Moncorvo um ultimo pedido dos 
que naquele almoxarifado foram tirados para o casamento do jovem rei, e no mesmo ano 
foram postos em receita ao seu recebedor, 9951 reais brancos e 3 pretos, que o mesmo 
ficara devendo do pedido e meio tirado no ano anterior, 1447, para o mesmo fim» (Ibidem, 
p. 162). 

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lauradores se ueeni morar aa uilla c se lanham aos Jornaacs», pela *qual Ra/om 
as lauoiras sam minLioadas do que so\nm per mingua de seruidorcs. F uosos 
dizimes e dereilos Reaaos scram desíalL\'idos.. M '). Também maniíesia\am c|iie 
O corregedor vhordcnoii bolssa gecral pêra os carregos e seruidooes- concelhios, 
lendo delcrminado que iodos pagassem, com e\cep(;ão dos vassalos e dos besteiros 
de cavalo. Acontece que ninguém cumpre o preceituado, ^.pcr a qual Razom os 
Jujzes sam postos em grandes fadigas». A esta reclamação responde o regente, 
determinando que se dê cumprimento ao regimento do corregedor. Se alguém, 
|K»ém. se sentir agravado* que requeira justiça ao rei por intermédio dos seus 
juízes O* Por seu lado. o concelho de Elvas fozia ouvir a sua voz, por intermédio 
de Garcia Fernandes Perdigão e Gomes Rodrigues de Heruga. ambos escudeiros, 
os quais declaravam que Martim Gomes, anadel dos besteiros do conto, dispunha 
de um alvará do Rei D. Duarte. O mandado estipulava que. se o juiz e vereadores 
não lhe entregassem os besteiros do conto solicitados, no prazo de oito dias, «ele os 
possa toinar», e àcontece que às vezes «passam algQus dias mais dos oito, que 
nom podem seer auiidos». Ao dar execução ao determinado, Martim Gomes causa 
«muitas Reuoltas e custas e despesas aos que assi toma». A petição era atendida, 
sendo o prazo alargado para quinze dias ("). 

Coube ainda ao concelho de Silves apresentar nestas cortes um requerimento, 
em que usaram os seguintes termos : «...em as cortes passadas que fezestes em a 
çídade de Lixbooa outorgastes a todollos lugares de uossos rregnos que nom 
ouuesse fronteiros, visto o assessego que com nossos vezinhos auiees. E sse 
tomasse ao ponto en que era em tempo dei Rej dom Joham e delRej Duarte 
vosso auoo e padre cujas almas Deus aja. E em esta çídade e rregno do Algarue 
esto sse n» .v. comprio porque nos dictos tempos a que ouue fronteiros Nem nos 
Senhor nom vollo rrequeremos que nollo tirecs. Mas pcdimosuos por mervec que 
mandccs que este tronleiro usse como usarcnTi seus antecessores, a saber, Vasco 
Eanes ("(^rte-Real e dom Aluaro que fo\ bispo daqui e despois lov bispo dEuora 
c outros honrrados homeens que amte elles lorom. F. sse nom estenda mais do 
que sse elles estendiam E do que na carta do dicto seu ofivio he conthiudo. 
E farnoees em ello merçee». Rcspondia-lhes o Infante D. Pedro que «auemos 
\osso rrequerimento por boom. l assi nos pia/ que sse fa(,a. por a qual rre/om 
screpuemos a Ciomvallo Nunc/ Harrcio. que tem carrego da guarda da frontaria 
desse rregno. que tenha tal maneira comuosco com rresgoardo do nosso seruiço. 
que nom tenhaacs rrezoni dc uos agrauar» ( *')• Por sua vez, um capítulo apre- 



(*) A.N.T.T., Livro 3 de Odiana. foi. 285. 

(") A.N.T.T.. rivr,< .< Jr O.ltana, fols. 2X4v-285. 
('*) A.N.T.I., Livro J J< OJunui. tols. 285v-:S6. 
{■^) A.N.T.T., Maço 4 do Siiplunciiio de Coi ic.\. n. ' 44. 

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sentado pelo concelho de Tavira exprimia «que cm as cortes que fezestes em a 
çidade dc Lixboa. a pcdimenlo dos pouos dos nossos R''gnos fe/estes mençam 
a todos os do nosso Sennhorio que trouxcsem <.iias armas sem embargo da nossa 
hordenaçam. c de feito as tragem e gouucm da mcr^e que lhes per nos foy feita. 
E a esta uilla as piiuastes e mandastes per uosa carta especial que em ellas 
nenhuus nam trouxessem armas e aJmda mandastes que os que as irouxesem 
paguasem a pena em dobro, c de feito lhe foram c sam priuados ha tres annos 
que as nam trouxeram, nem tragem. Do que Sennhor todos em Jeeral teemos 
gramde scmtido. por seer a esta uilla feito moor agrauo que a todo o Regno 
de Portugual e do Alguarue. E por compra/er a uosa Sennhoria paviemlemente 
o coinprimos c nam quisemos sobre ello supricar conio Ra/om tora. Pero Sennhor 
deuees dc saber que nam fazemos nenhúu deseruiço porque nos tal priuamça fose 
posta; amte fizemos sempre mujtos e leaêes seruiços aos Regnos e aos Rex de 
que iK» degçenidees e a uos, e fomos prestes pera o sempre fazer com ledos 
coraçoêes e aJmda estamos em fromtaría de Castella e de mouros homde cada 
dia Recreçem seruiços. E por ello nos so5es teudo a fazer mujtas merçees, que 
se esta priuaçam fora a outros algQus luguares de nossos Sennhoríos nam nos 
ouueramos dello por tam agrauados. mas de o sermos em especial pareçenòs 
hQua cousa estranha...». O regente autorizava-os, a título experimental, a trazer 
armas durante um ano. Findo tal período e comprovado que «víuees todos em 
aseseguo, sem amtre uos auer bandos, nem aRoidos. nem outros aJumtamentos», 
obteriam a licença pretendida 

Concluídas as cortes de Évora, dírigiu-se o regente para a capital do reino, 
onde o encontramos em 4 de Abril. Os itinerários dão>nos a sua presença em 
Lisboa até 9 de Junho, sem assinalarem qualquer deslocação ("). Rui de Pina 
diz-nos. contudo, que «ElRey no mes de Mayo de mil e quatrocentos e quarenta 
e sete, cm Santarém tomou sua casa e sua mulher juntamente, com as beoçooSs 
e cerímonyas. pella Santa Ygr^ em tacs casos ordenadas, e com alguma mos- 
trança dc feestas. mas nom foram naquella perfe\çam e comprymenlo que o 
Yfante quysera e tinha ordenado. Porque coiim deixou o Regimento. logt> lodallas 
cousas aynda que fosse sem culpa sua pcra seu desfavor lhe volveram as costas» ('"). 
Deve tratar-se dc um lapso do cronista, sendo de aceitar que essas comemorações 



(«) A.N.T.T.. LÍMo 4 ílc Uduiiui. fols. 7lv-72. 

(*') Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cil., pp. 17 e 162*163. 

C*) Ruy de Ptna. oh. cif., cap. LXXXVIII, pp. 357-^; Cf. Duarte Nunes de Leão, 
ob. cit., cap. XVI, p. 166, o qual afinna correctamente que ao mez de Maio daquetie anno 
dc mil quatrocentos e quarenta e oito. tomou eIRey sua casa, e molher». Outrotanto se 
observa com (ia&par Dias dc Landim, ob. cit.. livro 111. cap. I. p. 8. 

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se efectuaram no ano scguinie. islo é. cm 1448. quando o regente se encontrava 
efectivamente na capital do Ribatejo (''). 

Encontra\a-se o Infante D. Pedro em I isbiia, quando, em 3 de Junho de 
1447. enviou uma caria convíKaUiria ao deão. chantre e cabido da Sé de Braga. 
Nela fa/ia «saber que a nos lie compridoiro tallarnios com os prellados H clerizia 
de nossos rregnos algúuas cousas de nosso seruiço. E Porem uos encomendamos 
que enujees a nos vossos procuradores com vossa procuraçom abastante em tal 
guisa que sselam em esta cidade de Lixboa primeiro dia dagosto que ora vem:» ("). 
Muito embora desconheçamos as razões que levaram à efectivação da reunião, 
supomos que a mesma se deverá ligar com o problema das leis de amortização. 
Era facto corrente no século xv receberem os clérigos bens de raiz em pagamento 
de dívidas, autênticas ou simuladas, sob a alegação de que não se tratava de 
aquisições (^). O regente deve ter pretendido acabar com a equívoca situação, 
ao promulgar nas Ordenações Afonsinas, publicadas cm 1446. uma le^slação 
adequada h coacção de tais abusos Esias medidas devem ter provocado 



(' ) Humberto Carlos Baijucro Moreno. <>/>. m.. pp. Ií>7-Hi8. 

Na carta «scrita pelo Infante D. Pedro ao Conde de Arraiolos, cm 3U de Dezembro 
de 1448, vemos a dedançlo que «foy amtfclle [D. Afonso V] e mim conçcrtado que peia 
o mes doutubio que ora passou, [de 1448], que encam era por vir. ellc tomasse sua molher 

e casa e que eu lhe entregasse cnilomvv o dito rrcgimento, com aqiicllas lestas e soiienidailc 
que em tal caso sse rrcqucria. t pcra sc aucrcm de fa/cr as ditas festas, tnaiidara o dito senhor 
por mujtos panos douro e seda e por mujtos outros guarnimentos e cousas pera taes feitos 
neçesariasi. Estas cerimónias tiveram de ser antecipadas para o mês de Maio do mesmo ano, 
devido às solicitações do ici — pressionado pelos inimigos do regente para que lhe fosse 
entregue o regimento. DÍ7-nos o Duque de Coimbra : «c sabemdo que algOlis lhe faziam 
esto rrcqiicrer c que nom lhes pra/ia de se comprir tio ci^arncnto liamtre o dito senhor c a 
senhora irainha minha tilha, pidilhe por mervc que, pojs que lhe asi prazia de me amtiçipar 
ho tempo de festas de seu casamento, que lhe prouuesse casa e rreçeber seu nigimento, o 
qual Ihemtn^aiia tam poçifico e em tal maneira, que ajudamdo Deus nom tinha outro 
trabalho, saluo manter seus rreincs cm justiça e direito. E eite me outorgou que lhe prazia» 
(Artur Moreira de Sá, O Infanto l) Pedro r u nitica hixiórka, p. 12 c scgs.; Monumenta 
Henrlcina, vol. IX, Coimbra, iy(>8, doe. 211. pp. 344-356). 
AJ>.B., Cartas Régias, tomo I, doe. I. 

Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portuga!, tomo II, Coimbia, 1910, 

p. 77. 

Ordenaçoem do Senhor lit v D. AJíonso V, livro II, Coimbra, 1792. título VII, 
ait. 29, 30 e 89; título XIV, art.' 4 e 5. 

Interessa ver em particular os seguintes artigos: «Artigo LXXXVIIII. O Quinto he, 
que se algXSas herdades^ quintais, casaaes, e possissoSes forom leixadas a alguO Moestdro, 

ou Igreja, que se as nom vender ata huQ anno, que as perca; e se as nom demandarem os 

mais chegados parentes ataa tempo certo, fiquem por d'EIRev; e pediam que consentisse 
que pera Capeellas, e Aniversários pudessem os t.eigos, e Clérigos leixar destes bees o que 

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algumas rcacvôcs por parte do clero, que via as suas prerrogativas gravemente 
ameaçadas. Hicctivada a sua reunião com o recente, a qual teria tido início na 
capital no primeiro dia de Agosto, resultou d;ii a publicarão da lei de 20 de 
Setembro de 1447. a qual estabelecia que tossem garantidas às igreias. mosteiros^ 
e casas religiosas a posse dos bens que possuíam na altura em que faleceu 
D. João I. Respeitar-se-ia esse direito, mesmo que os bens existissem em reguengos, 
terras jugadeiras ou loreiras do rei ou a qualquer outra entidade! ). 

Deparamos com o Inlante D. Pedro em Santarém, em 12 de Junho de 1447. 
Depois, no período comprendido. entre 2í) desse mês e 15 de Julho, observa-se 
aliernadamcnte a sua presença em Sintra e em I isboaí '). Seguidamente, acom- 
panha D. Isabel, mulher do Rei de Castela, até Coimbra e Pinhel, localidade esta 
em que a rainha é entregue aos embaixadores castelhanos!"). A sua viagem 
aparece-nos denunciada pela sua estada em Vouzela, próximo de Viseu, a 17 
de Julho de 1447. Chega a Leiria no dia 23 de Julho de 1447, para alcançar a 
capital do reino no dia seguinte, onde por certo lhe coube a tare& de orgwizar 
os preparativos da reunião do clero de todo o reino. Em Lisboa, permanece até 
9 de Outubro, alternando de vez em quando a sua estada na primeira cidade 
do reino com algumas idas a Sintra, onde supomos encontrar-se o rei O. 

Não deixa de ser significativo notar que. em 17 de Agosto de 1447, obteve 
do rei o Infante D. Pedro uma série de confirmações de seus bens. quando ainda 
se conservava à frente da regência do reino. Assim foi-lhe confirmada a posse 



lhes prouver» «A esto responde ElRey, que todolos Reyx, que ante elle forom, e ainda em 
Cortes foi esto hordenado. e prouve dello aa Clerizia, e nunca o contradisse, entendendo por 
serviço de Deos, e bem, e prol da terra; e que pois que os Reyx antigos esto fezerom, e 

hordcnaarom, que porem cllc nom enlende em ello mais de ennovar. e elles o nom devem 
avcr por mal; porem que u elle ap^^^, que pcra Anucrsairos, ou Cupeellas possam leixar 
a algOu Leigo, per que possa mandar cantar em tal guisa, que os beês fiquem sempre pro- 
fanos, e da Juidíçom d'EIRey, e obrigados aos encarregos, e tributos nossos, e do Concelho, 
assy como eram ante que leixados fo^^em» (Oh. r/V., título Vil, p. 150). «4 H Porque a nos 
foi dito. que alguns C lerigos. c Hordeès por detVaudar esta Ley. tomam alpuus bi.c> de raiz 
cm pagamento de «.uas dividas di/endo, que nõ he compra, e que os podetn iccr sem embargo 
desta Ley : Porem querendo nós tolher este engano, mandamos que a dita Ley aja lugar 
em taaes lieSs assy dados em pagamento assi compridamente, como se verdadeiramente fossem 
comprados, porque achamos per direito, que igual cousa he em todo dar, ou receber em 
pagamento ao contrauto da compra, c venda, etc.» (Oh. rii.. titulo XIV, p. 176>. 

('•) Frei Antônio Brandão. Monarchia Lusiuino, livro XXII, cap. XiX, tomo VIU, 
pp. 132 c segs.; Fortunato de Almeida, ob. cit., tomo 11, pp. 77-78. 

Humberto Carlos Baquero Moreno, ob. cit., pp. 17 e 163-164. 

(«) Ruy de Pina, nb. lit.. cap. I XXXVII, pp. 355-356: Cf. Duarte Nunes de Leão, 
ob. cit; c:ip X\'. p líO: Cl ispjr i:)ias de Landim, oh. cir. livro II. cap. XXII, pp. 153-154. 

(-'°) Humt>erto Carlos tíuquero Moreno, ob. cit., pp. 18 e 164-IÓ5. 

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da vila cie Penela com seu icrmo. dos reguentios do ( aniporos e do Rabaçal; dos 
lugares de Alvaiázere c de Pereira, com os seus respecti\os reguengos; os lugares 
de Anobra. Vila Nova de Anços e Buarcos; das (erras e celeiros de Scgadães e 
Ricardãcs; das terras de Castrovàes e de Ponle de Almeara: dos lugares dc Abiul 
e de Condeixa, com os seus respectivos lermos, que lhe foram doados por D. João I 
em 17 de Abril dc 1411 (''). Também obteve confirmavão do lugar, reguengo e 
paços de Tentúgal; do lugar, terra e castelo da Lousã; e do lugar e casas de 
Cernache» que o mesmo monarca lhe doou em 15 de Outubro de 1413 Ainda 
na data acima assinalada, teve a confirmação da posse da vila e castelo de 
Montemor-o- Velho, que obteve em 10 de Setembro de 1416, por troca com a 
vila de Alvaiázere De igual modo lhe foi confirmado o lugar de Vila Nova 
de Ançós, cuja concessão ficou a dever ao mesmo monarca em 23 de Agosto 
de 1421 (-'*) e os casais de Alvaro e Bolfean outorgados em I de Julho do refe- 
rido ano 

Também em 17 de Agosto de 1447 lhe foi confirmado o padroado da igreja 
de S. Salvador, junto de Coimbra, o qual lhe fora doado em 8 de Janeiro de 



(-') A.N.T.T., Livro 2 de Místicos, fols. 24v-26. 

O Infante D. Pedro obtivera a doação das rendas da vila de Penela, em 1 de Outubro 

dc 1408 (A.N.T.T,, í.ivro 4 de Místicos, fols. 30-30v), tendo tomado posse das mesmas, por 
intermédio dc Afonso Pires, cm 7 do referido mês c ano (A.N.T.T., Cavcra XII. maço II, 
n." 3. Sumariuda em As G ave las da Torre do Tombo. vol. II. Lisboa, 1969. p. 769). Também 
em caria de 31 de Julho de 1416, comunicou a Alvaro Dias que tomou posse do reguengo 
do Rabaçal, o qual pertencia À Colegiada de S. Bartolomeu em Coimbra (A.N.T.T., Colegiada 
dê S. Bartolomeu, maço II, n.*' 19). 

(■-) A.N.T.T.. Livro 2 de Misrie<n. foi. 24v-26. 

Conhecemos uma carta qiic lf)c foi outorL-aiía por I). Jofio I cm I I de Janeiro dc 1417, 
em que lhe foram doados os lugares dc Icniugal, Pereira, Condeixa c Cernache. (A.N.T.l., 
Chancelaria de D. João I, livro 3, fols. I93v-I94). 

A.N.T.T., Uvro 2 de Místicos, foi. 24v-26. Encontra-se registada esta transacção 
na Chancelaria de D. João /. livro 3, fols. 188-1 88y. 

O Infante D. Pedro obteve a doaçiío do castelo de Coimbra, com as suas respectivas 
rendas, foros e direitos, cm 18 dc Fevereiro de 141^ ( A.N. I .I .. Chancelaria de D. João I. 
livro 3, fols. 179-179v; Cf. Anselmo Braamcamp Freire, Brasões da Sala de Sintra, livro III. 
Coimbra, 1930, p. 255). 

(s*) A.N.T.T., Uvro 2 de Místicos, fols. 24v-26. 

D. Joio I doou-lhe em 4 de Janeiro de 1419 o rio de Al viela, com o seu areal, o qual 
se estendia desde a igreja de S. Vicente de Casevel até ao Tejo (A.N.T.T., Chancelaria de 

D. João I, livro 4, foi. 35). 

{-) A.N.T.T., Livro 2 de Místicos, fols. 24v-26. 

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1424 í^). A última doação que seu pai lhe fez é de 1432. Abrangia todas as ilhas 
e lc7Írias da íoi de Aveiro, compreendendo todas as rendas crue lhes pertenciam ("). 
f inahiiente. seu irmão D. Duarte juntou ás mercês do seu progenitor a outorga 
das terras do couto de A\elãs de Cima e de Ferreiros, dos reguengos de Ouintela 
e de Arcos, dos lugares de !lha\o c de Vila de Milho e dos casais de Sá. com 
as respectivas rendas, direitos, padroados, jurisdição civil e criminal, apenas 
ressalvando .1 corrcivãi-» e as alçadas ( *). 

As derradeiras andanças do Infante D. Pedro como governador do reino dão- 
-no-lo em Setúbal a 14 de Outubro de 1447. para. passados alguns dias. isto c. 
a 19 e 20, o encontrarmos em Alcácer do .Sal. a caminho de Évora. Nesta cidade 
alentejana \ai permanecer de 6 de Novembro a 20 de Dc/cmbro. Depois, parte 
para Lisboa, onúc chcya no dia scguitUc. voliandit novamente a Évora em 29 de 
Dezembro, onde permanece ate 12 de Janeiro de 1448. Logo no dia seguinte 
encontrasse em Alcácer do Sal. para voltar à capital do Alentejo cm 30 desse mês. 
Demorar-se-á aqui até 30 de Março, sem que os itinerários nos indiquem qualquer 
outra deslocação. Pelo menos em 16 de AbriK já se assinala a sua presença em 
Santarém, localidade onde residirá até ao termo do seu governo O*). 

Quando o Duque de Còimbra estava em Évora, supomos que da última vez, 
começaram a observar-se acontecimentos indicadores do termo da regência. Como 
testemunho, dispomos da própria carta do Infante D. Pedro ao Conde de Arraiolos, 
de 30 de Dezembro de 1448, em que escreve : «E de eu asi ter o dito rregimento. 
segundo bem sabees, algOs nam eram contemtes : os hQus com emueja, outros por 
se nom fazer delles comprimento de direito e justiça, ajnda que asaz craro he 
que se nom fazia delles asi comprimento como era rrazam e segumdo ho rrequeriam 
seus feitos, [era] por eu majs nom poder, pollo qual me nom tenham boa vomtade; 
e posto que de mim rreçebesem merçees e acreçentamento de homrras e dínidades, 
asaz me Toram e sarão jmgratos. buscando e procurando comtra mim quanto mall 
e quamta deshomrra podiam, no modo que sse segue e em outras mujtas maneiras. 
Primeiramente buscaram todas praticas que poderam. fazendo amtre si confra- 



( ''J Idem, Ibidetn. Esta doação encontra-se registada na Chancelaria Jt' D. João I, 
livro 4, foi. 80. 

Em 8 de Janeiro de 1424, foi-Ihe doado o padroado da igfeja de Mira, junto de Coimbra 

(A.N.T.T., Chancelaria de D. João I. livro 4, fols. 72-72v). 
(■) A.N.T l.. Livro 2 ,1,- ,\//k.',<-.s fols. 24v-:6. 

C") Idem. Ibiileni. F.^ta doarão cncontra-sc registada na Chanctiana ile D. Duarte, 
livro i, fols. n7v*l39: Livro 4 tie Mlsiicos, fols. 40-42. A segunda fonte citada encontra-se 
publicada em Milenário de Aveiro. Colectânea de Documentos Históricos, vol. I, Aveiro. 
1959, doe. Xe VI, pp. 183- 187. 

(^*) Humberto Carlos Baquero Moreno, oh. cit., pp. 18 e 165-168. 

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daçõees e tratos como me fosse tirado o dito rregimcnto. E porque com verdade 
contra mi[m] nom podiam, irabalharom sempre mentiras e falsos testemunhos 

como pocriam amtrc clrrcy meu sscnhor c mim alpOa dcuisam e sospetta. 
E tamto. que fc/erão emtemder a elrrey meu senhor que eu nunca lhe auia de 
cmlregar ho ircizimento de sciis rrciinos. que sempre ho auia de trazer em meu 
poder, alecaimiolhe per testemunhos collorados como milhor podiam, algijuas 
pallauras que diziam que eu dissera, per que mostraua nom ter emtençam de lhe 
o dito rregimcnto emtregar. E a verdade acerca deslo he que. porque eu avia 
por çerto que algilus amdauam naquelles tratos, cu dizia por vezes, asi como 
hQua vez em Euora, que cu sabia b:m parte dos dilos tratos em que alguos assi 
amdauam. mas que eu tinha ho rregimcnto da mão deirrey meu ssenhor e que 
quando elle quisesse que eu lho deixaria liurementc com muy boa vomtade; mas 
que pollo daquelles que em os ditos tratí^s andauam. que o nom deixaria. E elics 
afirmauam «-lue cu que dizia por cousa que fosse, que nunca ho leixaria. E asi 
como esto. asi rretorçiam qualquer cousa que cu dizia ou fazia a seu maao pro- 
pósito, por fazerem emtemder ao dito ssenhor que aquella era ha minha entemçam. 
E tamto oontinoaram em. esto os que me assi desejauam. per si e per seus minis- 
tros e aderentes, que fezeram com o dito ssenhor que me rrequeiesse o dito 
negimento» ("). 

Até que momento esteve o Infante D. Pedro na posse do regimento ? Supomos 
que o conservou precisamente até ao dia 8 de Julho de 1448. data em que assinou 
o último documento na qualidade de r^nte (")• Dois dias depois, em 10 de Julho, 



(^) Artur Moreira de Sá. nh. cit., p. 12 e segs.; Monumenta Henricina, vol. IX, 
Coimbra. l9f>S. doe. 211. pp. 344-356. 

Escreve Rui dc Pina: «Mas cm fym tuaes rodeos teveram, pryncipalmente o Duque, 
e Conde d'Ourem, e taaes incitadores bu&caram e meteram secretamente aas orelhas d^ElRey, 
que o comoveram pen ho que quiaeram, que foy requerer, como requereo a ho Ifante 
Dom Pedro que lhe leixasae livremente o Regimento; porque soo sem outrem querya reger. 
E o Yfante bem conhccco que tal movymento. e a tempo tam antecipado nom nacera n 
própria vontade d"tlRei; mas que tora nella semeado per engenho dc seus ymigos. E porem 
lhe dysse que ellc era dysso mais ledo c mais contente, do que per ventura lhe faryam crer 
que o elle faria; porque quando elle nas Cortes que entam foram, se escusava aodtar outra 
vez o Regimento pera que o forçava, bem via que lhe dera Deos tal siso e tal desposyçam, 
que persy sem outra ajuda poderia rejicr estes seus Reynos e outros mayores; porém pois 
ass\ era sua \i)nlade. que lhe pedia por mereêe. que con o Regimento juntamente quysesse 
tainbcin tomar sua moiher, pois era em ydade pera ysso; porque assy faria mais por sua 
honra e Estado» {Ob. cit., cap. LXXXVIII, pp. 356-357; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob, cit.. 
cap. XVI, pp. 165-166; Caspar Dias de Landim, ob. cit.. livro III. cap. I. pp. 6-7). 

A.N TT . Livro 11 de Estremadura, fols. 8>8v; Cf. Humberto Carlos Baquero 
Moreno, ob. cit.. pp. 18 e 168. 

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envia uma carta à câmara de Coimbra, mas fá-lo apenas a título pessoal, sem 
indicar o exercício dc qualquer cargo público ('^-). Daqui depreendemos que foi 
governador do reino até 8 ou 9 do citado mês. Aliás, a carta de louvor concedida 
ao Duque de Coimbra, cm 1 1 de Julho de 1448, vem confirmar que o mesmo 
acabara de desempenhar essas funções C"). 

Os últimos nK^mentos da regência vão caracteri/ar-se por uma série de 
incidentes, t iveram papel de destaque na intriga movida contra o Infante D. Pedro 
seu irmiui. Duque de Bragança, e ^cu sobrmho, ( Unde de Ourém. Junto da corte 
actua\am o Arcebispo de L isboa (' ). que de no>le ilic hia falar»!*') e o proto- 
-notário Martini Mendes Bcrredot"). que se encontrava ao serviço dos dois 
primeiros (*"). A campanha desencadeada contra o regente não obstou, porém, a 
que este governante tivesse sido galardoado com uma carta de louvor, cm que 
eram aprovados todos os actos políticos e administrativos exercidos durante a 
regência O. Este documento é em tudo semeltiante. se nos reportannos ao seu 
oonteiSdo, à carta de 15 de Janeiro de 1446 ("). Não deixa contudo de nos impies- 
sionar a declaravão feita pelo Infante D. Peáro ao Conde de Arraiolos, em 30 de 
Dezembro de 1448, de que. quando entregou ao rei, definitivamente, o regimento 
do reino, «elle me disse em Santarém que me queria dar outra tal carta doutoiga 
e aprouação a qual feita elle teue em seu poder bem dez dias»0*). Isto parece 
indicar que o rei pretendeu fazer algumas alterações ao texto inicial ou, então. 



(*3) Belisário Pinu-nta, As Cariai do hífante D. Pedro à Câinant de Coimbra (1429-1448), 
Coinibra, 1958, doe. LXXIII, p. 72. 

('•') A.N.T.T.. U\ro 1 dc ExUas. foi. l7y-18Uv: Livro 2 de Místicos, foi. !y-20v. 
A primeiru tonte está publicada por Artur Moreira de Sá, Alguns documentos rcfei entes ao 
Infante D. Pedro, pp. 63-66. A segonda fonte encontra-se inserida na Monumenta Henricina, 
vol. IX. Coimbra, 1969. doe 185, pp. 294-297. 

(**) D. Pedro de Noronha. Vcjam-sc a seu respeito dados biogn-íficos cm apcndicc. 

(«■') Ruy dc Pina, oh. cir.. cap. LXXXVIII, p. 357. Cf. Duarte Nunes Uc Leão, ob. ciU, 
cap. XVI, p. 165; Gaspar Uias de Landim, ob. cit., livro III, cap. I. p. 6. 

(**) Vejam-se a aeu respeito dados biográficos em apêndice. 

Ruy de Pina, ob. cit,, cap. LXXXIX, pp. 358-399: Cf. Duarte Nunes de Leio. 
ob. cit.. cap. XVI, pp. 166-167; Gaspar Dias dc Landim, ob. cit.. livro III, cap. li, pp. 9-10, 
que chama, por lapso, a Martim Berredo pelo nome de João de Berrcdo. 

.A.N.T.T.. Livro I df Extras, foi. I7y-I80v; Livro 2 de Mislicos. foi. l9-20v. 
A primeira fonte foi publicada por A. Moreira de Sá, ob. cit., pp. 63-66, e a segunda na 
Monumenta Henricina. vol. IX, Coimbra, 1969, doe. 185, pp 294-297. 

(**) Humberto Carlos Baquero Moreno, A carta de louvor ao Infante D, Pedro de 
15 de Janeiro de 1446, pp. 16-17. 

O Artur Moreira de Sá, O Infante D. Pedro c o critica histórica, p. 12 e segs.; 
Monumento Henricina, vol. IX, Coimbra, 1968, doe. 211, pp. 344-356. 

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leria hesitado em conccdc-la. mas após um período de reflexão, acabou por preva- 
lecer o teor da caria outorgada nas cortes dc Lisboa de 1446. 

No dia seguinte ao da concessão desta carta Ic/ o soberano dua^ão a seu tio 
D. Pedro e a seus herdeiros, tendo eni atenção vOS muytos estremados seruiços 
que dclle aucmos Reçebydos e ao diamte emlemdemos Receber» c com o acordo 
de sua mulher e de seu irmão. Infante D. I crnando. das vilas de Aveiro e de 
Mira com as respectivas rendas e direitos, que lhe tinham sido outorgadas em 
vida pelos reis D. João I e D. Duarte. Possuía igualmente a confirmação dos 
padroados, jiuisdíção civil e crime, apenas com ressalva da correição e alçadas e 
da confirmação de tabeliães. Estabelecia-se ainda nesta carta que a vila de Mira, 
situada no termo de Coimbra, deixava de pertencer à sua jurisdição O- Já o 
antigo regente se encontrava ausente da corte, quando o rei, em 16 de Agosto de 
1448. lhe confirmou a carta outorgada por D. João I em 10 de Fevereiro de 1421, 
que lhe concedia poderes para se apropriar das herdades qde não fossem «abertas» 
e se encontrassem encravadas nos seus reguengos do campo do Mondego e de 
Vila Nova de Ançós (^). Teria sido esta a última mercê que lhe foi concedida por 
D. Afonso V. Doravante, as relações entre o sogro e o genro deterioraram-se de 
tal modo, que acabaram por sofrer uma quebra total. 

O Infante D. Pedro permaneceu na corte, em Santarém, até aos derradeiros 
dias de Julho, tendo partido em data incerta para a sede do seu ducado C). A fase 
que se segue à regência vai caracterizar-se por uma série de actos que denunciam 
a ansiedade com que os inimigos do antigo regente desejavam a sua separação 
do rei. Voltando novamente à carta de 30 de Dezembro de 1448, escrita pelo 
Duque de Coimbra ao Conde de Arraiolos, surgem-nos os acontecimentos descritos 
do seguinte modo: «E semdo asi o dito ssenhor emtregue do dito rregimento. 
hos que precurauam que ho eu leixasse logo começaram de mostrar ho fim porque 
o faziam. E logo o duque meu jrmãao, vosso padre, trasnoutamdo asi como se 
ouuesse dc fa/er algua gramde caualgada. se vejo de Chaucs a çidade do Porto, 
temdo ja cm cila homens darmas escomdidos. lamçamdo fora delia muj desomrra- 
damenle os meus que hi viuiam. assi como se fossem malfeitores. E esto mesmo 
mandou fazer em Guimarães c cm Pomtc de Lima. dcribamdo as casas dc Lioncl 
de Lima, por ser meu seruidor. asi como se íovse[m] dc tredor. E quando os 
lançaua íora das villas, chamaualhc iredorcs, vcilando e rroubamdo as villas e 



(") A.N.T.T.. Livro 2 de hStstieos. fols. 26v-29. Publicado em MUenário de Aveiro. 
Colectânea de Documentos Históricos, vol. I, Aveiro, 1959, doe. Clli, pp. 200>205. 

(") A.N.T.T.. Livro 2 de Místicos, fols. I66v-I67. 

('^) Kuy de Pina. ob. cit., cap. LXXXIX. p. 361; Cf. Gaspar Dias de Landim, ob. ciu. 
livro 111, cap. 11, p. 13. 

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castellos sem causa e sem rrezam, assi como se tiucsscm jmiguos no rregno. 
Mandoume cso mesmo prender a minha terra a Joham Soarez de Paiua, meu 
caualleiro. Icuandoo asaz desomrradamente, porque diziam que rreteuera hOu dia 

seu moço destribeira» C*). 

Aludia-se ainda na presente carta a que o Condo de Ourém fizera com que 
o rei lhe fora falar a Torres Novas, quando o Infante D. Pedro ainda se encon- 
trava cm San!arcm (' ). Põe-se-nos o problema dc saber cm que dia se verificou a 
viagem. Ncnhimia caria tiutorgada por D. Afonso V nos dá a sua presença naquela 
localidade. Como c, no enlanlo. do nosso conhecimento que o soberano esteve 
na vila scalabitana cm 12 f). 15('"), \9 (■'). 24*)(""). 23 (*). 25 (^') e 29 r) de Julho, 
supomos que a sua estada cm forres Novas se deverá situar entre estas duas 
últimas datas, ou seja. em 26. 27 e 28. o que teria motivado a saída do Infante 
D. Pedro da corte. Assim, conforme exprime a carta, alli fezeram [o rei e o 
Conde de Ourém] seus comselhos. segumdo ía tinham praticado, damdo a emtemder 
ao dito .ssenhor que eu ho qucna todauia iraicr em meu poder, ajmda que elle 



O*) Artur Moreira de Sá. O Infame D. Pcdm e a critica histórica, p. 12 e isegx.; 
Monuinenia Htnrkína. \o\. IX, Coimbra, l')fiS, doe. 211. pp. 344-356. 

£ muilo provável qu« Rui de Pina tenha utilizado esia carta como íont.;, quando narra 
as ocorrências da seguinte maneira: aO Duque de Bragança como soube que o Yfante 
desistira do R^ymento, e que ja EIRey absolutamente regia, por emprimir e confyrmar no 
povo a sóspeíta de desleal, que contra o Yfante tynha ja com FlRey pryncipiada, partio da 
Vylla dc Chaves, e com estrondo de jente armada se foy aa C idade do Porto, e a Ciuymaraães 
e Ponte de Lyma, e a outros lugares daquella C omarca, onde aos criados do Yfante lyrou 
o.*( Officios que tynham d*EIRey, e a todos com ynfamya de tredores lançou fóra, e csm 
nome de receo do Yfante mandou vellar, e roldar as Villas e Castellos, como se EIRey e o 
Yfante foram ymigos, e ouveia ja antre cllcs pregoada guerra, com outras onyoõcs desta 
calydade. que no Reyno contra elle ynds \ ydamcnt: se faziam» (Ob, cit^ cap. LXXXIX, 
p 358); Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit., cap. XVI, p. 166. 

Gaspar Dias dc Landuii diz-nos que a incursão militar feita pelo Duque de Bragança 
no Porto, Guimariles, Viana do Castelo e Ponte de Lima apenas se verificou quando «o Infonte 
D. Pedro era despedido da corte e estava em Coimbra» iOb. cil.» livro til. cap, III. p. 14). 

(' ) Artur Moreira de Sá, oh. cif., p. 12 c scgs.; Monumento Hcnrkina, vol. IX, 
Coimbra. I%8. doe. 211, pp. 344-?5(>. Cf. Ruy de Pma. oh. cit., cap. LXXXIX, pp. 359-360; 
Duarte Nunes dc Leão, ob. iii.. cap. XVI, pp. 167-168; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., 
livro III, cap. II, pp. 10-12. 

(W) A.N.T.T., Uvro 2 de Místicos, fols. 26v-29. 

(") A.N.T.T., Livro II tle Estremadura, fols. I2v-I3. 

I'"» A.N.T.T., Livro 2 Je .u v. fols. 223-223v. 

('■'') A.N.T.T., Livro 1 de Estninaduru, fols. |y-19v. 

C") A.N.T.T., Uvro I tia Beira, foi. 20Uv. 

(«) A.N.T.T.. Livro 2 de Místicos, fols. 200v-201. 

(**) A.N.T.T., Uvro 6 de Odiana, fols. 118-li8v. 

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nom quisesse, e outras cousas asaz desonestas comselhamdolhe. E assi foy per 
elles determinado que nom tomasse [D. Afonso V] a Santarém, omde ficaua a 
ssenhora rrainha e toda sua corte. E quando nom poderam acabar com elle que 
o fizessem, fezeram que lhes prometesse que como chegasse a Santarém, que logo 
me mamdasse que em outro dia partisse de sua corte» (**). 

Os acontecimentos que precederam a partida para Coimbra do antigo regente 
são>nos por ele descritos na presente missiva : «E cremdo que eu faria açerca 
dello algiía rregistemçia, fizeram logo hir escomdidamente os vassallos de Torres 
Nouas armados aquella noyte a Samtarem e também fezeram vijr algOs do termo 
de Santarém e doutras partes. E semdo eu bsm ^rto do que o dito senhor trazia 
hordenado de Torres Nouas. amte que mo elle mandasse, eu lhe pidí licemça 
pera me uir pera minhas terras, o qual ma outorgou sem outra rresístemçia, por 
ho assi trazer detenninado que mo auia de mamdar» ("). Acrescenta o Infante 
D. Pedro : tE vemdo eu como os ditos feitos assim mal começauam e como alli 
viera aquella gemte armada e com o comde vosso jrmâao se fizera prestes com 
armas e vellaua Ourem e Porto de Moos. eu mandey perçeber algQus meus pera 
ho dia de minha partida, pera se auerem dhir comigo. E assi per esta guisa e com 
este gallardam parti da corte do dito senhor. E logo de Tomar mandey tomnT 
aquella jemte que comigo vinha» (^'). 

Na realidade, o antigo regente, ao deslocar«se para a sede do seu ducado, 
teve a precaução de se fa/cr acompanhar por uma escolta, constituída por indi- 
víduos que lhe eram fiéis. Em Tomar, despedi u-se da maioria dos seus acom- 
panhantes, apenas continuando viagem até ao destino alguns elementos perten- 
centes a sua própria casa senhorial. Integravam-se na comitiva seu.s filhos, o 
Condestável D. Pedro (^) e D. Jaime ("). que depois foi cardeal C^). 



(") Artur Moreira de Sá, ub. cit., p. 12 e segs.; Moiuunenia Henricina, vol. IX, 
Coimbra, 1968, doe. 211. pp. 344-356. 
(**) Idem, Ibidmiti Idem, Ibidem. 
(*^) Idem, Iblâenu; Idem. Ibidem. 

(**) Sobre o Condestável D. Pedro, veja-se o nosso estudo Algumas mercês concedidas 

pelo Coiuh-stúvd D. Pt Jrti. ni da Catai (inlui. a stibditos potíugtuscs. separata da Revista de 
Cicnciús do Jlomcm da Universidade de Lourenço Marques, vol. Ill, série A, 1970, e a 

bibliografia aí aduzida. 

(*■■) Acerca deste personagem, veja-sc o estudo do Prof. Joaquim Veríssimo Serrão. 
Cardeal D. Jaime, in Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, vol. U, 
s/d.. pp. S74-S7S, e a bibliografia apresentada por este historiador. 

(") Ruy de Pina. ob. cit., cap. LXXXIX. p. 361. 

— 263 



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* • • 



Depois de termos pro;.edido à análise dos principais acontecimentos políticos 
cjue irTipnmiram um cunho dc instabilidade à regência do Infante D. Pedro, 
iremos passar imediatamente a apreciação de alguns dos aspectos mais signifi- 
cativos da administração publica, por ele levados a efeito. Fm primeiro lugar, 
debruçar-nos-emos sobre a lorma como pôs em execução um sistema que tinha 
por objectivo confiar algumas funções de responsabilidade a indi\íduos ligados 
á sua casa. Muito embora seja do nosso conhecimento que também íoram con- 
lemplados muitos outros homens periencentes as diversas casas senhoriais, nem 
por isso deixa de possuir um certo significado o processo utilizado pelo regente 
em relação ao provimento dc cargos, que por certo obedecia a uma determinada 
finalidade. Queremos sublinhar, no entanto, que se encontra longe do nosso pensa- 
mento a ideia por alguns insinuada C*"). de que o Infante D. Pedro teve alguma 
vez em mente dar execução a um golpe de estado. Pfclo contrário, quer-nos 
parecer que teria havido o propósito de forjar uma malha política e administrativa 
que tomasse viável a realização dum sistema governativo fortemente centralizado. 
Naturalmente que tal objectivo deparou com uma progressiva oposição por parte 
da nobreza, disposta a combater uma estrutura política que contrariava os seus 
imediatos interesses. Por outro lado. este estadista foi perdendo gradualmente o 
apoio do elemento popular, sobretudo na medida em que a sua acção governativa 
contrariava muitas das regalias reivindicadas pelos concelhos; agravado ainda o 
problema pela circunstância da situação militar e financeira do País gerar um 
grande descontentamento nas massas populares. 

Entre os principais adeptos e homens da càsa do Duque de Coimbra, invés- 
tidos pelo regente em cargos importantes, cumpre-nos destacar a D. Álvaro 
Vasques de Almada (**). que. em 5 de Abril de 1440. foi nomeado alcaide-mor 
do castelo de Lisboa ( ) Outra figura de destaque c a dc Aires Gomes da Silva ("). 
cavaleiro da casa do infante D. Pedro, designado regedor da Casa do Cível em 



(*'*'") L o caso, por exemplo, Jc Anselmo Braamcamp Freire, quando e»creve que o 
Infante D. Pedro «enchendo, por fórma quasi assombrosa, os livros da Chancdaría dos annos 
da sua rejencia com rejístos de cartas de meroâs de cargos, ofícios, pensões, privílejios, a 

fid:ilgos, cavaleiros, escudeiros de sua casa, a moradores de suas terras, nfio estaria pensando 
com deslealdade em criar pariularios (Amarrado ao pcloininIuK Lisboa, 1907, p. 21 j. 
C^''') Vejam-se a seu respeito dados biográficos cni apêndice. 

(■*) A.N.T.T., Chancetana de D. Afonso V, livro 20, foi. 8Sv; A.H.C.M.L., Uvro do$ 
Pregos, foi. 25. A primeira fonie encontra-se publicada na Monumento Henmina, vol. Vd. 
Coimbra, 1965, doe. 63. pp. 90-92. 

C) Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

264 — 



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Lisboa, em 7 de Julho de 1441 { ). ao mesmo poderemos jimiar o Doutor Diogo 
Afonso Mangancha ( "). que, durante a regência, exerceu as funções de Presidente 
da Relação, na ausência do regedor da Justiça ("); Lui/ dc A/cvedoC ), que 
desempenhava o cargo de \edor da Fazenda ( "'): Lopo Afonso i ). que foi escrivão 
da Puridade c mais lardc se pas.sou para o rei. quando do recontro de Alfarro- 
beira ("). A esta lista, poderemos acrescentar o nome do licenciado Gomes Eanes( "). 
nomeado pelo regente, em 8 de Janeiro dc 1441. para o exercício das funções de 
desembargador da Casa do Cível de Lisboa (""*); Gil Rodrigues, escudeiro do 
Infonte D. Pedro, que ocupava o ofício de chanceler da correição da Estrana- 
dura ('"); Fernão da Fonseca, ("^l, criado e escudeiro do Infante D. Pedro, nomeado, 
em 25 de Março de 1445, alcaide-pequeno de Lisboa e Rodrigo Eanes, escu- 
deiro do Infante D. Pedro, que, em 14 de Abril de 1443, foi incumbido de fiiicalizar 
a fronteira com Castela na região das Beiras e Trás*os-Montes ('**). 



C-f A.N.r.l., chancelaria /<■ D. Alonso V. livro 2. foi. <i9v. 
(W) Veiam-se dados hiográ ticos a seu respeito nas pp. 38-41. 
('") A.N.T.T., Chamclaria dc l). Afonso V. livro 21. foi. 86v. 
(■^ ) Vcjam-sc a seu respeito dados biográficos em .ipcndice. 
{^) A.N.T.T., Chancelaria Jc D. Duarte, livro 2. íc\ 42v. 

Vejam-se a seu respeito dados biográ ticos cm apêndice. 

A.N.T.T.. Maço 4 (lo Siiplenunto </<■ Cories. n." 42. 

{^) Criado do Infante D. Pedro, era bacharel em Leis, quando, em 24 dc Janeiro de 
1440, foi nomeado ouvidor da Casa do Cível e do Crime, de que era regedor Pedro Eanes 
Lobato, em subslituiçfto de Diogo Afonso Carvalho, o qual, a partir de eniSo, passava a 
pertencer ao seu desembargo (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 20, foi. 6). Ponce 
depois, já nos aparece como licenciado em Leis- se é que não se trata de equívoco de Rui 
de Pina — quando nesse ano participou nu embaixada enviada a Marrocos sob a direcção 
de D. Fernando de Castro, cuja nUssio consistia em conseguir a libertação do Infante D. Fer* 
nando (06. ciu cap. LIV, p. 290; Cf. Caspar Dias de Landim, oh. cit., livro II, cap. VII, 
p. 34). 

(""') Passou a ocupar este cargo, em substituição de Rodrigo Eanes de Valadares, que 
tinha falecido, precisamente quando se encontrava com o regente no cerco do castelo do Crato 
(A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 2. foi. I20v). 

("»') A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V. livro 5, foi. 55. 

('*-) Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(>«) A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V. livro 25, foi. 90. 

('**) Ao ser nomeado «guafda» da fronteira, cabiaOhe a importante tarefa de impedir 
o contrabando para Castela de agaados», «pam» e «outras coussas», cuja exportação estava 
proibida. Na carta de nomeação, fazia-se menção da que os fidalgos seriam obrigados a pagar 
de sua fazenda, no caso de incorrerem nesse delito (A.N.T.T.. Chancelaria de D. Afonso V. 
livro 17, foi. 68/ 

— 265 

Fl. 34 



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• * • 



Confiou o Infante D. Pedro a alguns dos cnadosí' de sua casa importantes 
funções judiciais nas comarcas ou correições do território português. Eram estes 
funcionários — designados por corregedores ou meirinhos . indivíduos a quem 
competia, na qualidade de representantes da autoridade real. amplas alnbuivões 
na administravão c bom cumprimento da justiça. Dispunham, por conseguinte, de 
muita inlluência. consistindo a sua missão em combater os abusos e violências 
praticados pelos privilegiados contra a gente do povo. Pela nature/a do seu cargo, 
ê muito aceitável que o regente tivesse tido o maior cuidado em nomear pessoas 
da sua inteira confiança. Consistiam assim num pcxleroso instrumento ao serviço 
duma política centralizadora o que naturalmente deveria corresponder em absoluto 
aos objectivos traçados pelo governante. 

Segue-se a lista dos corregedores e meirinhos designados pelo Infante D. Pedro, 
durante o período em que teve a ^eu cargo o governo do reino : 



Nome 


* • 

Funçfles 


NomeacSo 


Foote 


Fernão Barreto, cavaleiro 
du casu du Iníantc 

D, Pedro ('«) 


Corregedor da comarca e 
currcição do Algarve ("*) 


4-11M442 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 23» foi. 6lv 


Diogo Gil Ferreira» cria- 
do do Infante D. Pedro 


Corregedor em Lisboa 


27-IV-144I 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. 
Uvro 2. fol&. 77V-78 


Gonçalo Garcia, licencia- 
do em Leis, criado do 
Infante D. Pedro 


Corregedor na comarca c 
correição do Algarve C"'^) 


14-1V-I446 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro S, foi. 34v 



(lo;) Permaneceu em Ceuia ao serviço d.i Loroa. durantr %inte e sci% .mo» V> PcJro dc Meneses fez-Ihe 
luiquela cidade doarão de umas ca<ui» localiudas na Alrniru c de duas vinhas ai cxistcnics. as quais lhe eram agora 
confirmadat pde rceenie. em nome -do rei (Oirta rtfgia de 26 de Março de 1442. A.N.T.T., Clw i <iihi de 

D. Afo»*o V. livro f"'s lori ififu liirn Hf llha<.. f ils I5v-I6 A primeira fnnie cncontra-ic r^l^licaJa 
por Pedro de A/evedo, Uocumenluk das chanieUrut ttan aoteriorc» a ISJl relativo» a Marrocos, vol. II. 
Uibm. I9M. doe. IX pp. 661-662). 

Siihstinií.i iieMe oficio a Gonçalo Percí (Idem. Ibidaaa). 
(lu:) Exerceu jl% funções de juiz dos fi-ilos e do desembargo (Idem. Ibidem). 
{V*) Foi nomeado em siibviíinji,'.'io do lateciUo l.opo Goncalves (Idem. Ibidem) 
(IM) Sucedeu no cargo a Fernão Barreio. Ciivaleiro da casa do Infante D. Pedro (Idem, ibidem). 



266 — 



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FuncAes 


8-II-1440 


Fonte 

A.N.T.T.. Clitimclaria 
de D. Afonso V. 
livro 20, foi. ISOv 


Eanes Gil, eaeudeíro do 
Infante D. Pedro. 


Meirinho do arcediagado 
00 Vouga \ ) 


Egas Gonçalves, escudeiro 
do Infante D. PfcdtoO") 


Corregedor na comarca e 
correiçio da Estrema- 
dura 


8-XI-1444 


A.N.T.T.. Chaiuclaria 
(Ic D. Afonso V. 
livro 25, foi. 23v 


Aires Gonçalves de Ma- 
galhães, criado do arce- 
bispo de Braga e escu- 
deiro do Infante D. Pe- 
dro 


Meirinho na regiio de 
Entre-Homem-e-Cávado 

(115, 


31-1-1442 


A.N.T.T,, CluMceUiria 

de D. Afonso V. 
livro 23, foi. 49v 


Lopo de Sequeira, escu- 
deiro do InCanie D. Pe- 
dro 


Meirinho do Algarve e de 
Campo de Ourique (<")) 


2-II-1443 


A.N.T.T.. Cluimi-laritt 
livro 27. foi. 9v 


Bartolomieu Vasques, escu- 
oeiro Qo iniBuic 
dro("*) 


Meirinho da correiçio da 
comarca da Beira 


I8-X-Í443 


A.N.T.T., Chancelaria 
(/<• 1) Afonso V. 
livro 35, foi. 22 


Fernão Velho, escudeiro 
do Infante D. Pedro C'^) 


Meirinho na correição de 
Entre-Douro-e-Minho 


I5-IX-I445 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V, 
livro 25, foi. 62v 



(iit) TniU>te duma confirmação, k atendermos a que íora nomeado pelo Rei D. Duaric para o Ucsem. 
penho desse offck» em 8 de Fevereiro de 143<Kfdem. WêtmV 

(111) Egas C.nvJlvcs .-xcrccu ..^ f.m,ócs de juiz cm divorsa^. localidades do paív antes de awjmir o 
imporume cargo de corregedor na comarca da fcstrcmadara Assim, vemo-lo. em 4 Ue AhrH d« 1440. wr 
confmnade no offcio de juiz de fora da vila de Bmaanca e se-i termo, conforn- <- J d . . f ctuado pelo* 
vereadorcv provii-ador.-, honu-ps bons d:. loc,,l,d:<dv (ANTT. Chamciaria de O. AIomq V, livro 20. 
foi. 77). Revela uma pessoa de inteira tonlun,.. dn rcyenic. u) ando cMe O designa, em 16 dc Junho do 1441. 
iuiz dos felioa cíveis e crime» da vila de Valença do Minho, -aucnd.» nos .-nformacom dalL-,i.,.is co.,...s ^u.- ss« 
cm csa Villa ffa/cm como nom dcuem. tA.N.T.T.. ClMMCIaria dc D. AfoaM. V. livro 2. foi. I02v). bMando 
o Infante O. Pedro na cidade do Porto, awinou uma carta em » de AgoMo de 1441. em que tran<.foria «Mc 
aeu escudeiro para a vila de Olivença, onde passaria a exercer i.lCnii^as fulKltes (ANTT Chancelaria de 
D. AfoMo V, livro 23. foi. 3«v). Já exercia o cargo dc cortcccdor na bsiremadura. quando recehcu uma 
carta do remente. em nome do rei. alerlando.o contra o» fttlw proctradores que pediam «<*mola para as ohra» 
do moMcIro de Guadalupe (Carta rcyia do 1^ de Junho de 1446 ANTT. Chancelaria dt D. Afo.»0 V. 
livro 5, foi. 55vj. Poderá ideniificar-se com o seu homónimo que. em 'O dc Janeiro dc I4it9. foi nomeado por 
tf«s anos corregedor na Estremadura ? (A.N.T.T.. OMacelaria de D. ATmm» V. livro J6. fel. ,W>. 

(Ili) Subsiituia o falecido Jo.lo LourcnsO Bofe-alho (Idem. Ibidem) 

(IH) Ocupou o lugar de Pedro Aira», que -he velho e adorado, tidcm. Ibidem). 

OU) Vejam-se a seu icspefco dados bíogrificos «m apêndice. 

(its) Idem. 

— 267 



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Uma análise sumária deste quadro revela a presença de corregedores e mei- 
rinhos pertencentes à casa do Infante D. Pedro, cm todas as comarcas do País. 
Ficava, assim, o território submetido ao controlo de magistrados fitMs àquele go\cr- 
nante. o qual, por certo, receberia informações sobre o estado político do mesmo. 

À presente lista poderemos ainda acrescentar o nome de Vasco Martins de 
Aramenha. escudeiro do Infante D. Pedro, o qual. durante a regência, desempenhou 
o oficio de ouvidor nas terras do priorado do Hospital {'"'). as quais, outrora, 
tinham sido um baluarte favorável a D. Leonor, devido ao papei assumido pelo 
seu prior. D. Frei Nuno de Góis. Também devemos referir-nos a Fernando Afonso 
de Boiro. escudeiro do infante D. Pedro. que. em II de Junho de 1446. foi inves- 
tido no cargt) de promotor da Justiça em I isboa e seu termo, funções em que subs- 
tituía João de Braga, o qual. segundo as razões alegadas, -tnom seru|0. nem hussou 
aiaa hora dcUe» ("^). 

iHf * * 

Vamos agora considerar os jui/cs dos leitos cíveis c criminais, pertencentes 
a casa do Infante D. Pedro, designados pelo regente durante o período da sua 
governação : 



("•) A N.T.T.. Chaniilarui de D. Afonso V. livro 24. foi. 36v. 
O") A.N.T.T., Chancelaria de D. A/onso V. livro 5. foi. 57. 



268 — 



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Nome 


Fun«4es 


Nomeavõo 


Fome 


Alvaro de Abreu, escu- 
deiro do Infante D. Pc 

dro ("*) 


Juiz dos feitos cíveis e 

crimes da vila de Va- 
ie nva c scii termo 


22-VIIH443 


A.N.T.T., Chancelaria 

dl- D. Afonso V. 
livro 27. foi. 144 


Joúo Afonso do Boiro. 
escudeiro do Infante 
D. Fedro 


Juiz dos feitos cíveis c 
crimes na cidade de 
Braga ("■) 


23-IM445 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 

^..^1 

ItVtO 2S, lOl. 70 


Marfim Mendes Cerveira, 

i:a\ aloiro da casa do 
infante D. Pedro 


Juiz dos feitos cíveis e 
crimes cm a cidade de 
Évora e seu termo 


24-V-1440 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. 
livro 2U, lOI. 114 


Rodrigo F-tcvcs, criado e 
escudeiro do Infante 
D. Pfedro 


Iiii7 dos feitos cíveis c 
cnnics na vila de Es- 
tremoz 


? 


A.N.'[\T., Chancelaria 
de O. Afonso V. 
livro 5. foi. lOOv 


Afonso Comes» cavaleiro 
da casa do Infante 
D. Pedro 


Juiz dos feitos cíveis e 
crimes da cidade de 
Évora e da sua verea- 


20-JI-1445 


A.N.T.T., Chancelaria 
tle D. Afonso V, 
Uvro 25. foi. 68v 


JoAo Cionval^cs. escudeiro 
do Iníanu- D. Pedro 


Jui/ do- feitos cíveis e 
crimes na vila de Mon- 
ção 


30-V11I-144: 


A N T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 23, foi. 38v 



Torna-se curioso observar uma especial incidência de jui/es dos feitos cíveis 
e crimes, pertencentes à casa do Duque de Coimbra, sobre as regiões do Alentejo 
c de Entre-Douro-e-Minho. o que talvez possa explicar-se. se atendermos a que 
a primeira apresenta um Ione cunho senhorialisla c a sepunda uma feijão genui- 
namente tradicionalista. Sobre esias zonas do País. deveria recair a particular 
atenção do regente, procurando assim obstar, por meio de agentes da sua con- 
fiança, a que se praticassem abusos e violências. 



(>>*>) Vrjam-se a mu respeito dailoN hio^rjlico\ n.i pá^. 106. 

(»•) SubsUiuia aesus funç«ci a Loro Afonso de Teivc, ewudeiro do Infame O. Heoiiquc (Idem. IMdM*). 
o qual fora nomcadrt em IS de Fevereiro de 1449 ptra o desempenho de Idêntico cano na vila de Monção 
( A N r T Clnaeilarb dc D. Afunso V. livro 25, tt», 74v. Publicado em a MénoMnla Hwikins. vot. VIU. 

Coimbia. 1967, doe 170. pp. 25!#-260>. 

— 269 



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« « • 



Um tipo especial de magistrados era constituído pelos juízes das sisas, encar- 
regados de julgar as infracções relativas à imposição das sisas. Pertencia-lhes 
actuar, sobretudo, sobre aqueles que se eximiam à acção do fisco, contraindo 
dívidas que lesavam a faienda pública. Também neste particular se fez sentir a 
atenção ví^lante do r^ente, ao nomear indivíduos da sua confiança, pois as neces. 
sidades económicas mostravam-se prementes em função da situação política e 
militar do reino. Apresentaremos seguidamente alguns escudeiros do Infonte 
D. Ptedro a quem coube tal tarefa : 



NOOM 


Fufiç0e!i 


NomeaçXo 


Fonic 


Fernão Alvares, escudeiro 
do Infante O. Pedro C^) 


Juiz das sisas em Avis e 
seu termo C') 


26-IX-144I 


A.N.T.T.. Chancelaria 

de D. Afonso V. 
livro 2, foi. 76 


João Alvares, criado do 
Infante D. Pedro 0») 


Juiz das sisas cm Alverca 


I^VM44I 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 2, foi. 102 


Lufo Eanes, escudeiro do 
Infante D. Ptodro(W) 


Juiz das sisas e contador 
dos resíduos na vila de 

Beja 


22-M44S 


A.N.T.T., Chancelaria 

(Ic D. Afonso V. 
livro 25, foi. 67v 


Gil Fernandes, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Juiz das sisas na vila de 
Alter do Chio 


27-V111-1446 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 5, foi. 76 



(I3t> Leio a seguir, em 3 de Outubro de 1441. foi nomeado juiz e eontador doe resMuos n« vila dr 

Avi'i c seu (ermo (A.N.T.T.. Ctuncclaria de D. Moa^n V. livro 1. foi 7fi) 

('->) Substituiu neste cargo ao seu irrnão Diogo Alvares, que linha falecido (Idem. IMca^. 
(US) O Infante D. Fedro nomeoo.o. em reprewnlaçlo do r^io tolirinlio. meeiro do« Paços de AM«>çoilm 
e porteiro c medidor de Alhai;o(itTi. Alcoelhu e Malveira, earyo cm giic suhsiit.iía a Mariim Eanes »i|iic fez 
cm os diclos ofiçio!> tajccs coussas per que o<> Jeue perder* (Carta régia de 8 de Maio de 1446. A.N.T.T., 
Ctnn f ^si l i â» D. Afano V« livro 5. foi. 39v). Tbdo parece indicar que tramitou para a can de O. liaM. 
mulher do rei. Aparccc-nos de^ignadn como vfii csfiideiro, ao ser nomeado, em •> de Marco de 1454. jiii/ das 
sis,i\ de Li%t>oa (A.N.T.T.. Cliaacciaria de D. Afonto V. livro 15. foi. 12). A partir dc 1464, passou a receber 
a tença anual dc 69.^6 reait brancos, quantia equivalenie à que auferia de vencimento pelo exereléio do oficio 
dc juiz das sisas de Lóboa, que a aprazimento» do soberano deixou a favor de Gonçalo Mendes, escudeiro e 
servidor da toalha do Prbicitie D. João (Carta réitia de 16 de Agosto de 1463. A.N.T.T.. Chancelaria de 
D. AfouM V. livro 9. foi. 123). 

(1») PaMOU • ocupar o lugar do falecido Afonso de Cinfies (A.N.T.T.. ChMcdaria de D. Aloaw V, 
livio 2. foi. 1<Í2>. 

O») I* eiecda as funçSes de Mbelilo na vila de Beja (tdem. IMeie). 
270 — 



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Nome 


FunçAcs 


Nomeação 


Fome 


Estevão Pires, escudeiro 
do Infante D. Fedro 


Juiz das sisas e dos ju- 
deus e mouros em a 
Vila dc Gouveia 0^) 


27-XU-1444 


A.N.T.T.. Chancelaria 

<lf D Afonso V. 
livro 24, foi. lUOv 


Luis Pires, escudeiro do 
Infante D. Fedro 


Juiz das sisas na vila de 
Pinhel 


1I-VIM44I 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 2, foi. 109 


Rodrigo Eanes Vouga, 

escudeiro do Infante 
D. Fedro 


Juiz das sisas e contador 
dos resíduos na vila de 
Abrantes, seu termo c 
almoxarifado 


15-IX-I445 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonm V. 
livro 5. foi. 4v 



Este quadro mostra-nos a presença de juízes das sisas no Alentejo, na Estre- 
madura e na Beira, sem que os mesmos nos apareçam no norte do País. í: de 
presumir que. nas regiões tlc Entre-Douro-c-Minho e Trás-os-Montes. tais ofício.s 
estivessem confiados a elementos pertencentes a outras casas senhoriais aí radi. 
cadas. 

* ♦ * 

Preciosos auxiliares dos magistrados judiciais eram os tabeliães, os quais 
constituíam dois grandes grupos : um formado pelos tabeliães das notas, que 
tinham a seu cargo a importante tareia de lavrarem os instrumentos notariais e 
autenticarem os contratos efectuados entre as partes interessadas: o outro, cons- 
tituído pelos tabeliães dos iciios ci\is o crimes, prestando serviçd nas audiências, 
onde. subordinados aos juí/cs. procediam a elaboração escrita ilos processos com- 
petentes. Dava-.se. por ve/es. o caso destes funcionários acumularem as duas fun- 
ções, mas a crescente complexidade da organização administrativa do Paí.s levou 
a uma maior diferenciação das tarefas realizadas. 

Apresentaiemos agora os tabeliães ligados ao regente que pelo mesmo foram 
designados para o exercício das suas funções : 



(1») Pouuft «lU oRcio Martim de Oouvcia. que dele se viu privado, pau dctcrmiMiçie do fcemit 
(Idem, Ibideai). 

()>>> DoempenlHiva anteriomiemc eiM lu«ar Vasco Gonçalvcv. que, wiundo o rcgenie. anos pras que 
maJs non ali par o cadeadermoa per nono setuiço* (Iden. IMdeai). 

— 271 



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FuficflM 

Tabelião do cível e do 
crime do julgado de 
Évora e seu termo C") 


Wflnmai'Bii 

31-X-1446 


A.N.T.T., Chancetaria 

lie D. Afonso V. 
livro 5. foi. 99 


Diogo Afonso, criado do 
Infante D. PfedrotuO 


Gonçalo Vasquss dc Bas- 
to, criado do Infante 
D. Pedro 


Taheliâo em Alvaiázere 


24-VIM443 


\ N r. T., Chum elaihi 
de D. Afonso V. 
livro 27. foi. I30v 


João Afonso Braga, escu- 
deiro do Infante D. Pe- 
dro 


Tabelifto em Guimarães 
('»> 


I9-X-I440 


A.N.T.T., ChmcelarM 
tte D. Afonso V, 
livro 20. foi. 164v 


Jorge Camelo, cri.ulu da 
casa do Infante D. Pe- 
dro ('") 


Tabelião no arcediagado 
do Vouga 


? 


A.N.T.T., Chancflaria 
tlc D. Afonso V, 
livro 11, foi. 20; Li- 
vro B de Bstrenuf 
duro, fols. I70V17I 


Fernando Eanes 


Tabeligo do cfvel no ar- 
cediagado do Vouga 


T 


A.N.T.T., Chancelariii 
lie D. Afonso V. 
livro 12, foi. 6v 


Nuno de fivora, criado 
do infante D. João (tio 
do rei) e escudeiro «que 
ora hei do Infante 
D. Pedro 0") 


1 abclião na vila de Alcá- 
cer do Sal e seu termo 


15-11-1444 


A.N.r.T., Chancelaria 
íte D. Afonso V, 
livro 24. foi. 21 



(tST) O rebente nomeouHi. cm I) de Fevereiro «le 1449, escrivio «bn tíaax <lo Julmida de Azurmi. lutBf 
que pertencia a Afi i <i Cit. o qual se encontrava «velhn e adoondo* e O nSo podia por cme motivo Mrvir 
(A.N.T.T.. Ckaacclarn dc D. AfooM V. livro 2S. foi. 81). 

(US> Sutatiluiu a Afono Gfl. peia* rasOet acima alegadat (A.N.T.T.. CfeaaccIferiB dc D. Afaai» V, 

Bvro 5. foi W) 

(>-^> Pertencia o oficio a João Vitvqiic» Ue FiKueiri», que renun.aou ao n>CMno (iUcm. ibidem). 
(>ai) Ocupoj o lugar do falecido RodrÍBO Eanen (idem. IMricm). 

(ill) Veiam-^L- d;id'><, h!Ok;r jf ícov ;i rt-Npriln cm apctijici- 

(132) Lutou ao lado do infante U. PcJro eni Alfarrobeira (Idem. Ibidem). 

(133) Em 30 d* Favercire de 1444. foi nomeado escrivio da coudtlaria de Alcácer do Sai. em wlMtituicIo 
dc Gomes Lourenço qtie renunciara ao cargo (A.N.T.T.. Ch —w l i i a da D. Afvoa» V. livro 24. foi. 23). 



272 — 



Copyrighted material 



Nome 


FuntfOr* 


Nomeação 


Fome 


Afonso Fernandes, escu- 
deiro do Infante D. Pe- 
dro 


Tabelião das notas em 
Constança ("*) 


9-V-1446 


A N.I .T.. Chancelaria 
ih' D. .Afonso V. 
livro 5. foi. 44 


Gooçalu Fernandes, licen- 
ciado cm Leis, criado 
do Infante D. Pedro 0*) 


Tabelião na corte 


28-V-1440 


A.N.r.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 20, foi. 113 


Gil Godinho, escudeiro 
do Infante D. PtodroC^ ') 


Tabelião do cível e do 
crime na vila de Porta- 


11-V-I443 


A.N.T.T., Chaaceiaria 

ih' D. Afonxo V. 

li\io '"o! Xr-\ 


Afons<i CionV'ilvcs. cape- 
lão da capela do In- 
fante D. Pedro 


l.ihcli.u» çcriil cni tiuK> o 
remo, das eNcnluras ju- 

diciais e extra-judiciais 


I4-VI-I441 


A N 1 .1 ., ( hain i hiria 
</<■ D. AJonso y. 
livro 2, foi. 103 


Luís Gonçalves, criado do 
Infante D. Pedro 


Tabelião em a vila de 
Torres Novas 


29-I1M444 


A.N.T.T., Chancelaria 

lie D. Afonso V, 

livro in^ lOI, <(7V 


Poro Gonçalves, escudeiro 
do Intante D. Pedro 


Tabelião em Lisboa 0*^) 


30-JII-I444 


A.N.T.T., Chancelaria 
ile D. Afonso V. 
livro 38, foi. 21 



Penencía o oficio a Alvaro Carneiro, que cueve prcM> c se evadiu dl odeia (Idem, Ibideai). 
(U^ Combateu em AlfiinrObeini. ao lado do Infante D. Pedro, tendo falecido durante a refresa (Ruv de 

nna. «k. cH.. cap. CXXt. p. 422; Duane Nulu-N dc l c3<>. ob. cil.. cap XXII. n 206) 

(13() Os íutaa, vereaUore». procuraUorc» c humens bon» ila vUii Ue Porulcitrc elegeriim-no juiz doa 

órilot nessa localidade, em substituivte do falecido OU RQo. O recente eonfinnou^ no lugar em 18 de 

Outubro de 1442 ( A N T T . Chaarciaria de D. Aíoaso V. livro 2'. foi 78v) 

Passou a ocupar as (uikõcs ^ue livera o faicviJo Ciil Rijo. «ssem tnharBO do dicto ofiçio snccí 

alem do numero» (A.N.T.T.. Chaaceiaria de D. AIomm» V, livro 27, fol. 86v). 

(l») Apesar de (cr sido nomeado tabelião em Li&boa, devemos recordar gue este indivíduo, atora residente 

na capital, fora designado pelo Rei D. Duarte, em 4 de Fevereiro de 1434, ubelião na cidade d* Évora c &cu 

leiíBO. O regiiue. tendo era atenção o (acto, confimKMM) no cargo por carta de 2S de Janeiío de 1444. 

Raala saber se continuou a exercer o oficio na capital, ou se tcirewtu a £vo«a para tomar a ocupar a« 

memwa funfiOea (A.N.T.T.. Clumcelaiia de D. AIomo V. livro 24, foi. I3v). 



— 273 

Fl 35 



Copyrighted material 



Nome 


Funçftcs 


NomraçiSo 


fonic 


Pero Homem, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Tabelião das notas e es- 
crituras públicas na vila 
de Torres Novas e seu 
termo 


30-11-1444 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Alonso K, 
livro 38, foi. 26 


Diogo Lourenço, criado 
do Infante D. Pedro 


Tabelião do cível e do 
crime em Santarém ('*') 


24-111-1445 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 25, foi. 51 V 


Vasco Lourenço, escu- 
deiro do Infante D. Pe- 
dro 


Tabelião cm Ourique ('*-> 


2-IX-I444 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 38. foi. 24 V 


João Martins ('") 


Tabelião do cível e do 
crime cm Pereira e Nó- 
brega 


? 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 15. foi. 23 


Alvaro de Pença, criado 
do Infante D. Pedro ("♦) 


Tabelião do arcediagado 
de Coimbra 


? 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 34, foi. 95 


Diogo Pires, bacharel em 
Leis. vassalo do rei. 
escudeiro do Infante 
D. Pedro 


Tabelião do paço além- 
-do-niimero. na cidade 
de Coimbra 


II-V-1445 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 25, foi. 78v 


Afonso Rodrigues, criado 
e escudeiro do Infante 
D. Pedro C*^ ) 


Tabelião em Tentúgal 


7 


A.N.T.T.. Livro 8 de 
Estremadura, foi. 259 



(13Í) Vejam-sr dudns biográficos a seu respeito cm apêndice. 

()4«) Criado do infante D Pedro, foi confirmado por D. Duarte em 12 de Dezemhro de I4.»,1 no oficio 
de escrivão da portagem de Lisboa, cargo que já vinha exercendo no reinado de D. Jo2o I (A.N.T.T.. 
CiMBCfbriB dc D. DMarte, livro .1 foi. 26v) Supomos que. durante a regência, passou a ocupar as funçAcs de 
escrivão da fazenda c da câmara do Duque de Coimbra (A N.T.T.. Chaneelaria de D. Afonso V. livro 25. 
foi. 31v). 

('•1) Substituía nesle ofício a Afonso IDomingues Barreto, o qual sc «demeiio» (A.N.T.T.. Chancelaria 
D. Afonso V. livro 25. foi. 51v) 

(1*J) Passava a ocupar a vaya de Vasco Martins (Idem. Ibidem) 

Lutou ao lado do Infante D Pedro -m Alfarrobeira (Idem. Ibidem). 
(lU) Combateu em Alfarrobeira ao lado do Infante D. Pedro (Idem. IbKirmi 
(Ui) Vejam-se a seu respeito dados biográfica, em apêndice. 



274 — 



Nome 


FuncOn 


NomeacSo 


Foote 


Feraão Rodrigues, escu- 
deiro do Infiante D. Pe- 
dro 


Tabelião em Santarém(>**) 


21-in-1444 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 38. foi. 26 


Joio Rodrigues 


Tabelião cm Coimbra 


7 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 11. foi. 132 


Pérnao RoUm, criado do 
Infante D. Pedro 


i abeliio do cível e do 

crime nas vilas de Cer- 
nache e Condeixa 


26-n-1444 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V, 
livro 24. fo! 21 v 


João Vasqucs, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Tabelião no )iilj;ado tJc 
Aguiar, no termo do 
Porto 


í 


A.N.T.T., Livro 4 de 
Além-Douro, 
foU. 209-209V 


Vasco Vicente, criado do 
Infonte D. Pedro 0**) 


Tabelião pdblico e escri- 
vão dos órfãos no jul- 
gado e lugares do arce- 
diagado do Vouga 


1 


A.N.T.T., Chanceiaría 
de D, AfoH$o V, 
livro H foi. 144 



(1^) ThtU-se duma confirmação, na medida em guc já exrrcij tais funções no reinado dc D. Je&o I 
(Mem. IMtai). 

(Mf) Lutou em Alfarrobein, ao lado do Infanw O. Pedro (Idem. 1*Mmi). 
(MQ Vcjrai.M • MU fopeito dados biogrifieas «tn «ptedkc. 
(l«> Idem. 



— 275 



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Apesar da grande densidade de tabeliães (1/3) que nos aparecem nas terras do 
Ducado de Coimbra, deparamos com a sua presença em lodo o território poriuouês. 
O facto indica que o pessoal da casa do Infante D. Pedro constituía uma inipor- 
lante rede com atribuições judiciais, a qual sc encontrava fortemente disseminada. 



* • * 



Depois de nos termos debruçado sobre os componentes da casa do Duque de 
Coimbra que se integra\am na tirgani/ação judicial do País. passaremos a analisar 
os elementos adidos à mesma, que la/iam parte da sua organi/açao militar. 
Pertencia este tipo de administração aos coudeis. que no século xv desempenhavam 
as funções de comandantes de cavalaria. Nomeados por um período de cinco anos. 
que muitas vezes se prolongava abusivamente, possuíam jurisdição militar sobre 
os concelhos para os quais tinham sido designados, mandando sair os besteiros 
do conto dos respectivos municípios sempre que o rei necessitasse do seu serviço. 

Razões bem plausíveis ajudam-nos a compreender as preocupações tidas pelo 
regente em montar um dispositivo que lhe fosse fiel e pudesse acorrer às mais 
prementes necessidades polítioo-militares do reino. Não deixa de ser sintomático 
observar que João de Lisboa C^). secretário do Infante D. Pedro, foi nomeado 
para as funções de encarregado das ooudelarias do reino, em 8 de Fevereiro de 
1443 C^')» o que dá uma ideia da preocupação manifestada pelo regente em coor- 
denar e centralizar a orgânica militar do País, de modo a transformá-la num 
instrumento poderoso e eficaz. Vejamos, agora, quais os elementos pertencentes 
à casa do Infante D. Pedro que foram investidos nesse cargo durante a reg&ncia : 



* 



(*^) Vejam-sc a seu respeito dados biográficos cm apêndice. 
0«) A.N.T.T., Chancelaria Je D. Afonso V, livro 27, foi. 26. 



276 — 



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Nome 


Fun^-Acs 


NomcafSo 


Fonic 


Diogo Alvares, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Coudel da vila de Castelo 
de Vide (• •2) 


19-VIM446 


A.N.T.T.. Chtincflariti 
de D. .1 /«>//><» V . 
livro 5, foi. 65 


Álvaro dc Ataíde, cava- 
leiro-fidalgo da casa do 
Infante D. Pedro 


Coudel da vila de Tavira 


16-VII-1439 


A. N.r.T.. Cluincdarin 
de D. Afonso V, 
livro 20, foi. 67 


Fernando Afonso do 

nt>iri\ i.-sciiJeiro do In- 


Coudel em TibAes e Vi- 
mieiro 


I9-III-I445 


A.N.T.T., Chancelaria 

</<• /). .l/<';/\<> 1'. 
livro 25. foi. «3v 


Vasco C lianiôa, criado c 
escudeiro do Infante 
D. Pedro (^) 


Coudel cm Saniuriim ("^l 


21X1-1444 


V N 11. ( liíina hinii 
tlf I). Ajini.ui y. 
livro 25. foi. 24 


Fem&o Cotrínu fidalgo da 
casa do Infante D. Pe- 
dro 


Coudel em Évora 


3-M443 


A.N.T.T.. Chancelaria 
dv D. Afonso V. 
livro 27. foi. 20v 


Gil VasqiiL^s Delgado, 
cikcudetro do Infante 
D. Pedro 


C otiiiel na Atouguia da 
Baleia (' *) 


5-V-I44I 


A.N.T.T.. Chttiu i ldiio 
dc D. AjoitM» V. 
livro 2, foi. 99 


Afonso Martins Evange- 
lho, cscudeiFO do In- 
fante D. Pedro 


Coudel em Leiria ('^^ 


6-V-I44S 


A.N.T.T., Chancelaria 
ek D. Afmao V, 
livro 25, foi. 77v 



TMr ofiLio (c>i iiiilcriornicDlc ncupujo per Alvain ^í;■s^tlrk U.i Co'.!» tidcni. ibldcM). 

(1''^) Mv.irM dr AtaMe fez «prcMiitavia duma caria daJa. cm 37 dc Julho de 1433. pnr D. JoSa i a 
Joio Coocalvc» Vieka. teu sogro, dc uns partlieirm eaiwcnia na vila de Loulé. Pnr innrtc da<|ucle. ftiraro 
Uansformadas em easa« de henreiíoría. \<e\n que eram Henta^ do nui;dmcnio de fora. o 411c lhe fni confírmiido 
IWlo KVHIte em 9 de Janeiro de 1440 (A.N.T.T.. CkaRcrlarki de D. Afaaiw V. livro 3D. f<il. 9v). 

(IM) Ji era falecido em 26 de Oczcmhro de 144.^. quando o reKcnie oulorsou a tua viúva l*ahcl 
Redrisues um imtnimento que proibia ao pai do mnno. JnSn Afonso dc ChumíVa. de se apropriar dm hem 
do filho que perten..-iam jo cavai (A N T T Chancctari.i At I). Aíoni^o V. luro 5. fui. 19). 

(lii) u oficio fora exercido ;inieriormemc por Mariiin Uc Almeida, cavaleira da cava do rei (A.N.T.T.. 
OMMcalariB de D. AléMo V. livro 25. foi. 24). 

(IM) FuflvíVcs oiarora ocupaJ.iv r'^r Mariiin Ferreira (iJ-iii. lbid«mi 

(l^<) Este ofikio foi aiucs desempenhado por Rndriuo Afonso Carneiio (Idem, Ikid(Bi). 



— 277 



Copyrlghted nriaterial 



Nome 


FuDçOcs 






Diogo Fémaades, escu- 
deiro do Infante D. Fe- 


Coudel em Pinhel 


I2-M440 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V, 

livro 20, foi. 67v 


João Fernandes, escudeiro 
do infante D. PeUru 


Coudel em Alcanede {^^) 


31-111-1445 


A . N r.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
Uvro 25» foi. 43 


Ruí Fernandet» criado e 
escudeiro do Infonte 
D. Pedro (*) 


Coudel na vila de Tones 
Vedras 


7 


A.N.T.T.. Chmcelaria 

de D. Afonso V. 
livro 25. foi. 89 


Fernão Garcia, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Coudel em Torres Novas 


19-VH444 


\ N f T.. (luíiicfhiiui 
Uf D. Ajonsu y, 
livro 24. foi. 87 


Feniio Garizo, escudeiro 
do Infante D. Psdro 


Coudd em Lisboa 


10-M442 


A.N.T.T., Chaneetaría 
de D, Afonso V, 
livro 2, foL 4Iv 


Joio Gonçalves, escudeiro 
do Infante D.PedroC") 


Coudel em Matosinhos. 
Maia, Vila do Conde, 
Azurara, S. João da 
Foz. Refoiot, etcO**) 


13-1-1440 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 20, foi. 67 



{VJS) Foi nomeado, em 12 de Janeiro de 1440, etcrivio das obras e dos lesíduos na vila de Pinhel 
(A.N.T.T.. CkaacelBfia d* D. Atoaio V, livro 20. (ol. 22). 

(iss) Sucedia neste cargo a Lourenço de Beça (Mem, Ibldai). 

V(;iaiiKM a icu respeito dados biográficos em apindice. 
(ici) Súoedea no offdo a Alvaro Vasquet (dem. IfeMcm). 

(18-) Funç5es jnlcrinrmcnte desempenhadas por Marlim Sapata (Idem. Ib id e m). 

(161) Joio Coacalves. escrivão da câmara do Porto, apairece-nos nas cortes de Torre» Nova» de I4.<t( 
como procurador detla eidade (A.N.T.T., CotsetSe de 8. Levreaco, vol. I. fols. 14 e I5v. Publicado por 
A. Moreira de Sá. At actai daa cortrs rir 1438, ^ep.irnla da RcvíUa FariiMnilr dr I.r(ras. lomo XXII. 
2.* lérie, B.* 2. 1956, pp. 22 e 24; Monnmcala HcariciM. vol. VI. Coimbra. lVb4. Uoc. V6. pp. 27S e 277). 
Deve trataria do fuaeioaário da dmaia do POrto que, em Junho de 1437, af foi colocado pelo InfÉnte D. Pedra, 
como <.cu evcrivnn, t''í"r;i\amctitc quando o Infante prep.irava ne*?4a cidadr a armada destinada .1 conquista de 
lãnger. A sua dciiicai^ão ao Duque de Coimbra levnu a Rainha D. Leonor a substitui-lo por um criado dO 
Arcebispo de Braga, o que originou o protesto judicial do burgo portuense lavrado e publicado em 11 de 
Junho de 1439 (G.HC.P.. Pcrcaatialioi, vnl. 4. doe 24. Publicado na IMoumeate Hcariciaa. vol. VI. 
Coimbra. 1964, doe. 14.S. pp. .'25-329). O seu ressentimento contra a viúva de D. Duarte manifestou-se. ao 
terminarem as cortes de I ishoa de 14 59, quando propôs qui- o rci fosse tirado ã rainha e confiado ã edLic-Jvã<' 
do Infante D. Pedro (Ru> de Pina. «b. cil., cap. L. pp. 279-281: Duarte Nunes de LcSo. ob. ck.. cap. VIII. 



278 — 



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Fundões 




Fmmc 

A.N.T.T.. Chancelaria 
(Ir D. Afonso V. 
livro 24. foi. 37 


JoSo Lourenço, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Coudel na vila de Serpa 


15.VÍ.1444 


Martim de Oliveira, escu- 
deiro do Infante D. Pe- 
dro 


Coudel cm Évora 


15-in-1445 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 25, foi. 84 


JoH»^ Paclicco. c^clldeiro 
do Iníanle D. PcdroO**) 


Coudel cm Coimbra ("") 


8-IV-1442 


A \ [ . I .. ( Inuu t liiria 
de D. Ajunso V, 
livro 23. foi. 58 


Patrício, escudeiro do In- 
fante D. Pedro 


Coudel em Beringel (i") 


27.VIM446 


A.N.T.T., Chancelaria 

(/- />. Afi>nso V. 
livro 5, foi. 61 


Alvaro Pires, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Coudel da vila de Loulé 


21 -IV- 1444 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 24. foi. 52v 


Fcrnru> Pires, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Coudel nd vila de Ode- 
mira ('«») 


7-V-1446 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 5, foi. 81 V 



rp. I2;-I2-': Gasp;tr Dtas dC Landitn «b. cil.. livro II. tap. I. rp ' N) Altm do mencioiuido Ljryo Jc coudel. 
que lhe conferia extraordinários poderes sohre os concelhos circunvizinhos do Poiti>. foi invrsliUo pelo regente, 
em 6 de Fevereiro de 1441. quando o acompanhava em LameifO. }\At dan xnm deua cidade e mu tenno. 
Substituía a Rui VaMjiK*.. o qual. sryundo doi lar.n, "ir> Oti Inf inv- D 1*. Jro nos praz ijuf o inaji nom SCja 
pollo entendermos por nosso seruii^O" (A.N.T.T., Chani-claria He I). .\iuiiao V. livro 2.<. foi. 20). 

(Ml) SubsUluiu ncue offcio a Vasco Eanes (A.N.T.T.. Chaacdaria de D. AIomo V, livro 20. foi. 67). 

(ic:.) Sucedeu no cargo a João Rodrigues da Costa (Idem. Ibidem). 

(I6«) joSo Pacheco foi procur.idor da cidade de Coimbra nas cortes de Torres Novas de I43« (A.N.T.T.. 
Cokccto dc S. Loureaco. vol, I. foK. 14 c l.^v. Publicado por A. Moreira de Si. «b. cit., pp. 22 e 24; 
MoMMcata Hcurkin. vol. VI. Coimbra. 1964. doe. 96. pp. 275 e 277) e nt» cortes de Lijihoa de 1439 
(A.M.C.. Pttcanlabo avubo, n.* 65) Quando vagou o cargo de alferes e chanceler da cidade de Coimbra, 
por falecinifiiu) Je l or»' F-ilcão. rtiosirou->e interessada D. Isabel dc Ur^jel em ni;e o mesmo fosse ocupado por 
João Pacheco. Para tal efeito, enviou duas cartas ú vereaviio de Coimbra insistindo na sua eleição. Ignoramos 
qu«] teria sido o resultado dessas diligências (Sobre este assunto veja-se o nosso estudo Quatro curtis de 
iMbal de Ureel. Duquesa de Coiaabra. srparat.i da Revitla de CSênclas do HoBwa da Universidade de Lourenço 
Marques, vol. III. série A, 1970, pp. 17-19). 

(MT) Foi investido nas funçCcs de coudel do» vassalos de Coimbra e seu termo, com jurlsdicSo sobre 
todas as vilas ir lu^.irt-v <in .timoxartfado deisa cidaJt' ilJi-iTK Ibillein). 

(IW) Sucedeu no oficio a }.i Jrii;o Soeiro, escudeiro do Abade de Ai.obai,'a (Idem, ibidcai). Um documento 
df \y de Novembro de 1447, revela -ni ^ que era celelreiro do Mosteiro de Alcobaça em Be r inge l (A.N.T.T.. 
Moileiro dc Alcobaça, livro 134. fols. lt>0v-16l). 

Passou a ocupar o cargo do falecido bMeviio Lourenço (Idem. lildsni). 

— 279 



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Fome 


Álvaro da Póvoa, escu- 
deiro do Infante D. Pe- 
dro {"<») 


Coudel na vila de Moura 

(171) 


27-Vni-1446 


A.N.T.T., Chawelaria 
r/í- D. Afonso V. 
livro 5, foi. 22 


Álvaro Proença, criado 
de Diogo Lopes de 
Sousa C) 


C oudcl nas vilas de Mi- 
randa, Podentes e Vou- 
ga (W) 


8-II-1443 


A.N.T.T., Cluinceíaria 
de D. Afonso V, 
livio 27, foi. 68 


FcrnSo Rapote, escudeiro 
do Infante D. PttdroO^*) 


Coudel cm Montemor-o- 
-Velho 


? 


A.N.TX, Uvro 8 </• 
Estremadura, foi. 254 


Mem Roilriinies, escudeiro 
do infunte D. Pedro 


Coudel no Couto de Al- 
cobaça 


16-IV-I444 


A.N.T.T.. Chtiiicelíiiiu 
ili- D. -ihniso V. 
livro 24, foi. 42v 


Rui Lourenço de iiarria, 
cavaleiro do Infante 
D. Pedro 


Coudel em Tavira ( " J 


9-VIII-144Í) 


A.N. l . i ., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 5, foi. 67 


Fernando Afonso Serruo, 
escudeiro do Infante 
D. Pedro (''«) 


Coudel do julgado de Ro- 


I3-VIM446 


A N T.T . Chancelaria 

de D. Afonso V. 
livro 5, foi. 65 



(>7a) Após o falecimenio Oo Infante D. Peilro. p.issnu a fazer pane da ca'«a do Cnndextuvrl D. Psdro 
(A.NT.T.. Otêtm êa Avií. n.* 704. M. 4). 

("1) Sucedeu no cargo a Dioteu AfoiíKO de Fkíum (A.N.T.T.. CItoicvtarte dt D. Moam V. livro 5. 
rou. X2) 

(>'-) Combatvu cm Alfarrobeira ao IjUo do Infante D. PiUro. 

(I7S) Sucedttt ■ LiA fiiMci. flwndelro de Dioyo Lopes de Soini (Menu Mdeai). 

(in) V«j»nMe ■ teu respeilo dados biográficos em apêndice. 

(tlS) Sucedeu no oOck» a Mem Rodrigues (Idem. Ibldeai). 

(irr.) hmc encarregado &ji nuarda de D. Joiio. filho Jo Infante D. Pedro, foi nomeado ini/ das ^í^-it 
dc Giiimaiic». em 5 de Julho Uc 1446. cargo em t|ue «uhsiiiuia a E>tevão Eanes, o qual. segundo ns homens 
bons dessa vila, «lava Vdho e fatigado (A.N.T.T.. Ckancelaria dc D. Afonvo V, livro 5. foi 60). Pouco depoit. 
no dia 15, passou a desempenhar as funçfSe<k de almoxarife da alfândega e do almoxarifado do Porto, lugar 
outrora desempenhado pelo falecido Alvaro Vasques (A.N.T.T.. CtaucelBria de D. AfMMo V, livro 5, foi. 65v). 
O regente concedeu carta de |irivilc|tio a todos nv seus c;isciros. mordomos, lavr;idnres e jpjniguados. «prestet 
pera dos scrujr cora suat bestas c armas* (Carta regia de 19 de Julho de 1446. A.N.T.T.. Cfeaactiwia dc 
O. Afouo V. livro 5. foi. 60v>. 

(177) Subnitubi neste lugar a Piai Rodrigues Veloso (A.N.T.T.. ClHiaMinii dc D. AIbm* V. Uvro 5, 
foi. M). 

280 — 



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Nonicavâo 


Fnni« 


Afonso Soeiro, escudeiro 
do Infante D. Pedro 0^) 


Coudel na vila de Faro 
(•») 


16.V-1443 


A.N.T.T.. Cfuinct-luria 
í/í' D. Afimu» V . 
livro 27, foi. 97 


io'io Je Teives. e^udciro 
do Infante D. Pedro 


Coudcl na vila de Monlc- 
mor-o-Velho 


U-VII -1439 


A.N.T.T.. C luiiu liaria 
de D. AfoMut V, 
livro 19, foi. 72v 


Nuno Martins de Travas- 

Mi^. cri.idi> c escudeiro 
do Infante D. Pedro (" • 


Coudcl na cidade de 
Coimbra 


26-XIM439 


A.N.T.T.. Ckancghiritt 

(/(' fí. .\f<>it\<) V . 

j '.^ IS, t\>| 11) 



A distribuição dc coudeis pelo reino, tal como .se observa no quadro elaborado, 
revela a pfeocupação tida peio regente em montar um sistema ericiente e perfeita- 
mente capaz de acorrer a todas as necessidades militares que eventualmente 
surgissem. Não deixa de ser significativo constatar que as principais cidades do 
reino, como Lisboa. Évcva. Coimbra e o termo do Porto — visto que este burgo 
gozava de prerrogativas especiais — se encontravam confiadas a chefes militares 
pertencentes à casa do regente. Os importantes contingentes humanos que af 
podiam ser recrutados constituíam uma preciosa fonte de recursos postos à dispo- 
sição da política centralizadora e de defesa do território, que havia sido gizada 
pelo Duque de Coimbra. 

* « * 

Passada em revista a organização judicial e militar do País. \cjamos seguida- 
mente quais 05 elementos pertencentes à casa do infante D. Pedro, que ocuparam 
as mais diversas funções administrativas, quer no domínio da complexa política 



(ir») o regeatS BOmeou-o. cm 2^ Jr Maio lAA^. «Jon rcxíduos Jj vil.i Faro e WU lornKi. c.irj-n 
que fora ocupado pelo Mccido Gonvalo Dí;í> (A.N.T.T.. CiMiacalaria dc D. Afuavu V. livro 27. tn|. s4v). 
No ano «epriMo. ■ II dt JaiMlni, netbctt uma carta de qurtiiçSo rebiiva a éoh pedidos que tinha reccNilo' 
<• ^^i^pcndido, puyos pclot mourm no Algarve, em 1442 c 144.1 (A.N.T.T.. Cliaaacbria de D. Afan«o V, livro -4. 
fok. 3-3v. Puhlii-ddo por Iria Gonçalves. Pedidos e «apri^liMA* piiMico» ca ParlwcoJ durante a lilade Media. 
Liiboa. 1%4. doe. XVI. pp. 

(in) Sucedeu ncsu ofício «o falecido Coiwaio Oia.« (A.N.T.T.. Chaacctarte de O. Afeaw V, liyro 27, 
foi 97) 

I - I 1 ve de Maria Álvares, guando amHos «frjtn soitvirov. a Lnprt NuncS. Foi «iHt scu filho tegjtimado 
cm 17 de Janeiro de 1449 (A.N.T.T.. Lhra 2 4e UsilimacAr». foh. 47v-4ft). 

— 281 

n 36 



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fiscal e económica» quer ainda zelando pelos outros ramos de interesse público. 

Começaremos por fazer alusão a alguns funcionários incumbidos de fiscalizar 
o sector das obras públicas. Antes, porém, faremos referência ao único porteiro 
das obras que detectámos. Trata-se de João Vasques. criado do Arcebispo de 
Braga. D. Fernando da Guerra, e escudeiro do Infante D. Pedro, que, por carta 
de 2 de Setembro de 1439, passou a desempenhar esse ofício na cidade de Braga ("•)• 
O Rei D. Duarte já o nomeara, em 11 de Janeiro de 1437. escrivão das obras, 
torres e muros dessa cidade, em substituição do falecido Garcia Pires. O regente 
confirmou-o na posse do mesmo em 11 de Junho de 1445 C^-). Foi ainda investido, 
em 24 de Fevereiro de 1439. no cargo dc tesoureiro das obras de Braga C*'). 
O Infante D. Pedro nomeou-o. cm 4 de Julho de 1445. por um período de cinco 
anos. coudel da terra de Santa Cruz Anos mais tarde, em 26 de Novembro 
de 1450. foi empossado no cargo de escrivão das sisas gerais e vinhos da cidade 
de Braga, vindo assim a ocupar o lugar de Fernão de Boiro. que andava exilado 
devido «a gram soma de djnheiros em que nos he obrigado e deuedor» ("^). 

Segue-se o quadro respeitante aos vedores das obras : 



(»") A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 27, foi. 58v. 

(i"») A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 25, foi. 28. 

(^") A.N.T.T., Chmetíarla de D, Afonso V, livro 19, fbl. S7v. 

(M») A.NXT., Chancelaria de D. Afonso V, livro 25, foi. 31. 

(M>) AJ4.T.T., Ckaneelarh de D. Afonao F, livro 34, foi. 186v. 

282 — 



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Nome 


FunçOei 


Nomeacio 


Fome 


Joio de Angfto, criado e 
escudeiro do Infante 

D Pedro f"^ 


Vedor das obras da mu- 
ralha da cidade do 
Porto C»^) 


? 


A.C.E^ Coiecçâo de 
Cortes, tomo 1. 

p. 198 


Gonçalo Kanes, escudeiro 
do Infante D. Pedro C») 


Vedor das obras no mos- 
teiro da Batalha C^) 


24-1V-I441 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
Itvio 2, foi. I05v. 
Publ. por Francisco 
de Sousa Viterbo, 
Diccionário dos Ar- 
chilectos, tomo III, 


Gonçalo Eanes, escudeiro 
do Infante D. PedfoO") 


Vedor das obras na vila 
de Torre de Moncorvo 


2-U-1440 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. 
livro 20. foi. 58 



(IK) O regente nomcou-o. cm 1440, aleaMe da moeda da cidade do Pofto. em sub«iitutção de ÁJvare 
Diw CA.N.T.T.. Ciaiwlwfa tft D.' Aimatm V, livro ». M. 2). Aimicomibi camo «erandor da rafcrida cidMie 
irOTtCnha no citado in^trumcnio de protesto, lavrado cm II Jf Jtmhn dr I4<9. contra a Rainha D Leonor 
^.H.C.F., Percanialiot, vol. 4, doe. 24. Publicado na MoMumcnU HcnricÍBa. vol. VI. Coimbra. 1964, 
doe. 14S, pp. 32.s-.i29). 

(W) Um docttmcMO de 10 de Abril de I44S revela que csie escudeiro do Infante D. Pedro, morador 
e vizinho da cidade do Porto, ocupava entio enas funçfles (A.C.L.. Coacc«io de Corte*, tomo I, p. 198). 

(IW) Combateu «m Alfarrobdrs ao lado do Infame I) Pt-dro. 

Suoedeu m> cargo ao ialeddo Rodrigo Eanes Quelhcira (Idem, IWdcm). 

(<W) O regente confirmotM. por carta de 18 de Agoato de 1439. oe cargo de contador doa letiduoi 
na vila de Torre J;- Moncorvo. funçOes que yi vinba eicrceodo desde O rtbiado de D. Ouarté (A.N.T.T.. 
Chaacclaria de D. Aíoaso V. livro 19, foi. 105). 

— 283 



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Temos ainda a assinalar a existência de dois vedores de vassalos. Diogo Afonso 
dc Abreu, escudeiro do Infante D. Pedro, o qual, em 28 de Dezembro de 1443, 
foi nomeado vedor dos vassalos da vila de Sintra e doutros lugares do seu almo. 
xarifado ' ). Já antes desta nomeação, cm 10 de Abril de 1442. tinha sido desi- 
gnado para o excrcív^^io da^ funções dc iui/ c contador dos resíduos da referida 
vila e seu termo, cargo em que substituía o criado da Rainha D. Leonor. Gonçalo 
de PinharanJa ( ). c|ue ^e havia exilado em Castela ( ). O outro vedor é Pedro 
AKares. escutleiro do Infante D. Pedro, o qual foi nomeado, em 28 de Outubro 
de 144.^, \edor dos vassalos residentes em Viseu e no seu almi>xarifado <íSC a 
outrem nom he dado/C '). Depois da batalha de Alfarrobeira. ío] acusado por 
João MarLins da Regueira e João de f-Aora. respectivamente, jui/ e tabelião nessa 
cidade, de t|ue ceuMirara o rei. ao afirmar que fe/eramos mall de matar o 
Ikinie dom f\'dro Alegando, contudo, a íal.sidadc da incriminação, obteve caria 
dc perdão cm 5 de Maio dc 1451 (" ). 



« * « 



Pertencia aas almoxarifes um destacado papel no arrendamento e na cobrança 
daji rendas c direitos pertencentes à coroa. Se atendennos às pesadas dificuldades 
económicas e financeiras que atravessou o País durante a regência, motivo de 
sucessivos pedidos votados e aprovados em cortes, não podemos deixar de atentar 
na sua real importância. Alguns destes funcionários pertenciam à casa do Infante 
D. Pedro, conforme se verifica no quadro que apresentamos a seguir : 



('") A.N.T.T.. Chniuduria lif D. Ajonso V, livro 27, foi. 22. 
(in^ Vejam-se a »eu respeito dados biográficos na p. 114. 
(«) A.N.T.T„ Chancelaria de D. Afonso V. livro 23. M. 6lv. 

('»♦) .A.N.T.T., Clunicíltiria Jc D. Afonso V. livro .%5, foi. 24. 
A.N.T.T., Chancelaria de D. Alonso V, livro 11, foi. 22v. 

284- 



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XTii— ■ 

rnaic 


1* unções 




FoMc 


Joio Vaz Bnuidfio. cria- 
do e escudeiro do In- 
fante D. Mroi^) 


Almoxarife em Coimbra 


24-VI^I43'> 


A.N.T.T., Chmcetaria 
Jc D. Afonso V, 
livro 18, foi. 93v 


Pedro Eanes i^) 


AlmoNarifc <>m Vila Nova 
de Anvoí. 


9 

• 


A N.T.T . Livro 8 dc 
/-. 1 1 f madura, foi. 

:(>7v 


Nuno Fernandes, escu- 
deiro do Infante D. Pe- 
dro 


Almoxarife nas (araçenas 
de UOmkK'*) 


I-XM444 


A.N.T.T., Chemeelaria 
tl¥ D. Afonso V, 
livro 25, foi. I9v 


Aires (jonçalvcs. criiido 
do infante D. Pedro 


AlinDxarife na vila de 
Seniurém l'») 


1-VIIM444 


A.N.T.T., Chancelaria 
</<■ D. Afonso V. 
livro 5, foi. lOv 


Martim Ja Rocha, criado 
e escudeiro do Infante 
D. Mfoi^ 


Alinox.iiilc cm Vianu du 
Castelo (»•) 


23-VI-1439 


A.N.T.T., Chancelaria 
fte D, Afoiuo V, 
Ihno 18, foL 94v 


Fcrnào Rodrigues, escu* 
deiro do Infante D. Pe- 

ilro 


Almoxarife do armazém 
de Ceuta 

i 


I8-VII-I446 


A.N.T.T.. Chtutcelaria 

de D. Afonso V, 
livro 5. foi. 66v 



(19») Vcj«m.»c a seu retpeilo diKkw hittyrãfiMH «m apcndicc. 

(W) Lutou cm A1Ainnt<cini. iin Imio <ln InÍKiiic D. Pcilra. 

("•) SuceJcu no ofício ;io f;ili:ciili> l-.i>\úo «Jo Ohidov (Ijcm. Ikitltai). 

(199) Sucedeu no cargo ao faleciUn Conçato Euiics (lUcm. Ibídeai). 

(**> LãlOH em Alfairoliei». ao lado de Infame D. Fedro. 

(^!) Já (Hupava eslas funçtV^ v. ^ cn ^Jr dc D. João I Foi confirmado no cargo pdO lUi D. OhmIB» 
cm U de Janeiro de 1434 fA.N.T.T.. Chancelaria dc D. AfoMM> V, livro IK. (ol. 94v). 

(M) Substituiu no offde • JoEo Benunles. pelo titular ler mudado o seu domkOto pata LMfla ifêtm. 
IMisa). 



— 285 



Copyrighted matsrial 





Punçta 




FoQte 


João RodrifUflt, criado 
do InfMiteD.PedR>(*") 


Almoxarife das obnw do 
paço e do casido de 
Lisboa (**) 


I7-in-I440 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V, 
livro 20^ foL 35v 


Pero Rodrigues, escudeiro 
da casa do Infante 
D. Pedro 


Almoxarife da cidade da 
Guarda (^) 


13-XÍ-1442 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 23, foi. 105 


Lomaiço Vieira^) 


Almoxarife em Buarcos 


? 


AJ<I.T.T^ Uvro 8 de 
Eitremadttra, fols. 
257V258 



O TCK'-i'.r nomcou-o, em 19 de Abril de 1442, paçeiro das cauu que tinham Udo da motrda velha 
de LàbM. em subsutuiçio de Fcrnlo Dias, e^jo oCIcio «Ibe foy tirado por alguas coutaa que ffez em nouo 
dw ifq fc o. (A.N.T.T.. ChncaMt «■ D. Afra» V, Uvro 2. foi. SOI. 

(3M) Su^si ; i:u n». nfício ao mencionido Fcmio DIh, pdas ntfics adma liriirtii (A.N.T.T., CkM> 
ctfeute de D. Afoa»o V. livro 20. foi. 35v). 

(■9 SuMdM ao eui» • Cloncin Eun. que rcmmdou ao mu cae f cfc i o (Mcn. Ibfita). 
CniabsMu «n AlIuioMca. m Mo do lobal» D. Pfedio. 

286 — 



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Ao presente quadro, podemos acrescentar o nome de João Álvares, criado 
e escudeiro do Infante D. Pedro, que, em 26 de Junho de 1443, foi investido no 
cargo de porteiro da alfândega de Lisboa, lugar que se encontrava vago pelo 
falecimento de Nuno Cerveira ( ' ). No dia seguinte ao desta carta de nomeação, 
obteve confirmação, por parle do regente, de alguns bens existentes na Torre, 
junto ao Lumiar, os quais obtivera por doação de Margarida Esteves Cantei C*^). 
Outro funcionário é Vasco Lourenço, servidor do Infante D. Pedro, que, em 13 de 
Janeiro de 1440. foi nomeado medidor da alfândega de Lisboa, em substituição 
de Fernão Mexia, o qual. por ser estrangeiro, não podia exercer funções públicas, 
conforme um capítulo outorgado nas cortes realizadas na capital em 1439 C"*). 

* • « 

Após termos considerado os almoxarifes a quem pertencia o arrendamento 
dos direitos da coroa, debruçar-n<Â-emos sobre os fundcmários encarregados da 
cobrança e do lançamento de pedidos e empréstimos públicos, além de outras 
rendas pertencentes ao soberano. Sio eles os requeredores e recebedores : 



A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 27, foi. 150. 
A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 27. foi. 125V. 
A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 20, foi. 20. 

— 287 



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FunçAcs 


NoumçSo 


Fonte 


Gonçalo Afonso, criado 
do Infante D. Pedro 


Requeredor das sisas e 
direitos reais da vila de 
Barcelos 


I4-V-I440 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 20, foi. 121 


João Afon<io, criado do 
Infante D. Pedro (^) 


Requeredor geral da sisa 
real de Santarém 


? 


A.N.T.T.. Chanc- hirui 
ííc D. Afonso V, 
livro 11. foL 106 


JoSo Afonso, escudeiro 
da guarda do Infante 
D, Pedro («•) 


Recebedor das sisas dos 
panos de cor em Lis- 
boa 


20-VIM446 


A.NT.T., Chancelaria 
dv !>. Afonso V, 
livro 5. foi. 65v 


João Alvares, ex-cevadeiro 
do Infante D. Pedro 


Requeredor da portagem 
de Lisboa («») 


I2-XI-144I 


A.N.T.T.. Cliancilariii 
(Ir D. Afonso W. 
livro 2, foi. 49 


João Afonso da Arran- 
cada, criado do Infonte 
D. Pedro 


Requeredor das sisas da 
cidade de Coimbra 


12-VI-1440 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 37, foi. 64v 


Vasco Eanes de Buarcos. 

criiulo c escudeiro do 
Infante D. Pedro 


Recebedor das sisas dos 
piínos dc cor na cidade 
do Porlo 


25-VIM439 


A . \' . T . T . . Cluin rc la na 
ílc D. Afonso \' 
livro 19. foi. 25 



(3M) LuUMi em Alfarrobeira, ao lado dn Infjnte I). IVU-n. 

(-IO) Uma carta Jada pelo regente, em 23 dè Setembro de 1446. dÍ2'no« que o rei lhe oui-irgara no 
Algarve detreminados hens. os «quaae^ de>pois mamdamoi pcra nos rrecadar avemdoo ass> tx>r nosso >eruivO». 
Querendo aeon indeoinizi-lo «por esto que lhe ass> fo^ lomado». c-lhc- doada uma casa de 'tenda» cm Lishoa. 
próxima da tanccna. prtdaanwiite iktfâs da Casa da Moeda, a qual fora penenc» do falecido Pero Ferreiro 
(A.N.T.T.. Uno !• de EMnawdm. M. 2S9v). A doaçilo fei-lhe confirmoda em 24 de Maio de I4SI 
(A.N.T.T.. Chaacctaria de D. AfoaMi V. livro II. foi. M7v: Livro 10 de Estreandwa, foi. 299). O. Afonso V 
Mocedeu-lbe, em 1 de Maio de 14.s.<. a lenva- anual de ItlOO reai» brancos, a qual iiería pata em Iris^partei 
(A.N.T.T.. Ckaaedaria de D. AfoM V. livro 3. foi. 40v). Esta quantia foi-llie aumenuda. a partir de 14S5. 
para 2228 reais br.incos, que lhe striain p;ik;os in Jcpendcntcir.enic dn vm. iim-nto ijuc recebia como recel-icJor 
da siu dos panos de cor em Lisboa (Cana régia dc 7 de Novembro de I4.S4. A.N.T.T.. CIWBCclaria dt 
D. AfbOTO V. livra 10. foi. I27v). 

(;:n) Substituiu no oficio ao fiilecido Jo8o Fernandes Cuarama (A.N.T.T.. CtnnHlmti d» D. Afama V, 
livro y foi. 65v) 

(Sl2) Sucedeu no oOdo « João do Cotno. o qual foi provido noutro caiso (Mem,. Miaai). 
• p]| V«ianM« • wu respeito dados biogrificot cm apiodice. 



288 — 



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FuiKfiet 




Fonte 


loão Fernandes, criado 
do Infante D. Pedro 


Recebedor das sisas dos 
panos de cor de Lis- 
boa 


MV-1440 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 20, foi. 79 


Afonso Gii, escudeiro do 
Infante D. Pedro 


Recebedor do porto de 
Miranda ("«) 


? 


A.N.T.T., Chancelaria 
àe D. Afonso V» 
livro 5. foi. 31 


Rui Gonçalves, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Recebedor dos dez reais 
c dos direitos das co- 
munas dos judeus no 
almoxarifado de Vila 
Real, para a guacniçio 
da praça de Ceuta ('^'^ 


lMn-1441 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 2, fols. 7IV-72 


João Martins, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Recebedor da coroa no 
refuengo da Valada (^"j 


28-VI-1441 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 2, foi. 105v 


Rui Martins, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Recebedor das sisas fo- 
reiras de Êvoca^^ 


26-X-1446 


A.N.T.T., Chancelaria 
át D. Afonso y, 
livro 5, foL 98 


Alvaro de óbido!» escu- 
deiro do Inliaiite D. Pe- 
dro 


Recebedor da dízima da 

coroa que incide sobre 
os géneros importados 
por via maritima atra- 
vés da foz de Bnaicoc 
(»•) 


14-Vn-1439 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V, 
livro IS, foi. Uv 



(S>*> Trau-se duma caru de mercê, na qual lhe sXo concedidot 700 reais brancos mensais, no perCodo 
qiw iwi do primeira dia de Main de 1446 até Janeira de 1447 Odem, ItMiaO. 

(ílj) Siib-ítitiiiLi no cargo .i MjnucI Gil, ■•scrivSn n.i c )'f.i,'o, dc IMt-Oa-Montrs (Idem. Ibidem) 
(»() Sucadeu no otício a Martim Pais, nomeado recebedor cm Vila Franca e nas lezírias (Idem, Ibidcoí). 
(If) Suoedcu no lugar a Oonçalo Fenein, que «ora mataram» (Utm. MémO* 
* *> Trata-se da «onflnnaçlo do eaf«o que lhe foi dado por D. Duarte cm 1 de Jaocire de 1434 
(lUem, Ibidcni). 

— 289 

Fl. 37 



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Nome 


Funçftc^ 


Nomeação 


Fonte 


Fernão Vieira, escudeiro 
do Infante D. Pe- 
dro (=») 


Recebedor da quarta par- 
te da sisa dos panos de 
cor, cobrada aos ingle- 
ses na cidade do Porto 


15-VI-1444 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 24, foi. 75v 


Vasco Eanes de Vilaflor, 
escudeiro do Infante 
D. Pedro 


Recebedor do porto de 
Freixo-de-Espada-à- 
- Cinta 


2-V-1445 


A.N.T.T.. Chancelaria 
í/f D. Afonso V, 
livro 25, foi. 62v 


Álvaro Vilela, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Requeredor das sisas de 
Évora (-') 


23-1X-I446 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 5. foi. 94v 



Se exceptuarmos o Algarve, aparecem-nos em todas as regiões do País rece- 
bedores e requcredores ligados à casa do Infante D. Pedro, o que constitui uma 
indicação da preocupação tida pelo governante em garantir a máxima eficiência 
na cobrança de sisas e outros impostos de carácter ordinário ou extraordinário. 
O bom funcionamento do sistema administrativo era fundamental para atender às 
necessidades prementes do reino, sobretudo se tivermos em linha de conta as 
dificuldades por ele atravessadas. 

* * * 

Vamos seguidamente mostrar a identidade dos funcionários ligados à Casa 
dos Contos de Lisboa e a outros sectores da vida financeira do País, os quais 
também pertenciam à casa do Infante D. Pedro. Eram muno importantes as suas 
funções, se nos lembrarmos que a eles cabia a peritager- e a fiscalização das 
contas públicas. Não pode causar estranheza, portanto, que o regente tivesse 
providenciado no .sentido de designar para o exercício desses cargos f>essoas da 
sua inteira confiança : 



(2>í) o regente nomeou-o. em 6 de Fevereiro de 144>. escrivão da sUa do pescado herdades, hortalivu e 
upataria na cidade do Porto, em subMituiçSn de Lourenço Afonso, que tinha falecido (A.N.T T . Chaacciaria 
de D. AfoMM V. livro 27. foi I2v) 

(~0) Sur >u no lugar a Lituarie Marinho, criado do falecido Infante D. Joio. prosido noutro cargo 
(Idem, Ibideai). 

(SI) Substituiu no ofício a Gil Fv'rnandov P<'rtibo, que renunciou j sua posse (Idem, IbMeni^ 



290 — 



Noflir 


Fun^Aes 


Nomcavúo 


Fome 


Fernantio Alvares, escu- 
deiro do Infante D. Pe- 
dro 


Contador dos contos de 
Lisboa (*^) 


20-IX-I446 


A.N.T.T.. Chancelaria 
ih' D. Afonso V. 
livro 5, foi. 85 


Joio Alvares, criado do 
Infante D. PtedroC*^) 


Contador dos contos de 
Lisboa e mestre de ba- 
lança 


9-1-1442 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Duarte, li- 
vro 2, foi. 29v 


Pedro Eanes, escudeiro do 
Infante D. Pedro 


Contador das custas e fei- 
tos perante o correge- 

dar Je I isboa r-*) 


30-IIÍ-I445 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. 

livro 2^ foi v^v 


Fedro tanes, cstudeiro do 
Infante D. Pedro 


Porteiro dos c<.)tUos nos 
ulnioxarilados áe Évo- 
ra. Estremoz e Porta- 
legre 


25-VU-1446 


A.N. r.T.. Chancelaria 
iie D. Afonso V, 
livro 5, foi. 66v 


Joio Lourenço Farinha, 
escudeiro do Infante 
D. Pedro {■*) 


Contador dos contos e 
dos resíduos dc IJsboa 
e jui/ dos hospitais 
desta cidade 


15-VM448 


A.N.T.T.. Chancelaria 
ílc D. Duarte, li- 
vro 2, foi. 48 


Vasco de França, escu- 
deiro do Infante D. Pe 
dro 


Contador no almoxarifa- 
do do Porto (^) 


7-IM440 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 20, foi. 39 



(SS) Sucedeu no cargo a Joio tfann. que renunciou so meotno por ne encontrar vellio. cantado c 
•adoorado. (Idem. IbiHrm) 

(223) As primeiras noticias gue >c tolhem a seu rcsptriio dâo-no-ln como tesoureiro e contador da 
do infante D. l*edro. É o que se verifica numa escritura de compra por ele realizada, conjuntamente com sua 
mulher. Maria Dias. em 26 de Outubro de 1428 (B.M.E.L.V. (Reservados). Pcffarnfah* avalaa). O Rei D. Duarte 
confirmou-o. cm 3 de Marco de 1435, no cargo de contador dat cultas de Lisboa e seu termo, funçfies que já 
vinha exerccnUo tm r:in.iJ<< de D. João t <C'arta remia de confirmação de 10 de hrvcTciro iti- A N I T. 

Cfcancilaila dc D. Afoaao V, livro 18. foi. 49). Este mesmo monarca nome0(M>, cm 18 de Dezembro de 1437, 
contador dot contos de Lisboa, em sub<tiroi«io do falecido Gonçalo Femande* (Carta régia de oonfirmacio 

de 20 de Fevereiro de I4''9, A N T T Chancelaria d* D. Afonso > . - i 19. foi. 56). O regente ouiorgou-lhe 
O cargo de mestre dc l>aianca cm LÍ!.boa, por carta dada cm 20 de Uc/cn..iro dc 1441. Sucedia no mesmo a 
Obiis Eanes, que o vinha desempenhando desde o tempo em que reinava D. Jofio I (A.N.T.T., Chaacdwli 
dt O. AfaaM» V. livro fnl. 46v). 

(») Sucedeu no oficio a Joiío Alvares, que renunciou ao sea exerdeio (Idem. Ibidcaa). 

(tB) Substituiu no cargo a Viecnie Leonardes, que se sentia cadho e adóonido» (idam. Miaa). 

(?2Í) Vcjam-'-e a se i respeito dados biográficos rm .ipêndicc 

(— ') Substiuuu a Afuiivo taiiCN, ^ue. segundo o rebente, .nos praz que t) mais num s^cja» (idem. Ibidem). 

— 29! 



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Nome 




Nomcdv<io 


Fome 


Diogo Gonçalves (^) 


Inquiridor do niímero 118 
Cidade de Braga 


? 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Ajonso V. 
livro 33, foi. 13v 


Diogo Afonso Malheiro, 
escudeiro do Infuite 
D. Pedio 


Contador nos almoxarifa- 
dos de Ouimariet e 
Ponte de lima, com 

poder para arrendar as 
suas rendas, sisas e di- 
reitos e verificar as suas 
contas 


13-1X-1442 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afotuo V, 
livro 38. foi. 17 


Jofto de Oliveica, eaeu- 
dciro do infonie D. Pe- 
ei r o 


inquiridor e contador dos 
Mios em Évora 


16-VM44I 


A.N.T.T.. Chaucelaria 

<h- D. Afonso V, 

livro 1 foi OOv 


Fernão Vasqucs do Rego, 
vassalo Uo rei e escu- 
deiro do InfMite D. Fe* 
drot*") 


Inqiiírulor. conlador c dis- 
tribuidor dos feitos da 
vila de Óbidos (") 


23-V1-1442 


A.N.T.T., Ciiaiicflaria 
de D. Afonso V. 
livro 27, foi. 40v 


Alvaro Gonçalves Voga- 
do, escudeiro do In* 
fante D. Pedro 


Contador dos contot em 
Lisboa 


19-M445 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 25, foi. 74; 
C/l. de D. Duarte. 
livro 2, foi. 36 



<--*') Comhatctt cm Atfárroheira, ao luilo dn hilunio I) PrJrn. 
Sucedeu oo cu|P «o fakdOo Oomes hane% (Idem. UWwi). 

(3311) O refcnte conf i rmo u -o. por cana de 24 de Abril de 1441. m> deMmpenlm de cargo de «rhrio di 
dmara e «J<>s órfãos da vila Je Óbidos, paru o quiil tinha >ido clciio pelo» julces. «OncdhO « honwm bOIM 
da localidade (AN.T.T.. Clmcelm de D. Afoow V. livro 2. (ol. Il2v). 

(2*1) Sutmittthi oeste oficio ao lUceido Vaico Eann (A.N.T.T.. ClMriteiia dt D. AfaM* V. livro 27. 
foi. 40v). 

(S33) Sucedeu no carco a AJvaro Afomo l*evMnha. «que o dito ofiçio lijnlia per noua caria. O quall 
ora iiramot E twwa merçe he que o nom lenha porquanto fez e diie «niwas em nos«n deseruiço contra ho 

ilicio iiioii ihio ID. Pcdrol • (Idem. Ibidrm). O beneficiário iijd --c ni.iMU \r por muiii) i -inpo na posse Jo 
oficio. Fara i^vo, bastou que n rej;ente deixasse o yovemo e Alvaro Afonso Ptrss.inlia apresentasse .i su» reclamação 
ao tobarano. Realitada por O. Afonso V a devida inquiricio. foi o IcMido reiniesrado no lugar, por aula 
d« 20 dc .Sclcnr^ro dc I44s. M-tido iScW priv.id» Áls.iro Gnni,'alvrs Vogado (A N TT . CawKel a ria dc D. DnOftC» 
livro 2. fui. iO; CL Virgjnu Rau. A Lasa dot Contos. Lisboa. 19.^1. pp. 251-252). 



292 — 



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Observa-se. com base no presente quadro, uma predominância de escudeiros 
da casa do Infante D. Pedro ao servido da Casa dos Contos em Lisboa. O lacto 
e.\plica-se. sc atendermos ao papel vital c extremamente delicado que tais funções 
possuíam no contexto da vida financeira do reino. Exigia-sc. efectivamente, que os 
servidores desia instituição fossem pessoas da maior confiança e dedicação ao 
regente; seriam afastadas caso recaísse .sobre elas a menor suspeita. Verifica-se 
ainda a presença de contadores e inquiridores noutras parcelas do território, que de 
igual modo faziam parte da casa do regente. 

* « • 



Cabe agora a vez de aludir aos procuradores dos concelhos e das insittuiçdes 
civis e religiosas, que representavam permanentemente os interesses que lhes 
estavam confiados : 



Nome 






F<»u 


João Afonso, escudeiro 
do Infante D. Pedro (^) 


Procurador do número 
na cidade do Porto 


20-JI-144I 


A.N.T.T.. Clhincelaria 
iit' D. /l/<»//V(i V. 
livro 2, foi. 124 


Aires Carvão, criado do 
Infante D. Pedro 


Procurador do número 
na cidade do Porto 


Mll-1440 


A. N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 20. foi. 48 


Louienço Pais da Cotta» 
escudeiro do Infiuite 

D PcJio 


Procurador dos resíduos 
na vila de Lafos("*) 


3I-V-1443 


A.N.T.T^ C/umoflaria 

de D. A forni > V. 
livro 21, foi 


Pero Dias(=* j 


Procurador do número 
em Li!>boa 


? 


A.N.T.T.. Livro S ih- 
tsircnuuhiru, íols. 
I79V-280 




Procurador da corte 


? 


Uvfo 3 de 
hiistícos, fols. 8Sv* 
•«6 



(^) Er.i filho lie Jofio Afonso, alnde de Guaher e rónego dc Bru^a. v ilc Muria Gonçalvct, mulher 
soUeira quando do seu mscimemo. Foi lefitiimdo cm 20 (le Dcwmbm de 1441 (A.N.T.T., Uvra t M Lciill- 
■mSm, foi. ISlv). 

(»>) Desempenhava as fuiKAes de tabeliSo na eluda vila (ldi.'m. IbMtm). 

(-■' ) Lutou em Alfjrrohfirj, .10 l.ijn Ji- Iiif.inif I). Pedro, 

Combateu ao lado do Infante D. Pcdru nu batalha dc Alfarrobeira. 

— 293 



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Nome 






rvBW 


Joio de Montemor, vas^ 
saio do rei ^ 


Procurador do ndmero 

na correição da Estre- 
madura (-^) 


8-VI-1445 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonsn V 
livro 25. fo!. 45 


Aíonso Pereira (^') 


Procurador do mosteiro 
de Santa Clara de 
Coimbra 


7 


A.N I .T., Cluiiuclaria 
de D. Afonso V, 
livro 34. foi. I16v 


Lopo Rebelo, escudeiro 
do Infante D. Pedro C") 


Procurador do ndmero 
da cidade do Pbrto 


? 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. 
livro 11, foi. 82 


Joiío dc Serpa, cidadão 
de Lisboa c escudeiro- 
-fídalgo do Infante 
D. Vedto(*^) 


Procurador c requeredor 
dus liberdades do con- 
celho de Lisboa 


7-V-Í446 


A . N .r.T., Chancí-líiria 
de D. Afonso V, 
livro 5. foi. 49 


Pero de Serpa, vassalo do 
rei, cidadfio de Lisboa 


Procurador e rcquercdor 

da cidade de Lisboa e 
das restante cidades, vi- 
las e lugares do reino 


3-IV-I440 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. 
livro 20, foi. 55v; 
Livro 10 de Estre- 
madura, fois. 76- 
-76v; Monumenta 
Henricina. vol. VII. 
Coimbra, 1965, 
doe. 61, pp. 86-89 


Gil Vasqiies, bacbarel em 
Leis, criado e escudeiro 
do Infante D. Fbdro(***) 


Procurador do ndmero 
na corte 


4-XIM443 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. 
livro 35, foi. 30v 



(BT) Lotou cm Alfarrobdni, junto do Inbint« D. Pedro. 

(^) Ocupou o lii^'ar dr Aires Gonçalves, que linha rrnundado ao leu deaempenho Gdem, lUiMi). 

Combateu em Alfarrobeira, juittO dO Infame O. Pedro. 
(MO) Lutou cm Alfuraheira. ao lado do infante D. Pedro. 
(341) Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 
(243) Vejam-&c a seu respeito dados biográficos u pp. 11-12. 

Eite criado e escudeiro Jo infante D Pedro. era hachari-l em Lei«. representou a cidade de 
Silves nas cortei de Lisboa de (A.N.T.T.. Mwo 4 do SuHcmcnto dc Cortes, n.* 41. foi. 6). 

2!M — 



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Tem interesse verificar o facto de muitos dos procuradores terem estado 
presentes na batalha de Alfarrobeira, onde combateram ao lado do Infante 
D. Pedro. Esta circunstância parece estar ligada a dois aspectos fundamentais. 
O primeiro indica o cuidado posto pelo rcgcnic na sua nomeação, apenas esco- 
lhendo elementos que lhe eram particularnu-nic dctiicados. O segundo dÍ7-nos que 
estes indivíduos, devido à naturc/a das suas lunvTv"'^. deviam cncontrar-se próximo 
do antigo regente, quando a maior parle dos seus partidários se viram presos pelo 
rei e destituídos das suas fundões. 

* « * 

Antes de finalizarmos a presente exposição, cumpre-nos ainda realizar a 
tarefa de agrupar num só quadro todos os escrivães, pertencentes à casa do 
Infante D. Pedro, que se encontravam ligados aos diversos ramos e sectores da 
administração pública. A complexidade das tarefas e dos cargos por eles exercidos, 
obríga-nos a assim proceder. O conjunto dos mesmos dá-nos uma imagem bem 
significativa do papel e da importância que possuíram : 



Nofnc 


FunvOes 


Nomeacfo 


Fonte 


Martini dc Abreu» criado 
e escudeiro do Infante 
D. Pedro 


Escrivão da coudeluría du 
vila de Estremoz (***) 


23-III-1439 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 19. foi. 73 


Alvaro Afonso (») 


Escrivão da almotaçaria 
de Coimbra 


7 


A.N.T.T., Uvro 8 de 
E'i ire madura, foi. 
foi. 297v 


Dtnis Alonso, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Escrivão dos órfãos na 
vila de Torre do Mon- 
corvo C^) 


I5-M442 


A.N.T.T., Chançeiuiís: 
de D, Afonso V, 
livro 2, foL 34v 



Trala^Nc duma cnnfirmuçSo. m incdiUu em v|ue jú t.'X«rcM e«U< funçOes no (empo de D. Duane 
(Idem, IMiMB). 

(aiS) Combateu em Alfarrobeira .to lado do Inf.inie 1) Pedro (Idem. IbMcm). 
(SM) Ok:upou o lugar do ialecido Goni;alc> Rodrigues (Idem. IbidMB). 

—295 



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nofiw 


Fknota 


Nomeaçflo 


Fonte 


Diogo Afonso 


Escrivão da câmara de 

I i«hr\a 


7 


A.N.T.T., Livro 8 de 

F vi Fáfnt/tíS nr/i I n 1 c 

t^Oit CfíliiUtif U, 1%J l9 » 

287-287V 


DiOfO Afomot criado do 

IHHIIIIP a *«iIV v^i 


Escrivfto da chancelaria 

\ãm vwi^aCiyaU lia wU 

marca da Beira 0") 


ll-XI-1443 


A.N.T.T., Chancelaria 
Imo 27. íoL 30 


Fernando Afonso, cscu- 

H^ím H/i Infanto P^* 

dro 


Escrivão da sisa do pio 


30-XU-1446 


A.N.T.T., Clunirelaria 
livro 5. foL 3v 


Fenando Afonao, etcu- 
deiío do Infuite D. Pe- 

OIO 


Escrivio das sisas e dfii* 
mas de Ovar, Cabanfles, 
reivin» ws» v v 


3-M446 


A.N.T.T^ Chan^aria 
de D, Afotuo V, 
livro roii jjv 


Gil Afonso, críado do In- 
fante D. Pedro 


Escrivão perante os ouvi- 
dores, contador e distri- 
buidor na correição de 
TtátHMpMonies (**) 


30-ni-1443 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. A j aliso V. 
livro 27 íol 57 


Rodriio AfboiQ, criado 
dolBfnlaD.FBdio(») 


Escrivio das sisas em VHa 
Nova de Alvito 




A.NT.T., Chaneeíaria 

ilt D. Afonsi' l', 
livro J4. foi. 183 



0^ Lutou cm Aifarrobeira. ao Udo do Infame D. PcUro. 
ifn^ O o Mae nu «m Atftrrobeira, ao kdo de InftaM D. Mio. 

W> MMiHaht ao cargo a Lub OoBçalvea. «o quall dos pru qoe o «mb nocn mtim palio ■ocnnos 

■ty por nosso serujçoi (Idem. ibidem), 

(3M) Sucedeu no oficio a Diogo Afonso, que tinha renunciado ao seu exercício (Idem. ibidem). 

(M) Oeopoa o lugBr de Afomo Rodriguet. o qual. segundo o regente, tnot nom praz que o rnab 
gerua, porquanto he odioso aas nous Rrndasi (Idem. ibidem). 

^U) Substituiu neste oficio a seu pai, Aíooso Gil. nonuado corregedor na comarca de TrásHM-Moates 

atai. iiiii«>. 

0H> Cwnbalga ca Alfiirrobeini. go Mo do lofuite D. Mio. 

296— 



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Nome 


FunçAcs 


Nonvtmçio 


Fonte 


Joio 4e Atoufuia, criado 
do Infanie D. Pedro 


Escrívio das sisas gerais 

e dos panos da Vaca- 
riça, Mocarros. BotSo 
e outros lugares i^*) 


2l>VlfM439 


A.N.T.T., Chancelaría 

tie D. Afmixo V. 
livro 19, foi. 45v 


Gonçalo de Azurara, ex- 
•porteinHDor da câmara 
do Infante D. Pedro 


Escrivão na al mo taça ria 
da vila de Santarém 


17-VII-I446 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D, Afonso V. 
livro S, foi. 65 


Rui Vasques Bacelar, es- 
cudeiro do Infante 
D. PeJro 


Escrivão das tisas dos pa- 
nos de cor na vila dc 
Valença do Minho l^"^) 


26-V[IM442 


A.NTT.. Chancelaria 
<!.• D. Afons,» V. 
livro 23. foi. 36v 


João Alvares Ue Breire, 
escudeiro do Inhinte 
D. Psdro 


RscrivSo da dízima nova 
do pescado no julgado 
de Bouças e da Maia 


2I-XII-I441 


A.N.T.T.. Cliançciaria 
de D. 4fouMO y, 
livro 2, fd. 47v 


Vasco Lourenço Covelos, 
escudeiro do Infante 

D. Pedro 


Escfivio vital feio da câ- 
maca de Serpa 


1MX-I44I 


A.N.T.T., Chancelaria 
lie D. Afonso V, 
livro 2. foi. 68 


Diogo Dias, escudeiro do 
Infante D. Pedro 


Escrivão do corregedor 
de Lisboa (-■') 


25-IM439 


A.N.T.l"., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 18, rol. 3dv 


Gaspar Diai» escudeiro do 
Infsnte D. Pedro 


EscrivSo do haver-de-peso 
de UsboaO») 


2-M444 


A.N.T.Th Chancelaría 

de D. Afonso V. 
livro 24. foi. 16 



(254) Trata-sc duma coníifmjv."i". 'v'." atenJcrmos a que j.i fxrfcij i.iis Íkikõcs no rciiiaJo tie D. l>uarlc 
(Idem, IbUna). O Inf.itue D. Pedro acahou por pnvj-lo do luc^ir de cs^'ri\.'io, dcvitlo a filias cometidas, 
nomeando, em tua substituição, a FernSo Gil (A.N.T.T.. Chancctoria de D. Momoa V, livro 4. InK. 47-47v). 

(j») Substituiu no ofício a Vawo Eanes, que linha renunciado à sua posse (lUem. Ikidca). 

(M) Sucedeu no cargo a Martini Esteves, que a ele renunciara (Idem. litMeai). 

(W) O regente confirmou a sua eIctçSo efectuada pela vereação da câmara do Serpa, em 29 de Agosto 
de 1441 fidem. IMdta). 

(-*) I rj filho naturul dc VicrnU- Dia^ : C".iljrin.i Fjnrs. li-ndo sido k-i;ilimado pelo Rci D. DuSrtC, 

em 24 de Outubro de 1435 (A.N.T.T.. Cbaacciaria dc D. DuaHe. livro I. lul. 167). 

Trata-4e, na realidade, duma «mfirmaçSo da carta de nomeaçSo outorgada por D. Duane em é de 
Ageito do 1437 (A.N.T.T.. Chaacelaria de D. Afonso V, livm Is U.\ 

{■M) Ji exercia tais func(h», por carta dc mcrcc dc D. Duarte dc 5> Uc IXvomIun de I4.t.) (Idem, Ibidem;. 

— 297 

Fl. 38 



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Mmma 




a^UBBGByBO 




Jcão Dias. escudeiro da 
casa do Infante D. Pe- 
dro («) 


Escrivão peraalB o corre- 
gedor da corte na ci- 
dade de Coimbra 


15-M445 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 25, foi. 7 


Rui Dias» eseudeiío do 
Infante D. Pedro 


Escrivão do desembaigo 
da Casa do Cfvd ^ 


1SIII1446 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afotao V, 
livro 5, foi. 19 


Afonso Eanes, escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Escrivão das sisas da Co- 
vilhã (^') 


3-VIU-1444 


A.N.T.T.. Choiiceluria 
de D. Afonso V, 
livro 24, foi. 82 


Alvaro Eanes» escudeiro 
do Infante D. Pedro 


Escrivfio da sisa e dfidma 
do porto de Miranda 

do Douro (-'■•') 


I6-IX-1443 


A.N.TX, Chancelaria 

de D. Afon\\> 1', 
livro 27, foi. J47v 


Fernando Eanes, escu- 
deiro do Infante D. Pe* 
dro<») 


Escrivão dos contos de 
UsboaC") 


l-Vll-1444 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D, Duam, li- 
vro 2» foi. 35v 


João Eanes, escudeiro do 
Infante D. Pedro 


H SC ri vão tias N.lr/eas de 
Alenquer i da Marinha 

(367) 


21-V-1443 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 27, foi. 91 V 


João Eanes» eseudeiío do 
Infante D. Pedro 


Escrivfio da couddaria da 
vila de LdiiaC**) 


28-Vin-1443 


A.N.T.T.» Chancelaria 

de D. Afonso V, 
livio 27, foL 119 



(3*1) VejiiaiM a aeu lopeiío dados biográfk<M em apêndice. 

(MS) Sucedeu no oficio a Atvaro Vasques. tabcHIo s^ral, que renuncfou & tua pmse (Idem, Iktieai). 

i^Xi) Ocupou o lugar do fuIcciUo Dioi^o Afonso (Idem. Ibideoi). 

(3**) Sucedeu oettas funçOes a Lopo Manias. <o quall ofiçio lhe tiramos» (Idem, Ibidem). O regeme. 
fMr carta de 16 de Junlio de 144S. ewfivio das sIms de Miranda do Douro e scv termo, cargo cm 

que tambcíi: i viucdrr a Lopo Martins, que tilUia O offcio e «O iKNn icroia como deula» (Ajf.T.T., 

ClMMCiatia de D. AfoMo V, livro 25. (ol. 46). 

Uma carta, outorgada pdo regente «m 20 de Novembro de I44S. aotoriiava ate escudeiro do 
Infante D. Pedro a andar durante um ano cm hcsta muar de ^ela e freio. Segundo a mesma, tinha na referida 
aUur4 'Carrego detcrepuer as obras que sse fazem na capeeila Uc Sstam UiçeiUe da S.see da (idade de Lixboa» 
rA.N.T.T.. CkeMaMi da D. AfaMO V. Ihrro S. M. 42>. 

(3M) Sucedeu no ofício a Alvaro Esteves, o qual BC eneootnva avcOio • toihcito de |iarelicsÍBB (A.N.T.T.. 
Chancelaria de D. Duarte, livrn 2. foi. 3Sv). 

('JS7) Substituiu neste ofkin .1 Alvaro Va'iqu<-s. que obtivera a exoneravão (Idem. Miam). 

(Hi) Substituiu a Fcroto Manias, cujo oficio lhe tfoy tirado* Gdcm. IMdem). 



298 — 



Copyrighted nriaterial 





Funções 




1 

Fome 


Lucas Eanes, escudeiro 
do infante D. Pedro 


Escrivão das sisas e da 

dí/ima do pescado da 
Pederneira 


19-VM441 


A.N.T.T., Chancelaria 

tle D. Afonso V. 
livro 2. foi. 95v 


Koilngo Eanes, escudeiro 
do Infante D Pedro 


Escrivão e alcaide das sa- 
cas do lugar de Miran- 
da do Douro 


4-III-1444 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D, Afonso V, 
livro 24, foi. 5 


Femio de Évora, escu- 
deiro do Infante D. Pe> 

(Iro 1 "M 


Escrivão dos tabeliies de 
Ceuta 


26-VIH44I 


A.N.T.T., Chancelaria 

tte D. Afonso V. 

Ii\r,i foi, 7')v 


Álvaro Fernandes, escu- 
deiro c csinbciro do In- 
fante D. Pedro 


Escrivão da sisa das car- 
nes de Lisboa (-^^) 


9-1- 1441 


A.N.T.T., Clumcilaria 
de D. Afonso V, 
livro 2. foi. 120v 


Alvaro Fernandes, escu- 
deiro do Infante D. Pe* 
dro 


Escrivão das sisas gerais 
de Évora 


21-Vm-144l 


A.N.T.T., Chancetaria 
de D. Afonso V. 
livro 2. foi. 84 


Vasco Fernandes, bacha- 
rel em Direito Canó- 
nico, escudeiro do In- 
fante D. Ptdro("0 


Escrivão e bedel do Es- 
tudo de Lisboa 


29-X11-1447 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 5, foL 103v 



Sucetieu no cargo ao falecido Joio Foriiando (Idem, lUáMl). 

(3^) Sucedeu no desempenho do oficio a Fernio Vuiiims, que tinhii falecido (Idem, Umlcm). 

C-ifi) A carta r^ia de IR de Abril de 1442 confirmou^lhe a pome de umas cavi9. onm nane de wmt 
%inha e horta, exi^cnt^•s cm Ccu.» i- i| ll)<- tinh.im siJo JouJjs pelo primeiro cupitâo ilesva ciJjtli.'. D. Pedro 
de Meneies (A.N.T.T., Chaacciwia d« O. AIomm» V, livro 23. foi. 65; Uiri« de Uhaa, foi. 15-lSv. A primeira 
tome eneamr«.«e pubUeada por Fedro de Aaevcdo, «fei. cil.. tomo II, doe. CUCV, pp, 200.201). 

(272) Pus.nu a d ci e aipciUi ar o oficio do fdecido Pero Nunct (A.N.T.T.. CToanlmla dt D. Alomo V. 
livro 2. foi. 79v). 

(M) Soeedcu no lutar a Ofl Vatquea. que falecem <ldcm. IMdcm). 

(2"») Ocupcii o cargo Jo f.iIfCÍdo Priiro Afonso íljini Ibirlfin 

(-' ) Lma LCiliJjo de 1'S Je Junho ilc 1442 revela íJlJc csIc nat.jrjl ^ 011111 ltj csluUantc Ue Uircilo 
(A.U.C.. Livro Verdr. íoK. 106-107; Livro dos Pri*aé|(ÍM, folt. I34v-l.^5 A primeira fonte encontrai publicada 
00 livro Verde da Uaivcttidade de Coimbra (Cartulário do séc. XV). Coimbra. 1940. p|». 207-21» e no 
Cb m tat w lam Ualmtilalb P«rlasalcB*i», vol. IV. Lisboa, 1970. doe. 1279. p. 3S4). 

(-''>) Sucedeu no cargo a Brás Afonso, nomeado ouvidor da COftt. Para o desempenho das diadas funcOe*. 
foi Vasco Fernandes eleito pelos reilorca, lemes, consellieiras e escolares (Idem, Ibidem). 



— 299 





Funçfci 




• wasVC 


Luís de Kfueiredo, cria- 
do <lo Inferne D. Pedro 


Escrivio da coudelaría de 
Alter do ChãoC») 


25-V-1445 


A.N.TX, ChaneHaria 
de D. Afonso V, 
livro 25, foi. 66v 


Gonçalo Gil, escudeiro 
Uo Infante D. Pedro 


Escrivão da fazenda de 
Ceuta (2™) 


I7-V-I44I 


A.N.T.T.. Chancelaria 
(h- D. Afonso V. 
livro 2, foi. lOlv 


l.opo Gil, escudeiro do 
Infente D. Pedro 


EKrívIo da coiidelaria de 
Seria e de Oleirotp'} 


34n-l445 


A.N.T.T., Chmeelaria 
de i>. Afonso V, 
livro 25. foi. SIv 


Aires Gomes, escudeiro 
do Condestàvel D. Pe- 
dro (^) 


Escrivão dos contos nos 
almoxarifados dc C oim- 
bra e Aveiro (^') 


22-XI-I445 


A.N.T.T., Chancelaria 

lie D. Afonso V, 
livro 25, foi. 93 


Afonso Gonçalves, escu- 
deiro do Infiuile D. Pe- 
dro 


Escrivão da sisa da fruta 
em Lisboa 


1-111-1446 


A.N.T.T., Chuncdariu 
de D, Afonso V, 
livro 5, foi. 13 


Afonso Gonçalves, escu- 
deiro do Infante D. Pe- 
dro 


Escrivão dos contos de 
Usboa 


22-IV-I446 


A N.T.T., Chancelaria 
Jc D. Afonso V. 
livro 5, foi. 32 


Diogo Gonçalves, criado 
do Infante D. Pedro 


Escrivão da dízima do 
pescado em Montemor- 
-o-VeIho(**) 


2I-VÍ11-1439 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 19. foi. 45v 



(-'") f ii.iv.i .iii)<irí/.K!o ;i <!,ibor;ir invirunifiito» o> qii.ii> tfri.ini v.ilid.idt.' idctilicii aos «lOK taItcliScS. 
«.J c;irt;o fora uiitcriornic-nic dcsnípcnhailo pelo (ulciiiio Alvaro Couv.ilvcs llilcm. Ibidtai). 

p4Msou a ocupar n lugar de FemSo Vwwiuei. o qual fom nomeado comprador da InlaiNa D. Leonor, 
hmS d< D Afonso V (Kl i i Ibiitfm). 

{-■^) Ocupou o oticio díi fjkciiJo Jollo Munzclo (lUciii. Ibiitrn*). 

(SMi) Lutou cm Alfuriuheira ao lado do lnfant<r D. Pedro. 

(^1) PaiMOu a dewinpenhar a^ fun«Aes exercida* |wr Afonw Mariins. o qual se encontrava aposentado 
Citi virtude de <tcr «veHtoii e «adoomdo* (idem. IbMeai). 

(-•'-*) Sucedeu no oficio jo f.iircido V.ivco M.irtiiiN dUcm. Ibidem i 

Já desempenhava c»ta$ funções no reiii;ido dc U. Ouaric (Idem. Ibidcai). 

300 — 



Copyrighted material 



Nome 




Nonicavâo 


Fome 


Fernão Gonçalves, criado 
e escudeiro do Infante 
D. Pedro (^') 


Escrivão das sisas e dízi- 
mas do porto de Al- 
meida ) 


104X-1499 


A . N T.T. . Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 19, foi. 41 V 


João Gonçalves, escildeiro 
do Infante D. Pedro ("^ 


Escrivão das sisas em Al- 
vaiázere i^) 


28-V-1441 


A.N.T.T.» Chancelaria 
áe- D. Àfmuo V, 
livro 2. foL 101 


Mcm Gonçalves, escu- 
deiro do Infante O. Pe- 
dro 


Fscrivão ;la Cas;idoCfvel 

em Lisboa (^) 


4-V-1441 


A.N.T.T.. Chancelaria 
tic D. Afonso V, 
livro 2, foi. 97 


Nuno Gonçalves, escu- 
deiro do Infiinte D. Vc- 
dro 


Escii>âo no ulmoxarifado 
de Tones Novas (^) 


7-1V-J445 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afoiuo V, 
livro 25, foi. 59v 


Nuno Gonçalves, esca» 
deiro do Infante D. Pe- 

ilrn 


Escrivão do aimoxarifado 
da vila de Torre de 


1&'X-1444 


A.N.T.T., Chancelaria 

í/f D. Afonso V. 
livrn 25 fnl I Sv 


Rui Gonçalves p') 


Escrivão da portagem de 
Coimbra 


? 


A.N.T.T., Livro 3 de 
Místicos, fols. 128v* 
-129 



(*••) Comhatcu cm Alfjrrohcirj .io I.idn Jo Infjiiic 15 l^l.)rc^ 
{Xi Já e»ercM etiu oficio no tempo Uc D. Duaric (i«i<:ni. ibidem). 

(SK) A lUinlHi D. Umier nomeoiMt. por cnru ik i(t de Janeiro de 14J4. cwrivio dos árOo» em Alvait. 
zrrc O rcgciuc conriroKMM» no carao, por nrtti de 2J de Maio de 1441 (A.N.T.T.. CIhmmIhíb de D. flfian V, 

livrn 2. foi. IOI>. 

C^) Suecdcu neMe oflcio ao fatecído Rodrigo h»nt% (A.N.T.T.. Cfcaainlwli é» D. AfaoM V. Kmi 2. 

foi. 101). 

(*••) PaxMMi a ocupar o lutar <Jn falecida João Pono (Idem. nUcm) Mais larUe. foi auenrw«do, por 
cm.i de 26 de Janeiro dc 1446. a colocar neme oftcio rxcrivijn giie lavre lodax as ewriluras que 1 el< 
pertencem, pois o titular que o fati» ensonirava.*» «udoorado» (A.N.T.T.. flwacilarla de D. AfaaM V. 
livro S. foi. 4v). 

I ''^') Suhstiluiii nestas futiviVN .i Goii^.i[<> Honu^ni tiijn ofício nus noni pr.i/ ijue o mas seruai (Idem. 
Ibidem). D. Afonso V confirnmu-o na povs« do luytir. por caria dc 4 dc Maio de I45i6 (A.N.T.T., Ckaocelarte 
de D. AlaM» V. livro 13. foi. ISS). 

(*•) Sucedeu no cir^-n ao faleciJo Jofio da Veiara (Idem. Ibidem). 

(VI) Lutou cni Alfar.^ohcira, ao ludo do Infante O. Pedro. 



— 301 



Copyrighted material 



Nome 


FoBcfia 


Nomuçlo 


Fome 


Gonçalo Homem, escu- 
droO") 


Escrivão no almoxarifado 


12-1X1443 


A.N.T.T., Chancelaria 
Q€ iJm Afonso V, 
Uvro 24, f oL 49v 


JoSo Lopes de Lemos, 

^^r'iir{piro Ho Tn^AIltfi 

D. Pedro (^) 


Escrivio no almoxarifiulo 

U<t IVClIIllla JUr. 1.,C1/1ILF1 

em Óbidos i 


1-M44I 


A.N.T.T., C^uicelaría 

í/í J-J . ."XJOtlSO r , 

l'\ro :. fo!, ! 


Afonso Lopes, criado do 

1 1 1 1 d n IC • t^wU I O 


Escrivão d;is s;icas no 
pono uc rrcixo~uc~c:r5* 
pada-à-Cinta 


22-1V-1440 


A.N.l .1 .. Chancelaria 
«t* A*. Ajonso y, 
livro 20, f(d. 58v 


Rui Lopes, escudeiro do 

JilISniC iJ. UBOTO 


Escrivão do almoxarifado 
oe LiBnífigo i / 


2-V-144] 


A.N.T.T., Chancelaria 

a€ U. A jonso \ . 
livro 2. foi. 97 


Afonso Martins, escudeiro 


Escrivão e inquiridor do 

numero n.'* f*rtrri*ií"ííf'* 

Entre^Douro^Minho 


2-X-1441 


A.N.T.T., Chanct lariii 
Uvro 2, foi. 76v 


Diogo Martins, escudeiro 

e caçador-mor do In- 
fante D. Pedro 


Escrivfto da câmara de 
Santar^ 


3-XI-I445 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V, 
livro S, foi. 20v 



(SW^ V^m-te ■ MU respeito dados bioKráfícm «m spcnJice. 

(PJJ) Gnni,;ilo H"nirni ncahoii por vir dfvlrliiido deslf nfkio. por dvMcTnijna(.riO do pri>priri rcgcnie, O 
qual nomeou para o m:u lu^ar. cm 7 dc Abril dc I44.S, ao .iciin.i referido Nuno Cjons,'iilves (A.N.T.T.. CkaacclHii 
dt D. Afouo V. Ihrro 25. foi. S9v). 

(■"St) Combateu em Alfarrobeira, ao lado do Infjiitc D. Pedro. 

(S'^) Substituiu neste lugar a Lu» Vasquez, >4ue tinha o referido oficio, «o quaJ n«> prj£ que m^is 
nem o aja pilln entenderiDos assy por noso scruivo- (Mem. IMicai). 

(^) Revcla-aos • presente carUi que podia haver uns doae ou lieae anoi. sendo ainda Infante o Rei 
D Duarte, foi ouionado a este criado do Duque de Coimbra o cargo de escrivSo das sacas do porto de 
Freixo-de-Espadj- j-Cinta. Acontece que há uris dois ;xnas. foi tal oficio solicitado à Rainha D. Leonor, com 
o fito de beneficiar um escudeiro de Alvaro Pites de Távora. A soberana, coro base numa iníonnaçlo «nom 
uetdadcJraa. favofceeu a pccte nsl o, o que levou agora o regente a devolver o mesmo ao seu anterior titular 
(Uim. Ifeidein) 

(SN) Sucedeu no cargo ao falecido b&tcvão Monteiro lidero. IbidcM). 

(SN) Foi eleito para o mencioaado cargo pda câmara da vila de SantarAm. A confirmaçlo da escollM 

foi M)licitada pelo Infante D. Fernando, irm.To do rci íldrm Ibidem) '> regente outorgou-lhe. por .ilvjrá dc 
IS de Março dc 1446, licença para pòr o !>inal público nas CM-ritura» que cie fizer c que a seu oficio pertençam 
(A.N.T.T.. ChancsM de D.AfcM* V. livro 9. foi. 20v). 

.^02 — 



Copyrlghted material 



Mnm« 

rKMM 




NonwavSo 


Fome 


Diogo Martins, criado do 
Infante D. Pedro 


Fscrivão perante os sobre- 

juízes da Casa do Cívd 
de Lisboa (^) 


31-VUM441 


A.N.T.T., Chmtcelariú 

dv D. Afonso V, 
livro 2, foi. 61 


Gonçalo Martins, criado 
de Rui da Cunha, prior 
de Guunartes P"*) 


Escrivão s sisas e dos 
s£us feitos no julgado 
de Vemioim 


24-1-1440 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. 
livro 20, foi. 61 


João Martins, escudei 
do Infante D. Pedro 


1 scrívão do serviço novo 
dos judeus de Sbintaróm 


31-V1IM441 


A.NXT.. Chancelaria 

lie D. Afonso V. 
'imo 2. foi. 79 


Nuno Martins 


Escrivão perante o jui/ 
da cidade de Coimbra 


? 


A.N.T.T.. l ivro S Je 
Lsinnuuinra, fols. 
263V'-264 


Joio Pereira, criado do 
Infante D. Pedro 


Escrivão da câmara da 
vila de Beja("*) 


8-1X-I439 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. 
livro 19, foi. 93 


Gil Pires, vaisalo do rei 
e e^udciro do Infante 
D. Pedro 


Escrivão dos feito^ dos 
judeus e inquiridor do 
ntimero na vila de Gui- 
maraes \^) 


4-1V-1440 


A.N.T.T.. Chanceloriti 
de D. A/onso V, 
livro 20, foi. 99 


João Pires, escudeiro do 
Infante D. Pedro 


Escrivão das obras do 
mosteiro da Batalha 


20-Vin-1446 


A.N.T.T., Chmeelaria 

de D. Afonso V. 
livro 5. foi. 8Qv 



(SM) PsMou • ocupar o lugar do HXttíAo Pero Madeira (Idtoin. IfeMeai). 

(300) Combateu cm Alfarrohi-ira. ao laJo «lo Infanto D, PeJro. 

(301) Substituiu no oficio ao falecido Judas Toledão (Idem, IMdeaa). 
(M) Lutou ao lado do Iiilkiue D. Pedro i» Niulha de Albrrobeira. 

(m) Trata-sc duma confirmaçlo da cmrta de nomeacSo outortada pelo Rei D. Duarte, cai S de Setembro 
d« 1439 (Idem. Ibidcn). 

(3M) .Sucedeo 00 caifO to falecido Nkoba Rodrigues (Idem, Iblica). 

(SC ) Pus^sou a ocupar o lugar do faleeido Joio Rodrigues, que tantbân era escudeiro do Infante D. Mro 

(ld«ni. Ibidcin). 



— 303 



Copyriglited material 



llIíMMH 


PisgyaflBit 






lolo Pires, aeuddfo do 
Infanie D. Pedro C) 


Escrivio da câman de 
Leiria 


7 


A.RT.T., Chanetíaria 

de D. Afonso V. 
livro 11, foi. 30v 


João do Porto, criado uu 
Infante D. Pedro 


Escrivão em Toms No- 
vas 


5-V-1446 


A.N.T.T.. Cluincelaria 
de D. Afonso V, 
livro 5. fot 32v 


Joio Reind, escudeiro do 
Infonte D. Pedro 


Escrivio perante o ouvi» 

tior cl.is terras da Rai- 


28-M443 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. 

livro 27, foi. 42 


Gomes Rodrigues 


hNcrivão «perp<ítuo» da 
cámuru du vila de El- 
vas (*•) 


II-1V-I443 


A.N.T.T.. Chuncehtria 
dc D. Afonso V, 
livro 27. foi. 64v 


Joio Rodrigues, escudeiro 
do Inftnie D. Pedrof^") 


Escrivio das sisas de San- 
tarém 


t 

m 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. 
livro 11. foi. 72 


Lourenço Rodrigues,C^'') 


Escrivão no almoxarifado 
de Vila Nova de Ançòs 


? 


A.N.T.T., Cliancelaria 
de P, Afoiuo V, 
livro 34, foi. 92v 


Joio de Santarém, criado 
do Infonte D. Pedro 


Escrivio das sisas de Som 

e dns sisas dos alquei- 
res (.1c sal dc Ílhavo 




A.N.T.T.. Chancelaria 

dc D. Afonso V. 

li\ro lo! 4(l\ 


Jorge de i>eia(^'-j 


K.scrivâo da dízima velha 
da toz de Buarcos 


? 


A.N.T.T.. Livro 3 dc 
Místicos, fols. I28v- 
•129 



(XQ Lutou cm Alfarrnbcirj , .10 IjJo d<i Inf^nli:- V) Pi-drn 

SuccUcu 110 ofici» ii Mariiin VaMitiCN. o qual renunciou à ^uit po»se pnr não poUcr servi-lo (Idem, 

IMim). 

Fxcrcij i-vic caryo conjuntamente com Gil Fernande*. escrivão do referido ofício (Idem. Ibidem). 
N.i cartj de mercê i|ul- lhe foi outorgada pelo regente. Ic-se que «por nosso <>eruiv°o E do Kante 
doiti ('i-Uro-, foi eleito para o mencionada cargo por.ewoliia dos jufzet. vereadom. procuradores e homens 
bons da vila de Elvas (Idem. ibidem). 

(310) Lutou ao lado do Infante D. Pedro na hatalha de Alfamrtieira. 
('ii> lilem. 

(313) Vejam-se a xeu respeito dadm biográficos em apêndice. 

304 — 



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Nome 






Ponte 


Fernão de Sela, escudeiro 
do Infante D. Pcdru 


Escrivão das obras de Pi* 
nhel C") 


18-IV-1439 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livio 20» foi. 6 


Diogo Rodrigues Torre- 

chão. escudeiro do la- 
fánle D. Pedro 


Escrivio perante os ouvi- 
dores da Casa do Cfvel 
de Lisboa (»*) 


12-IX-1441 


A.N.T.T^ ChmodmiA 
de D. Afoiuo V, 
livro 2t foL 73v 


João Vasques, escudeiro 
do arcebispo de Braga 


Hscrivão da câmara de 
Coimbra 


25-X-1444 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 25. foi. 16 


Lopo Vasques, criado e 
escudeiro do Infante 
D. Pedro C») 


Escrivão das sisas gerais, 
panos, e «coisas» da 
feira franca de Coini« 
bra 


? 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D, Afmuo V, 
livro 19, foL «0 


Luís \'ii7 ou Vasques. es- 
cudeiro do Infante 
D. Pedro 


Escrivão perante o rei (*") 


23-1V-1440 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V, 
livro 20, loL 3«v 


Pero Vasques, escudeiro 
do In&nte D. Pedro 


Escrivio da sisa do pes- 
cado, sal e nuuleira em 
Lisboa (*») 


28-n-1439 


A.N.T.T., ChawHaría 
de D. Afoiuo F, 
livro 18, foi. 22v 



A exposição conjunta desta série de escrivães mostra-nos a existência duma 
rede disseminada por todo o reino, o que vem realçar até que ponto os mais 
diversos sectores da administração pública se encontravam controlados pelos 



(313) Sucedeu neste cargo a Afouto Feroande* (Idem, UMcai). Mab urde. por euia da 16 dr Março 
da 1440. foi nomeado escrivio dai ibas de Pinbd, em luRar do falecido Vasco Femandea (A.N.T.T.. Chaacelaiia 
da D. Alonw V. livro 20. foi H^) 

(*i«) Substituiu oeste ofício a Afonso Goncalves, o «uai era aicri^ perante oí vigátkn do Aroebiipo da 
LiitMM (Idem. IMdam). 

(11) Vi-jam-sc a stu respeito dados biográficos em .iix-nJice. 
(»t) Lutou em Alfarrobeira ao lado do infante D. Pedro. 

^T) Já enrcia calas fúaçSaa por carta dada por D. Duarte en I da Setaaabro da 1434 (Mhb. MAmI. 

(Si«) Traui-sc djma confimiaçlo da carta da aomeaçio outotsada por D. Duarte en 19 de De a e m b io 
de 1437 (Idem. Ibideai). 



— 305 

F1.3Í 



Copyrighted material 



homens da casa do Infante D. Pedro Obâcrva-se também uma persistrate 
actividade deste poUtíco no preendumento dos quadros públicos, muitas vezes 
apenas confiados a pessoas da sua máxima confiança. Tal não obsta, porém, a 
que, de vez em quando, tenham sido afastados alguns elementos da sua própria 
casa, desde que, pela sua parte, se verificasse a falta do estrito cumprimento das 
suas obrigações. É. contudo, notória a forma como o governante procedeu à 
depuração, nos sectores administrativos, de todos os elementos que lhe eram 
desafectos, os quais foram sendo gradualmente preteridos no exercício das suas 
funções. 

A terminar, queremos ainda chamar a atenção para três criados do Infante 
D. Pedro, não incluídos nos quadros devido à natureza das suas funções, que 
exerceram algumas actividades específicas. São eles Estevão Eanes, piloto na foz 
de Buarcos, que combateu cm Alfarrobeira ao lado do Infante D. Pedro ("'); 
João Esteves, aposentador do regente na vila de Alenquer, que também esteve 
a seu lado (^) e Lourenço Martins, seu escudeiro, que, em 16 de Novembro de 
1441. foi nomeado medidor do trigo que o rei possuía no campo de Leiria, em 
substituição de João Vicente, que renunciara a esse ofítío (*"). 

Não daremos por conduida esta parte do nosso trabalho, sem que. primeira- 
mente, apresentemos o quadro conjunto dos indivíduos até aqui lefnidos, classifi- 
cados segundo o seu campo de actividade. Salientemos, no entanto, que um apura- 



(■••■) No memorando enviado em nome de D. Afonso \' ao rei de Castela, faz se 
acunçio contra o regente de que «a mayor parte das fortalezai, dinidadei • amiiiistraçòes 
forio postas nas mios dos seus» (B-RL^ Colecção PoinhtAbu (Reservados), cód. 443, 
fols. 85*89v. Publicado por Manuel Heleno. Subsidioa para o estudo da regência de D. Pedro, 
duiftie de Coimbra. Lisboa, l')?^. pp. 31-39; Monumenia Henricimi, vol. X. Coimbra. 1969, 
doe. 49, pp. 71-79). No que rcsepita a esta última incriminação, parece haver uma boa dose 
de verdade. Em todo o caso, devemos notar que uma resposta d^nitiva a este iotrincado 
proMema apenas será exequível quando se proceder a uma recolha exaustiva de todas as 
cartas de nomeação e provimento em cargos públicos de individuos pertenoenles te casas 
senhoriais que tenham sido efectuadas durante a regência 

A.N.r.T., Chancelaria de D. Afonso V. livro 34, íol. 144; Livro 3 de Odiana» 

foi. 97V-98. 

("") A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro II, foi. SI; Uvro 8 de Estremadura, 
foi. 175v. 

(»*) A.N.T.T., Chancelaria de D, Afonso V. livro 23, foi. 49v. 
306 — 



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mento total resulta impossível dado que os registos se apresentam muito incom- 
pletos, foltando mesmo alguns livros O * 

hWMl da ca\a dn InfarKr D Pedro 



qw dwempenhava funvôc» públicu Número % 

Corregedores, meinnluM e judet 22 ... 10,4 

TabdiieB 24 ... 11,3 

Coudéis 28 ... 13.2 

Vedores das obras e dos vassalos 5 ... 2,4 

Almoxarifes 9 ... 4,2 

Recebedores e requeredores IS ... 7,1 

Contadores e inquiridores 11 ... 5,2 

Procuradores II ... 5,2 

Fscrivilcs 69 ... 32,5 

Diversos 18 ... 8,5 

Tolat 212 . 100,0 



• * • 

Gnves acusaçOes foram formuladas obntra o Infante D. Mio» tebdo por 
base o modo como administrou o reino durante o seu governo. Basta para isso 
atentarmos no memorando enviado por D. Afonso V aos monarcas estiangeiros. 
a seguir ao desfecho de Alforrobeira. Lê-se, num dos seus passos mais significa- 
tivos, que o r^ente fez cmuytas grandes cousas sem conselho» e deu «terras e 
castellos da nossa coroa sem tendo poder pera o fazer» Ç^. 

Com o objectivo de confimunnos ou infirmarmos a validade de tais afirma- 
ções, procederemos seguidamente a uma análise cuidadosa dessa política de doa- 
ções. Servir-nos-cmos da reoonstitui^o dessas mercês. Primeiramente, debruçar- 
-nos-emos sobre a natureza dos bens móveis e de raiz que foram doados aos parti- 
dários do Duque de Coimbra, os quais estiveram mais tarde ao seu lado em 
Alfarrobeira (^). para logo a seguir efectuarmos outro tanto em relaçio aos adeptos 
do rei na mesma contenda. 



C^) Veja SC o artigo de Anselmo Braamcamp Freire, A Chancellaria de D. Affonso V, 
in Ardrívo Histórico Fortíigun, vols. II e III, Lisboa, 1904-1905. 

B.N.L., Colecção Pombalina (Reservados), cód, 443. foi s '«-a9v. Publicado por 
Manuci Heleno, ob, cit» pp. 31-39; Momumnta Henrkma, vol. X, Coimbra, 1969, doe. 49, 

pp. 71-79. 

('•>) Nuo consideramos mutlos dos partidários do Infante D. Pedro que foram benefi- 
ciados com os bens confiscados aos companheiros da Rainha D. Leonor, em virtude de não 
lennos conhecimento da sua presença em Alforrobeira. 

— 307 



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No que respeita a concessões feitas em beneíício de fidalgos e escudeiros da 
sua casa. poderemos avaliar a sua existência pela seguinte distribuição : 



Nome c úiiiitys Uc kientíficavão 


DoaVJO 


Dau 


Fontt 


Alvaro Vasques de Al- 
mada, rico-homem na 
Estremadura 


Bons tle raiz que Fcrnào 
Rodrigues Pombo dei- 
xou à sua morte à 
igreja de S. Joio em 
Abrantes, o que segun- 
cio uma ordenaçto era 
proibido 


18-V1IÍ-1444 


A.N.T.T., Chancflariu 
de D. Afonso V. li- 
vro 25, foi. 68; An- 
selmo Braamcamp 
Freire, oh. cit., li- 
vro m, p. 270 


Rodrigo de Alvelos, escu- 
deíro*fKÍalgo do Infante 
D. Pedro 


Bens máveís e de raiz 
existentes em Lisboa, 

pertencentes a Fernão 
Pires das Cot>srturas 


l-U-1442 


A.N.T.T., Ckancehria 
de D. Afonso V, W- 

vro 35, foi. 101; Li- 
vro 10 de F.stnina- 
dura, fols. 24v-25 


Rui Gomes de Azevedo, 
cavaleiro-fidalgo da 
casa do Infante D. Pte* 
dro 


Bens enstentes no Crato, 
pertencentes a Beatriz 

Eanes, que partira para 
C astcla tom a Rainha 
D. Leonor 


22-V1-1444 


A.N.T.T., Clumceiaria 
tle D. Afonso V, li- 
vro 25, foi. 85 


Rui Feniandes, escudeiro 
do Infante D. Pedro 
f residente em Torres 
Vedras) 


Bens móveis e de raiz 
pertencentes a Gonçalo 
Eanes, natural dc H st re- 
mo/, partidário da Rai- 
nha D. l.conor 


21-VIIH442 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 23, foi. 110 




Bens existentes cm Torres 

Vedras c noutros luga- 
res do reino, pertencen- 
tes a João (jonçalves, 
exilado em Casida com 
a Rainha D. Leonor 


20-Vn-1443 


A.N.T.T,^ Chancelaria 

de D. Afonso V. li- 
vro 27, foL 128v 


João dc Lisboa, secretá- 
rio do Infante D. Pe- 
dro 


Casa localizada na Mou- 
raria de l ishoa , que 
pertenceu ao faleci d o 
Mafomede Fornacho, o 

qual nBo deixou he^ 
deiros 


3-IV-1440 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V. li- 
vro 20, íol. 70v 



308 — 



Copyrighted material 



Nome e dados de ideniificafSo 


Doação 




himte 


João de Lisboa, secretá- 
rio do Infante D. Pe- 
dro 


Bens móveis e de raiz 
pertencentes a Moreira, 
moura torra il i Mou- 
raria de Lisboa, que 
morreu abintesiada 


20-IX-1444 


A.N.T.T.. CltimccUiria 
Ji- n. Ainnsn V. li- 
vro 25, íol. 2 


Aires Oomes da Silva, ca* 

valciro-fidalgo da casn 
dti Infanic 1). 1'cv.iro 
(Enirc-Douro-e-Minho) 


Bens móveis c de raiz 

existentes cm Vajcnça 
do Minlio. pertencente 
a Hsicvâo Anes, que 
fora aí rcMdentc e sc 
ausentara devido a cri- 
me de morte por ele 
praticado 


ll-V-1445 


A.N.T.T., Chanceluría 

de D. Afonso ^', li- 
vro 25, foi. 45 


Uma obscivavào sunuirui dc>lc quailrn imi^iia-iuis que o regente apenas se 
limitou a doar bens coníiscados ou deixado^ Nem leslumcnlo. Não sc verifica o 
mais pequeno propósito de querer aliciar partidários u custa dos bens da coroa. 
0 que, na realidade, vem infirmar a natureza das acusações atrás apontadas. 

Vejamos, agora, como sc comportou o Infante D. Pedro em relação àqueles 
que mais larde se mostraram fiéis ao rei no conflito de Alfarrobeira : 


Nome « daJuM de Mentifiei«lo 


Doacíio 


Data 


Fome 


Aíon<io dc Aboim, cscu- 
dciro-fidalgo, natural 
dc Elvas 


Bens móveis e de raiz 
existentes em Elvas 


4-IV-I443 


A.N.T.T.. Cfuincflaria 
ih n. ilonuf ^'. li- 
vro 27. íol. 229; An- 
sclmo Braamcamp 
Freire, A gente tio 
Cancioneiro, in Rc- 
i í wtí Litsiuinu, vol. 
IX. Lisboa, 1906, 
p. 266 


D. Afonso, Conde de Bar> 
odos. Duque de Bra» 
gança 


Terra dc Nozelos. em 
Torre de Moncorvo 


17-V-I44f 


A.N.T.T., Chancelaria 

dc D. Afonso V. li- 
vro 2. foi. 91; Li- 
vro 3 de Místicos. 
foi. 247 



— 309 



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N«M c dadot de Ueniificacf o 


Doaçio 


Dau 


FOM* 


D. AloiiMH Conde de Bar- 
cdoa. Duque de Bra- 


Terra de Castro Daire, 
que Gonçalo Percreira. 
fidalgo do conselho do 
rei, trazia da coroa 


2«-n-1442 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 23, foi. 17; Li- 
vro 3 de Místicos 
foi. 244 




^f^níiArSn Ura An ti ^ A 

por morte de seu titu- 
lar D. Duarte de Bra- 
gança 


1442 


ves. Memórias A r- 
cheológicas Históri- 
cas do Distiiio de 
Bragança, Porto, 
1910. tomo I, p. 312 




Todas as rendas que em 
Bragança possuía o seu 
primo D. Duarte 


20-X1Í-1442 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 23. fòi. 47; U- 

vrn ? de M í\tict}S 

fols. 146V-147 




Bens pertencentes e Fer- 
nando Eanes, cavaleiro, 
morador no Porto 


20-VI-1444 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 24, foL 86 


D. Afonso, Conde de Ou- 
rém 


Bens pertencentes a 
D. Afonso de Cascais, 
sua mulher e filhos, 
que se tinham ausen- 
tado para Castela com 
D. 1 eonor 




A N T T Livro 3 de 
Místicos, fols. 152- 
•152v 


Lopo Afonso, escrivão da 
cftmare, aecretáiio do 
rei e do Infante D. Pie> 
dro, membro do conte' 
lho régio 


Casas, vinhas e ícrragiais 
localiiados na vila do 

Lopo Esteves 

Quinta de Porto de Muge 

• 


14-11-1443 
5-Vn-l447 


A.N.T.T., Livro 3 de 
O d la na, fols. 227- 

A.N.T.T., Livro 8 de 
Estremadura, 
fols. 219-220V 


João Vaz de Almada, 
rico -homem da Estre- 
madura, membro do 
oonidlio do ici 


Isenção do pagamento de 
foro dumas casas alu- 
gadas na Rua Nova de 
Usboa 


14-M447 


A N.T.T., Livro 10 de 
Estremadura, fols. 
2I9-220V 


310 — 



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Nòaw t dadM de Mtttificacio 


Doscio 




Fonte 


Lopo de Almeida, Conde 

de Abrantes, vedor da 
Fazenda e nnembro do 
conselho do rei 


Rendas do mordomado e 
direitos da alcaidaría 
de lorres Novas 

Lezíria da COfte de Ca- 
valos, no termo de 
Azambuja 


18-X-1442 
22-Xn-l446 


A.N.T.T., Chaaeêiaria 

de D. Afonso V. li- 
vro 23, foi. 78 

A.N.T.T^ Chancelaria 
de D. Afonso F. li- 
vro S, foL 78v . 


Pero Lourenço de Almei- 
da, ca valeiro-íidalgo 
bdrito e almqlacé-okor 
do rei 


Quinta de Marim, no ter- 
mo de Tavica 


8-III-1445 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso li- 
vro 25, foi. 69; Li- 
vro 6 de Odiana, 
foi. lISv; Anselmo 
Braamcamp Freire, 
ob. cit., vol. 11. 
p. 309 


Doutor Rui Gomes de 
Alvarenga, legista, 

membro do conselho do 
rei, desembargador da 
coroa e chancelcr-mor 


Bens pertencentes a Al- 
varo Gato, partidário 

da Rainha D Leonor, 
existentes em Alenquer 


l-VII-1443 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 27. foi. 17; U- 

vro 10 de Estrema- 
dura, fols. 59v-60 


Alvaro Gonçalves de 
Atafde, Conde de Atou- 

guia, mordomo-mor de 
D. Afonso V 


Jurisdição da vila de Cer- 
nache 


18-11-1439 


A.N.T.T., Uvro 2 dé 
Estremadura, fols. 
296v-299v 


Nuno Barbudo, cavaleiro- 
-fidalgo da Estremadu- 
ra, escrivSo dos maca- 
vedis do id 


Colheita real de Benavente 


23-IM443 


A.N.T.T.. Livro 4 de 
Odiana, íols. 21 Iv- 
-212 


Rui Borges, cavaleiro da 
casa du rei c almoxa- 
rife em Lisboa 


Casas em Lisboa que fo- 
ram confiscadas 


6-1V-1440 


A.N T T , Livro 10 de 
Estremadura, foi. 80 


Alvaro de Brito, cavalei* 

ro-fidalgo da casa do 
rei c vcdor-mor da arti- 
lharia de guerra (alen- 
tejano) 


Tença de 5000 reais 
brancos anuais, com 
inicio em 1440 


22-in-1440 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V. li- 
vro 20, foi. 55 



—311 



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Nome e dados de identificaçSo 


Doaçio 


Datj 


1 
1 

1 Fome 

j 


Alvaro de Brito, cavalei- 
ro-fidalgo da casa do 
rei e vedor-mor da arti- 
lharia dc guerra (alen- 
tejano) 


Bens móveis e dc rai? 
existentes cm Évora c 
Lavar, doados indevi- 
damenli^ nela mulher 
do cavaleiro João da 
Costa ao convento dc 
S. Francisco dc Évora, 
a quem foram confis- 


I9-Xn-1445 



1 A.N.T.T., Cfuincclaria 
iic D. Aionso V. li- 
vro 5. foi. 7v 


Nuno Vaz de Castelo- 
-Branco. cavaleiro-fidal- 
go alentejano, monteiro- 
-mor do rei 


Dízimas do azeite das 
herdades de Moura que 
pertenciam aos mouros 
cativos dos cristãos 


26-IV-I44: 


A.N.T.T.. Chancelaria 
tU D. Afoíisf V. li- 
vro 23. foi. 80 


Rui Gonçalves dc Cas- 
telo-Branco, fidalgo da 
casa do rei e tesoureiro 
da moeda da coroa em 
Lisboa 


Bens móveis e dc raiz 
confiscados a Afonso 
Rodrigues Portela, mo- 
rador cm Lisboa 


24-Vl 1-1447 


A N.l.l,. Livro 8 dc 

lÍM/cmadttrtí. fols. 

:i:v-:i? 


D. Pedro dc Castro, 
fidalgo da casa do In- 
fante D. Henrique 


tencentcs a seus sogros, 
D. Afonso de Cascais e 
D. Maria, homiziados 

& 1 1 1 \> tl -viw Itl VUI II tX m\ d 1 

nha D. Leonor 


26-IX-I443 


A.N-T T.. Ciuiiicfltitiit 
íU D. Aí ouso V. li- 
vro 27. foi. IMv 


D. Alvaro de Castro. 
Conde de Monsanto, 
camareiro-mor do rei 


Tença anual de 30001) 
reais brancos 


20-1 V- 1444 


A.N.T.I.. CliuiuclarUi 
íle D. Afonso V. li- 
vro 25. foi. 77 


L/. V J^vU JTCrilallUCa x^LIU 

tinho. Conde dc Ma- 
rialva c marechal do 
reino 


«enquanto nossa merece 
for» 


2-X-1441 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso ^^ li- 
vro 2. foi. 66: An- 
selmo Braamcamp 
Freire, oh. cit., li- 
vro III, p. 266 



312 — 



Nome e daUos de identifica v .lo 






Fonte 


D. Vasco Fernandes Cou- 
tinho, Conde de Ma- 
rialva e marechal do 
reino 


Concessão, a título provi- 
sório, da jurisdição civil 
e criminal da viia de 
Marialva, com ressalva 
da corrríção e alçadas 


20-X-I44Í 


A.N.T T., CluiiH i ltiiia 
tU- D. A /ouso y. li- 
vro 2. foi. 63v; Li- 
vro J tie Misticox. 
foi. 148v; Anselmo 
Braamcamp Freire. 
oh. cil.. livro III. 
p. 2í>6; A. dc Sousa 
Silva Costa Lobo. 
História da Sttch' 
ihule fin Portnutil 
no siciilo XV. Lis- 
boa, 1904. p. 213 


Pero I-ourenço Ferreira, 
cavaleiro-fidalgo beirão 


l oJas as rcnJns c direitos 
d.i vila Je Pmhel e seu 
iciiiu), cxccpluandt) as 
sisas gerais dos vinhos 
e dos panos 


21-VI-144I 


A.N.T.T., Chancelaria 
(te D. Afonso F, li- 
vro 2, foi. l(Wv; Li- 
vro 1 da Bfira, 
foi. 260 




Alcaidaria do castelo dc 
Pinhd com as respecti- 
vas rendas e direitos 


27-VI-1441 


A.N.T. T., Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 2. foi. 107v 


Diogo Fogaça, cavaleiro 
da Estremadura perten- 
cente à casa do rei 


Bens confiscados a Nuno 
Fogaça, Constância 
Azedo e Lufs Gonçalves 


20-11-1447 


A N I T . Livro 3 de 
Oiiiana, fols. 28 Iv- 
-282 


Infante D. Henrique, mes- 
tre da Ordem dc Cristo, 
Duque de Viieu • 


Isenção por cinco anos do 
pagamento de dizimas 
e portagens sobre as 
coisas vHidas de Porto 
Santo c Madeira 


I-VM439 


A.N. r. r.. Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vfo 19, foi. I7v; 
Monumenia Henri- 
cina, vol. VI, Coim- 
bra. I9r>4. doe. 135. 
pp. 315-316 




Vila de Gouveia, com to- 
das as rendas, direitos. 

jurisdição ci\il e crimi- 
nal, ressalvando a cor- 
reiçio e as alçadas 


4-M44.1 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso y, li- 
vro 27, foi. I7v; /,/- 
vro 3 de M isliroi 

foi. lS5v; Monu- 
menta Henricina, 

vol. VII, Coimbra, 
1965. doe. 231, pp. 
340-344 



— 313 

n. 40 



Copyrighted matsrial 



Nome • dados de ideniiJkaçfo 


X^oeçio 


DStt 


FOOM 


Infante D. Henrique, mes- 
tre da Ordem de Cristo, 
Duque de Viseu 


Cabo de Trasfiilmenar e 

uma légua de seu ter- 
mo, com o objectivo dc 
Uettt ima puvoação 

Exclusivo da guerra e do 
comércio da Guiné e o 
quinto do <|iie lá trou- 
xessem 

Umas casas em Lisboa, a 
quinta de Camide e os 
quartos do Lumiar, que 
trazia da coroa Maria 

Eanes, viúva de Ooo- 
çalo Pifes 


27-X-1443 

1446 
13-IX-144é 


A.NT.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 24, foi. 61; Li- 
vro 4 de Odiana, 
foi. 247; Uvro 2 de 
Místicos, foi. :oiv; 
Monumenta Jhuri- 
cina, vol. VIU, 
Coimbra, 1967, doe. 
63, pp. 108-110 

Gomes Eannes de Zu- 
rara, Crónica dos 
feitOM da Ouini, 
vol. n, Lisboa, 19S9, 
cap. LXXXIV," pp. 
367-368 

A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afon$o V, U- 
vro 5, foi. 77v; Li- 
vro 3 de Místicos, 
foi. 138v; Monu- 
matia Henrieina, 
vol. IX, Cofanbn, 
1968.doc. 132,1». 184 


Leonel de Lima, fidalgo 
da região de Entre- 
L/ouro - e - ivi inno. vis- 
conde de Vila Nova de 
Cerveini 


Tença anual de 20000 
reais brancos 

Bens de Joio de Paios, 
que SC tinha exilado em 

Castela por ser contrá- 
rio ao Infante D. Pedro 


2MV-1443 
l-V-1443 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Afonso V, li- 

urn 77 fn\ \A\ 
VlO Z/, lOl. 141 

A.NT.T., Chaneeíaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 27, fols. 118v- 
•119 


Doutor Vasco Fernandes 
oder-mor do reino 


Tença anual de 210000 
1439 


13-M439 


A.N.T.T., Chancelaria 

Am n Aêthmm^ V 11. 

«e Ajoneo r , II* 
vro 19, foi. 64v 


Martim Afonso de Melo, 
cavaleiro - fidalgo alen- 
tejano 


Bens confiscados a Fer- 
não Godins 


24-V-1443 


A.N.T.T.. Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 27, foi. 120v 



314 — 



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Nònw 9 didoi dt idcfitifisiçlo 


DiMçlo 


Dm» 




Martim Afonso de Melo. 
cavaleiro- fidalgo alen- 
tejano 


Castelo velho de £vora, 
oom as suas torres, ca- 
sas, pardieiros, quintais 

e árvores, transmissível 
a seus herdeiros 


30-IV-1446 


A.N.T.T., Chawelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 5, foi. 32v; Li- 
vro 3 dc O ília na. 
fols. 290-290V 


Rui de Melo, cavaleiro- 
-fidalgo da casa do In- 
fante D. Henrique 


Terra de Fornos de Algo- 
dres, no almoxarifado 
de Viseu, com as res- 
pectivas rendas. Jireitos, 
lunsdição civil e crimi- 
nal, exceptuando as si- 
sas gerais, vinhos, pa- 
nos e, ainda, a oomí- 
çSo e alçadas 


24-1-1440 


A.N.T.T., Chawehria 
de D. Afonso V, li* 

vro 20. foi. 27; Li- 
2 (la Beira. tol. I 34; 
Monumenta Henri- 
dfM, v(d. VII, Coim- 
bra, 1965, doe. 37, 
pp. 49-50 


D. Duaric dc Meneses, 
cavaleiro-fidalgo, Conde 
de Viana 


Tença dc 4000 reais 
brancos, proveniente 
do rendimento dos bens 
confiscados a Alvaro 

Fsteves, morador em 
Rosmaninho 


I6-V111-1446 


A N TT.. Livro 1 da 
Beira., foi. 269; U- 
vro 2 de Místicos, 
fols. 15v^l6 


Martim Afonso de Mi- 
randa, rioo-homem da 
legiio de Entie-Douto- 
•e>Minho 


Bens existentes cm Ma- 
fra, confiscados a Pero 
Gonçalves, azeiteiro, 
morador nessa locali- 


12-VI-1443 


A.N.T.T., Cliancelana 
de D. Afonso V, li- 
vro 27, foL I39v 


D. Sancho de Noronha, 
cavaleiro-fidalgo, Ckmde 
de Odemin 


Um terreno na cerca ve- 
lha de Estremoz, onde 
podia construir casas 


ll-lX-1446 


A.N.T.T.. Livro 4 de 
Odlana, fols. 66v-67 




Título de Conde de Ode- 
mira. 0 rei doou-lhe, 
com o acordo da rai' 

nha, do regente e do 
irmão, a vila dc Ode- 
mira e seu termo, se- 
nhorio, rendas, direitos, 
jurisdição civil « crimi- 
nal, com ressalva da 
correição e alçadas 


9-X-1446 


A.N.T.T., LÀvro 3 dc 
Místicos, fols. 139v- 
-140; Anselmo Bra- 
amcamp Freire, oh. 
cit,, livro lii, p. 273 



— 315 



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Nome c dados dc id«miIic«çSo 


Dotçio 

* 




Fooie 


Pero Peixoto, cavaleiro- 

- fidalgo beirão, da casa 
do Infante D. Henrique 


Direitos régios na vila de 
Almeida, que até entio 

se encontravam na posse 
dc Pero Lourenço Fer- 
reira 


30-V-I441 


A.N.T.T., Chancelaria 

de D. Aíi>ns,> V. It 
\r,> :. foi. 101 v; 
MiiininunUi flrnri- 
cina, vol. VU, Coim- 
bra, 1965, doe. 163. 
pp. 247-248 


G-.iliotc Pereira, c ualciro 
fíil iílío beirão, da casa 
«io rei 


Maiidaría do castelo dc 

Castelo Mendo, com 
Miis rendas, foros, di- 
reitos 


I8-V-1447 


A.N.T.T., Livro 2 da 
Beira. fols. I27v-128 




Lugares de Bouças, Covas 

c Póvoa dei Rei, na co- 
marca da Beira, com 
rendas, foros, direitos, 
jurisdição civil e crími- 
naL com ressalva da 
correição e alçadas 


18-V-I447 


A.N.T.T., Livra 2 do 
Beira fols. 128>128v 


VaNCO Pereira, cavalciro- 
•fidal^.o da casa do rei. 
na região de Entrc- 
-Douro-c-Minho 


Tença anual de ISOOO 

reais brancos. ;ité ser 
pauo o díite dc 1500 
coroas de ouro, pelo 
seu casamento 


2-V-I442 


A.N.T.T., Chancclariíi 
ílc D. Afonso V. li- 
vro 35. foi. 98v 


\ I5CO Martins de Resen- 
de, caval^ ir ' fidalgo da 
região de Enire-Douro- 
-c-Minho 


Bens confiscados a Alvaro 
Martins, morador em 
Britiande 


7-V1I-I444 


A.N.T.T., Livro 2 da 
Beira, fols. lIMlIv 


Cuniies lio Sá, cavaleiro- 
-íidalgo residente cm 
Santarénn 


lença anual de 10 000 
reais brancos, a partir 
de 1438 


Í5-VI-1439 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afoiíso V, li- 
vro 19, foi. 54; Brito 
Rebelo. Um primo 
df Fritnri^vo tlc Sã 
de Miranda, in -f. 
H.P., vol. 111, Lis- 
boa, 1905, doe. 72, 
pp. 124-125 



316 — 



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Nome c «Iddo^ de ideniificaçlo 


Doação 


DiiU 


Fome 


Diogo da Silva, cavalciro- 
-fidalgo da rcuiào de 
Hntre-Douro-e-Mjnho 


Bens mcivcis c de raiz 
pcru-nccntcs a Afonso 
Mendes, ressalvando a 
parte que pertencia à 
mulher 


25-XI-1440 


A.N.T.T.. Livro 4 ife- 
Aléni-DotiKt, fols. 
238-238V 


Rui Gomes da Silva, fi- 
lho de Diogo Gomes da 
Silva, cavaleiro-fidalgo 
beirão da casa do In- 
fante D. Henrique 


Terras de Ma(,-rio c de 
\'ila No\a de Fo/coa. 
que sfii pai tra/ia da 
coroa, com todas as 
rendas e direitos 


22-1-1440 


A.N.T.T., Chaiict-laria 
</<• D. Afonso V'\ li- 
vro 20. foi. 29v; Li- 
vro l da Beira, 
fols.l91v-l92: £ivn> 
2 da Beira, foi 122v; 
Monumenta Ifcnri- 
cina. vol. VII, Coim- 
bra, 1965. doe. 29, 
pp. 41-^ 




Tença anual de 500 000 
libras p.igas no almo- 
xantado de Lamego, 
enquanto o regente o 
entender 


23-111-1442 


A.N.T.T , Chancelaria 
dv D. Alonso V, li- 
vro 27, foi. 67; Mo- 
numenta Henricina, 
vol. VII. Coimbra, 
1965. doe. 207. p. 
.100; Anselmo Bra- 
amcamp Freire, ob. 
cit., livro 11, p. 121 


Rui Gomes da Silva, ca- 
vaieiro-fidalgo alente- 
jano, alcaide -mor de 
C ampo Maior e Ou- 
guela 


Bens pertencentes a D. Isa- 
bel de Meneses, mulher 
de D. Fernando de Cas- 
cais, exilado em Castela 


20-XII-I443 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 27, foi. 7v; Li- 
vro J de O d ia na. 
fols. 2y4v-2'X. 


Gonçalo Rodrigues de 
Sousa, cavaleiro-fidalgo 
da casa do Infante 

D. Henrique 


Bens mòvei.s e de tai/ que 
Femto Rodrigues pos- 
suía em Elvas 


21-1M441 


A.N.T.T., Livro 6 de 
Odiana, fols. IS2- 
-152v 



— 317 



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Nome e dados de identificaçáo 


Doaçio 


Dau 


Fome 


Gonçalo Rodrigaea do 
SouM. cavakiro-fídalfD 

da casa do Infante 
D. Henrique 


Rendas e direitos das ju- 
diarias do alnuntarifado 

de Portalegre, com ex- 
cepção dtis serviços no- 
vos. Renda das fangas 
da mencionada povoa- 
çfo, ressalvando oe di- 
reitos pertencentes à 
alcaidaría c os direitos 
reais existentes em Ale- 
grete 


17-XI-1441 


A.N.T.T., Chancelaria 
de D, Afonso V, li- 
vro 2, foi. 47 v; Mo- 
numento Henricina, 
voi. Vil. Coimbra, 
1965, doe. 186, pp. 
272-273 


João de Sousa, fidalgo da 
casa do Infante D. Hen- 
rique 


Terra de Soa/, na co- 
marca de Entre-Douro- 
-e-M inho, com as «ias 
rendas e direitos, 
tal como a trazia o 
Dr. Jofto do Sem 


3-XI-1442 


A.N.T.T., Livro 4 ae 
Além-Douro, foi. 
207; Monumento 
Henriebut, vol. VII, 

Coimbra, 1965, doe, 
226» pp. 331-332 


Rui Borges de Sousa, ca> 

valeiro da casa do rei e 
alcuidc-mor do castelo 
de Santarém 


Renda do mordomado da 
vOa de Santarém 


20-V-1440 


A.N.T.T.. Uvro 10 de 
Estremadura, foi. 
97V-98 


João Teles, cavaleiro- 
•fidalgo da casa do In- 
fante D. Pedro 


Forno de cozer pSo, em 
Faro, que Garcia Mo- 
niz trazia da coroa; 
umas casas em que o 
último morava; quatro 

1 _ _ • i_ 

courelas com vmnas e 
figueiras; o ferragial da 
Atália na vila de Ca- 
cela, terras de «pios 
em Tavira no lugar de 
Cacela 


lO-XU-1444 


A.N.T.T,. Chancelaria 
de D. Afonso V, li- 
vro 25. UA. 45; Li- 
vro 6 de Odiana, 
foi. 118v 




Casal com Imdades de 

pSo no reguengo de Al- 
gés ; casal com herdades 
de pão e almoinhas no 

WAm^MABMtA rfl^ » trtk m 'Cirnam 

reguengo oe v ei ras, em 
Cacilhas, os quais ti' 

nhim pertencido a 

Bartolomeu Gomes, 
contador da casa de 
D. Joio I 


4-V-I446 


A.N.T.T., Chanedaria 
de D. Afonso V, U- 
vro 5, fols. 81v42; 

Livro 11 de Estre' 
madura, fols. 23-23v 



318 — 



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A presente distribuição não nos autori/a a extrair uma conclusão semelhante 
àquela que estabelecemos para o quadro dos partidários úo regente. A par dc 
um certo número de confiscações, aparecem-nos diversas doações. É curioso notar 
que, num conjunto de 39 beneticianos. tenham sido contemplados seis elementos 
pertencentes à casa do Infante D, Henrique. Esie facto parece mostrar o bom 
entendimento e convergência de interesses que solidarizava os dois irmãos. Um dos 
grandes beneficiários durante a regência é o próprio Navegador. Mas« voltando ao 
problema das doações, como interpretar este comportamento do Infonte D. Pedro ? 
Teria procurado o governador atrair à sua causa os contestáríos da sua politica, 
como seu irmfio o Conde de Barcelos e o Marechal do reino Vasco Fernandes 
Coutinho ? Ou ver-se-ia antes obrigado a assim proceder para atenuar a pressão 
da nobreza ávida de riquezas ? Em termos comparativos com o que sucede após 
a sua morte* e inclusive noutros reinados, o número de mercês feito pelo Duque 
de Coimbra pode considerar-se diminuto. Naturalmente que esta política de res- 
trições era contrária aos interesses da nobreza, a qual, por conseguinte, se mostrava 
nitidamente apostada na sua queda. O que se verifica precisamente com a sua 
morte é uma impressionante série de doações, que muito contribuíram para con- 
duzir o erário r^gio a uma situação de profundo depauperamento. 



— 319 



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CAPÍTULO VII 



Do termo da regência do Intente D. Pedro 
às vésperas de Alfarrobeira 



Verificada a partida do Infante D. P6dro para as suas terras do ducado de 
Coimbra em fins de Julho de 1448, continuou a observar-se a presença do soberano 
na vila de Santar^. Os itinerários assinalam-nos. efectivamente, a sua estada 
nesta localidade nos dias 3('). 4 O. 5 0 7(<). 10 O. I2(«), 13 O. 140 e 20 de 
Agosto O do mencionado ano. Apesar duma aparente harmonia nas relações exis- 
tentes entre D. Afonso V e o tio, vão dar-se neste mês uma série de acontecimentos 
que constituirão o prelúdio da crise. A carência de fontes documentais obríga-nos 
a um aproveitamento cuidadoso dos dados disponíveis, para podermos traçar com 
segurança as principais linhas condutoras da situação existente. 

Um dos primeiros indícios desse relativo mal-estar é-nos fornecido por uma 
carta enviada pelo rei, com data de 12 de Agosto, ao concelho do Porto, em 
que são dadas instruções no sentido de que os criados e servidores do Duque 
de Bragança que residem nessa cidade «sejom em ella bem trautados E víuam 
em aquellas homrras E liberdades que utaa qui em ella uiuerom segtmido seus 
Iguaaes» ('"). Já antes desta ter sido escrita, porém, fora enviada outra ao burgo 



O A.N.T.T., Livro 2 de Padroados, foi. 48. 

(-) A.N.T.T.. livro II ,1c Fsin inaclurrt. fols. l2-i:v. 

O A.N.r.i ., Uvro U de Luninudura. fols. 9-9v. 

(*) G.RCP., Vereações de 1449-1449, foi. Ilv. 

(') A.N.T.T.. Uvro 3 de OdUma. fols. 288-288v. 

(«) G.H.C.P.. Vereações dc 1448-1449. foi. 7. 

(') A.N.T.T.. /./iro // (/(■ F.sircimuluni, foi. 7. 

G.H.C.P., Vereações de 1448-1449. íol. lOv. 
(*) A.N.T.T., Livfú 7 de Estremadura, fols. 53v-S4. 

(») GJLCP., Livro Antigo de Carias e Provisões dos Senhores Reis D. Afonso V, 
D. João II < D. Manuel I, foi. 39. Documento publicado no livro do mesmo nome. Porto. 
1940. n." XXXlil, p. 56. 

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portuense, na qual D. Afonso V recomendava aos oficiais do mesmo para que 
não agilasscm os seus habitantes com a leitura de cartas da autoria do Infante 
D. Pedro ou de quaiscjuer outros senhores, pois a única autoridade constituída 
era representada pelo próprio soberano (")• 

A inquielavào reinante na urbe nortenha era no tundo o retlcxo do pro- 
gressivo agravamento de relações entre o monarca e o antigo regente, muito 
embora aquele o continuasse a tratar formalmente por <meu muyto preçado e 
amado tvo e padre» ('-). Outros elementos poderemos adu/ir em abono de tal 
situarão. Assim, a carta régia de 12 de Agosto, enviada à Câmara do Porto, 
denota com clareza a sua preocupação no sentido dc que a população vivesse 
«asesegadamente ssem ffazendo cniHHiaçõooes huus contra os outros» (^'). Na refe- 
rida data. foi expedida outra missiva de D. Afonso V. em que o soberano agradece 
o bom acolhimento dispensado ao seu emissário Rui Borges ('*). cavaleiro da sua 
casa. a quem os portuenses haviam manifestado a disposição de realizar «o que 
uos elle da nossa parte rtequerla» 

Escasseiam^nos docmnentos sobre outras zonas do Fsfs. para podermos avaliar 
com exactidão o estado político e social em que se encontravam as suas cidades 
e vilas CO. Cremos, contudo, que a agitação lavrava com mais intensidade no ' 
Norte, dado que o Duque de Bragança havia procedido a uma s^e de medidas 



Veja-^e ainda no citado arquivo. Vereações de 1448-1449, foi. 7. PuUicado por Artair 

de Magalhães B;isto, Limiar da tragédia. Reflexos ih» Porto dos vésperas tli- Alfarrobeira. 
iseparata da Ri visia de História, vol. 13, Lisboa, 1925, p. 260; Monumenta Henricina, vol. JX, 
Coimbra, |y<.8. Joc. 191, pp. 305-306. 

(") Carta régia de 7 de Agosto de 1448. G.H.C.Pm Vereações de 1449-1449, foi. llv. 
Publicado por Artur de Magalhães Basto, ob. cif., p. 257; Monumenta Henrkina, vol. IX. 
Coimbra. I96S. doe. 187. pp. ^02-303. 

O') Idem. Ibidem. Idem. Ibidem 

('^) G.H.C.P., Vereações Je I44ii-I44<i. lol. 7. Publicado por Artur de Magalhães Basto, 
ob. cU„ p. 259; Monumenta Henrkina, vol. IX, Coimbra, 1968. doe. 189. pp. 304-305. 

(1*) Deve tralar>se do alcaide>inor do castelo de Santarém, localidade onde entSo se 
encontrava o rei. Pode vcr-se cm apêndice a sua biografia. 

ncs de l44S-l44'i, lol. 7v. Publiciulo por Artur de Magalhães BastO, 
ob. cil.. p. 259; Monumenta Henricina, vol. IX, Coimbra, 1968, doe. 190, p. 305. 

C*') Apenas conhecemos a carta régia de 14 dc Agosto de 1448, enviada a todos os 
regedores, procuradores, fidalgos, cavaleiros, escudeiro» e homens bons das cidades e vilas do 
País. Nela se faz menção, duma forma um tanto ou quanto vaca. de «aluoroços e rrcuoilasi 
havidos «poucos dias ha». São dad;(s instruvòcs rigorosas para que i>s mesmos se não repitam. 
Nesta mesma circular esiubeiccc-se «que daquj em dyante, nchúus de vos, por cartas nem 
mandados que uejaees dos dictos ssenhores nem doutras alIgOas pesoas de callquer estado 
e condiçom que sejom, nom obedeeçaees a elles nem ssaiaees ffora de vossas cassas peca 
nihOa parte, ssoomente per nossas cartas e mandados, como vosso rrey e ssenhor que 
somos, quando as ujrdes asijnadas per nos e asseeladas do nosso sseelo; porque outra nShfla 

324^ 



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discriminatórias conira os partidários do liiíaiue D. Pedro (''). A circiinsiància 
de existirem muitos simpatizantes do antigo rcscnto na capital do Norlo dc\c ler 
contribuído para provocar uma fricção ciurc os dois scct^■»rJs aniaL-óiucos ( 1. 
Pauluimamcnlc. foi-se rcsolvcndi) o problema, à medida que eram expulsos da 
cidade os simpatizantes do Duque de Coimbra. 

Entretanto, o antigo regente devia ir preparando na capital do seu ducado 
os planos da sua defesa. A todo o transe, procurou obter o auxílio do seu amigo 
D. Alvaro de Luna. que para o efeito se entrevistott com ele em Ledesma, no 
leino de dstela. O enomtro deve ter-^e verificado entre a sc^'uiida metade de 
Agosto e a primeira quinzena de Setembro de 1448. nâo nos sendo possível deter- 
minar a matéria versada no mesmo. É natural, contudo, que o Infante D. Vedro 
tivesse apresentado as suas queixas contra a forma injusta como o régio sobrinho 
o vinha tratando, procurando assim obter apoio militar a favor da sua causa n 



pessoa em nossos rregnos nom tem ptnlcr de uos sscinelhanics coujíssi» niiin«J;ir. t£ sue «lepois 

qiic lios esta nossa carta ffor dada. allyntis tios dictos sscnhores ou poss<Kis uoii cfluisirem 
carta ou rrecado, tanlo que u iiecrdes, ssem per cila coussa allgfia obrardes, logo nollii cnujaac 
pêra a ucermos e mandarmos a maneira que se ncello por íunso .terujço uja úc tccr>. Eram 
ainda dadas ínstruçOes paca que, ao conlc<rio do que se vinha verífícando em determinadas 
cidades c vilas, não se procedose a velas, rondas c cnccrranKnio d.is suas portas, coniix-tindo 
essa res(ihiç."io exclusivamente ao rei (G.H.C.P.. ycnunõcs ilr /44fi-l449. foi. M)v. Publicado 
por Artur de Magalhães Basto, ob. cil., p. 260; Moimnwitia Heiíricina, vul. IX. ( oin)bra, 
1968, doe. 192. pp. 306-307). 

O A este propósito, veja-se a caria escrita pelo Infante D. Pedro ao Conde de 
Arraiolos, em 30 de Dezembro de 1448, na qual se afirmu que o Duque de Bragança «fez tirar 
todos os ofiçios das çidadcs c villas dAmtre D«>iirt> e Minho c po:r oiitrc>s dc nono» que 
eram «seus criados». Tal atitude deve ter contribuído poderosamente.- para provocar uni clima 
dc teniião c suscitar uma série de conflitos armados (Artur Moreira de Sá. O in/onlc l). Pfílm 
e a crítkú histórica, separata da Revista da Faculdade </f Lttras tie Lixbott, 2." série, 
tomo XVII, 1950, p. 12 e seg.; Monumenia Uenricina, vol. IX. Coimbra, 1968, doe. 211. 
pp. 344-356). 

Vale a pena atentar no teor da carta dirigida por D. Afonso V ao Duque de 
Bragança, em que o destinatário é autorizado a dcslocar-sc ao Porto, «todalas uezc% que a 
uos aprouuese de a ella uyrdes, 'íoiy como ssenpre ffezerccs quando nos prazija ou era 
conprídoin». Suspeitamos dc que o tio do soberano deveria sentir algum rticeio. sobretudo 

cm relação aos moradores do burgo portuense nãi> .iíecti>s l\ sua caus.i (Carta rJgia de 9 dc 
Agosto de 1448. G.H.C P.. ytrt(içòi\ ilc N4S-l44y, Iul. .S. Publicada por Artur de Magii- 
Ihães Basto, ob. vil., p. 2.S8: Monununui llcnruina, vol. IX, Coimbra. I9Í>8, doe. 188. 
pp. 303-304). 

(**) Pedro Carrillo de Huete, Crónica dei Hulconvro dc Juan II, ed. de Juan de Mata 
Caniazo, Madrid. 1946. cap. CCCI.XVI. p. 504. 

Escreve este cronista : -iV. esto asi fecho, cl Rey sc p irtii) para la v'lla de Valladoliil. 
e mando a dom .Alvaro de Luna que de alli se tucsc a l.edwsnui, p;irt( s^ \er con el ynfante 

— 325 



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A situação política no país vizinho era, no entanto, dc molde a que nenhum 
socorro pudesse vir em favor do Duque de Coimbra. Por outro lado. a posição 
assumida por D. Álvaro de Luna, ao aceder à entrevista, retirava-lhe o apoio 
futuro do rei português e contribuía para acelerar a sua própria queda (^'). 

A actuação do Infante D. Pedro teria contribuído para aumentar a ira régia, 
já de si desencadeada pela série de suspeições levantadas à volta do lio. A partida 
do monarca para Lisboa, onde se encontra pelo menos a partir de 28 de Agosto (-'). 
estaria relacionada com a necessidade de pôr em execução uma política de 
controlo da situavão. Na realidade, a capital desempenhava um papel importante 
em todos os momentos de crise. Assinala-se a presença nela do Rei D. Afonso V. 
nos dias 2 (-). 3 (^). 5 (''). 14 (- ). 15 C ), 18 (-"). 20 e 21 (^) de Setembro. Vai ser 



don Pedro de Portugal; el qual eslava bucito con su Mihrino oirrey de Portugal, c Ic avia 
mandado salir de su rrcyno, por muchas '«iniestras ynformaciones que dtM le fueron fechas. 
H aqueste ynfante don Pedro era mucho seruidor dei Rey de Castilla, e por esto enviaua 
a don Alvaro de Luna para que se consolase c platicase con ú\ cerca dc su rreparo» (idem. 
Ibidem). 

A entrevista cm Ledesma entre o Infante D. Pedro e D. Alvaro dc Luna deu azo a 
uma série dc boatos, conforme se depreende duma carta da Rainha D. Maria de Aragão, 
escrita em 5 de Dezembro de 1448 c enviada ao seu conselheiro c tesoureiro I). Galcerán 
Oliver, na qual se lê : «Crecm sentit haurets les fames que alguns han volgudes sembrar. 
vo es que lo jnfantc don Pedro dc Portugal seria entrat cn Castella e encara com seria 
gran diuisio seguida entre lo rrey de Castella. nostre car frare, e lo rrey de Portugal. Tot avo 
coses dites contra veritat. E, que sia axi, experiência, que es mare de tolas cosas, ho mostra. 
E are, derrerament ho hauem voigut sentir per mossen Ferrando de Riaça. quj en aquesta 
hora es arribai a Valencia. Diu que tal cosa nos recita en lotes aquelles paris, ans se diu 
lo contrarj» (Monttmenta Henrkinu, vol. IX, Coimbra.. I^^S. doe. 210. pp. .14.1-344). 

(^) O historiador espanhol Luis Suarez Fernandez opina relativamente à precária 
situação do condcstávei castelhano: iFaltaban los amigos, incluso en el exterior: declarada 
la mayoria de edad de Alfonso V de Portugal, el duque de Coimbra perdia su puesto rector 
y. lejos de ayudar, necesitaba ayuda. Don Alvaro se embarco en una nueva aventura acudiendo 
a cntrevisiarse con él en Ledesma (agosto o scptiembre de 1448). Colocándose junto al infante 
português, cl condestable de Castilla se asociaba a una causa vencida, y ganaba, para cl. la 
poderosa encmistad dei único reino peninsular em que podia habcr encontrado apoyo» 
(Luis Suarez Fernandez, Los Trasiánuiras ilc Casiilla y Aruium en cl .s/v/o Xy (1407-1474), 
in História dc Espana dirigida por Ramon .Menendez Pidal, tomo XV, Madrid, 1964, p. 197). 

(-') A.N.T.T., Livro 6 dc Odiana, fols. 96v-97. 

(-) A.N.T.T., Livro 2 dc Místicos, fols. 20lv-202. 

(-') A.N.T.T.. Livro 2 dc Misticos. foK. 203v-204v. 

(■») G.H.C.P.. VcrcaçiH-s dc 1448-I44V. foi. 14. 

(-■) A.N.T.T., Livro 4 dc Odiana. fols. 90-90v. 

(*) G.H.C.P.. Vereações de 1448-1449. foi. 17. • 
A.N.T.T.. Livro 2 dc Padroados, fols. 47v-48. 

(*) A.N.T.T., Chancelaria dc D. Duarte, livro 2, foi. 50. 

(-■') A.N.T.T., Livro 7 de Estremadura, fols. 52-53v. 



326 — 



precisamente durante este pcruxJo que o soberano irá dar início a uma série de 
medidas centra o antigo regente. 

Efectivamente. D. Afonso V. contrariando o que afirmara na carta de louvor 
de 1 1 de Julho de 1448 (*). vai tomar a decisão pública d.- anular itnlos os provi- 
mentos de cargos e doações de bjns. efectuados pelo Infante D. Pedro, a favor 
dos «criados» de sua casa que lhe permanecessem fiéis. Por carta de 15 de Setem- 
bro do mesmo ano, o sobeiano condena tàcitunente a política do tio. ao declarar 
«^que dcspojs do desfaleçímento do mujto esclarecido e virtuosso rrey meu ssenhor 
e padre (...) algfius sseus criados e outros sseus serujdores e bem assy da rrajnha 
mjnha senh<xa e madre (...) e doutros grandes de nossos rregnos de ssua ualia 
e acostamento, foram príuados jnjustamente de sseus castellos, vilas e lugares e 
offjçios que tinham e aynda lhes fforam tomados sseus beens que aujam. asy 
moujs como de rraíz, sem teendo ffecta coussa algOa per que taees penas ouuessem 
de padeçer. senom soomente por seerem a serujço da dieta .senhora rrainha ou 
dalgiius outros da ssua uallía e acostamento» (''). 

Ao averiguar-se que essas confiscações tinham sido realizadas, na maior parte 
dos casos, em beneficio dos correligionários do antigo regente, determinava o 
soberano na mencionada carta, mandada publicar e afixar nas principais praças 
e audiência das cidades e vilas do País. que ^ todos aquelles que teuerem castellos, 
villas e lugares, offjçios ou beens que lhe fossem dados por príuaçom que delles 
foy ffecta a cada h&u dos sobredictos despois do desfaleçímento do dicto rrey 
meu ssenhor e padre, atee que per graça de Deus, ouuemos o rregimento de nossos 
rregnos ou os agora tenham per a uja e manejra ssuso dieta que venham perante 
nos. per sy ou per sseus çertos procuradores auondossos. atee vjnte dias do mes 
doitubro que uem da presente era. e tragam consygo as cartas e autoridades que 
ouucram dos dietos offyçios e beens e per que ih-.' asy fforam dados, pera ueermos 
e sabermos como lhes dados fforam. pera ssc ctuipridovro ífor os ouuirmos com 
os dictos denjfijcados sobre o que dicto he. l. ssejam çertos que nom vjndo ao 
dicto termo os que assy as dietas coussas pesueem. per sy ou per sseus çertos 
procuradores, e as dietas cartas e autoridades como dicto he. nos aa sua rrcujllia 
mandaremos logo entregar os dictos casiellos. villas e lugares, offjçios e beens 



(») A.N.T.r., Livru l de Extras. íols. I79-I80v; Livro 2 de Místicos, fols. l9-20v. 
A priradm fonte encontni-se publicada por Artur Moieiía de Sá, Alguns éúcummtM refe- 
rentes ao luftmte D. Pedro, separata da Revista da Faculdade de Letras de Usboa, tomo XXII, 
2.* série, n." 1. 1956, pp. ro 66; a segunda fonte aparece inserida na Monumenta Henridna, 

VOI IX. Coimbra, 1%8. doe. 185. pp. 2'M-247. 

l^') G.H.C.P., Vereações de Í44ÍÍ-J44V. foi. 17. Publicado por Artur de Magalhães 
Basto, ob. eH„ p. 262; Monumento Henricina, vol. IX, Oiímbra, 1968, doe. 198, pp. 31 5-31 8. 

— 327 



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aaquclics que ucharmos que delles fforam priuados s&em rrazam ou ssem cJesme- 

reçimenlo como dicto hcM "). 

Cahia desta (eita a Lofki dc Almeida ( "'). vedor da ía/enda régia, proceder 
aos rcspccii\iis inquéritos, de modo a encontrar as soluvòes mais adequadas. 
O objectivo fundamental consistia cm restituir aos prejudicados pela política do 
Intante D. Pedro as s suas comenda>. denjdades e benefiçios» ( '). É de prever 
que a aplicarão do mandato real tenha provocado o levantamento sistemático de 
processos contra os partidários do Duque de Coimbra, os quais devem ter pro- 
curado ao c\ilar-se em Castela a sua própria salvação ( ). A aplicação da mencio- 
nada caria patente dc 15 dc Setembro surge concretizada através do alvará de 
28 de Setembro, publicado pelo corregedor da coroa na comarca de Entre-Douro- 
•e-Mínho, F elipe Eanes, no qual dá instruções aos tabeliães da cidade do Porto 
para que lhe levem a Arcozelo «todollos estados e denunciações e querellas e 
emqujrições que tendes de quacsquer pessoas de qualquer estado e condiçom que 
sejam» (*). 

O cronista Rui de Pina diz-nos que. quando o rei partiu de Santarém para 
Lisboa, veio até junto dele o Infonte D. Henrique com o propósito de defender 



No que respeita u política dc pt^rscguiçòes levada a cabo pelo infante D. Pedro conua 
os partidários de D. Leonor, motivadofR da prescnie carta, veja-w o cap. 11! deste trabalho, 
idem. Ibidem. Idem, Ibidem. 

(") Vei:im-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

( ') G.H.C .P., \'cico{òís dc I44S-I44'). fui. 17. Publicado por Artur dc Magalhães 
Basio, iih. {•//., p. 2(i2; Monunuiiia tíiitiuina. \o\. IX, Coimbra, l%8, doe. 198. pp. 315-318. 

(*^') Ê O que se depreende da carta régia de 2 de Janeiro de 1449. em que D. Afonso V 
dá a conhecer que a Rainha D. Isabel, Rua mulher, «nos disse que por causa das emquíriçoões 
que se tirarom c das cousas que açerquii delU> sc pas.tnim, algfluas pessoas de nossos rregnos, 
assy criados o scruidores do itlamle dom Pedro seu p.idrc. meu muyto prezado e amado tio 
c padre, como t»ulros dos ddos nosso.s regnos se amoraram com temor de nossa Justiça. 
INMlimdonos por mcrçee que os ouuessemos por rreleuados de quallquer penna a que por esto 
seiam obrigados cm a nossa justiça*. O soberano acede ao pedido de demência e declara 
expressamente «os aucrmos por rreleuados dc lodo o que se mostra por a ditas imquiriçõoes 
ou por «Mitra quallquer guiss;i que discssctn oii obrasM.ni comtra nosso scrui(,o ou da ssenhora 
rrainha mniha madre», tra deste modo expedida uma ordem aos corregedores e juízes do 
reino para que os «leíxem hir peni suas casas e em ellas estar e amdar per quaaesquer 
partes de nossos rregnos que mais lhe prouuer, posto que por algOua sospeita desto fossem 
algOus deles lamçados das (^idades c villas e lugares homdc vim moradores r, (A.N.T.T., 
Livro 2 ilc Misthos. fols. 2<)2-2(l2\. livro I ilc F.xtras, foh l()7-|l)7v, A primeira fonte 
cncontra-sc publicada por Humberto Baquero Moreno, O liifanit D. Henrique e Alfarrobeira. 
in Arquivos tio Centro Cultural Português, vol. !.• Paris. 1969, p. 60; Monumenta Henrieina. 
vol. X. Coimbra. 1969, doe. I, pp. 1-2). 

(^) G H.C.P.. Viiraçòes ile 1448-1449, foi. I >\ Publicado por Artur de Magalhles 
Basto, ob. cit., p. 264; Monumenia Hinricina, vol. IX. Coimbní. 1968, doe. 199, p. 318. 

328 " 



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o bom nome do irmão, o Infante D. Pedro, dos ataques que lhe eram movidos 
pelos inimigos C'). Em que altura ^e teria verificado o encontro ? Tal como já 
vimos atrás. D. Afonso V chejzou a Lisboa, oriundo de Santarém, em 28 de 
Agosto dc 1448 t*^"). A circunstância do Navegador haver obtido, em 2 de Setembro 
desse ano. duas cartas de confirmação a seu lavor, constitui um indicativo dc que 
a entrevista entre o tio e o régio sobrinho se deu precisamente por essa altura ( '). 
Foi ainda durante a permanência em Lisboa que o monarca recebeu a visita de 
D. Alvaro Vasques de Almada (% Conde de Avranches, vindo de Ceuta, o qual 
«era grande servydor e muito amygo do Yfante Dom Mro. e publyco Ymigo 
do Conde d*OuFem>. Num assomo de coragem e integridade moral, fez ver ao 
rei a sem razão das. acusações formuladas contra o antigo regente, apodando 
de «máos e tredores» os seus autores ("). 



(*") Ruy de Pina, Chronica do Senhor Rey D. Afjonso V. in Collecçáu Je Livros 
Inéditos de História Fomgueza, tomo I. Lisboa, 1790, cap. XC. pp. 362-363; Cf. Duarte 
Nunes de Lefto, Crónica e vida detrey D. Affonso o V, tomo II, Lisboa, 1780, cap. XVI, 
p. 169; Gaspar Dias de Landim, O liifanu- D. Pedra. livro íl!. Lisboa, 1894, cap. IV, pp. 18-19. 

Na carta enviada pelo Infante D. Pedro ao Conde dc Arraiolos, cm 30 <le Dezembro 
de 1448, rcfcrc-se o antigo estadista à vinda do Infante D. Henrique, nos seguintes termos : 

«E quando ho jfante dom Amrríque, meu mujio amado e prezado jrmãao chegou a 
corte, hOu dia achou as jroquiriçSes ter a elrrey meu ssenhor na miao e lenun por ellas 
algiOa cousa, estamdo de presemte ho Camello, que era emqueredor, e lhe disse que nom 
mandara tirar jmquirições sobre os feitos passadcs, di^cmdo a meu jrmãao que das ditas 
jmquiríções numca curaria nem proçedcria por ellas contra algúu. Assi também ho emuiou 
dizer a mim». 

«E depois lhe fezeram fazer ho comtrairo, porque por ellas prenderam muitos e outros, 
por temor, andauam delias afuguemtados e parle dos que foram presos sam julgados pollo 

doutor Rui Fernandez, semdo seu imigo capital. F àssi poderes por esto conheçer com que 
zello e cmtemvam estes procurauam que elrrey ouuesse seu rregimcnto» íArtur Moreira dc 
Sá, O Infante D. Pedro c a ailicu hiHitrica, p. 12 e seg.; Momtmenia Henricina. vol. IX, 
Coimbra. 1968. doe 211. pp. 344-356). 

AN.T.T.. Uvn» 6 de Odiana, fols. 96v-97. 

(^) Efectivamente, o Infante D. Henrique obteve confirmaçSo da carta do regente de 
22 de Outubro de 1443, em que lhe era concedido o exclusivo da navegação e comércio para 
lá do Bojador. Ficava o Navegador — ou quem ele mandasse e autorizasse a ir — isento do 
pagamento do qumto e dizima sobre o que trouxessem dessas paragens (A.N.T.T., Livro 2 de 
Mhtíeo». foU. 26-26V. PuUícado na htonumenta Henricina, vol. IX, Coimbra. 1968. doe. 193, 
pp. 308-309). A outra confirmação incide sobre a carta outorgada pelo Infante D. Pedro em 
27 de Outubro de 1443, em que o Ifante D. Henrique obteve a doação do Cabo de Trasfal- 
inenur, no Algarve, com uma l<^gua à volta dele (A.N.T.T., Uvro 2 de Minicos, fols. 20lv-202. 
PuUkado no Arquivo Histórico da Marínha, vol. 1, Lisboa, 1933-1936, pp. I6S-I66; Monu^ 
menta Henridna, vol. IX. Coimbra, 1968, doe. 194, pp. 309*310). 

(*'') Veja-se a seu respeito a biografia em apêndice. 

(♦') Ruy de Pina. oh. cil.. cap. XCI, pp. .l<í3-3(>.5; ( f. Duarte Nunes de Leão. ob. cit.. 
cap. XVI, pp. 169-171; Gaspar Dias dc Landim, oh. cii.. livro lii, cap. IV, pp. 19-21. 

— 329 

Fl. 42 



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A veemência das palavras pronunciadas pelo Conde de Avranches foi de tal 
ordem que os inimigos do Infante D. Pedro trataram de levar o jovem monarca 
para Sintra, com o objectivo de impedir que o mesmo reflectisse e tomasse outra 
atitude ('-). De facto, os itinerários régios dão-nos a presença de D. Afonso V 
naquela vila em 2 de Outubro (*'). pelo que se depreende que o encontro entre 
D. Alvaro Vasques de Almada e o rei se verificou na segunda quinzena de 
Setembro. 

Perante a inviabilidade de um acordo imediato, resultante da forma como 
o rei se encontrava dominado pelos adversários do Infante D. Pedro, partiram o 
Infante D. Henrique e D. Álvaro Vasques de Almada para Coimbra. A viagem 
realizou-se. provavelmente, nos primeiros dias de Outubro. Pertencia a ambos 
a missão de colocar o antigo governante ao corrente da situação. Depois do 
Navegador ter ouvido com a maior atenção as queixas do irmão, não lhe ficou 
outra alternativa senão a de recomendar-ihe «sofrimento e pacyencia». em virtude 
de serem estas as «armas mais seguras para neste caso elle sempre vencer» ("). 

Afastados da corte o Infante D. Henrique c o Conde de Avranches. vamos 
assistir a um agravamento progressivo da situação. D. Afonso V, se exceptuarmos 
uma estada em Sintra no dia 16 de Outubro (' ). vai aparecer-nos em Lisboa 
durante os dias Si**). IH(''). 25 ("), 27("') e 31 (*) do citado mes. Caracteriza-se 
este período por uma .série de medidas adoptadas contra o antigo regente. Ba.sta 
atentar no significado das nomeações de fronteiros realizadas a favor do Infante 
D. Fernando, seu irmão, na região do Alentejo e do Algarve ( ') e do Duque de 



(*-) Idem. Ibidem; Idem. Ibidem. 

(") A.N.T.T., Livro 3 de AU-m-Dniim. fols. 74-74v. 

(**) Ruy de Pina, ob. cil.. cap. XCII, pp. 366-367; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cif., 
cap. XVII. pp. 171-172; Gaspar Dias de Landim, ob. cil., livro III. cap. IV, p. 22. 
(♦■) A.N.T.T.. Clwnuliiriii de D. Dimile. livro 2. foi. 50v. 
(♦«) A.N.T.T., Livro J de Mímicos, fols. 258v-259. 
(") A.N.T.T., Livro 7 de Estremadura, fols. 74v-75. 
(♦•) A.N.T.T., Livro de Extras, fols. I08v-I09. 
(«») A.N.T.T., Livro 2 de Estremadura, fols. 275-275v. 
(^) A.N.T.T., Livro 2 de Místicos, fols. 20v-21v, 

O Conde de Ourém encontrava-sc junto do rei. Este fez-lhe doação, nessa data, de 
todos os bens de raiz que Alvaro Eanes, abade de Monforte, comprou no reguengo da vila, 
sem a devida autorização da coroa (Idem, Ibidem). 

(•'*») A.N.T.T., Livro J de Místicos, fols. 258v-259. 

Ordenava o soberano «a todollos comdes e meeslres e prioll do Espital, fidallgos e 
caualeyros e escudeiros, alcaydes e homcens darmas. coudees, e aos corregedores, juizes e 
justiças, comçelhos e homeens boons c a todollos outros das ditas comarquas, que assy o 
ajaaes por nosso fromteiro moor em ellas E lhe obedcçaaes em todo o que deuees; e vos 
elle da nossa parte disser nas cousas que ao dito carrego pertcemçerem. E vos jumiees com 



330 — 



Bragança, seu úo. na região de nntrc-I)(niri>-c-Miiiho e Trás-os-Montcs ( ). Tudo 
isto fa/ pressupor que o soberano queria obstar a qualquer teniativa do auxilio 
realizada por D. Alvaro de Luna cm benelício do sou antigo aliado l'or oulro 
lado. a presoiiva do Infante D. l ornando no Sul ilo País consuiuia uma lm;iia\ão 
aoi> poderes do Condcstável D. Pedro, se nos lembrarmos, cm particular, de que 
era Mestre de AvisC'^). 



ellc oii com quem clle manuhir cada ve/ qtic vos per cllc oii per scii mamdado for dito e 
rrcqiicrido por no^sn seriiiçi>, ía/ciiHln c ccmprinulo assy todo o que ollc disser c :i>.(Mdar 
que ssc fav'^ P^r ^osl guardu e deffemssom dessas coniarquus c Iromtaria, assy cunipndamenle 
como o fariees por nossa pessoa meesma estamdo nos hi de presente e lhe seiaaes em ello 
bem prestes e dílUgemte segumdo nos de vos fiamos que o farees como leaaes, boons vassallos 
e naturaacs por nosso seniiço e por nossa terra ser bem (guardada e deffesa. 

Outrossy damos todo nosso comprido pinjcr c mirmiado cspicinll ao dili> itfamte 
dom Fernando nteu sobre lodos prezado c aiii.ido mnaao. que chamando ellc ou mumdamdo 
chamar os alcaydes dos castéllos das ditas comarquas dAntivtejo e Odiana e aalem «KXtiana 
e do rregno do Algarue. ou algflus delles que venham c vãao a seu mamdado, que elles o 
façam e cumpram loguo. assy Icixamdo taacs pessoas em seu nome nos ditos castéllos que 
Os guardem como deucni i também os ditos .ilcaydes. como aquelles que em seus nomes 
ficarem, siguam por nosso scruivo uqucllo que lhes per ellc ou per suas cúrias for declarado». 

Estabelecia*se mais adiante neste instrumento de nomeação: «E mamdamos outrossy 
aos ditos nossos corregedores, juyzes e justiças dessas comarquas que viao ou estem com 
elle ou sem ellc, como lhe per elle da nossa parte for dito e mamdado por nosso seruiço 
a aluOus lunares das ditas comarcas. E isso mesmo que façam hir os ditos cau illeiros. mccstres 
c prior do Espitall, caualicyros, fidallgos, cidadâaos, comv<-'lhos c homeens darmas. bcesteyros 
e homeens de pec que nas ditas comarquas ouuer. E que o cumpram c façam assy sem 
tardamça, tamto que per ell ou da sua parte pera ello forem rrequiridos como dito he e o 
cream de todo o que lhes assy cm esto fallar e disser. 

E lambem mamdamos a lodollos dit»>s coudees das vidades. villas e lugares, jullgados. 
icrras, coutos, homrras. que façam apuraçoocs das gcmles que hi ouuer e vãao com ellas ou 
com parte delias homdc quer e como lhes per elle ou da sua parte for dito e mamdado. 
E seiam a todo bem prestes e diligemtes. 

F por ssc esto milbor compiir, nos mamdamos e damos lugar e poder nosso absoliulo 
ao dito iff.imte dom Femamdo, meu irmãao, que sse algflus forem ncgligemles ou dcso- 
bediemtes aos seus mamdados ou daquelles a que cllc cometer ou der carrego dalgQuas das 
sobreditas cousas por nosso seruiço, que clle lhes possa poer aquellas pennas que elle vir 
que em tall caso se mereçe dara (Idem, ibidem). 

G.H.C.P., Vi rt açôes de I448-I44V. t..l 2<^\ . Publicado por Artur de Magalhães 
Basto. "/>. (//.. p. 264; Monumeiita Henriciini. \ol. iX. Ci>imbra. l^íftR. doe. 2(10. pp. 1I'M2I. 

Relativamente ao significado desta nomeação, veja-se o no.sso estudo O Injante 
D. Henrique e Alfarrobeira, p. 61. 

Ç*) O Condes tá vel D. Pedro foi nomeado Mestre de Avis pela bula expedida pelo 
Papa Eugénio IV, em 29 de Março de 1444 (Monumemc Ht nricina, vol. Vlfl, Coimbra. 1967, 
doe. 95. pp. I53 !.'^.^. Sumariada por Charles Martial De Witle, /í v htiUes pimlificaícs et 
iexpansiitn purtu^aiSf uu XV'' siècle, in Rvvue WHisioirv Ecclesia.Uique, lomo 49, Louvain, 
1954, p. 439). Dependiam deste mestrado as alcaidarias dos castelos de MourSo, Guarda, 

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Ainda tlurantc o mes de Outubro, vamos assistir a diversos actos políticos 
assumidos pelo soberano contra o Duque de Coimbra. Foi precisamente quando 
o rei se encontrava em Sintra que foram enviadas algumas cartas — hoje infeliz- 
mente perdidas aos fidalgos do reino, os quais, do acordo com o seu teor. 
ficavam lerminantemcntc proibidos de se avistar com o Infante D. Pedro. Outra 
das missivas era endcrevada pelo soberano ao próprio tio. notiíicando-o de 
^-^que o avya por degradado de sua Corte, e lhe mandava e defendia, que sob 
pena de caso mayor sem .seu especyai mandado noni fosse a ella nem saysse de 
suas terrasv» ( 

Perante a campanha engendrada pelos inimigos do antigo regente, nao restava 
ao Infante D. Henrique outra alternativa senào a de enviar ate junto do rei. com 
objectivo de esclarecimento, o comendador da Ordem de Cristo. Gonçalo Gomes 
de Valadares ( '). O insucesso da missão teve como consequência a partida do 
Infante D. Pedro para a sua vila de Montemor-o-Velho e a do Infante D. Henrique 
para a vila de Soure, localidades relativamente próximas, que permitiam o envio 
e a recepção de mensagens no mesmo dia da sua expedição C*). 



Serpa. Marvão. Elvas, Veiros, Monlemor^O- Velho, Alandroal e Alcanede (A.N.T.T.. Onleiu 
dv Avis. n. ' 704; Cf Humberto Carlos Baquero Moreno. Ahionas nwrrrs conciuliiUis pch> 
CoiuUstúvcl D. Fedro, rei du Calalunhu, u súbditos portugueses, sepiíratu du Revista de 
Ciências do Homem da Universidade de Lourenço Marques, vol. Ill, série A, 15^ p. 7). 

C^) Ruy de Pina, ob. c/r., cap. XCil, pp. 366>367: Cf. Duarte Nunes de Ijeio, ob. eit» 
cap. XVII, pp. 171-172; Gaspar Dias de L^«ndini. ,>b. cii . livro III, cap. V. pp. 2.V25. 

hStcs factos sâo narrados pelo próprio Infante D. Faceiro na caria ;;scrita ao Conde de 
Arraiolos, em 30 de Dezembro de 1448. ncs «.egumlcs lermos: «Ordenaram outrossi que 
elrrey meu senhor mandasse secretamente a algQus fidalgos, que sabia que meus amigos e 
seruidores eram. que me nom viessem ver nem fallar, poeto que o(s] mandasse chamar. Fezoam 
com o dito vsenhiu quo nic degradasse, que nom emtrasse em sua corte sem seu espiçial 
mandado» i Artur Moreira dc Sá, ob. cU.. p. 12 e seg.: Monumento Henricina, vol. JX, 
Coimbra, 1908, doe. 211. pp. 344-356). 

(^} Veio depois a combater em Alfarrobeira ao lado de D. Afonso V (A.RT.T., 
Chancelaria de D. Afonso V, livro 12, fols. 49v-S0). 

(*) Ruy de Pina. ob. cir.. cap. XCII, p. 367; Cf. Duarte Nunes de leão, ob, cit,, 
cap. XVIÍ. p. 172; Gaspar Dias dc Landim, ob. cif., livro III. cap. V. pp. 24-25. 

Escreve este últmio aulor : «E tomando novo conselho com o Infante D. Henrique, 
mandou a Gonçalo Gomes de Valladares. do habito de S. Bento, por ser homem eloquente 
e bem entendido, dar descarga das culpas que lhe impunham, o qual propoz diante d^EI-Rei 
seus recados c embaixada por razão de cartas de crença que apresentou. Mas posto que foi 
*mi\kIi> e ;indou na côrtc muitos dias esperando resposta, lhe não foi dada outra mais que 
dizer tl-Kei que el!c mandaria avizar o Infante do que cumpria a seu serviço (o que parecia 
corresponder com as resposus que n*outro tempo o Infante dava aos negócios da Rainha), 
pelo que Gonçalo Comes depois de muitos dias de requerimentos sem outra resposta, se 
tornou para os Infantes que ficaram mui confusos e desanimados, e foi causa dc alguns 
fidalgos se irem pouco e pouco despedindo do Infante temendo sua destruição* (Idem, ibidem). 

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Diversas cartas indicam a presença de D. Afonso V na capital do reino durante 
o mês de Novembro. Logo no dia 2, concede vitaliciamente a seu irmão D. Fer- 
nando umas casas situadas em Lisboa na rua dc D. Maria, as quais «lhe eram 
compridoyras pera poerem em ellas algiiuas cousas de seu seruiço> ("). Outros 
diplomas também emitidos desde a primeira cidade do País oferecem as seguintes 
datas: 4(0. à{'), 7 0. 8 O. II O. IIH. MH. 180. 19 D. 20O. 210. 
22 n, 25 O e 27 (") do mesmo mês. 

Há indícios de ténue melhoria de relações entre as partes em litígio, quando 
o rei. conhecendo o papel de medianeiro do Infante D. Henrique, o encarrega de 
envidar os seus melhores esforços no sentido de harmonizar os Duques de Coimbra 
e de Bragança. De beto. desejoso o Navegador de encontrar uma plataforma de 
entendimento, desempenhou-se de tal modo da sua incumbência «que em breue 
tempo trouue todo a booa conclusom». Pbra que. no entanto, ambas partes não 
alegassem ignorfincia, fot-lhes enviada pelo soberano uma carta patente, íeita 
em Lisboa em 12 de Novembro de 1448. a qual tinha em vista que teimmasse 
entre os dois irmãos «todo rrancor, hodio e escamdallo e outra algQua malque. 
remça. de qualquer maneira, comdiçom. vigor e callidade que seja e amtre elles 
aja acomteçida; porque nos queremos que todo seja damtre elles quite e arrincado, 
assy e tam oompridamente como sse de facto, todo ou parte dello nunca amtre elles 
ouuesse aconteçido, porque amtre aquelles que ssam conjuntos em grande diuedo 
e uerdadeiro amor nom he comtado por bem requerersse emenda e emjuria que 
amtre elles seja passada^ O. 



A.N.T.T., Uvro 3 de Místicos, fols. 259-259v. 

(•*) A.N.T.T.. Livro 7 de Estremadura, fols. 50-50v. 
(■") A.N.T.T., Livro 7 de Esln-madura. fols. 48-50. 
CM A.N.T.T.. Livro II dc Estremadura, fols. 9v-10v. 
C M A.N.T.T., Livro 2 de Padroados, foi. 47 v. 
(O) A.KT.T., Uvro 2 de Mistleos, fols. 2lv24. 
(•») A.N.T.T., Gaveta XV. maço 22. n.» 25. 
(") A.N.T.T., Livro 2 de Padroados, foi. 47v. 
{''■') A.N.T.T., Livro 4 de Odiana. fols. 79-80v. 
(») A.N.T.T., Uvro 1 de Eslrtniadura. fols. 82-83. 
(«) A.N.T.T.. Uvro 3 de OdUma, fols. 218v^2]9v. 
(*) A.N.T.T., Uvro 3 de Mbtíeos, fols. 260-260v. 

A.N.T.T., Livro 11 de Estremadura, foi. 13. 
('") A.N.T.T., Livro II de Estremadura, foi. 9v. 
(''i A.N.T.T., Livro 3 de Misticos, fols. 261v-262. 

P) A.N.T.T., Gaveta XtV, maço* 8. n.» 1. Publicado por D. António Caetano de Soma. 
Provas da História Geneató^ da Casa Reaí Fortuguesa, tomo III, 2." parto, Coímbfa, 

1949, doe. 31, pp. 82-86; Artur Moreira dc Sá. Alguns documentos referentes ao infante 
D. Pedro, pp. 67-70; f^onumenta Henricina, vol. IX. Coimbra, 1968, doe. 208, pp. 338-342. 
Sumariado em as Gavetas da Torre do Tombo, vol. 111, Lisboa, 1963, p. 756. 

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Eram portadores da menc ionada carta patente Rui Galvão ('^). secretário do 
rei. e D. í crnando de C astro, o C egonho ( ). a quem cabia a missão de se entre- 
vistarem com os Duques de Coimbra e de Bragança e de obterem a sua assinatura 
e concordância. O primeiro declarante íoi o Inlantc D. Pedro, o qual fe/ promessa 
de «mantecr e goardar> por si e pelos seus -filhos, diuedos. liados e chegados» 
tudo o que o rei ordenara. Idêntica declararão foi aposta pelo Duque D. Afonso. 
Ambos procederam à assmalura do documento, cujo origmal se conserva 



(") Vcjam-sc a seu respeito dados biograticos em apêndice. 

C*) En filho de D. Alvaro Pires de Castro, alcakle-mor das Alcáçovas, e de D. Maria 
Loba, filha de Diogo Lopes Lobo (Uvro dê Linhagens do Século XVI, ed. da Academia 

Portuguc<»a de História, I isboa. 1956, p. S4» Fxcrccii as funçi^ de vedor da fazenda de 
D. Afonso V e falecei! sem deixar descendência (Idem. p, '^0). 

Ç') A.N.T.T., Gaveta XIV, maço 8, n." I. Publicado por D. António Caetano dc 
Sousa, oh. cit>, tomo III, V parte, doe. 31, pp. 82-86; Artur Moreira de Sá. ob. eit., pp. 67-70; 
hioMunenta Henrkina, vol. IX, Coimbra. 1968. doe. 208, pp. 338-342. 

Rui de Pina levanta fortes restrições à recta intenção com que foi planeado este tratado, 
sendo do parecer dc que o mesmo foi forjado pelo Conde de ()iirém. no convencimcnio de 
•que o Ifanle Dom Pedro por sua forte e aityva cond>çam nom obedeceria em ussynar 
tal concerto, e que sua desobedyencya daria coorada causa, pera ElRey com mais rezam 
hir sobr*elle, e ho destruir e castigar como a desleal» (Ob. cap. XCIII, pp. 368-369). 
Idêntica opini3o é defendida por Duarte Nunes de l.cão, quando escreve : «porque cntcndeo 
o Infante, que a tenção dos que aquillo fabricavão. era para ver se offerecendolhe algum 
duro partido, que elle recusasse aceitar, chamassem a essa escusa desobediência, c a dessem 
por testemunho de de s lealdad e , de que o aocusavflo, pan d Rey com ira o ir destruir» 
{Ob. cit., cap. XVII, pp. 172-173). Por seu lado, Gaspar Dias de Landim diz-nos que o rei 
linha «ordenado que se o Infante D. Pedro não quizesse obedecer e assignar como lhe 
mandava, o ir logo cercar a Montemor ou a Coimbra, c como rebelde o destruir», o que 
corrobora as versões dos anteriores cronistas [Ub. cii., livro 111, cap. VI, pp. 26-27). 

Ê de presunúr que Rui de Pina tenha utilizado como fonte a propna carta que o 
InCuite D. Piedro escreveu ao Conde de Arraiolos, em 30 de Dezembro de 1448, a qual leza 
o seguinte : 

«...ordenaram hua forma de comcordia amire mim e o duque vosso padre, n qual me 
elrrey meu senhor mandou asinada per si c asellada do seu sello, mandamdo em elia a mim 
c ao duque que posto o odio e maa vomtade, que fossemos amigos. E vos crede verdadeira- 
mente que elles nom se moueram a hordenar ha comconlta na forma em que vinha com 
boa emteroçam nem tinham iam boa vomtade dc seremos comcordados como a eu tinha; 
SOOmenla por me tentar c tomarem .ilguu ach.>que comtra mmi. 

E peta esto nom acharam quem emuiar sobrello senam dom Fernando e Rui Caluam. 
que me dcsamauam; e porque eu aquillo soube, eu esq^uí a elrrey meu ssenhor, pidimdolhe 
de meiçe que nam mandasse a mim semdhantes homeens, que ajmda que eu fezesse todo 
ho bem do mundo elles o reportariam sempre pello comtrairo. E o dito senhor nom quis 
mudar seu propósito. Foime por elles presemtada a dita comcordia e outorgueia e firmeia 
segundo me foy mandado. E o que eu reçeaua dos ditos embaixadores bem sse mostrou per 

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Ouancin tudo parecia normali/;Hl(>. cis que eonlinuaram a dar-se aconteci- 
menids exiremanienlc graves nas rclavôes enire o rei e o lio. Di/-no.s Rui de Pina 
que, ao lempti que esta concórdia se formava na C orte, se fy/eram juntamenle 
cartas de geeraes percebimenlos de guerra, pera lodallas Cidades, e Villas. e 
pessoas pryncipaaes do Revno. salvo pera o Yíantc e pera seu l ylho o Condes, 
labre, com fundamento que se a ysto nom .satysfizese de irem logo sobr'clle» ('*). 
Enviado p.lo soberano, parte para Montemor-o-Velho, onde se encontrava o 
Infante D. Ptedro, o seu emissário Diogo da Silveira Em nome de D. Afonso V. 
censura o antigo regente pelo «açalmamento d*armas e mantimentos, que se dizia 
que contra servyço d*ElRey em seus Castellos fazia». Protestando a sua inocência. 



obra des que tomanun a corte» (Artur Moreira de Sá, O Infante D. Pedro e a crítica 

histórica, p. 12 e segs.; Monunwntu Henriciiia, vol. IX, Coimbra. 1968, doe. 211, p. 344-356). 

No memorando enviado polo rei ao soberano de Castela, logo após a batalha dc 
Alfarrubciru, aludc-se à concórdia do scguinlc modo : »E nos como quci que soubesemos 
que tal ajuntamento [feito pelo Infante D. Pedro contra o Duque de Braganva] principal- 
nM»te era feito contra noos, por nom sentirmos antre elles outras abastantes causas de 
imizade, nos quizemos antrepoer. E mandamos ao ifante dom Amrique, meu tio, que de 
nosvi parte os indusiscc e prouocascc a concórdia. V. depois de muitas c»nitendas. dctremi- 
namo& de os fazer amigos, a qual deireminação com as clausulas da concórdia c ami/ade 
que ascj antre elles fezemos, em que asas consíramos a honra e auantajem do dito jfante 
dom Pedro, foy por nos asdnada e sellada de nosço sello e ascinada per suas mfios delles 
e aselladas dos sellos das suas armas» (B.N.I.., Colecção Pombalina (Reservados), códice 443, 
fols. 85-89v. Publicado por Manuel Heleno, Siíh^idins para n estudo da reiíêiicia de D. Pedro, 
diufue de Ct>imbra. Lisboa, 1933, pp. 31-39; Monunietiíu Uenricina, vol. X, Coimbra, 1969. 
doe. 49, pp. 71-79). Como pode ver-se, a ¥enáo oficial apoeientada pdo rei, ou pelos autores 
do memorando, diverge na sua interpretação da dos autores atrás citados. 

("*) Ruy de Pina, oh. cil.. cap. XCIII. p. .369.; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. cit.. 
cap. XVII. p. I7V, Gaspar Dias de l andim, oh. vil., livro III, cap. VI. p, 27 

Na carta escrita pelo Infante D. Pedro ao Conde de Arraiolos, alude-se desta forma 
a má fc com que tinha sido elaborada a concórdia : <E por vos conhecerdes a emtemçam 
como sse hordenaua a dita oomcordia, em partimdo os ditos embaixadores pera vir a nos, 
tinham escríptas cartas de perçebimentos e mandaramnas aos fidalgos, alcaides dos castdios, 
vassalos e besteiros que estiuessem perçebidos com armas e cauallos pera guera: e esto nam 
escpreucrati) a tnini nem a meu filho. Mandaram esso mesnio vellar castellos e villas» (Artur 
Moreira de Sá, oh. cii., p. 12 e seg.; Monumento Henricina, vol. IX, Coimbra. I%8, doe. 211, 
pp. 344-356). 

Diametralmente oposta se apresenta a versão enviada por D. Afonso V. no seu memo- 
rando a João 11 dc Castela, em que rcspdn^abili/a o Duque de Coimbra: Alas posto que 
o jfante ascy leixasce, segundo a mostranva de fora, nom Icixou porem as gentes, nem 
armas, nem os aparelhos de guerra que prestes tinha, nem desuestio a indinação que no 
coFBçio trazia nem prepozito de proseguh' o que ascj contra nos imagiiiara (B.N.L., Colecção 
Pombalina (Reservados), códice 443, fols. 85-89v. Publicado por Manuel Hdeno, ob. cit., 
pp. 31-39; Monumenta Henricina. vol. X., Coimbra. I9f)9. doe. 49. pp 71-7')). 
Vejam-se em apêndice alguns dados biográficos a seu respeito. 

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mostra-lhe aquel - lodo o C astello dc Monie mor. e assy o dc C oimbra, que eram 
os principaes que tynha. cm cujo dc^percibimento claramente vio, a enfonnaçain 

que se a EIRcy li/era ser cm todo falsa e maliciosa» ('"). 

Entrclanlo, cm Lisboa, por meados de Novembro, procedia o soberano à 
realização de cortes tendentes a resolver os nuns urgentes problemas com que se 
debatia o reino í de prever, no enianio. que estas lenham tido um carácler 
bastante restrito, tiaila a dilícil situaç;k) em que o mesmo se ei>Lontra\a. De facto. 
• apenas conhecemos dLierminado> capjlulos aí apresentados, relativos ao Centro 
e ao Sul do País. 

O início destas cortes aparece-nos docutneniado em alguns capítulos especiais 
concedidos à vila de Elvas em 18 dc Novembro dc 1448. A linguagem usada 
pelos seus procuradores. Alvaro Abreu, cavaleiro da casa do Infante D. Henrique, 
e Alvaro de Aboim, fidalgo da casa real. faz pressupor um clima de hostilidade 
contra o antigo regente e contra seu filho, o Condestável D. Pedro. Na parte que 



P) Ruy de Kmu oh, cit., cap. XCIII, p. 369; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. eit» 
cap. XVII, p. 173: Gaspar Dias de Landim, ob. eit» livro III, cap. VI, pp. 27>28. 

Este tiltimo autor dá uma interpretação difcrtnto do^ acontecimentos namdos pelos 
dois primeirt^s cronistas. F.is a sua versão : «Não cmm bem tornados á côrtc D. FemanJo 
k o sccretanu [Rui Galvão], quando hl-Rei mandou u Diogo da Silveira, tilho dc Nuno 
Martins da Silveira, que era novamente provido por elle no corpo de escrivão da puridade 
que seu pae tivera no tempo d*EI-Reí D. Duarte, e da Rainha D. Leonor e o Infante lli*o 
tinha tirado no tempo que povcrnoti. pelo qual mandou Fl-Rei estranhar ao Infante e rcprc- 
hendcr o ajuntamento uc ^lentc c armas que fa/ia cm seus castelios sem ordem sua. notifi- 
cando-ihe que o havia por claros indícios dc rebeliiào c desobediência; e posto que o 
infante mostrou a Diofo du Silveira os casiellos de Montemor e Coimbra e lhe quiz persuadir 
que era fiilto dizer-se que elte os tinha fortificados com eente e armas, e o mais neoessario. 
com tudo a inTormaçâo que Diogo da Silveira deu foi mui diffeiente do que o Infante lhe 
quiz persuadir» (Idem, Jhidcni). 

Mais consentânea com a narrativa dos dois primeiros cronistas c o próprio testemunho 
coevo dos aconledmenlos que nos oferece o Infiante D. Pedro na carta ende r eçada ao 
Conde de Arraiolos, em que nos diz : «E iemdo eu e cremdo que por obedeçcr e me someter 
a todo o que me o dito ssenhor mandaua. ajmda que fosse com gramde abatimento da 
minha homrra, por ho cllc aver por seruiço de Deus e seu e bem dj seus rregnos, estes 
mouimenlos cesariam c os dapnos aueriatm] aigúu rrcpairo e emmeLnjda e segundo o que 
vejo e se cada dia majs faz pareçer que por asâ sermos comeordados, que nom ouue hi 
asaessefo, em tal maneira que o dito saenhor me mandou per Diogo da Silueira, hdua cremça 
com hCiu escripio. asynado por sua mâao. de taintas cmnouaçôes açerca de mim. que nom 
sey homem que ii veja tirando de si toda afeiçam. que n.<ni aia por grande ma! tacs cousiis 
me scr«m mandadas, nom esguardando a pcss^ia que s;iiii c o que com mujtas rrazões me 
deue de ser guardado; que se o guardassem, nom me degradariam ou defemderiam que nom 
saisw de minhas terras, segumdo majs compridamente veres pdio irellado da dita carta e 
rrepoxta que sobrello dey c vos ia emujej» (Artur Morcír-. de Sá. ah. cii» p. 12 e seg.; 
Monunwnta Uanrkina. vot. iX. Coimbra. I%8, doe. 211, pp. .144-3^61. 

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respeita ao modo como o Infante D. Pedro condu/iu os ncgeScios do reino, durante 
o seu governo, manifestam desaprovação ao declararem : ^íSennhor aquelles annos 
que Diego Lopez de Sousa foy fronicvro cm a diia villa. com poder da fromtaria 
e com fauor que lhe sempre o Ifamlc dom Podri> deu. uiueo sempre e usou em 
ella como se lhe ficara de seus auoos. c muytas cousas feas e crmiinaees fez a 
que numca o Ifamte quis tornar. Pero a dita villa muitas vezes se delle queyxase 
e muytas vezes se servyo dos mesteyraaes delia e tomou muytos mantimentos e 
outras cousas sem paguar nenhuu dinheiro nem aluaraees nem Recadaçôees aqueles 
de que se semià. Porem Sennhor. pedimos a uosa merçee, que mandees que aquelles 
que per seu juramoito decrararem que lhes o dito Dioguo Lopez deue. que lhe 
seja paguo a custa de quem direito for». D. Afonso V dava pronta satisfação à 
reclamação apresentada, ao ordenar ao «Corregedor daquella comarqua que vaa 
loguo per pessoa a dita villa dEluas e tire Imqueriçam sobre todas as ditas cousas 
naquella maneyra que se acustuma de tirar sobre as diuidas e malfeitorias que 
fazem algúuas pessoas» O. 

Representava igualmente o concelho de Elvas, que, no tempo da crise de 
1383. Alvaro Coitado, alcaide do castelo dessa vila. «tomou voz» por D. Beatriz 
e foi combatido pdo povo. vendo-se constrangido a exilar>se em Castela. Tempos 
depois, o Condestável D. Nuno Alvares Pereira, a pedido da população, mandou 
derrubar a barreira que circundava a vila. Acontecia, porém, «nestes annos que 
o Ifamte dom Pedfo uosso tyo Regeo, fez Dioguo Lopez de Sousa esta barreira 
muyto mais fcMte que amtes era F porque Sennhor em uossos dias ou daquelles 
Rex que de uos deçonderem pode aigúu alcayde cometer o semelhante. Pedimos 
a uossa merçe que mandees deRibar a dita barreira, porque se tal cousa for 
cometida o castello mais sem trabalho possa seer tomado». Mostrava-se o sobe- 
rano receptivo ao pedido, quando respondia que iria escrever ao Condestável 
D Pedro «^a que teemos feita merçe do dito castello» para -jque a mande 
deRibar» Ç). Mais longe ia ainda o monarca, ao alender uma solicitação tio con- 
celho, em que deferia a petição feita no sentido da mesma deixar de pertencer 
ao mestrado de Avis (*'). 

Também o concelho de Lisboa, através dos seus representantes, Tristão Vaz 
da Veiga e Lopo Vaz de Alvalade, vereadores, e Pero de Magos, procurador, 
formulou algumas acusações contra a forma como o Infante D Pedro administrou 
os intereitses da cidade durunic o seu governo. Nestas recmumuções, era igual- 



(*^) A.N.T.T., Livro 4 de Odiana. fols. 79-79v; Cf. Humberto Carlos liaquero Moreno, 
ob. cit., p. 9. 

C») A.N.T.T., Livro 4 de Odiana, fols. 79v-80. 

C^) A.N.T.T., Livro 4 de OdUma, foi. 80v; Cf. Humberto Carlos Baquero Moreno, 
ob. tíi., p. 9. 

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n. 43 



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mente abrangido c» Conde de Abranches ('•'). amigo dedicadíssimo daquele antigo 
governante. A resposta aos capítulos especiais da capital oferece-nos, no seu con- 
junto, a data de 2 de Dc/emhro de I44S. 

tteciivamcnie. lanientavani-se prixuradores da primeira cidade do reino 
de que. tanto o íalecido D. Duarte, como o Intante D. Pedro. -ídauam saca dos 
guados destes nossos Regnos pera C aNtella. asy de uacas como de carneiros; loguo 
em esta cidade auia gramde minguar de carnes por a/o das ditas sacas», daí resul- 
tando ser esta mais cara quando se tornava indispcnsa\ cl adquiri-la ttira da capitai. 
O soberano dava-ihes ra/âo. ao prometer que ina cancelar l.tis licenças de expor- 
tação (*^). Também salientavam a importância das relavõcí» económicas com os 
bretões, os quais, além de comprarem «muytos vinhos e outras mercadarias» aos 
lisboetas» tinham a vantagem, «quando em esta cidade auia algOua estrelidade 
e minga de pam». de serem aquelles que mais tostemente socorriam a ela». 
Acontece agora que ^de pouco tenpo aca por alguas emformaçoees dadas ao 
Ifante dom Pedro uosso tyo. çessarom de uijr. Pidimos a uossa merçee que pois 
sse desto segue seniiço a uos E proueito aos moradores da dieta çidade e termos, 
que mandees que seguramente os dictos bretoees posam uljr a estes uossos Regnos». 
Mais uma vez o monarca mostra-se solícito à vontade dos habitantes da capital 
ao despachar favoràvelmente nos seguintes termos : <E nossa merçee he lhe 
outorgarmos segurança E lhe darmos lugar que elles a nossos Regnos possam uijr 
E trroutar com as crrasullas E condiçoees contehudas em a carta patente que 
sobrello mandamos dar por sua ssegurança» i"'). 

Novo clamor se fazia sentir através da boca dos procuradores d - Lisboa, 
quando exprimiam «que depois da morte delRey vosso padre cuja alma Deus aja. 
a rrogos dalguas pessoas e afeiçoees. assentarom e poserom teenças da dieta 
çidade ía] alguus mesteiraaes e a outras pessoas asy de pam como de djnheiro. 
o que segundo ordenança antiga a sscmelhanles pessoas nem por taaes Razoees 
quaaes sse por elles disse, a dieta çidade nunca costumo poer nem dar teenças, 
porque soomente se deuem poer as dietas teenças a taaes pessoas, per que a dieta 
çidade seja seruida F. honrrada li sseu seruiço muyto neçessario. Porem pedimo> 
aa uossa merçee que com vossa autoridade prouejamos as dietas pessoas que 
ora am taaes leenças. \- aquellas que achamnis que postas sam como nom deuem. 
que lhas possamos tirar pera sse conuerterem as dietas teenças no proueito e proll 



(»-) Vejam-.sc cm apêndice alguns dados biogralicos a seu respeito. 

(**) A.N.T.T., Livro 7 de Estremadura, foi. 73; Cf. Henrique de Gama Barros, História 
da Administração Publica nos Séculos XII a XV, 2,* ed.. tomo IX, s/d., p. 203; Maria Teresa 
Campos Rodrigues, Aspectos da administração municiptd de Usboa no século XV, Lisboa,. 
1968, p. 92. 

D A.H.C.M.L., Ltvro I de Carles, foi. 107; Idem, Livro Jus Pregos, foi. 266. 

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da dieta çidade E sse nom dem deuassamenie E a quem nom deuem como ora 
muytas som dadas». A crítica velada à administração do Infante D. Pedro mereceu 
o melhor acolhimento do rei, quando sentenciou : v< Visto sseu Requerimento o 
que nos pareçe seer justo e boom. Nossa merece he lhe darmos poder que o façom 
E conpram asy como per elics nos he Requerido» Inteiramente receptivo ao 
peso da primeira cidade do reino, cuja força era indispensável na contenda a 
travar com o tio. mostrou-se D. Afonso V inteiramente favorável à seguinte 
pclivão ; Senhor pidimos A uossa mcrço? que nos nom quebrranlecs nosso foro. 
li nos leixccs hussar sscuundd ciisiunic 1 comi> hussamos scnprc cm tempo dos 
Reis pasados, dc uosso nuoo c padic cujas almas Deus aja. Ca muytas vezes 
\cni casso quer per nei,csidade pjrtcenve cimiarnu>s A uossa Senhoria algijus 
cidadaaos por seruiço vdsso c bem da dieta çidade. o que escusandose agora 
poderia ira/cr dapno ou [X-rda»)"). 

F). Alonso V, naluralnierite manejado pelos seus conselheiros, procurou atrair 
a la\or da sua causa a pi>derosa cidade de l isboa. mola lundamental em todos 
os grandes acontecimentos do fim da kiadc Média. Ao conceder, em 22 de 
Novembro dc 1448, carta dc contirmavào dc privilégios aos seus pescadores ("■). 
inaugurou uma serie de medidas tendentes a obter o seu total apoio e adesão. 
Também não quis afastar D. Álvaro Vasques de Almada do cargo de alcaide 
do seu castelo, sem primeiro lograr a aprovarão da cidade cabeça do reino. São 
até os procuradores da mesma que tomam a inicativa de criticar os actos prati> 
cados pelo próprio Conde de Abranches. Oueíxavam-se de que noutros tempos, 
quando os reis «hordenarom coutar as perdizes», eram «dados couteíros pessoas 
de pequena condiçom e taaes que os Reis erom seruidos E os lauradores nom 
eram estrroidos pellas coimas como ora sam. E ora Senhor veemos desto muyto 
o contrrairo Ca he dado por couteiro moor em os termos desta çidade o conde 
dAuranxes, o quall a cada hflu de sseus escudeiros tem dado carego de ssua 
alcaidaria. E de seer couteiro em cada hDa aldeã do termo da dieta çidade. E estes 
pooem outrros de ssua maao, os quaaes com ssahioria por leuarem dos laurradores 
o que teem, os acusam E trrazem em perlongadas demandas poendolhes que 
matom as dietas perdi /es posto que asy nom sseja. E lhes leuam por ello grrandes 
penas, pella quall Razom lhe fazem vender os bois e guados con que laurom 
e proueitam a terra, o que he muyto contrra vosso seruiço. E por esto a vosa 
pessoa nom he milhor seruida das dietas perdizes. E que o mílhor seja cada hOu. 



(*' ) A.H.C.M.L.. Livro 1 dc Corus. lols. l07-IU7v; Idem, Livro dos Pregos, foi. 266; 
A.N.T.T., Livro 7 de Estremadura, foi. 72v. 

(■^ AJI.CMX., Livro I de Cortes, foi. 109; Idem. Livro dos Pregos, foi. 267. 
CO A.N.T.T., Livro li de Estremadura, foi. 13. 

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dos coutciros que asy hi pooem o dicto conde, os quaaes dam liçença a outrros 
muytos que as matem pcra ellcs. E o dicto conde da aluaraaes a muytas pessoas 
que as matem, o que he muyto conirra vossa hordenaçom. E asy por este aa/o 
os laurradores ssom gastados por aazo de tantos couteirros quantos som pt"»stos. 
a quall coussa se nom fana sse o dicto couiamento fosse em poder de pessoas de 
pequena condiçom. ssegundo se antigamente custumou. Porem pidimos aa uossa 
merçee que tall couteiro moor hi ha. o nom aja. E dees dello carrego a outra 
pessoa mais pequena ssegundo sse aniigamente custumou. o quall nom tenra 
ousio fazer no dicto ofiçio o que ssuso dicto he. E os laurradores proues seram 
Irrautados em milhor maneira E a uossa senhoria melhor seruida porque auera 
hi mais perdizes das que agora ha. per bem da dcuasidadc que se no dicto ofiçio 
ffaz». Em resposta o soberano declarava : «Visto sseu Requirimento por nos 
parecer beem e Justo E pollo auennos por nosso seruiço nos praz de o mandarmos 
assy conprir. E que o dicto conde nem outro nebda posto per ell nom husse mais 
do dicto ofiçio. porquanto a outra pessoa ou pessoas ho entendemos de dar per 
nossa carta ou aluara» 

O libelo acusatório movido pelo povo de Lisboa contra o Conde de Abranches 
não deixava margem a dúvidas. Encontravam-se, deste modo. os adversários do 
Iníánte D. Pedro de mãos livres para actuarem de acordo com os seus desígnios. 
Foi o que sucedeu. D. Alvaro Vasques de Almada acabou por ser exonerado das 
funções de alcaide-mor do castelo de Lisboa ("). Em sua substituição, foi nomeado 



C^J A.H.C. M.L., Livro 1 de Cones, fols. 107-108; Idem, Livro dos Pregos, fols. 266- 
-266v; AN.T.T., Uvrú 7 de Estremadura, fols. 72v-73. 

^ Ruy de Pina, ob. eit, cap. XCIII, p. 369; Cf. Duarte Nunes de LeSo. ob. eit» 
cap. XVn, p. 173; Gaspar Dias de I andim. oh. cit., livro MI. cap VI, p. 28. 

Na carta escrita pelo Infante I). Pedro ao Conde de Arraiolos, em 30 de Dezembro 
de 1448, declara o antigo regente : «E comtmuamdo outro&si em suas boas obras por niie 
fazerem desomrra, tiiaram o castcHo de Lixboa ao oomde dAbnundues, o qual se linha 
feitos semiçot a estes neinos e aos mis delles, per que lhe esto deuesse de ser feito, vos o 
sabes; denun-lhe por eUes e em espiçial pollo que agora fez em Ceita, ho guaUaidam 
que dam a mjm de meus seruiços e tnihalhos» (Artur Moreira de Sá, ob, cit., p. 12 e seg.; 
Monumenta Henricina, vol. IX, Coimbra, 1968, doe. 211, pp. 344-356). 

Supomos que o feito a que se refere o Infente D. Pedio deveiá estar idacíoiiado oom 
o ataque dos noutos de Lanche a Ceuta. O acontecimento encontra-se testemunhado pela 
carta régia de 13 de Julho de 1448 endereçada aos juízes, veieadoKV procurador e bomens 
bons de Bragança. Tratava-sc duma circular enviada a todos os concelhos do País, em que 
se solicitava socorro em favor daquela nossa praça marroquina, gravemente ameaçada pelos 
homens da mencionada cidade (Francisco Manuel Alves, A Restauração de i640 ItO Estrita 
de Rragmça, in Anais da Academia Portugaeaa de História, I.* série, vol. m, Lisboa, 
1940, pp. 71-73). De acofdo eom o passo transcrito da missiva do Duque de Coimbra ao 
Conde de .Arraiolos, talvez possa conjecturar-se que a expedição de SOCOTTO foi chefiada 
pelo Conde de Abranches, que teria realizado prodígios de valor. 

340 — 



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Gatiote Pereira ( " ). investido no cargo por carta régia de 10 de Dezembro de 
1448 ("). Setisiveimcntc na mesma altura, foram afastadtw alguns dos mais íntimos 
colaboradores do antigo regente, com especial realce para Aires Gomes da Silva (*-). 
regedor da Casa do Cível de Lisboa C'), e Luís de A/evedo ("'). vedor da ta/cnda 
regia (•' ). Apenas se conservava no desempenho do ofício de Condestável do reino 
D. Pedro, filho do Duque de Coimbra. Um tanto ou quanto misteriosamente, fez- 
-Ihe o rei doação, em 27 de Novembro de 1448, das rendas, direitos e foros do 
reguengo á6 Elvas com validade desde o primeiro dia desse ano (*^. 

O rei -permaneceu em Lisboa durante todo o mês de Dezembro. Ê o que nos 
atestam as cártas por ele outorgadas na capital em 1 O* 2 (**). 3 ("). 5 C), 9 ('"). 
10(«), 12 («^. 13(»»), 16(»). 170^, «("a 20('") e 21 ('•). Nâo nos resta nenhum 
documento atinente aos últimos dias do referido mês. 

Alêm das mencionadas cortes celebradas em Lisboa e da exoneração do 
Conde de Abranches, quais os acontecimentos de maior relevância nos derra. 
deiros dias de 1448 ? 

Tem particular significado a insistência do Conde de Ourém junto do rei. no 
sentido de lhe ser atribuido o cargo de Condestável do Reino, o qual ainda 
pertencia ao filho primogénito do Duque de Coimbra. Ela é-nos testemunhada 



(*) Vejam-se a seu respcilo dados biográficos em apCndice. 

A.H.C.M.L., Livro dos Pregos, foi. 23. 
(92) Vejam-se em apêndice alguns dados biográficos a seu rcspciio 
(") Ruy de Pina, ob. cit., cap. XCIII, p. 369; Cf. Duarte Nunes dc Leão, ob. cii., 
cap. XVn, p. 173; Gaspar Dias de Landim, ob. cit» livro III, cap. VI. p. 28. 
(") Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(» ) Ruy de Pin:i. oh. cit.. cap. XCIII, p. ?69; Cf. Duarte Nunes de LeÍO, ob, cU., 
cap. XVII, p. 173; Gaspar Dias de Landim, ob. cit.. livro III. cap. VI. p. 28. 

(••) A.N.T.T., Livro 3 de Misticos. foi. 62. Publicado por Humberto Carlos Baquero 
Moreno, ob. eit., p. 9. 

(W) A.N.T.T., Livro 4 de Odiana. fols. 78-78v. 

(••) A.H.C.M.L.. Livro I dc Cortes, fols. I07-109v. 

(») A.N.T.T.. Livro 3 de OJiaiia. tol. 288. 

("•) A.N.T.T.. Livro 7 de Esiremaiiura, fols. 56v-57. 

C») A.N.T.T.. Livro 2 de Leititima^, fols. lOOv. 

("•) A.H.C.M.L., Livro dos Pregos, foi. 23. 

C"*) A.N.T.T., Livro 2 de Lei;ifirtuiçôes foi. lOOv. 

('»') A.N.T.T.. Livro 3 dc Odiana. foi. 26 Iv. 

(>») A.N.T.T., Livro 3 de Alem-Douro, foi. 240v. 

("O A.N.T.T.. Livro S de Místicos, fols. llO-llOv. 
A.N.T.T.. Uvro 2 de Místicos, fols. 24-24v. 
A.N.T.T., Livro 7 de Estremadura, fols. 75v-76. 

O A.N.T.T., Uvro 2 de Ugitimações, foi. 100. 

— 341 



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por este antigo governante, na carta de 30 de De/cmbro dc I44S. dirigida a seu 
sobrinho, o Conde de Arraiolos, em que declara que Mo conidc dOureni. vosso 
Jrmão. rrcqucreo agora a eirrey meu senhor, presemle os do seu com^elho, que 
lhe desse ho ofiçio do comdestabrado de meu tilho. di/emdo que lhe perteni^ia; 
e o dito senhor ho pos em comsselho. pcra auer de rrespomder ao dito rrequiri- 
menlo» ). Daqui se depreende que o íuluro rei dos catalães se encontrava prestes 
a ser privado do oíício de Condesiávcl, o que leria acontecido em Janeiro 
de 1449Í'"). 

A presen*;a do Conde de Ourem junto do soberano é comprovada ainda por 
uma carta de privilégio em seu benefício, de 18 de Dc/embro de 1448. em que 
O rei <Mtlena que as apelações e agravos instruídas pelos almoxarifes das suas 
terras venham ao seu ouvidor e deste directamente aos juízes dos feitos da 
coroa ("*). 

Merece alguma reflexão a circunstância de D. Afonso V haver proibido, por 
instrumento de 20 de Dezembro de 1448. que alguma pessoa levasse ou intro- 
duzisse armas «grandes» ou «pequenas» dentro do castelo de Lisboa. Quem o 
fizesse incorria na penalidade de fícar privado da sua posse. Apresentava-se como 
motivo de tal interdição o facto de Fernão Gonçalves, carcereiro da cadeia do 
castelo, ter fortes motivos para recear que se desse alguma fuga de presos ('"). 
Muito embora dentro duma certa maigem de conjectura, somos levados a pensar 
que. para além dos detidos por delitos comuns de diversa natureza, deveriam 
existir na prisão do castelo alguns partidários do Infante D. Pedro que convinha 
manter em bom recato ("^). Daí a razão principal da preocupação tida pelo rei 
em estabelecer tal proibição. 



Ariur Moreira dc Sá, ub. t/7., p. 12 e seg.; Monuineiita Henríctna. vol. IX, 
Coimbra. 1968. doe. 211. pp. 354-336. 

('") O cargo de Condestável acabou por recair na pessoa do Infante D. Fernando, 

irmão do sobenino. Desconhecemos, contudo, a carta de nom<íação. pelo que não podemos 
precisar o nuimcniu exacto em que a mesma se vcníicoii (Ru\ de Pina. i>h. cii.. cap. XCIII. 
p. 369; Cf. Duarte Nunes dc l.câo. ub. cii., cap. XVII, p. 173; Gaspar Dias de Landim, 
ob. cit., livro 111. cap. VII, pp. 29*30). 

(<») A.N.T.T.. Uvro 2 de Mbiieos, fols. 24-24v. 

('") A.N.T.T., Uvrv 7 de Esircmaitiira. h^s. 75v-76. 

I'""') C om efeito, a criínica an(>nima do século w . coev.i desi;;s icoritccimenlos, que 
pertenceu a biblioteca do Londeslavcl U. Fedro, afirma que a «noua ydade delrrey. tomando 
glande jnpresiom dalgOas fidssas enformaçOoes-e palaun» de çertos que lynham odio ao 
If&nie diun Pedro, a que ele feieni onrra e merçee. ouue por desfeytas todalas coutas que 

o Iffante em rrcgendo fczcra. E tirou muytos offiçios a seus criados e prcndeo ontros seus 
seruydores. O Iffante agrauandosse muytas vezes destas cousas e doutras, nom rreçebia 
algOu rremedio» (B.N.P., Fontí Portugais, n. 9, foi. 210v). 

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o sdhcraiu) \ai permanecer em I isboa. pelo mentas, até ao dia 23 de Janeiro 
de 1449 (' ). Conhecemos diversas cartas oulor|j:adas na capital em 2 ( ). 3(" ). 
4í""). 7("^). 8("-). llC). I3( ). I4( ). I5('-'). I6(''). 17(M. 20("^^). e 2I('-) 
do mencionado mês. í*arccc-nos >.>r lal perícHÍo aquele que corresponde a uma 
relatua acalmia nas relavõcs cnire sogro c genro, talvez devido a intercessão 
apaziguadora da Rainha D. Isabel. 

Com efeito, a carta régia de 2 de Janeiro de 1449 — à qual já tivemos ocasião 
de aludir em pormenor — mostra-nos o papel tido por esta senhora no sentido de 
harmonizar as paru» em desavença (' Compreende-se perfeitamente o seu dilema, 
se nos lembrarmos de que se encontrava na difícil posição de esposa e filha. 
Foi, contudo, essa amnistia sol de pouca dura. pois não tardaria muito que se 
tornassem a reacender as querelas. Antés do rei ter deixado a capital, concedeu 
k mesma confirmação de uma série de privilégios. Neles foram abrangidos os 
calafates tanoeiros ("*). escrivães da Casa do Cível ("'). moradores da alcáçova 
da cidade C^) e os moedeíros ('"). 

Assinala-se a presença de D. Afonso V em Santarém, em 30 de Janeiro de 
1449 A chegada do rei a essa vila traduz um agravamento da situação, ligado 



(>■*) A.N.T.T., Uvro 8 de Estremadura, fols. 209-209v. 

("^) A.RT.T.. Chancelaria de D. Afonso V, livro 35. foi. 60v. 

A.N.T.T.. Livii» 4 tit (KL. .nu. fois. <)l\-9:. 

( '■) A.H.C.M.L., Livn, ,/,-.s /'/. i,-.'^. toh. 24-24v. 

{ A.N.T.T.. Livro iS Uf EstranaUura, íols. 20y-2IOv. 

("*) A.N.T.T., Livro 5 de Estremadura, foi. 228. 

(»») A.N.T.T., Uvro 2 da Beira. fols. 39v-40v. 

(»>) A N T.T.. Uvro 2 de Místicos, fols. 35-35v. 

(•*) A N r. I . l ivro 8 (ff Esnennuhna. foi. I27v. 

(W») A.N.I.I., L hancelaritt de D. A/onso V. livro 35. foi. 60. 

(«♦) A.N.T.T., Uvro 7 de Estremadura, foi. 78v. 

{^) A.RC.M.L., Uvro dos Pregos, fols. 23-24. 

V^) A.N.T.T., Uvro 5 dc Esinnuulura, fols. 228v-229. 

('-") A.N.T.T., Uvro I dc Padroados, tol. 47. 

^!2»j \ propósito veja-se a nota 35 Uo prcscnlc capitulo. 

('^) A.N.T.T.. Uvro 5 de Estremadura, foi. 228. 

(■*) A.N.T.T., Uvro 8 de Estremadura, fols. 21 1-21 Iv. 

A.N.T.T., Uvro 8 dc Estremadura, foi. 243. 

('•'-) A.N.T.T.. Uvro 7 dc Esircina<itirii. fols. 7(i-7fiv. 

C' ) A.N.T.T.. Uvro 5 dc Esircnuidura. fois. 228v-22y. Publicado por Damião Peres, 
tiistória dos moedeiros de Usboa como ciasse privilegiada, in Academia Portuguesa de His' 
tória, vol. VIII, tomo I. Lisboa, 1964. p. 137. Este autor também publica o mesmo documento 
que se encontra no Arquivo da Casa da Moeda, Uvro dos Moedeiros, foi. 18. 

(«) A.N.T.T., Uvro 8 de Estremadura, fols. 266v-267. 

— 343 



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ao propósito de organizar o dispositivo militar contra o Infante D. Pedro. 
Dispomos ainda de um conjunto de cartas régias que nos indicam a sua presença 
na rctcrida localidade em I 4("*). 5 ('"). 7 8 10('"'). 12( "). 13 
I4r). 17('"). I8("). 20('«). 21("'), 24("«), 25 O. 26("'). 27 C") e 28('^) de 
Fevereiro de 1449. 

Deve ter sido então que se tomaram diversas disposições contra o antigo 
regente (' ). C onsistia uma delas em obrigar o Infante D. Pedro a proceder à 
devolução imcdiaia dc todo o armamento que se encontrava depositado no castelo 
de Coimbra, desde que .seu filho, o CoiKlestavel f). Pedro, regressara da expedição 
de auxílio a D. Álvaro de Luna. em 1445 (' '). A outra, realizada por instigação 
directa do Conde de Ourém, consistia na chamada à corte do Duque de Bragança, 
que se encontrava nas suas tetras de Entre-Douro^e-Minho. para que viesse aoMn- 
panhado da sua hoste através das terras do Duque de Coimbra, mesmo com a 
presumível oposição deste 



(»«) A.N.T.T^ Uvro I do Beira. fols. 292v-293. 
(«) A.N.T.T, Uvro l de Extras, fols. 75v-76. 

("•) A.N.T.T., Uvro 4 de Além-Doaro. fols. I89v*190. 

A.N.T.T., Livro 2 de Le^ilinuiçõcs. foi. 47v. 

A.N.T.T., Livro J de Místicos, fols. 126-127. 
O A.N.T.T., Livro 8 de Estremadura, fols. 2l6v217. 
O*») A.N.T.T., Uvro 4 de Além-Douro. fols. 18M8lv. 
('«) A.NT.T.. Livro 4 de Além-Douro. fols. I80v-181. 

A.N.T.T., Livro I de Odiana. fols. 33v-34. 
(>«*) A.N.T.T., Uvro 8 de Estremadura, foi. 215. 
(*«*) A.N.T.T., Livro 8 de Estremadura, fols. 238-238v. 
(>«•) A.N.T.T.. Livro 7 de Estremadura, foi. 78. 
("'I A.N.T.T., Livro 7 de Estremadura, foi. 78. 

A.N.T.T., Livro l de Padroados, foi. 90. 
('♦'J A.N.T.T., Cftancelaria de D. Ajunso V. livro 35, foi. í>0. 
('») A.N.T.T., Uvro I da Beira, foi. 293. 
(»•) A.N.T.T.. Uvro 8 de Estremadura, fols. 228v-229. 
('••=) A.N.T.T., Livro 8 de Estremadura, foi. 229. 

('''^) Assim parece revelar a sequencia lógica dos acontecimentos. A falta de cronologia 
nas crónicas existentes dificulta por vezes o encadeamento dus mesmos. 

(iM) Ruy de Pina, ob. cit., cap. XCiV. p. 370; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. cit.. 
cap. XVII. p. 174; Gaspar Dias de Landim, ob. eit.. livro III, cap. VII. pp. 30-31. 

('■') Ruy de Pina, oh. cit., cap. XCVI. p. 374; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit. 
cap. XVII, p 176; Gaspar Dias de 1 andim. oh. cii.. livro Hl. cap. Vlll, pp. 35-36. 

Não podemos aceitar a data proposta pelos cronistas — 1 de Outubro de 144ii para o 
chamamento do Duque de Bragança pelo rei (Pina por lapso indica 1447X Na realidade nio 
faz sentido unna demora iBo grande em vir à corte, antes pelo contrário, a sequência dos 
fados indica que essa chamada se deve ter dado por todo o mês de Feveieiro. precisamente 
na altura em que o Conde de Arraiolos veio de Ceuta. 

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Em ambas, como era de prever, assiliu-se a uma torte reacção de oposição 
poT parte do antigo regente ( En tal transe, apenas lhe restava o conselho do 
Infante D. Henrique, então residente em Tomar. Com essa finalidade lhe enviou 
João Pires DiagoC '). escudeiro de sua casa, o qual era portador de um extenso 
memorial em que lhe comunicava os munos auravos. e desfavores que d"ElRey 
per seu ymigos tynha recebsdos». Manifcsiava-lhe também a sua intenção de 
^ympidir per força e sem escusa a passajcm do Duque, pois vyndo em sombra 
de poderoso, e tendo outro caminho per que sem escandallo poderia hyr aa Corte, 
detreminava vir pclla Lousaã que era sua Vylla. sem lho pr\meiro ía/cr saber» (' *). 
Em resposta, cnviou-lhc o Inlanle D. Henrique, por duas ve/es. dois emis.sários, 
com o propósito do irmão não tomar qualquer atitude precipitada sem primeiro 
se encontrarem pessoalmente e discutirem o assunto (' ). Eram portadores das 
mensagens Fernão Lopes de Azevedo ('""). comendador da Ordem de Cristo, e 
Martim Lourenço, cavaleiro pertencente à mesma instituição ('"'). 

Entretanto, em Santarém, procedia o soberano a uma série de diligências 
com vista a reduzir o tio e sogro pela sorte das armas. Em reforço da sua pdítica 
de obtenção do apoio das gentes da capital, concede aos carpinteiros e petintaís, 
que tinham a seu cargo a construção das galés dessa cidade, confirmação dos seus 
privilégios Deve ter chegado à vila já na última quinzena de Fevereiro, prove- 



('*) Ruy de Pina, ob. cit.. caps. XCIV e XCVI. pp. 370-371 e 374. respectivamente; 
Cf. Duarte Nunes de Leáo, oh. cif., cap. XVII, pp. 174 e !7ó; Gaspar Dias de Landim. 
ob. cii.. livro ill, caps. VII e IX. pp. 3U-31 e 37-38, respectivamente. 

('■'^) Era escudeiro do infante D. Pedro em 13 fie Julho de 1443. conforme se lê na 
carta de mercê atribuída a seu pedido a Jofto Fernandes, barbeiro, residente em Lisboa 
(A.N.T.T., Chanceiaria de D. Afonso V, livro 27. foi. 131). Depois da batalha de Alfarrobeira, 
foi privado, por carta ré^zia de 11 de Julho de 1449, do cjsal de Filileira, no termo de 
Torres Vedras, com as respectivas rendas c direitos, atendendo a que «disse, cuydou, obrou 
cousas em nosso deseruiço. b foy muitas uczcs a Castella por seu mandado [do Infante 
D. Pedro] com Recados comtrairos a nos e a nossos Regnos, pela qual Rasom todos seus 
beens mouees e de Raiz» passavam a pertencer à Coroa. D. Afonso V doou essa propriedade, 
cm benefício de João Eanes, vassalo, morador cm Lisboa, e de sjus descendentes ( A N.T T.. 
Livro 8 de Esírcmadiiia, tol. 252). Rui de Pina designa-o erradamente por cavaleiro, quando 
na realidade apenas eru escudeiro ao tempo destes acontecimentos. (Idem. ibidem). 

0^) Ruy de Pina. ob. cit., cap. XCVI. p. 375: Cf. Duarte Nunes de LeSo. ob. cit., 
cap. XVII, p. 177; Gaspar Dias de landim, ob. cit., livro III, cap, IX. pp. 39-40. 

(' '» Ruy de Pina, oh. icl.. cap. XCVI, p. 375. Cf. Duarte Nunes de Leão. ob. cit., 
cap. XVII, p. 177; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., cap. IX. pp. 40-41. 

0^') Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(Ml) Ruy de Pina, ob. cit.. cap. XCVI pp. 373-376; Cf. Duarte Nunes de LeSo, ob. cit„ 
cap. XVII, pp. 177-178; Gaspar Dias de Landim, ob. cu., livro III, cap. IX, pp. 40-41. 

(>^) Carta régia de 21 de Fevereiro de 1449. A.N.T.T., Livro 7 de Estremadura, foi. U. 

— 345 

n. 44 



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nienlc óc C Vnita. o Conde dc Arraiolos, que apesar de ser filho do Duque dc 
Bragança e irmão do Conde de Ourem, ira/ia cm mente o propósito de defender 
o nome do tio. Conhecedor dos agravos que se vmham perpetrando com injustiça 
contra o Infante D. Pedro, lez ouvir a sua voz de protesto. lai atitude não impe- 
diu, porem, que arranjassem processo de o afastar ( ' '). Tal facto é comprovado, 
aliás, pela carta régia de 2 dc Março de 1449. que o confirma na capitania da 
prava de Ceuta!''). Outras cartas (nitorgadas na mesma data cimfirmavam-lhe as 
doações de bens feitas a seu favor por D. ioíio I e D. Duarte ( ' ). e concediam-lhe 
privilégio em benefício de dez lavradores de Portel e outros tantos de Vila Viçosa, 
que lavravam as suas herdades ('*"). 

No mês de Março de 1449, permanece o rei em Santarém, conforme o atestam 
as cartas por ele outorgadas em 2("*), 3 4('"'). 5 ("^'). 6 7 ('•'), 8 ('"-), 
10(n II n, 12("). 13(™), I4('"). 15(>^). I6('^'). 17('»). I9C»'), 20r), 2l("^). 



O**) Ruy de Kna. ob. cU., cap. XCV, pp. 371-372; Cf. Duarte Nunes de Leto, ob. cit., 
cap. XVII, pp. 174-175; Gaspar Dias de Landim, ob, cit^ livro III, cap. VII, pp. 31-32. 

('•*) A.N.T.T., Livro 3 dc Místicos, fols. I23v-I24. Publicado por D. António Caetano 
i'c Sousa, ob. cit., tomo III. 2.' parte. Coimbra. 1947, doe. 47, pp. 139-140; Monumenta 
Henricina. vol. X, Coimbra, 196^), doe. 10, p. 17. 

(>«) A.N.T.T.. Uvro 2 de Místicos, foi. 35v. 

A.N.T.T.. Uvro 2 de Místicos, fols. 35v-36v. 

Tem especial significado, cm nosso entender, a concessão desta carta dc mcrcô. no 
momento exacto em que o C onde de Arnnolos sc preparava para regressar a Ceuta. Procurava- 
-se assim «cumpran o silencio c a ot>ediéncia deste personagem. 

(»•) A.N.T.T.. Livro 2 de Místicos, foi. 35v. 

(1") A.N.T.T., Uvro 3 de AUm-Douro, foL 241. 

("■*) A.N.T.T.. Livro 3 de Místicos, foi. Il7v. 

("'^) A.N.r.T., Livro I de Extras, foi. 76. 

("") A.N.T.T., Livro J de Místicos, tol. 113v. 

(">) A.N.T.T., Uvro 7 de Estremadura, fols. 77v-78. 

("«) A.RCM.L., Uvro dos Pregos, foi. 263. 

('") .A.N.T.T., Livro 2 de Místicos, foi. 36v. 

('•») A.N.T.T., Livro 3 de Mistivos. fols. I33v-I34. 
A.N.T.T., Livro 2 de Místicos, fols. 36v-37. 

(iw) A.N.T.T.. Uvro 3 de Odiana, fols. 217-218. 

(1") A.N.T.T., Uvro dos Mestrados, fols. 154-154v. 

(•'«) A.N.T.T., Uvro 4 dc Alem-Donro. fols. I81V-182. 

(''») A.N.T.T., Livro 3 de Odiana, fols. 2:4-225. 
A.N.T.T., Uvro 1 de Odiana, fols. lòO-lOOv. 
A.N.T.T., Uvro 3 de Odiana, foi. 216v. 

O") A.N.T.T., Uvro 2 da Beira, fols. 81-S3. 

("•) A.N.T.T., Uvro 3 de Místicos, fols. 80-80v. 

346 — 



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22 ('■'). 24("- ). 25('*), 26 21 {"n, 2X( - ). 29 v ). 30 ( ) e 31 ('^). Jun!o dele. 
cncontra-se o Conde de Ourém, principal artífice da política gerada contra o 
Infante D. Pedro, o qual oblcni conliriiiavão das doações herdadas de seu a\ô, 
o Condcstáve! I^. Nuno Alvares Pereira ("'). Mais unia \c/. o soberano vai reformar 
a sua liniia dc acção, no privcdcr a confirmação de diversos privilégios em • 
benefício da cidade de Lisboa, cujo apoio na contenda que iria travar com o 
tio se oferecia indispensável. Assim, a primeira cidade do reino vai obter a ratifi- 
cação de «todoUos foros, graças, priuillegios. liberdades e merçees que lhe forom 
dadas E outorgadas e comfínnadas pellos rreis que amte nos forom E de que 
.sempre husarom ataa morte do muy alto e muy eixcelente e comprido de muitas 
vertudes da esclareçida memoria ElRey meu Senhor e padre» C^**). Também os 
seus vereadores, juízes, procuradores e tesoureiros poderiam passar a «amdar 
em bestas muares de seela e freo. sem embargo da nossa hordenaçom e defessa 
sobrello feicta em comtrairo» (^), A acrescentar a esta última mercê, temos ainda 
conhecimento da confirmação do privilégio dado pelo Infante D. Pedro no res- 
peitante ao regimento da «apousentadoria» outrotanto se verificando em 
relação à isenção da «Renda da imposiçam dos uínhos de Uílla Noua» V"). 

Contrariamente ao que o Infante D. Henrique havia prometido, nunca mais 
se avistou com o Infante D. Fedro. Apesar de tal atitude ter merecido os mais 



O**) A.N.T.T., Uvro 8 de Estremadura, fols. 238v-240. 

A.N.T.T., Livro 2 da fíeira, foi. 90. 
(«») A.N.T.T., Livro .? de Odiaiui. fols. 252v-:.^3. 

A.N.T.T.. Livro 4 de Alcm-Diuiro, tol. I85v. 
C*^^) A.N.I.I ., Livro 8 dc Estremadura. íol. 227. 
(») A.N.T.T.. Uvro 3 de Místicos, fols. 132v-!33v. 
(••») A.N.T.T.. Livro 8 de Estremadura, fols. 234-234v. 
("') A.N.T.T.. Livro 3 de Místicos, fols. Í14v-115. 
('3-) AH.C M 1 ., livro I ,in rrnvimiiuo de Olidns, foi. 17. 

Carla regia dc 4 dc Março dc 1449. A.N.I.r.. Livio J de MiMuos. foi. I17v. 
O**) Carui régia de 8 de Março de 1449. A.H.C.M.L., Livro dos Pregos, foi. 263; 
A.N.T.T., Livro 7 de Estremadura, fols. 78-78v. 

C;irl;i icjia Jc 31 do Março dc 1449. A.H.C.M.I... Livro l do Provimento de 
Ofícios, foi. 17; Idem. Livro dos I're^;os, foi. 2í>7v; A.N.T.T., Livro 8 de Estremadura, 
fóít, 237V-238. A primeira fonte encontra-sc exlraciada por Eduardo Freire de Oliveira. 
Elementos para a História do Município de Lisboa, 1.* ed., tomo I, Lisboa, 1885, p. 323; 
Cf. Maria Teresa Campos Rodrigues, oh. cit., p. 36. 

('*) A.N.T.T.. Livro 8 de Estremadura, foi. 238. 

('') A.N.T.T., Uvro 8 de Estremadura. íol 238; Cf. Maria Teresa Campos Rodrigues, 
ub. cit., p. 79. 

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díspares comentários e interpretavõcs (""). perfilhamos o ponto de vista de que 
ele sabia de antemão que era difícil demover o irmão do seu obstinado propósito. 
Conforme já sublinhámos noutro estudo, temia o Navegador que qualquer inicia- 
tiva por ele adoptada pudesse ser interpretada equivocamenie pelos acólitos que 
exploravam a boa fé do monarca. O seu bom senso e experiência esclareciam-no 
de que seria muito fácil fazer ver ao inexperiente D. Afonso V que todo e 
qualquer acto de conciliação seria passível de ser tomado como uma prova de 
menor lealdade. Eis o motivo por que o Infante D. Henrique, pondo em prática 
os seus dotes de inteligência social, resolvia agir com a mais cautelosa pru- 
dência ('"). Numa derradeira tentativa, enviava junto do Duque de Coimbra 
D. João Manuel Bispo de Ceuta, que era v<homem de grande prudência e 
de sã e justa tençam». Os esforços do prelado resultaram, no entanto, imiteis, 
perante a imedutível posição do antigo regente, pouco permeável a qualquer 
solução pacffica. Consciente o Navegador de que não havia outra altematíva. 
resolveu partir para Santarém, onde se encontrava o soberano n 



("•) Duarte Nunes de Leão critica o Fnfante D. Henrique por ter partido para San- 
tarém e abandonado o irmão. Segundo afirma, «A causa de sua ida, dizião, alguns, que fora 
por d Rey o ^anar, por te não ajmitar com o Infente D. Pedro. Oi roeii criio, que o fez. 
por le nio achar em coma que fosse catve o Duque de Bragança e seu irmio. O que foi 
huma grande macula para a honra, e fama do Infante D. Henriquet segundo os bons homens, 
e graves daquelle tempo; c tanto mais. quanto menos obrigação tinha de molher, e filhos, 
para quem quizesse poupar a vida, ou acquirir mais estado; e por o Infante D. Pedro ser 
seu limio inteiro, e legitimo, e grande amigo, e padecer «lumuisA, e accusações falsas. Pdlo 
que diziio, que pella pessoa, e pellas armas era obrigado a sahir por sua honra, cono o 
Conde de Abranches, por só ser seu servidor, e amigo se offenoeo» {Oh. eit,, cap. XVII, 
pp. 177-178). 

Ciaspar Dias de Landim, no entanto, diverge do anterior cronista, ao defender a atitude 
assumida pdo Infante D. Henrique: «...procedeu como prudente e como leal vassallo, e 
erraram nolavdmente os que lhe quiaeram dar em cidpa dar^he de mio em bd tempo; 

ou desampara-lo como outros diziam, porque claro estava que se lhe fôra companheiro na 
desobediência e rebcllião, que lambem o fôra na indignação d"EI-Rei. pois das cousas de 
seu irmão se não podia esperar outro fim. senão o que teve; e os que melhor julgaram da 
matéria, tiveram que fizera o que devia, e já que idk» podia emendar suas étÊtuátm, wÊo 
ser panicipnnte n*enas; e que nio sdnente aoerlára no que fizera, mas que á lei do bom 
Vassallo e tio d'El-Rei tinha obrigação de assim o fazer» (Ob. cit., livro III, cap. IX, pp. 40^1). 

("•) Humberto Baquero Moreno, O Infame D. Henrique e Atfarrobeira, p. 66. 

(^) Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(»>) Ruy de Pina, ob. cit., cap. XCIX. pp. 380-381; Cf. Caspar Dias de Landim, 
ób, c/r.. livro III, cap. XII. pp. 49-50. 

Diz-nos este último cronista : tVendo o Bispo D. Joio a duma e contumácia do Infante, 
espantado de o vêr tio predpittulo e incapaz de bom consdho, se tomou para o Infante 

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Alguns dos fidalgos que se encontravam na corte, condoídos com a sorte do 
Duque de Coimbra, decidiram abandonar o monarca e juntar-sc ao antigo gover- 
nante do reino. Destacavam-se entre eles, Aires Gomes da Silva ( "-). acompanhado 
por seus filhos Fernão Teles de Meneses (-' ) c João da Silva ( ' '). Também Luís 
de Azevedo {^ ), Martim de Távora e Gonçalo dc Ataíde ( '') optaram pelo 
mesmo caminho. Razões de ordem pessoal, em que a gratidão e o afecto ocupavam 
um lugar importante, tê-los-iam levado a agir assim. Avulta o seu gesto de amizade, 
mais a mais tendo consciência de que o Infante D. Pedro era considerado «desleal 
e cootrairo ao servyço e obediência d*ElRey» (^). 

Cumprindo a ordem régia, partiu o Duque de Bragança da regílo de Entre- 
-Douio-e-Minho, acompanhado por uma hoste de 1700 cavaleiras e 2000 peões 
que haviam sido recrutados nos seus extensos domínios e nas terras de outros 
fidalgos C"*). Os cronistas são omissos quanto ao itinerário seguido até C6ja. 
Consideramos, no entanto, muito plausível a hipótese, sugerida por Montalvão 
Machado, de que teria iniciado a sua viagem em Chaves, onde residia habitual- 
mente, daqui seguindo para as serras do Barroso e para as terras de Basto, até 
alcançar Guimarães. É provável que, depois, tenha jomadeado por Felgueiras e 
Amarante, com vista a atingir Mesão Frio. onde existiam barcas que lhe per- 
mitiam atravessar o rio Douro e atingir a cidade de Lamega Possivelmente, 
dqwis da estada na urbe lamecense seguiu em direcção a Côja. passando pela 
cidade de Viseu e pela localidade de Oliveira do 0>nde. aí efectuando a travessia 
do rio Mond^O. 



D. Henrique, que ouvida a resposta de seu innfto, o deu por acabado: e suppoilo que por 

vezes lhe tinha mandado dizer que se iria vêr com elle em Penella, o nSo quiz fazer por 
não cahir cm desgraça d'EI-Rei, como já por todo o reino se suspeitava, porque o caminho 
que seu irmão levava dava indícios do que d elle se podia esperar, e se partiu logo para 
Santarém, onde El-Rei eslava. O que. sabido pelo Infante D. Pedro, o sentiu muito, por 
nSo ler outra pessoa da casa real que o favorecesse, ou de quem se vaHer» (Idem. Ibidem, 
p.50). 

(^') Vcjanvse a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

idem. 

Idem. 
(**) Idem. 

Idem. 

(•■»■) Idem. 

(*•) Ruy de Pina, ob. cit., cap. XCVI, pp. 374-375; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. cit^ 
cap. XVII, pp. 176-177; Gaspar Dias de Landim, ob, cit.. livro 111. cap. IX, pp. 38-39. 
(*■*) Gaspar Dias de Landim, ob. cit» livro III, cap. VIII. p. 36. 

Rui de Pina apresenta a cifr i K.(>0 cavaleiros {Ob. cit.. cap. XCVIil, p. 378). 
(''") J. T. Montalvão Machado, Dom Afonso, primeiro Duque de Bragança. Sua vida 
t: sua obra, Lisboa, 1%4, pp. 377-379. 

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Antes, porem, da travessia do Mond^o, houve uma troca de mensagens entre 
o Duque de Coimbra e o Duque de Bragança. O primeiro enviou Vasco de Sousa, 
fidalgo da sua casa. o qual era portador de uma carta de crença por ele mandada 
lavrar em que exprimia a sua admiração pelo facto do irmão querer atravessar as 
terras do seu ducado, acompanhado de tão numeroso contingente armado ( '"). 
Em resposta, o Duque de Bragança encarregou Martim Afonso de Sousa (''^). 
fidalgo dc sua casa. de afirmar ao irmão que possuía as melhores intenções e que 
ai>cnas se limitava a cumprir uma ordem regia, o que mereceu do infante 
D. Pedro um comentário protundamentc dcspccti\'o ("). 

Esia\am abertas as hostilidades, tudo licpcmlcrulo da íorma LH>nio iria rcatiir 
o Duque dc Bragança. Diligenciava o Conde dc Ourem, entretanto, obter o ap(>io 
do Infante D. Fernando em la\or do pai. .Argunientava. para esse efeito, que o 
irmão do rei era casado com uma neta do Duque de Bragança. Não tardou 
muito que o filho adoptivo do Infante D. Henrique, então apenas com a idade 
de quinze anos ( manifestasse o veemente desejo de partir em auxílio do avô 



C") Ruy de Kna. <>h. dl.. cap X( VII, pp. 376-377: Cí. Du.irte Nunes dc I.eâo, 
ob. cif., cap. XVII. p. I7,H: Chispar Dias Je l andim. i>h. cit.. \\\rn III. cip. X. pp. 42-43. 

O Infante D. Pedro enconiru\ i-sc bem elucidado ucerca dos propósitos do Duque de 
Brajtança, graças aos iofoniMidores que possui» junto de seu meio-imilo. Assim, é do nosso 
conhecimento que Feraão de Airas, escrívio do almoxarifedo de GuimarBes. perdeu o seu 
ofício, por carta régia de 24 de Março de 1450, cm benefício de Pero Dias. escudeiro do 
Ianque dc Bragani,a, devido à circunstância de fazer espionagem a favor do Duque de 
Coimbra. Sendo Fernão de Airas criado do filho bastardo dc D. João i e vivendo na sua 
companhia, encontrava-se em condições óptimas pata fmneccr dados seguros (A.N.T.T,, 
Chmcelarki de D. Afonso V. livro 34, UA. 66v). Fora o inculpado nomeado por D. Duarte, 
em 16 dc Novembro de 1434, para O mencionado cargo. A regência confirmou-o no mesmo 
por carta dc \S de Julho de 1439 CA N.T.T.. Chancelaria ,/<• D. Alonso V, livro 19, foi. lOv). 
O aludido Pero Dias, que lhe sucedeu no oficio, obteve, por caria regia dc 30 dc Abril 
dc 1450, autorização para lançar o sinal público nas escrituras, sempre que estivesse no 
exercido das suas funções (A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 34, foi. 71v). 
Vejam«se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(2") Ruy de Pina. oh. cit.. cap XCVIII. pp. 377-378; Cf. Duarte Nunes de leão. 
ob. cit., cap. XVII, p. 178, Gaspar Dias de l andim, ob. cit.. livro 111, cap. X, pp, 43-45. 

A crónica coeva destes acontecimentos, de autor andnimo, diz-nos: «Em ysto 
dom Afomso, duque de Bragança, filho bastardo delrrey dom Joham, ajuntou fenles e quys 
passar escanddosa mente per a terra do Iffante. O qual lhe mandou dizer que passasse como 
ssuya sem aparelho de guerra e que lhe seria feicta toda omrra. mas que cm outra maneyra 
ho nom conssentirya. Ca lhe parevia que o nom deuya fazer por guarda dc sua onrra* 
(B.N.P., Fond Puriugais, n. 9, fols. 210v-21l). 

(«•) B.N.U Fundo Geral (Reservados), n.« 3390, p. 134, 

O Intote D. Fernando, iimao dc D. Afonso V, nasceu em Almeirim a 17 de Novemlvro 
de 1433 adem. Ibidemy. 

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da mulher. Com essa finalidade. en\iou-lhe um mensageiro. Alvaro dc Paria! ' ). 
o qual nào chegou ao destino porque foi interceptado no caminho pelos cuardas 
e vigias do Infante D. Pedro, os quais !he aprccnderain as cartas que levava. 
Devolvido à pnKedencia. queixou-se AKaro de I ana úos maus iralos sofridos, 
ao que parece imaymarios. o i|ue veio aumentar ainda mais a ira régia. Em atitude 
de represália, determinou o rei <íriscar de .seus livros o as.sentamento. c todallas 
tenças que o Yfante dele tinha, e dcfcndeo aos Almoxarifes que d'hy era diante 
mais lhos ncmn pagassem» C*^). 

Decidiu então D. Afonso V escrever ao Duque de Bragança, dando-lhe ins* 
truções sobre as medidas que haveria de adoptar. Era encarregado de levá-las 
João Rodrigues de Carvalho, escudeiro de sua casa. Quando o Infante D. Fedro 
«foy em conhoçimento de sua hyda. mandouo logo prender e leuar ante sy e 
tomouUie as dietas nossas cartas e as abrío e leo> (-'O- Ao regressar à corte, deu 
o mencionado mensageiro conhecimento ao rei duma série de graves afirmações 
pronunciadas pelo antigo regente contra a pessoa do soberano. Entre as mesmas, 
constava que ele centendia de teer com a uossa alteza aquela maneira que teuera 
com a ssenbora rrainha uossa madre, na quatl se elle mostrava tal. despois que 
com ella andara em rreuolta. que nom teuera mais olhos com que oolhasse sua 
foçe». De igual modo. teria dito «porque lhe leuarom nouas que mandauces 
prender os seus moradores em Lisboa, dise que a mayor parte da dieta çidade 
era sua e tijnha cm Portugal xxxb homeens e que a mayor parte de Castela faria 
0 que ele mandase; se conpridoiro fosse, de todo sse aproueitaría». Atribuía ainda 
ao Duque de Coimbra a icrrível declararão de *que pois aos seus tirauam os 
ofiçios e teenças. que ele os tornaria a tomar aaqueles que os dauces c deslroiria 
a uida daqueles que ho hordenauom». acrescido de que «a teença que lhe man- 



(its) Vejam-se a seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(»■) Ruy de Pina, ob. cit., cap. XCfX, pp. 378-379; Cf. Duarte Nunes de Leão, ob. ciu. 
cap. XVI, pp. 178-179; Gaspar Dias dc Landim. i<h. cit.. cap. XI, pp. 46-47. 

(-'"t B.P. e A.D.E.. Cótlii c 72. ío\s. fi-6v. Publicado com erros e incorrecções por António 
Francisco Barata, Vésperas de Aljuirobeira, in Arcliivo Histórico Poríu}nicz. vol. 111, Lisboa, 
1905, pp. 210>211 e com boa paleografia na Monumeaia Henricim, vol. X, Coimbra, 1969, 
doe. 41, pp. 49-50. 

Rui de Pina comete um erro, quando afirma que o rei escreveu ao Infante D. Pedro 
«per Joam Rodriguez Carvalho, escudeiro dc sua casa. defendcndo lhe com grande estranha- 
mento «Que nom tevesse ao Duque o camynho, e o Icixussc passar livremente pois o hia 
servir» (Ob. cit.. cap. XCDC, pp. 379-380). Na realidade, a carta era dirigida ao Duque de 
Bragança, tendo sido inieroeptado o mensageiro pelos guardas do Duque de Coimbra. 
Idêntico erro é cometido por Gaspar Dias de Landim, oh. cit.. livro III, cap. XI, p. 48, 
que deve ter utilizado como fonte o primeiro cronista citaiio. Por lapso, chama ainda a 
João Rodrigues de Carvalho, pelo nome de João Pires de Carvalho. 

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dauees tomar que elle a tomaria». Quanto à carta apreendida teria afirmado, 
ao abri-la. <^que a nom abria como uosa. mas como coussa trautada per conselho 
dos uosos trccdores» (-''). Com maior ou menor veracidade nas declarações atri- 
buídas ao antigo regente, o certo é que D. Alonso V dava a conhecer o sucedido, 
numa carta datada de 7 de Abril de 1449. a qual foi remetida à câmara de Évora. 
Nela se punha a condição de se proceder à leitura pública de -os capitolos 
contheudos no dito escripio. pera seerdes en conheçimento da teençom que contra 
nosso seruiço tem e nom auerdes por errado o priKedmicnio que contra elle 
entendemos ffa/er por seus desmereçimentos» (- '). É de prever que outras cartas 
iUênticas tivessem sido enviadas a outras cidades do país. dado o interesse que 
havia em divulgar o seu teor C). 

O mês de Abril vai ser crucial nas relações entre o soberano e o Infante 
D. Ptedro. Diversas cartas outorgadas por D. Afonso V. nos dias I 2 {- ), 4 {^), 

7n. 8(^). 13 r). 15 i8(n i9r'). 20 (n 23 eo. tao, 25 d, 20 n. 

27 C*), 28(*') c SOC") do mencionado m^, revelam que o mesmo permaneceu 
ininterruptamente na vila de Santarém. Entretanto, em princípios de Abril, encon- 
tnva-se o Duque de Coimbra em Penela, onde foi visitado por Fernão Gonçalves 



B.P. e A.D.E., Códice 72, foi. 10. Publicado com algumas incorrecções por António 
FnuKiwo Batata, ob, eit., p. 211 e com boa paleogiafia na Mommenta Henricina, vol. X, 

Coimbra, 1969, doe. 42, p. 51. 

(-") B P e A.D.E.. Códice 72. fols. 6-6v. Cf. A. F. BaraU, ob. cit., PP, 210-211; Mouu- 
menta Henricina. vol. X, Coimbra, 1969, doe. 41, pp. 49-50. 

(S») £ o que deixa perceber Rui de Pina, quando escreve que «se fyzeram logo autos, 
« tomaram pnblícot cstromentos, que pera nnais indinarem ò povo contra o Inâinte, logo 
foram pcllo Reyno enviados» {Oh c it., cap. XCIX, p. 390). 

A.N.T.T., Livro J ilc Místicos, foi. I32v. 
(^J A.N.T.T.. Livro 3 de Odiuna. foi. 224. 
("») A.N.T.T., Cweut XVUh maço 1, n." 4w 
(W) B.P.eA.D.E., Códice 72, fols. 6-6v. 
í**^') A.M.E., Pergaminho n." 47. 

A.N.T.T.. Livro I de Extras. foN. 72-72v. 

A.N.T.T., Livro 8 de Estre madura, foi. 2l5v. 
(^) AN.T.T., Livra 2 da Beira, fok 90^. 
(») G.HXXP., VereaçõeM de 1448-1449, foi. 60. 
(«*) A.N.T.T., Livro 4 de Além-Douro. foi. 190. 

A.N.T.T., Livro 4 de AUm-Douro, foi. I95v. 
{^) A.N.T.T., Collecçào Especial, caixa 34, n." 9. 
(») A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, livro 35. foi. 60v. 
(■•) A.N.T.T., livro 2 de Aiém-Douro, foi. 47v. 
{-^'■) A.N.T.T., Chancelaria de D. AjoiíM, V. livro 35. fol. 60v. 

A.N.T.T.. Livro 2 de Além-Douro. fols. 12v-13. 
("^) A.N.T.T., Livro 2 de Legitimações, foi. 49. 

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de Miranda (-'"). o qual tra/ia consigo um mandato real. Nele se davam ordens 
expressas para que o antigo regente tornasse a Covmbra. donde sem seu man- 
dado nom saísse, e leixasse o Duque sem conirad\i;am pasar assy como vynha. 
E que se o nom fizese. que fosse certo que iiij?o procederia contra elle assy riguro.sa 
e asperamente, como tamanha desobed>ciKia nicicciaí. f ace a tal inumarão, reagiu 
o Infante D. Pedro, respondendo que apenas permitiria a passagem do irmào 
pacificamente e não como se apresentava (~''). 

Constava na cidade do Porto, conforme se depreende da acta da sessão 
de 1 de Abril de 1449, que o Infante D. Pedro «mandaua vellar Coimbra e todos 
seus lugares que nom sabiam o porque». Havia, no entanto, uma ténue suspeita 
de que a prevenção devia atribuir-se principalmente à proximidade do Conde de 
Benavente, inimigo figadal de D. Álvaro de Luna, o qual era tido por indesejável 
pelo antigo regente f"). Muito embora se possam aceitar as suspeitas do burgo 
portuense, pensamos, contudo, que o motivo causador desse estado de alerta geral 
nas terras do ducado coimbrão se deverá imputar à ameaça que representava a 
avançada da hoste do Duque de Bragança. 

Com efeito, ao saber o Infante D. Pedro que seu irmão não desistia do 
intento, resolveu deslocar-se à Lousã, «com sua jente e carríagem», para daí se 
dirigir à aldeia de Vilarinho, onde tomou conhecimento que a hoste do Duque 
de Coimbra bívacava em Côja, couto do Bispo de Coimbra, D. Luís Coutinho 
A vanguarda do exército do antigo governante era comandada conjuntamente por 
seu filho D. Jaime e pelo Conde de Abranches, cabendo-ihe a direcção da reta- 
guard i ( ). Por seu lado, o Duque de Bragança deslocou-se até duas léguas de 
Penela, plenamente convencido de (|ue seu irmào não se atreveria a dar*lhe luta; 
ao c(^nstatar. porém, que a tropa do iníanie D. Pedro se encontrava em Serpins, 
à di&tância de pouco mais de uma légua, resolveu tomar as suas providências. 



(-'") Vejam-M: a seu respeito dados biográficos em upéndice. 

Ruy de Pina, ob. cit., cap. XCIX, pp. 381-382; Cf. Duarte Nunes de Leio, ob. ctí., 
cap. XVII. p. 180; Gaspar Dias de Landim, ob. eit., livro III, cap. XII, pp. S0-S2. 

(^) G.H.C.P.. VíTí-açõcs de 144H-1449. foi. 57v. Publicado por Artur de Magalhães 
Basto. ob. cit.. p. 2f>7; Monnmenla Heiuuinn. vol. X, ( oimhra. doe 39. p. 47. 

D. Aíonso V concedeu um salvo-conduio cm 26 de Fevereiro de 1449, ao Conde dc 
Benavente, autorizando-o a visitar a corte portuguesa (Monumenta Henricina, vol. X, Coim- 
bra. 1969, doe. 8, pp. 14-15). 

Vejam-se a seu respwito dados biográficos cm npcníiico 

(-'-) Ruy de Pina, oh. cit.. cap. C, pp. 382-383: Cf. Duarte Nunes de LeSo, ob. cit., 
cap. XVll, p. 180; Gaspar Dias de Landim, ob. cit., livro 111, cap. Xlll, pp. 33-54. 

— 353 

n. 4S 



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escutando a opinião do seu conselho. Ouvido o parecer de Alvaro Pires de 
Távora (■"). decidiram prosseguir caminho! "). 

Entrelanto. o Conde de Abranches, após icr prwedido a um reconhecimento 
do arraiai dc D. Afonso, propôs ao Iníante D. Pedro o seu plano de dar execução 
a um ataque imediato. Mostrou-se o antigo regente mais prudente, ao considerar 
que apenas seria oportuno iniciar as operações no caso do irmão resolver con- 
tinuar! '). Numa sexta-feira. antevéspera de Domingo de Ramos, depois do 
Duque de Bragança ter auscultado o estado dc combatividade cm que se encon- 
travam os seus acompanhantes, decidiu retomar a marcha. Desta ve/. porém, 
apenas na companhia dc dois guias, dirigiu-se rapidamente para Santarém, onde 
chegou numa segunda-lrcira. dia 21 de Abril. Mal os seus homens souberam da 
sua partida, «que fov sendo ja grande parle da noite passada, foram postos em 
grande desmayo. e cada hum como mylhor pode se apressou de o seguir nain 
ssm grande desmando c nenhuum acordo, e com perda dc muitas cousas que 
Icixavam. crendo que o Hante. ou sua jentc os seguiria» (""^). 

Os cronistas iníormam-nos de que D. Alonso atravessou a Serra da Estrela, 
cm direcção à Covilhã, inilectindo daqui para o Sul. Sc. na realidade, lor correcta 



jiii) Vcjam-sc .i seu respeito dados biográficos em apêndice. 

(-»•) Ruy de Pina, oh. cil.. caps. CII e CHI, pp. 385-.^8<l; Cf. Duarte Nunes de Leão. 
oh. cit.. cap. XIX. pp. I82-I8.Í: Gaspar Dias dc l andim, oh. cil.. livro III. cap. XIV. pp. 58-í>2. 

A crónica do século \v. coeva dos acontecimentos relatados. di/-nos que «O diiqu.; 
víjndo adiante chegou aa vila de Gooes. O Iffante ajuntou sua gente e passou aa Lousâa. 
hiiua sua vila. F. sabyda sua yda, fugio o duque e foysse per a serra dKsírela a Santarém, 
onde eirrey estaua; que mandou U>go ajuntar todallas gentes de seu rregno pera >r sobre 
o Iffante. di/endo que vijndo o duque ^ sseii scrulço se nmuera o ir;antc contra ele» 
(B.N.P.. r<uui Porimioh. n." 9. foi. 211). 

(-' I Ruy de Pina. <»/». til., cap. C IV. pp. 3S8-38'í; Cf. Duarte Nunes de Le.io. .</>. vil.. 
cap. XIX. pp. I8.VÍS4; Gaspar Dias de Landim, oh. cit.. livro HL cap. XV. pp. (>4-(>5. 

t-'**) Ruy de Pina, oh. t ii.. cap. C V. pp. .^8y-.^M0: C L Duarte Nunes de Leão. •>/>. 
cap. XIX. pp. 184-185: Gaspar Dias de Landim, oh. cil.. livro 111. cap. XV L pp. (í7-6y. 

Não estão bem esclarecidos os motivos por que o Duque de Brag.mva se furtou ao 
combale. No próprio Gaspar Dias de Landim encontramos expiícas-òes contraditórias. Se. çor 
um lado, nos diz que D. Afon>o recebeu, por intermédio de João Rodrigues de Carvalho, 
uma mensagem do rei, «em que lhe mandava expressamente que não pelejasse com o Infante 
D. Pedro, e com muita brevidade se fosse a Siintarem tomando outro caminho, porque assim 
compria o seu serviço, e que a emenda e satisfação de asMm o fa/cr deixasse a elle com a 
execução do castigo de quem não queria obedecer a seus mandados» (Oh. cil.. livro III. 
cap. XV, p. fi3l. pelo outro, afirma que «Bem viu o Duque no fim da sua pratica que, dado 
que Alvaro Pires de Távora e outros fidalgos se mostravam firmc<» cm seu ^e^viço e mos- 
travam que morreriam por elle com mais fidalgos de sua casa e muitos de seus vassallos; 
em outros não achou aquella determinação e animo, e lhe pareceu que ainda o haviam de 
fazer pior do que mostravam» iOh. cii.. livro III, cap. XVI. p. 67). 



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a alirmat,ào de que o percurso de cerca de 250 quilónictros loi cumprido em 
três escassos dias. deparamos com uma mamícsia impossibilidade. Ate porque o 
liajeclo se fa/ia por caminhos íngremes e cobertos de neve. f\-r